Móbile no SESC Belenzinho

À Deriva cria ‘móbile’ com materiais reciclados

A casa ao lado foi demolida e ainda lá estão os operários com suas estacas, que marcam o ritmo dos carros que passam numa rua da Pompeia, bairro de São Paulo. Todos esses sons se misturam às músicas de “Móbile”, o quarto disco de jazz contemporâneo do À Deriva, que ensaia na edícula da casa do pianista Daniel Muller, que fica ao lado da construção. “Uma vez, a gente estava ensaiando e quando acabou a música ouvimos um: ‘Nossa!’ Eram três operários que trabalhavam na demolição do telhado da casa”, lembra o saxofonista Beto Sporleder.

Um dos operários revelou à reportagem que já havia visto o grupo ensaiar. Viu um sax e uma bateria e ouvi um piano. E, apesar de ter participado indiretamente do ensaio com os sons produzidos em seu trabalho, não queria dar entrevistas porque gosta mesmo é de forró. Mesmo achando que sua opinião valia pouco por não ter gostado do som, o “móbile” da reportagem já havia sido construído, isso porque a interação com ruídos traduzem o espírito deste novo trabalho do quarteto, que buscou integrar sua música à concepção das esculturas que foram introduzidas pelo artista americano Alexander Calder, morto em 1976.

Calder criou grandes esculturas amarradas em fios batizadas de “Móbile” pelo artista dadaísta Marcel Duchamp. Elas desafiam a perspectiva de quem vê e ganham movimento dependendo da luz e do vento, como as folhas nas copas das árvores. Em São Paulo, há uma móbile dentro do Sesc Vila Mariana feito com baleias que dão a impressão de constante movimento até o topo da instalação. O CD é um móbile sonoro, no qual além dos instrumentos tradicionais há também o uso, por cada um dos componentes do grupo, de objetos sonoros como latões de ferro, plástico e papel.

A imagem de abertura do texto e esta são da fotógrafa Mariana Chama que fez dez fotos para o encarte de “Móbile”

A ideia de acrescentar esses materiais na música é decorrente de uma oficina de improvisação que o grupo realizou no ano passado utilizando materiais reciclados, com a ideia não de fabricar um instrumento convencional, mas aproveitar o ruído que eles podem emitir. “A gente partiu da música para chegar ao móbile. Com essa oficina de materias reciclados, a gente começou a incorporar esses materiais na música. E por uma questão prática, a gente acabou pendurando esses materiais. Durante a gravação no estúdio, tinha um monte de coisa pendurada no teto. Eu saia do piano para tocar alguma coisa que estava pendurada. Aí nos ocorreu essa coisa do móbile”, conta Daniel. “Faz sentido com todos os contrastes que há na música”, completa o contrabaixista Rui Barossi.

Durante o ensaio na edícula que a reportagem acompanhou no dia 05/02, em certo momento, o contrabaixista entrelaça nas mãos um plástico para dar novo som às cordas de seu instrumento acústico; em outro momento, Daniel usa um latão grande, azul, para fazer um ruído que é absorvido pela música; há ainda um momento em que Beto para de tocar sax e rasga lentamente uma folha de papel em branco, dando para ouvir o som da folha sendo cortada em pedaços. Para reunir os materiais, eles visitaram uma marcenaria do bairro e um ferro-velho. “Eles emitem sons inusitados, em tese: ruídos. Mas que incorporados à música se transformam”, diz Daniel. Assista ao vídeo da reportagem com o ensaio da banda clicando aqui.

O grupo tem fortes laços com o teatro e o cinema, uma vez que participou dos sons de peças dos grupos de teatro Cia Les Commediens Tropicales e Cia Auto-Retrato. Com esta última companhia, o grupo fez a trilha sonora do espetáculo de rua “Origem Destino”, no segundo semestre do ano passado, o que para Beto representou uma influência forte durante a gravação de “Móbile”. Rui Barossi ainda assina a trilha sonora do filme “Cara ou Coroa”, de Ugo Gorgetti. 

Após o terceiro disco, “Suíte do Náufrago”, o grupo também realizou parcerias com o violonista e compositor Cau Karam (CD “De senhores, baronesas, botos, urubus, cabritos e ovelhas”, em produção) e com a cantora Blubell (CD “Eu sou do tempo em que a gente se telefonava”). Essa rica experiência resplandece em suas músicas, que desafiam tanto o fazer musical, calcado em muita improvisação, como a interação das paisagens sonoras com a realidade de cada ouvinte. O som é o fio condutor do móbile da banda, que transita entre o free jazz e composições escritas.

 

Não é à toa que o grupo prefere evitar em contar as histórias da criação de cada música. Primeiro, porque para eles mesmos essa percepção se altera ao longo do tempo; segundo porque o grupo prefere deixar o ouvinte livre de palavras a fim de obter o máximo de significados possíveis para cada som, como já ocorre com a música instrumental e algumas canções com letra capazes de abrir o leque de significados. “A música se transforma muito após a primeira vez que tocamos. A ideia inicial talvez seja só um motivo inicial de a gente se encontrar e tocar e criar em cima daquilo. Prá mim não faz muito sentido (a história da criação de cada música)”, diz o baterista Guilherme Marques, que assina seis composições.

Essa intenção é fortemente reforçada no belíssimo trabalho feito pela fotógrafa Mariana Chama. Com as fotos na mão, Lula Carneiro, que assina o projeto gráfico, teve grande inspiração ao propor um encarte especial: são dez imagens, mesmo número de músicas do álbum, mas não há qualquer palavra que possa relacionar cada música com as imagens. “O encarte não é grampeado. Tem fotos, mas sem nenhum texto. Quem manipula o encarte dispõe como quiser. O jeito que ele vê é só a primeira possibilidade. Os jogos que podem estabelecer não são só da ordem das fotos. É um universo gigante de possibilidades. Isso traduz um pouco do que nossa música propõe”, explica Daniel.

 O ouvinte pode fazer as relações que bem entender, sem contar com o fato de que essas imagens podem interagir entre si criando outras percepções. A foto que ilustra a frente do CD é da copa de uma árvore, com os galhos bem definidos sustentando uma imensidão de folhas pequenas. E quem compra o disco pode mudar essa abertura, brincar de forma lúdica com os papéis e suas imagens. O disco foi lançado no dia 14/02, no Sesc de São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Novo show ocorrerá no sábado, 6 de março, no Sesc Belenzinho. Para acompanhar os shows da banda, acesse www.musicaaderiva.com.br.

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  1. […] sem qualquer imagem, deixando o som ser o principal elemento da cena. Leia também a reportagem “À Deriva cria ‘móbile com materiais reciclados”. […]



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