João do Pife de Caruaru (6)

João do Pife celebra o Rei do Baião

O centenário do nascimento de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, atrai desde quinta-feira (13/12) muita gente para a castigada cidade de Exu, no interior de Pernambuco, como Gilberto Gil, Dominguinhos e Elba Ramalho. Gente também simples e importante, mas menos conhecida do grande público, também sobe ao palco de Exu para reverenciar o mestre que popularizou os ritmos nordestinos e fez de sua música a sua voz. João Alfredo Marques dos Santos, o João do Pife de Caruaru, enfrentará a seca e as limitações impostas pela natureza de seus 69 anos para ir de carro até Exu para tocar no domingo à tarde “Asa Branca”, “Xote das Meninas”, “Riacho do Navio” além de outras músicas do Rei do Baião e composições de sua Banda de Pife Dois Irmãos.

 

 

A participação de bandas de pife em uma festa em nome de Luiz Gonzaga é a expressão mais pura de sua música, que, segundo Dominguinhos, teria exercido grande influência no músico quando da criação do seu forró pé de serra, com uma sanfona, triângulo e zabumba. A banda de pífanos é formada por seis integrantes: dois pífanos, zabumba, contrasurdo, caixa e pratos. Ao pife se renderam mestres como Hermeto Pascoal e Carlos Malta, que deram ao som do instrumento, feito de taquara, um tom moderno que demonstra a sua importância na cultura brasileira. As bandas de pife acompanhavam novenas para Nossa Senhora, Santa Luzia e São Sebastião, representando uma tradição popular que é transmitida até hoje de pai para filho.

Foi ouvindo pife em uma novena que João do Pife se apaixonou pelo instrumento, além da sensação de participar de um momento tão importante para a comunidade. Aos 10 anos, começou a aprender a tocar pife após o trabalho árduo na roça em Riacho das Almas, onde nasceu. Era um momento de grande alegria, que unia família, cujo pai Alfredo Marques dos Santos já tocava zabumba. “Meu avô, meu pai, meus filhos, é uma tradição”, explica João do Pife, que tem oito filhos e 13 netos. Dos oito filhos, quatro tocam na Banda Dois Irmãos: Paulo João dos Santos, Leandro João dos Santos, Alexandre João dos Santos e Cícero João dos Santos. E dois netos de João já estão se interessando pela banda, o que o deixa muito feliz.

Carlos Malta fez uma música em homenagem a João do Pife em seu projeto Pife Moderno. Ambos são curadores de pesquisa sobre o pife em Pernambuco. Foto de Claudia Moraes.

“O que me atraiu a tocar o pifano foi meu pai, meu professor. Tava na roça trabalhando e ouvia aquelas novenas bem bonitas, daquela época de 1950, 1960. Aquelas procissões, as mulheres rezando e a zabumba atrás. Eu achava muito bonito, e a zabumba tocando, e o pífano, aquele som bonito. E aprendemos a gostar daquele som do pífano. E que meu pai gostava, e que passou para nóis e nóis valorizemos.”

Os primeiros sucessos do Rei do Baião João do Pífano ouvia num rádio, o que inflamava a família, que passava a cantar as músicas enquanto trabalhava na roça, “naquele calorzão”, recorda o músico. “E ouvia Luiz Gonzaga cantando aquela coisa bonita, e quando o povo saia do roçado, eu chegava em casa e pegava o pífano.“ E logo que ele começou a tocar em novenas, começou a ter contato com o lado profano do instrumento: o forró. Um dia, após tocar na novena, foi com o irmão no bar tomar uns tragos. Uns clientes invocados fizeram uma aposta: se eles tocassem no pífano algum sucesso do Luiz Gonzaga, tomariam vinho de graça. “Eu e meu irmão tocamos ‘Asa Branca’ e ‘Xote da Menina’ e o povo adorava, ganhamo garrafa de vinho e aí eu me inspirava mais.”

 

 

O caminho que escolheu é motivo de orgulho. Ele tocou para Luiz Gonzaga uma vez e não se esquece do encontro. “Ele gostou da música que eu estava cantando, foi muito bonito.” Com o pife, viajou o mundo todo após o seu som chegar aos ouvidos de empresários, que o promoveram. Fez shows na Europa e Estados Unidos. “Através do pife pude andar de avião e conhecer vários países na Europa. Eu que não estudei, morei no meio das cabras, o pife me deu esse privilégio de conhecer a Europa. O maior amor da minha vida é o pife na minha mão. Tomei muito vinho bom, vi as mulherada dançando, aquelas mulher bonita! Isso é bom demais. Só o pifano que faz uma grande alegria dessa”, diz o instrumentista, que inspirou Carlos Malta a escrever uma música com seu projeto Pife Moderno.

João do Pifano participa de projeto social onde constrói o instrumento e dá aulas para crianças em Pernambuco

Além de tocar, João também fabrica pifes e zabumbas. Aprendeu logo cedo com seu pai, que bom tocador de pife também sabe fabricá-lo. Sua oficina está sempre cheia de gente e, no ano passado, fabricou 500 pifes para crianças de escolas do Recife no programa “Pife na Escola”, no qual ele monta o instrumento e dá show-aula para a criançada, conta Amaro Filho, sócio da Página 21, produtora de cultura de Recife que promove o artista há sete anos. “Ele vai nas escolas, leva a taquara e ensina a fazer o pifano, os furos. E logo depois, no final, junta todas as turmas e dá uma aula espetáculo junto com a banda explicando  forró, xaxado, baião, frevo e até chorinho. Neste ano, fizemos isso em nível estadual, em escolas no sertão, zona da mata e agreste. O projeto teve uma receptividade fantástica.”

Por meio da Página 21, João do Pife lançou seu primeiro disco, com xilogravura de J. Borges na capa. João chegou a gravar um disco na Inglaterra, “Pife pelo mundo”,  e até entrou num estúdio de gravação em Nova York, mas Amaro diz que ele não viu a cor do dinheiro desses discos. Amaro também promoveu um encontro de João do Pife com o falecido João do Pife de Arapiraca, conhecido pelo seu virtuosismo.

Nos últimos quatro anos, o pife ganhou até um evento anual em Pernambuco, o “Tocando Pifanos”, criado em 2009, e já tem verba reservada para o encontro de 2013. Amaro conta que está se criando uma grande rede nacional para integrar músicos do instrumento, para ampliar também os contatos com os tocadores de pífano no exterior. “Estamos fazendo uma grande rede, juntando pifeiros de Minas Gerias, de Botucatu, que tem o Zé Claudio, gente do sertão de Canudos na Bahia. A gente também está se espalhando para lá para Alagoas, Sergipe, a gente está criando uma rede nacional. E há encontro de pífanos na França há 23 anos e esse pessoal vem prá cá para a gente firmar um intercâmbio.”

A Página 21 que transformar o pife em patrimônio imaterial pelo Iphan. Na foto, de Toni Braga, mostra um cortejo de pifanos

A Página 21 também entrou como proponente em uma pesquisa para o estudo das bandas de pife em Pernambuco para fazer do instrumento patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Carlos Malta e João do Pife são os curadores da pesquisa na região do agreste, enquanto o saxofonista Cacá Malaquias é o curador da pesquisa no sertão. As origens do pife no Brasil são controversas. Para uns, ele surgiu dos índios; para outros, veio da Europa uma vez que há registros do uso do instrumento no século XVI. O mais importante é que virou parte da história do povo brasileiro, que acompanha as festas sagradas e dá verdadeira alegria ao homem que sofre pela vida seca no Nordeste.

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