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Músico mineiro radicado em São Paulo retoma sua vida na música com o lançamento de “Três”, álbum com influências de Milton Nascimento, Nando Reis, Roberta Campos …e jazz

Roger Marzochi, do entresons.com.br  no Projeto eLab#Sons

Músicas de amor geralmente são endereçadas a companheiras, companheiros e companheirxs. Gente de carne e osso. O mineiro Heitor Branquinho, nascido em Três Pontas, mesma cidade na qual viveu Milton Nascimento e com quem o jovem compositor e cantor teve o privilégio de se somar ao palco em diversos momentos, direciona a sua paixão ao seu retorno à música em “Três”, seu terceiro disco após 11 anos de “um Branquinho e um violão”, no qual apresentava suas composições acompanhado apenas de seu violão com cordas de nylon.

Gravado no segundo semestre de 2018, o álbum vinha sendo construído sem pressa desde 2015, com a parceria do saxofonista Décio “Buga” Jr. E, agora, Heitor toca violão com cordas de aço e, em alguns momentos, contrabaixo elétrico, sendo acompanhado de bateria, saxofone, flauta. Em alguns momentos, entram em cena também piano, violoncelos e até guitarras em uma canção. Com inspiração profunda em Milton Nascimento, especialmente no período do eterno Clube da Esquina, e pitadas de rock e pop de Nando Reis, o álbum ainda tem a participação do maestro e também conterrâneo Wagner Tiso em arranjos para cordas e piano.

Não era para o álbum ter qualquer nome, o que foi resultado da imposição do formato digital, que exige o título do trabalho. Em razão de uma viagem à Veneza, na Itália, em 2010, Heitor percebeu que fizera muitas fotos nas quais apareciam sempre três elementos repetidos nas cenas: três barcos, três portas, três janelas. Uma dessas imagens, inclusive, foi escolhida para ilustrar a capa. A ideia era para que fosse uma mensagem subliminar, tanto que o nome “Três” está só no trabalho distribuído nas plataformas de streaming e no logotipo de seu nome no novo álbum: H3ITOR 3RANQUINHO.

Mistério e tecnologia - “O três tem muito significado. Eu toco três instrumentos: violão, baixo e pandeiro; tenho três irmãos; sou de Três Pontas; minha mãe é de Três Corações. E você vai vendo tanto significado que o três tem na vida. Quando viajei fiz várias fotos de coisas em grupos de três. Já fiz numerologia e o três abre os caminhos, ele chega às pessoas”, explica Heitor. O lançamento do trabalho também acompanhou essa numerologia. No dia 3 de julho, o álbum foi lançado no exterior, no dia do aniversário de Três Pontas, quando o músico estava fazendo um intercâmbio na Inglaterra. No dia 12 de setembro, o músico lançou o “Bundle – Três”, dois singles no Brasil: 1+2=3! E, finalmente, no dia 30 de setembro, o disco inteiro foi lançado no país.

Capa - Três

“O três tem muito significado. Eu toco três instrumentos: violão, baixo e pandeiro; tenho três irmãos; sou de Três Pontas; minha mãe é de Três Corações. E você vai vendo tanto significado que o três tem na vida”, diz Heitor Branquinho sobre a imagem da capa do trabalho que inspirou “Três”.

“Segundo a numerologia esotérica, o três contém as qualidades da manifestação, com as qualidades máximas da comunicação e da alegria de viver. Ele transborda o dinamismo, é radiante e transporta todos ao estado de entusiasmo”, explica a taróloga sensitiva Bel Aidar à reportagem. “Um ser que possui o 3 em sua numerologia natal tem o dom artístico, cultiva os prazeres da vida, os romances, as artes e as belezas em geral. Tem imaginação criativa e permite que tudo seja possível.” Heitor nasceu no dia 30 de setembro.

Além da numerologia, Heitor também acredita na tecnologia. Ele desenvolveu, em parceria com Leonardo Amorim de Oliveira, aluno da Faculdade de Computação e Informática (FCI) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, um aplicativo de realidade aumentada, por enquanto disponível na Apple Store. Por meio desse aplicativo, o usuário que mirar a câmera do celular para a capa do CD terá uma surpresa: as janelas fotografadas por Heitor em sua viagem a Veneza se abrem para paisagens e músicas. No caso do LP, há ainda a opção de navegar pela contracapa, com acesso a outras três músicas. O aplicativo ainda dá acesso à ficha técnica do trabalho. “É uma coisa muito moderna juntamente com algo vintage”, explica o músico.

Tempero da vida – O álbum abre com a música Um Refrão para Recomeçar, composição que Heitor fez em parceria com a cantora e compositora Roberta Campos, que está comemorando dez anos de carreira, na qual embalou muitas cenas de novela. Heitor conheceu a também mineira Roberta em saraus, quando a cantora estava lançando seu primeiro trabalho independente, que recebeu muita influência de Nando Reis. Essa mistura de Clube da Esquina, Nando Reis, Roberta Campos, pop, MPB, jazz e rock desagua no arranjo para violoncelo de Wagner Tiso, parceria que vai se repetir em outras três músicas do trabalho. “É uma letra que passa uma verdade, parece um casal brigando, que depois de tudo quer fica bem, escuta uma música para recomeçar e vencer as adversidades. E se encaixa muito bem com o momento que estou vivendo: depois de 11 anos sem lançar disco é um recomeço. É muito mais que um começo.”

Essa mesma energia pode ser interpretada dessa forma, segundo o músico, em Rodopiava. Heitor iniciou o estudo do piano aos seis anos e do violão, aos 10. Aos 13 já se apresentava nos bares de Três Pontas, num envolvimento crescente com o público: participou do DVD Pietá de Milton Nascimento, integrou o grupo Änïmä Minas, criado para apresentações em lançamentos do livro de Maria Dolores “Travessia – A Vida de Milton Nascimento” (Record) e integrou o CD de Bituca “…E a gente sonhando”.

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Heitor volta aos palcos após ter investido no nos estudos: formado em História, fez uma pós-graduação em Gestão Cultural, nova graduação em Administração de Empresas e uma importante certificação no mundo dos vinhos – WSET3

Neste último trabalho, Heitor cantou com Bituca “Olhos do Mundo”, canção sua em parceria com Marco Elizeo. E também participou do coro presente em várias das músicas do disco. Depois dos shows desse álbum, que terminaram em 2011, Heitor se afastou dos palcos. Ele investiu mais nos estudos. Formado em História, fez uma pós-graduação em Gestão Cultural, nova graduação em Administração de Empresas e uma importante certificação no mundo dos vinhos – WSET3. Heitor é enófilo, paixão que o fez escrever “Violáceo”, música de “Três”, com participação do baixista Yuri Popoff. Esse amor pelo vinho ainda o levou a criar um perfil no Instagram apenas para abordar esse tema: @harmonizacom.

Das 12 canções de “Três”, apenas “Tierra América” não é de Heitor. A composição, de Keco Brandão e Pedro La Colina, é em espanhol, e passeia pela natureza das Américas, clamando por sua unidade e pelo olhar atento aos índios. “Hasta” é instrumental, com muita influência de Milton Nascimento, e melodias andinas. Heitor ainda fez parceria com Claudio Nucci, compositor e ex-integrante do grupo Boca Livre, canção com participação de Wagner Tiso ao piano.

O músico trespontano também faz parceria com Danilo França em Outros Meios, uma música que revela que o amor no mundo também se expressa nas adversidades. Em Meu Bem, música de Branquinho com Marcelo Sarkis, há participações especiais de Marco Elizeo (guitarra), Ismael Tiso Jr. (guitarra solo) e Ademir Fox Jr. (Hammond e Fender Rhodes), três amigos e companheiros nos palcos de longa data de Três Pontas.  O ritmo de todas as canções de “Três” foi ditado por Thadeu Lenza na bateria e por Sidiel Vieira ao baixo acústico.

Poesia contemporânea – Entre as mais bonitas músicas do disco estão Soleira e Calhas. Nesta, o irmão Hugo Branquinho, também cantor e compositor, assina com Heitor a composição e os vocais, numa grande meditação sobre as voltas que a vida dá; naquela, Wagner Tiso assume além dos arranjos de cordas, o piano, fazendo uma composição transcendental e, ao mesmo tempo, minimalista nas letras, uma poesia contemporânea.

As duas últimas canções do álbum são vistas por Heitor com estética diferente do trabalho, por isso carregam também o nome de faixas bônus – que ficaram fora do vinil pela restrição de tempo. Em Computador, Branquinho grava solo seus três instrumentos, fazendo uma reflexão sobre os tempos modernos e em Não Acredito, parceria com Fernanda Mello, letrista conhecida por escrever sucessos da banda mineira Jota Quest. Nesta última, Heitor teve ainda a contribuição de um grande amigo, que partiu para a espiritualidade, Carlos Assad, mas que deixou gravados pianos, hammond, gaita e um arranjo de cordas.

É por essas e outras que Milton Nascimento teve que se explicar após ter generalizado que a “música brasileira está uma merda”, como disse em entrevista à Folha de São Paulo, publicada no dia 22 de setembro de 2019. Depois, nas redes sociais, Milton explicou que se referia ao “mainstream do mercado nacional”. Está explicado. Mas a culpa disso é dos meios de comunicação ou da audiência? Este é um tipo de dilema que Heitor prefere não discutir. Em São Paulo há 12 anos, tudo que o músico deseja é levar a sua voz para o público, onde quer que ele esteja.

 

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