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Mais um anjo cai do céu

Roger Marzochi – texto

Thiago Cecílio Domingos – vídeo e edição

Os shows de lançamento do disco “E a gente sonhando…” foram plenos, com mil tons de nascimentos: o do próprio Milton Nascimento, que com ajuda dos médicos e da fé conseguiu vencer a doença; e dos jovens músicos de Três Pontas que faziam parte do coral, das letras e vocais das músicas do disco. Um dos mais importantes momentos do show, quando Milton canta “Amor do céu, amor do mar”, os irmãos Hugo e Heitor Branquinho participam da cena interpretando anjos, que cantam no transe intenso no meio da música com os tambores. Com todo o respeito à arte da encenação, a qual Milton ultrapassa até o ilimitado campo da fé, esses dois anjos já caíram do céu, como Cassiel (Otto Sanders) e Damiel (Bruno Ganz) de “Tão Longe, Tão Perto”.

Show do disco “E a gente sonhando…”, no qual Milton Nascimento reuniu jovens talentos de Três Pontas. Hugo e Heitor Branquinho fizeram parte do show. Foto de Vanusa Campos.

Os dois anjos foram vistos por uma criança que estava com o pai no show Tambores de Minas e, segundo Milton, outras pessoas haviam visto esses anjos, que estariam ajudando o cantor a superar sua doença, que o deixou muito debilitado. Além disso, ele começou a sonhar sempre com a Elis Regina e voltou a nadar no mar. Sonhos que são mais que sonhos e fé em Iemanjá o fizeram reviver.

E não se sabe se foi o próprio Milton, ou o diretor do show, Luis Pilar, que escolheu esses irmãos para encenar esse momento importante da vida do músico, mas o amor de irmão que há entre eles deve ter sido determinante. Milton os conheceu quando foi a um show em Três Pontas. Heitor estava no palco e Bituca se comoveu com o abraço que Hugo deu no irmão após o show. Os dois também participaram da gravação do DVD Pietá. Como irmão mais velho, Heitor lançou dois discos (“deu branco…” e “um Branquinho e um violão”) e deve lançar o seu terceiro CD ainda em 2013.

E no dia 23 de janeiro de 2013, foi a vez de Hugo apresentar ao público suas canções com o lançamento de “Embrião”, o primeiro disco da sua vida. E como no abraço do show em Três Pontas, os dois estão no disco muito unidos: Heitor toca contrabaixo para o irmão, assina duas letras e foi o produtor do CD, feito sem gravadora e com uma belíssima capa produzida pela cantora, multiinstrumentista e produtora Dani Gurgel. Será distribuído nas lojas pela Trattore. O entresons foi até a casa de Hugo ouvir pela primeira vez o disco e ajudou a carregar as caixas sem cobrar frete (assista abaixo).

 

“Embrião” from Thiago Cecilio Domingos on Vimeo.

E foi uma surpresa ouvi-lo cantar “Sonhar”, composição que fez com o também trespontano Thales Mendonça. Há um feminino vibrante em sua voz, o que não transparecia ao conversar. Ouvi-lo tocando flauta com Heitor em 2011 em São Paulo, no Café Paon, foi uma grata surpresa enquanto instrumentista, tocando com muito sentimento e pouco virtuosismo. Em seu primeiro disco, ele também toca flauta na inspirada “Sol, lua e um pouco de céu”.

Em “Melhorar”, música assinada por Hugo e Heitor, que fala sobre a sensação de voltar a sua terra e dos desafios da cidade grande, Hugo declama um poema-manifesto em defesa da Justiça.  A sua voz é muito parecida com a do seu irmão, que é um pouquinho mais grave. Hugo admite que sua voz é um pouco parecida com a do irmão, mas alerta sobre o risco da comparação. Eles cantam juntos em “Aguar”, composição de Thales, Hugo e Heitor. “Eu estava aqui em São Paulo, fiz a letra e mandei para eles (Hugo e Thales), que estavam em Três Pontas, acho que bebendo uma, compondo, etc. Mas ainda não havia a música, fiz a letra primeiro”, explica Heitor, que escreveu uma letra sobre a vontade que estava de participar desse momento junto ao irmão em Minas. E é uma grande demonstração de amizade e carinho que resultou em música muito boa, que une a todos. Não saber onde termina a voz de um e começa a de outro é até uma qualidade, porque são intensos no sentimento e nas letras.E o som carrega a vibração dos músicos do Clube da Esquina e de Almir Sater, Elis Regina, Tom Jobim. E a sua banda é formada por músicos de qualidades sem iguais. Além de Heitor no baixo, o baterista é Big Rabello, Débora Gurgel está piano. E ainda há participações de Emílio Martins (percussão), Raul Coutinho (guitarra), Deni Domenico (bandolin) e Willian dos Santos (acordeon). As músicas “Igreja Laranja” e “Fragmentos” são maravilhosas, unindo tudo que há de bom em ritmo e sentido.

Hugo Branquinho teve a felicidade de somar sua voz à de Milton Nascimento no novo disco na música “Antonio”. Eles gravaram essa música no Rio de Janeiro.

Bituca ainda canta com Hugo em “Antonio”, uma música que Hugo fez antes de o seu filho Antonio nascer. É uma canção belíssima, um hino a todas as crianças. Hugo explica que “Embrião” tem relação com seu filho, mas que também é o surgimento de uma nova forma de expressão que ainda precisa da opinião do público para se completar. É o embrião do nascimento de grande artista, que traz a coragem do otimismo ao mundo dos sons.

E ele não esconde que deseja que sua música seja cantarolada pelas ruas, especialmente “Nossa Serra”, que compôs em homenagem a Três Pontas. Sua esperança é que essa música seja tocada pela rádio local logo de manhã. Ele prepara shows de lançamento do disco em Três Pontas, Belo Horizonte e São Paulo. Em BH, o show será no dia 23 de março no Teatro de Bolso do Sesc Palladium às 20h; Em Três Pontas o show está marcado para o dia 13 de abril, no Centro Cultural Milton Nascimento. Em São Paulo o artista ainda está buscando uma casa para a apresentação do disco. As músicas do disco só não tocaram na rádio se o jabá não deixar, a velha prática de cobrar do artista para a execução pública das músicas, porque o trabalho é de muita qualidade e merece ter seu espaço e seu público. Agora, que caiu do céu como anjo e virou cantor, verá as cores e as dores do tempo. Mas como diz em “Antonio”, “aqui na Terra tem um pouco de tristeza, mas com sua beleza já estou vendo outro mar”.

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