Rumpilezz Letieres Leite Foto de Fernando Eduardo

Rumpilezz começa 2013 com muita energia

Após realizar um show em Brasília na virada do ano e de ter vivenciado uma forte experiência espiritual na casa de João de Deus, em Abadiânia, e no Vale do Amanhecer, no Distrito Federal, o maestro Letieres Leite, líder da Orkestra Rumpilezz, começa 2013 com muita energia para realizar os principais projetos musicais do grupo neste ano: fazer arranjos de músicas de Dorival Caymmi para a orquestra e gravar, no segundo semestre, o segundo disco autoral. Além disso, entre os dias 20 e 29 de janeiro, o maestro ministra cursos de prática de orquestra, vivências, práticas coletivas e música afrobrasileira na 31ª Oficina de Música de Curitiba. O seu curso sobre “Abordagem geral sobre o universo percussivo baiano” já estão com vagas esgotadas.

“Eu sentia que o mundo vinha sendo preparado para as transformações no mundo visível, acredito numa força que move as pessoas. Agora eu percebo que as transformações já estão ocorrendo”, diz em entrevista por telefone sobre sua experiência na virada do ano. “Brasília é um lugar onde existem vários grupos que promovem o aprendizado espiritual. E fui parar na casa de João de Deus, fiquei lá dois dias, e vi muita gente que vai para lá só para se curar. E vejo que existe uma preocupação com o coletivo. O culto personalista tem seus dias contados.”

A observação vem de uma pessoa especial que, quando criança, já tinha contato com o esoterismo cultivado pelo pai. Letieres, que já foi maestro de Ivete Sangalo, foi além ao fundir os ritmos sagrados do candomblé ao jazz, que estão na raiz da Rumpilezz, cujo nome deriva da união dos três atabaques usados nos terreiros (rum, rumpi e lê). Com o disco “Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz” eles foram escolhidos como o melhor grupo da música instrumental e grupo revelação em 2010, no 21º Prêmio da Música Brasileira, com composições de uma beleza arrebatadora.

Letieres agora está se dedicando a escrever arranjos com músicas de Dorival Caymmi que tenham alguma relação de evocação de orixás para adaptá-las para a orquestra. Ele prefere ainda não revelar que músicas de Dorival ele vai arranjar, uma vez que está no início do processo e pode criar expectativas. “A gente tem caminho desafiadores”, explica ao comentar sobre a perspectiva para 2013. “Quando comecei com a Rumpilezz queria contemplar compositores que usam ritmos ancestrais, ritmos de orixás, que é a nossa marca. Eu busco desconstruir o ritmo ancestral para construí-lo de uma forma contemporânea. E comecei a observar a música de Caymmi, chamado aqui na Bahia de ‘O Pai de Todos’. Vamos reconstruir composições dele dentro dessa visão de ancestralidade traduzindo o toque para os instrumentos de sopro.”

Além da escolha das músicas, Letieres busca traduzir para a escrita musical os toques ancestrais das entidades do candomblé para os instrumentos convencionais o que, como ocorre na música negra americana, nem sempre um valor de nota corresponde ao que está escrito na partitura. “Não faço nenhum arranjo para a banda que não esteja de acordo com o ritmo. Isso faz com que a gente tenha uma prova, uma convicção, uma certeza que a música esteja correspondente a uma música sacra ancestral da Bahia. Não tem como escrever com base na escrita europeia, que não dá para contemplar esse tipo de música, com seus microritmos. Tem que fazer os músicos aprenderem também ela oralidade.”

Ao mesmo tempo em que faz esse trabalho, ele realiza ensaios com a Rumpilezz pelo menos uma vez por semana com as composições já finalizadas para o segundo disco autoral do grupo, que contará histórias dos negros desde a chegada na Bahia após serem aprisionados na África. Uma das músicas, aliás, chama-se “Banzo”, que traduz em sons essa dura travessia do oceano. “Essa música eu a vejo como uma trilha sonora. Para mim, estou vendo a imagem mesmo, não consigo ver a música, mas vejo a cena. Antes de músico, eu era artista plástico. E tenho essa tendência normal de ver uma música com uma forma visual. E ‘Banzo’ tem a ver com a cena do momento da chegada dos negros no Brasil. É uma música meio épica.”

Segundo ele, esse segundo CD, que ainda não tem previsão de lançamento embora haja previsão de gravá-lo no segundo semestre, diferencia-se do primeiro disco por contar essas histórias. Os toques do candomblé continuarão fortes na música, com ritmos inspirados em orixás, com todos os seus arquétipos. “Cada orixá tem o seu ritmo exclusivo. É o toque. É o que se faz para evocar um orixá. Eu sigo isso na parte rítmica, mas não na melódica. Exceto em ‘Floresta Azul’ (música do primeiro disco, na qual o ritmo evoca Oxossi e o tema foi inspirado numa cantiga de Odé). Eu não me sinto autorizado a trabalhar com cantigas tradicionais. A totalidade das composições é baseada em ideias próprias, não devo me apropriar de melodias ancestrais por uma questão de respeito.”

Comentários
2 Respostas para “Rumpilezz começa 2013 com muita energia”
  1. marcos disse:

    Olá. Quem é o autor da arte dos percursionistas?

    • rogermarzochi disse:

      Olá, tudo bem? Faz muito tempo que escrevi esse texto, não me lembro. Mas, em uma rápida pesquisa por imagens no Google, encontrei desde teses acadêmicas a grupos latino-americanos de religiões afro utilizando essa mesma imagem, nem sempre com o nome dos atabaques como está nessa imagem, mas os mesmos detalhes.

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