Caboclo Pena Verde

Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, em São Paulo, lança seu primeiro CD em plataformas digitais com canções autorais compostas pelos seus fiéis

Roger Marzochi, do entresons.com.br / Arte da Capa do CD feito por Menelua

A música é ciência e, paradoxalmente, religião. Aceitando a acepção dessa palavra do grego “religare”, de atar novamente, de reconexão com as origens, o uso da música para ascender ao sagrado é tão antigo quanto a humanidade. E vem do eco ancestral dos primeiros tambores a soarem na África o primeiro disco digital do Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, localizado na zona oeste de São Paulo. Lançado em agosto de 2019 nas plataformas digitais, o CD tem 18 canções próprias, compostas por membros da congregação e pela dirigente espiritual da casa, Rosângela Bologna. Nem sempre as canções são exatamente as mesmas utilizadas no ritual religioso, mas são expressões artísticas fundamentadas na fé.

“A Umbanda tem toda essa relação da musicalidade, que ajudar na estrutura de energia da casa, ao trazer a história de seu guia e o orixá trazem. Quando tem oportunidade, a gente canta. A ideia era fazer um álbum de pontos, de guias de orixá. Mas reestruturando acabaram entrando outros instrumentos e ficou mais uma música de Umbanda para a gente ouvir ao invés do ponto tradicional”, explica Rosângela, que sonhava com o projeto há seis anos.

O “ponto”, explica Igor Bologna, filho de Rosângela, é como que a interpretação das mensagens recebidas pelos médiuns. “Esses pontos cantados podemos enxergar como algo a ser desatado, algo metafórico. A mensagem chega carregada de vários sentidos e você vai desatar esse ponto dentro da manifestação religiosa. E você consegue desatar os pontos de acordo com o seu repertório cultural e sua vivência dentro dos terreiros.”

Há um ano, o sonho de Rosângela começou a se tornar realidade quando o musicoterapeuta Daniel Braga Lima soube desse desejo. Além de músico, ele é dono do Estúdio Damata, no Jaçanã, e tomou a liderança do projeto, reunindo todas as pessoas interessadas em participar de ensaios e da gravação. Pós-graduado pela FMU em Musicoterapia Organizacional e Hospitalar, Lima defendeu a tese “Ciência da Musicoterapia na Umbanda Sagrada”. Lima ainda é professor de yoga e toca vários instrumentos.

Daniel Lima e Curimba

“Cada pessoa tem uma identidade sonora que se constrói durante a vida, mas também no momento de formação na barriga da mãe”, diz Daniel Lima, o primeiro da direita para a esquerda na foto de divulgação.

“Quando falamos de musicoterapia, é diferente de escutar música e sentir relaxamento ou felicidade ao ouvir a música que gosta. Na musicoterapia, de forma sucinta, o musicoterapeuta identifica a identidade sonora da pessoa. Cada pessoa tem uma identidade sonora que se constrói durante a vida, mas também no momento de formação na barriga da mãe. Identificando essa identidade sonora, o musicoterapeuta usa essa identidade sonora para auxiliar em algum processo terapêutico que aquela pessoa está passando”, explica Lima.

Para ele, os processos religiosos são muito terapêuticos. “A música tem um papel importante dentro das religiões. Cada pessoa tem uma identidade sonora no campo da psicologia transcendental. Se uma pessoa que escuta um louvor evangélico e aquilo toca a alma, traz coisas boas para ela, é um recurso terapêutico de uma egrégora religiosa. Quando ouvi pela primeis vez os pontos cantados da Umbanda me trouxe uma felicidade que há muito tempo não sentia. Fiquei apaixonado pela música.”

Rosângela não apenas desejava muito o CD, como já havia escrito uma letra, que ficou registrada na música “Oxum, Senhora da Minha Vida”. A música foi composta por Igor Bologna, estudante de teatro e percussionista, filho de Rosângela. Lima também compôs músicas como “Mãe Oya”, “Obaluaê, no Seu Cruzeiro” ( com letra de Menelua) e “Caboclo Pena Verde” (em parceria com Rosângela), além de participar a maioria dos coros. Ingrid Baracho canta sua composição “Getruê, Getruá Boiadeiros”, uma congada no qual o triângulo se soma aos tambores. Paus de chuva ecoam em “Salve o Povo do Mar”, composição de Mariana Aragão e Taime Gouvêa que flutua sobre o ritmo ijexá. Muitas das canções expressam o que a MPB faz pelas religiões de matriz africana, tornando a música em si uma só religião e amplificando o amor para além do sagrado, como músicos incríveis como Milton Nascimento e Tiganá Santana.

Além de alfaias e agogôs, foram usados os três principais tambores do Candomblé, o lê (agudo), rumpi (médio) e rum (grave). É neste ponto que a Umbanda sofre uma inflexão, um debate histórico sobre o qual não há registros. Em 1908, Zélio de Moraes foi incorporado pela entidade Caboclo das Sete Encruzilhadas durante uma sessão espírita na Federação Espírita de Niterói. À época, os mentores dessa federação determinaram que o espírito deixasse Zélio, pois não era bem recebido naquele local. E, a partir de então, Zélio criou um culto que foi batizado de Umbanda, que se assemelha a uma reunião espírita, mas sem a utilização de tambores, apenas cantos.

O Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum usa a música por avaliar que é um resgate ancestral da religião. “O que busco dizer com minhas pesquisas e aulas, é que na verdade, a Umbanda não tem como se determinar um momento de fundação, porque essas práticas, como são dadas até hoje nos terreiros, estão muito mais associadas à vinda dos escravos para o Brasil. E eles vieram de uma região central da África, porque toda a filosofia e a forma de lidar com os espíritos vêm de filosofia centro africana, de países como Angola”, explica Igor Bologna.

Ele também discorda da versão da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, o centro criado por Zélio, para a definição de Umbanda, como uma palavra derivada do sânscrito que significaria “ao lado de Deus”. “A palavra vem também do Kimbundo, que significa medicina. A Umbanda é a medicina e quem a pratica, seguindo a língua, é kimbandeiro, é o praticante dessa medicina. A deturpação da palavra busca desassociar a uma imagem dos negros, no começo do século 20, que refletem essas tensões com o fim da escravidão, que são ainda muito fortes e acirradas”, afirma. Independentemente das diferenças e ressignificações, a música é capaz de celebrar o mistério da vida.

 

Músicas do CD

1 – Oração do Encontro

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima, Elisandra Figueiredo

 

 

2 – Salve o Povo do Mar

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Mariana Aragão, Taime Gouvêa

 

 

3 – Obá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

4 – 7 Ondas

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

 

5 – Repente

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

 

6 – A Trabalho de Olorum

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Jean Lima

 

 

7 – Obaluaê, no Seu Cruzeiro

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima e Menelua

 

 

8 – Salve Nossa Esquerda

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Bruno Beretta, Patricia Kohn

 

 

9 – Getruê, Getruá Boiadeiros

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Ingrid Baracho

 

 

10 – Caboclo Pena Verde

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Daniel Braga Lima

 

 

11 – Vou Correr o Mundo, Zé Pelintra

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

12 – Ooh Pescador

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna

 

13 – Os Erês

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Daniel Braga Lima

 

14 – Eparrei!

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Ingrid Baracho

 

15 – Mãe Egunitá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

16 – Oxum, Senhora da Minha Vida (ft. Alberto Kohn)

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Luciana Menezes

 

17 – Vovó Catarina

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Mariana Aragão, Mônica Patrícia Lima

 

18 – Mãe Oyá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal