Felipe Doro

Felipe Doro leva a essência da roda de samba ao Sons do Brasil

Era madrugada. Felipe Doro acabara de chegar em casa, no Butantã, após a sua primeira visita ao Samba da Vela, em 2003, tradicional reduto do samba paulista que ocorre na Casa de Cultura de Santo Amaro.  A característica do samba de terreiro e a energia do lugar o levaram a compor naquela madrugada o samba “Presença Marcante”, que mudou definitivamente a sua história na música brasileira. Hoje, aos 28 anos, o cantor e compositor já reune 213 sambas até a última vez que contou suas composições, em 2011. Felipe, que batalha para lançar seu primeiro CD em 2014, apresentará sambas de nomes como William Fialho, Chapinha, Ricardo Rabelo, Emerson Urso e Tiago Império e suas próprias composições no show “Nos Braços do Samba”, que será realizado amanhã (01/03) no Projeto Sons do Brasil, na livraria Painel Cultural, no Brooklin.

“Minha vida no samba tem o antes e o depois do Samba da Vela”, explica o músico, que junto com Tiago Império criou o projeto Samba na Cumbuca, para revelar novos compositores no Butantã. “Até 2004, eu ficava só observando, fazendo amizades, observando a linhagem, que é mais de samba de terreiro, todo mundo canta junto. Foi quando apresentei meu samba, que foi cantado lá pela primeira vez, e que eu compus na madrugada após sair de lá a primeira vez, em 2003.” Infelizmente, não há registro dessa música nem em vídeo e áudio.

O artista ganhou o titulo de melhor interprete do Festival de Música do Butantã  (FESMUB) 2010 e 2011, sua obra foi contemplada entre os finalistas do festival, nos mesmos anos. Participou do EXPOSAMBA, promovido pela rede Globo de televisão, e foi apontado como revelação dos interpretes. Mas Felipe não sobrevive só de música. Ele trabalha como gerente de um banco e conversou com a reportagem ontem (27/02) no início da noite, após um dia cansativo, mas entusiasmado por falar sobre a sua vida, enquanto ao fundo da ligação era possível ouvir a voz de Cauã, seu filho que tem dez meses. “Eu não posso parar de tocar cavaquinho, senão ele chora. Ele já tem um pandeiro pequeno”, conta o músico, que também toca banjo, e aprendeu desde pequeno a amar o samba, da mesma forma como está ocorrendo agora com seu pequeno.

Felipe se lembra dos pais ouvindo na vitrola de casa Beth Carvalho – que é madrinha do Samba da Vela -, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Almir Guineto, Elis Regina e Clara Nunes. “Eles curtiam mais esse pessoal e cresci ouvindo na vitrola. Ficava encantado, primeiro, por aquela bolacha preta tocada na vitrola. O som da vitrola antes de começar a música me impressonava. E as músias… Na escola eu era um dos únicos que não ficava cantando as músicas de escola, Atirei o Pau no Gato, por exemplo. Eu cantava porque a professora mandava, mas cantarolava samba em sala de aula e meus pais cansaram de ir à escola quando eu era pequeno porque atrapalhava a professora. Era toda semana que tinha que falar com a professora.”

Aos dez anos, participava das festas na casa da avó que ocorriam duas vezes por mês com muita música. Seu pai fazia ganzá com latinha cheia de areia e arroz e Felipe levava o seu pandeiro. E a roda de samba se abria para todos cantarem sambas das antigas. Com 13 anos, montou um grupo, mas ele não queria saber de tocar pagode, queria samba que ouvia quando mais novo. Foi na mesma época que decidiu escrever poesias para encaixá-las no samba, sem qualquer pretensão de que fossem cantadas por outras pessoas. Até que, com 16 anos, acabou acontecendo o que ele nunca imaginava. Um de seus sambas foi cantado numa roda no Corinthinhas, no Rio Pequeno. “Foi atráves do meu pai e do meu tio, que me levaram lá. O pessoal da roda, os famosos nego-véio, que é roda de samba de malandro, que cantavam só sambas da antiga. O cara do cavaquinho me pegou de canto, e disse canta aí. E ele gostou. Ele deu uma lapidada e cantaram o meu samba, foi a primeira vez que alguém cantava meu samba. Meu pai já disse: meu filho é compositor.”

Dos 18 aos 22 anos, se aprofundou no estudo no samba de São Paulo, conhecendo muita  música da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco, do Peruche, e da Nenê da Vila Matilde,  Geraldo Filme e Osvaldinho da Cuíca. Nesse período, já se apresentava em bares da região do Butantã, quando conheceu o sambista Caio Prado, mas não sabia da importância dele para o samba de São Paulo. “Caio Prado foi meu primeiro professor de samba. Conversando com ele, ele falou para eu trazer algumas coisas escritas. Mas eu não sabia quem ele era. E comecei a cantar samba para ele na hora do almoço, e ele me disse que eu tinha talento e que tinha que pegar o sotaque do samba, porque tava mais para a poeisa”, diz Felipe, que foi apresentado por Prado aos músicos do Quinteto em Branco e Preto, o qual dois dos integrantes – Magno Souza e Maurílio de Oliveira – são fundadores do Samba da Vela, além de Chapinha e Paquera, também fundador e presidente do Samba da Vela.

 

A experiência de ter conhecido o Samba da Vela foi incrível. É um ambiente muito acolhedor, não se pode beber dentro da roda, mas se pode beber antes de chegar ao local. A duração das apresentações depende do tempo da queima de uma vela, colocada na mesa. A forte identidade comunitária desse samba, também o levou a criar o Projeto Samba na Cumbuca, em 2009, no Butantã. Antes disso, quem quisesse ouvir samba tinha que ir até a Vila Madalena. No Butantã, o evento teve início na Casa de Cultura do bairro. Depois, para um centro cultural no Rio Pequeno. A roda de samba vai abrir neste ano, em março ou abril, no meio da rua 8, no Jardim São Domingos.

 

Felipe Doro – Nos Braços do Samba

Painel Cultural
Rua Bernardino de Campos, 210
Brooklin
São Paulo – SP
Informações: (11) 5561-9981
R$ 15,00

Comentários
Uma resposta para “Felipe Doro leva a essência da roda de samba ao Sons do Brasil”
  1. Nair Paoliello disse:

    Grande menino que conheci na Casa da Cultura do Butantã e que acompanho em suas andanças musicais….

    Muito bom vê-lo crescer a cada dia, como homem, hoje pai e chefe de familia responsável e como músico, firman-

    do-se no cenário do bom samba, como músico, interprete e compositor.

    Tenho prazer e orgulho de ser sua amiga!

    Naná

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal