Borandá vai lançar em 2013 “Utopia Brasileira”

Músicas como “Puxa, Agarra e Chupa”, da dupla sertaneja Ronny e Rangel, que tocam insistentemente nas rádios, e músicas como “Nesse Trem”, de Cleber e Cauan, que chegam a ter audiência de mais de 10 milhões em vídeo postado no Youtube, em maio de 2012, dão um quadro assustador sobre a relação da arte com a cultura dominante, segundo a qual é preciso se dar bem no sexo, na festa, como se a vida fosse uma balada, que apesar de saudável, não é necessariamente o momento mais importante da vida de um jovem. Estão ausentes as grandes questões da vida que perpassam a mente de muita gente, não importa a idade, que estão fazendo valer a pena viver frente a tanta violênica e contrariedade.

Pensar em arte na música frente a esse quadro não deixa de ser uma utopia para o empresário e músico Fernando Grecco, dono da gravadora Borandá, que completou três anos em agosto. Em janeiro de 2013 a empresa lançará no Brasil o disco “Utopia Brasileira”, com 16 músicas que foram selecionadas dos 17 discos que a Borandá lançou nos últimos três anos. O disco já foi lançado no exterior e, enquanto não chega às lojas no País, está sendo vendido pelo iTunes e em promoções de download que a gravadora vem realizando ao longo do ano. A capa do disco é reprodução da obra do artista Antonio Peticov “Allegro non molto”, que também assina o encarte com a imagem “Intermezzo”.

Ná Ozzeti canta “Onde a vista alcança”, que está no disco “Meu Quintal”, que celebra seus 30 anos de carreira

Estão no disco grandes músicos e cantores que, infelizmente, não têm espaço em rádio e televisão, inexplicavelmente. “Desde moleque eu fico pensando na utopia. Eu tenho uma visão de que o mundo é um lugar muito esquesito. As pessoas deveriam ser ligadas ao que mais importa na vida, o que seria esse lugar perfeito, o não lugar, o que não existe”, conta Grecco, que apesar de ter estudado engenharia elétrica, é também violonista apaixonado por Edu Lobo, o que explica o nome da gravadora: Borandá é uma música de Edu Lobo.

Ele decidiu chamar a música feita pelos artistas da gravadora como “música artística brasileira” para se diferenciar da música feita para consumo imediato, que prega o puro divertimento. “Chamo de música artística brasileira para separar o joio do trigo. A minha percepção é que se o Brasil valorizasse mais a sua tradição, olhasse para si mesmo tanto na música quanto na natureza e o potencial que existe de belezas naturais que podem ser sustentávelmente exploradas, o Brasil seria um lugar melhor.”

O nome “Utopia Brasileira” também foi inspirado em aulas de sua pós-graduação em Canção Popular na faculdade Santa Marcelina, na qual ele estudou a visão de Dorival Caymmi sobre a Bahia. “Numa aula sobre o Dorival Caymmi foi citado livro ‘Caymmi: Uma Utopia de Lugar’, de Antonio Risério, um poeta e ensaista baiano, e ele usou o termo utopia para descrever o que o Dorival Caymmi fez em relação à visão dele da Bahia, que é uma Bahia particular dele, apesar de ser a mesma Bahia. Muita gente que nunca foi à Bahia ouve as músicas dele e imagina, pela construção dele, como seria a Bahia. A música tem o poder de criar lugares que não existem. É a arte que permite que se crie universos e mundos que não existem.”

 

 

E o mundo que a Borandá deu suporte para emergir é de uma beleza sem igual e pode ser compartilhada com o CD que chegará às lojas em janeiro, no primeiro trabalho no qual Grecco participou como produtor. O disco começa com a incrível “Errática”, música de Chico Saraiva e Mauro Aguiar, com as vozes de Marcelo Pretto e Verônica Ferrarini repetindo o refrão filosófico sobre a importância do erro para a vida: “Eu recorro ao erro sempre que posso, e erro e erro e erro sem remorso.” A música faz parte do CD “Sobre Palavras”, de Verônica e Saraiva lançado pela Borandá em 2009, mas na faixa gravada há participação especial de Pretto e de Carlos Malta na flauta.

Dani Gurgel apresenta na coletânea “Diga Você”, música que está em seu disco Viadutos

A cantora Tatiana Parra apresenta no CD duas cançôes: “Abrindo a porta”, composta por Pedro Viáfora e Pedro Altério que está no seu disco “Inteira”, a sua estréia na Borandá em 2009; e em “Vento Bom”, de André Mehmari e Sérgio Santos, que está no disco “Aqui”, de 2011, que fez com Andrés Beeuwsaert. Não poderia faltar a cantora e musicista Dani Gurgel, uma das maiores vozes do jazz brasileiro, que lançou seu disco “Viadutos” pela Borandá. Em “Utopia Brasileira” ela canta “Diga Você”, música que fez em parceria com Filó Machado.

Em um disco de 16 músicas é impossível indicar um destaque, uma vez que cada música carrega uma beleza inerente da obra de cada artista ou grupo de artistas. É belíssima a música “Dois Lados”, de Zé Paulo Becker e Paulo César Pinheiro, falando sobre os dois lados do amor. “Luz Negra”, de Nelson Cavaquinho, ganha um tom especial na voz de Blubell; “Luz da Terra”, do mineiro Antonio Loureiro, transpira o Clube da Esquina e revela a relação do cristianismo com a umbanda, fazendo um tema religioso que muito inspira Milton Nascimento e Ilana Volcov em músicas como “Paixão e Fé”, de Fernando Brant e Tavinho Moura, e “Procissão da Padroeira”, de Ilana.

O também mineiro grupo de música instrumental Uakti faz participação especial na música “Mar Deserto”, de Kristoff Silva e Makely Ka, que está no disco “Mar de Meu Mundo”, de Paula Santoro. E não se pode esquecer de Ná Ozzeti cantando “Onde a vista alcança”, composição sua com Makely Ka, que está no disco “Meu Quintal”, que celebra seus 30 anos de carreira, lançado pela Borandá em 2011.

A música instrumental também está bem representanda em “Utopia Brasileira” com “Paladino”, música do violonista Swami Jr, cujo disco “Mundos e Fundos” foi lançado pela Borandá em 2011; “Uma Valsa Simples Que Não Queria Ser Triste”, de Alexandre Guerra, que lançou pelo selo o disco “Estações Brasileiras” em 2011; “Choro da Madrugada”, do acordeonista Toninho Ferragutti, que está no disco “O Sorriso da Manu”, lançado em 2012.; e “Outra Valsa”, onde Ferragutti toca com Bebê Kramer, outro acordeonista com o qual lançou em 2011 o disco “Como Manda o Figurino”. E não poderia faltar “Encrenca”, inspirada em Egberto Gismonti feita pelo baterista Nenê, o primeiro músico que foi produzido por Fernando Grecco em 2009.

Grecco havia achado estranho que um músico como Nenê, que já havia tocado com Elis Regina no disco e nos shows do Falso Brilhante e com Milton Nascimento em “Clube da Esquina 2”, ter dificuldade em divulgar o seu trabalho. Fez um projeto para a Petrobras chamado “Trios Brasileiros”, com músicas também do Triálogo de Débora Gurgel e Regra de Três, de Sizão Machado, Lupa Santiago e Bob Wyatt. Foi também a Borandá que lançou “Outono”, disco de Nenê que chegou às lojas em 2009.

Apesar dos 17 discos e mais de 150 apresentações realizadas no Brasil e no exterior, Grecco ainda firmou um acordo para relançar discos da gravadora ECM Records, relançando dois discos de Egberto Gismonti: o inesquecível “Infância” e incrível “Dança das Cabeças”, de Egberto com Naná Vasconcelos.

Acordeonista Toninho Ferragutti apresenta “Choro da Madrugada” e “Outra Valsa”, com Bebê Kramer

Mesmo assim, a venda de discos tem caído e a gravadora batalha para levar a música de seus artistas até o público. “Essa associação com uma marca famosa é positivo, mas é um pedacinho. Como o pessoal diz, na músia não tem a bala de prata que vai matar o vampiro. Tem que tentar várias coisas e o conjunto é que vai dar resultado no final. O trabalho sério dá resultado, mas demora, e a vida do empreendedor demora, vai gaastar mais que imagina, e o que dá certo não é aquilo que imaginou no começo. É o preço de tentar realizar uma utopia. Você vai chegar em outra coisa. Mas tem coisas que estão muito claras, como o tipo de música que a gente trabalha, de ser brasilerio, essa coisa do artista de ficar em contato com o público, isso não vai mudar, mas como você faz é que muda a todo instante”, explica Grecco.

Para 2013, ele espera levar a música de seus artistas para universidades, onde a música estava na década de 1970, e realizar festivais em nove capitais brasileiras para que a arte se realize em contato com o público e possa suprir a completa falta de divulgação do trabalho pela mídia. “Vamos iniciar um circuito nas maiores cidades do Brasil onde tenha um show por semana e que sejam de artistas que circulam em âmbito nacional, porque a arte precisa se realizar em contato com o público, que por sua vez ajude na sustentabilidade dessa arte e a gente não fique dependendo de subsídios.”

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