Jogando Tango1

São Paulo ganha milonga com música ao vivo

Apesar da característica popular, o tango tem um ar quase erudito, extremamente ligado à cultura argentina. E vem ganhando adeptos no Brasil pela paixão que suscita no coração dos dançarinos. Em São Paulo, os amantes da música argentina têm uma série de bares para dançar, mas quase sempre ao som de CDs, uma vez que seria muito caro reunir músicos que toquem o gênero, que exige formação muitas vezes erudita para executá-lo. Mas o tango conseguiu mais uma importante vitória no Brasil: uma vez por mês haverá milongas, que são bailes de tango, com música ao vivo e com direito a uma aula inicial de dança no Centro Cultural Rio Verde, em São Paulo.

A música ficará por conta do trio Jogando Tango, que levará os espectadores que estiverem presentes ao show de domingo (03/03) a uma viagem a Buenos Aires de 1910 a 1970, com um repertório que é resultado de uma pesquisa que o grupo vem fazendo desde 2009, quando foi criado, com o objetivo de difundir o gênero no Brasil. O público será incentivado a dançar tango com a ajuda da bailarina, coreógrafa e professora Luciana Mayumi, que fará uma palestra inicial. Além de escutar ao vivo uma música rica em contrastes, enérgica e sedutora, o público poderá redescobrir o seu espaço a partir do contato com o corpo do outro sem que se esteja no metrô ou no ônibus.

“Quem não sabe dançar pode ficar tranquilo”, diz Luciana, que ministra aulas na Escola de Dança Andrei Udiloff e K Dancer e ganhou em 2009 o Prêmio “Tango de Oro”, oferecido pela Fundación Josué Quesada, de Buenos Aires. “Você pode fazer a aulinha com o Jogando Tango no domingo, mas se o ‘bichinho’ te pegar, você vai continuar estudando, porque não se aprende tango em uma aula rapidinha. O tango te pede mais e mais, mais desenvolvimento da relação do seu corpo com o outro, porque ela é uma dança detalhada.”

Apesar de sua complexidade, ela afirma que a aula inicial é importante porque as pessoas terão a possiblidade de experimentar a essência de uma boa caminhada no tango e, especialmente, um bom abraço. “O encanto não vem da virtuosidade dos passos, mas o abraço do tango, isso que é apaixonante. Você tem que se concentrar e respirar junto para começar a dançar.”

A bailarina se apresentará também com o dançarino Marco Kina e ensinará, além dos princípios do tango, a dança folclória Chacarera, na qual é formada uma linha só de homens e outra de mulheres, como se fosse uma dança de cortejo da dança flamenca, “que é bonita e relativamente simples”. Alunos da professora Luciana, que também é dançarina e diretora da Cia de Dança Lu Mayumi, estarão presentes no domingo para garantir que haja damas e cavaleiros em número necessário para a formação de pares.

Capa do CD “Hecho a Mano”, do Jogando Tango, lançado em 2011, com arte de Rafael Miranda

O show é resultado da iniciativa do Centro Cultural Rio Verde em unir música à dança na terceira edição do projeto Estação Rio Verde, que é realizado todo domingo. O Jogando Tango se apresentará pelo projeto uma vez por mês, sempre convidando professores e alunos de escolas de dança para realizar uma aula inicial. As músicas que serão apresentadas pelo Jogando Tango estão reunidas no disco “Hecho a Mano”, lançado em julho de 2011. É importante lembrar que o disco tem arte especial de Rafael Miranda.

De acordo com a assessoria de imprensa Ofício das Letras, “o grupo inspirou-se nos anos 1960, período em que muitas orquestras típicas foram reduzidas a pequenas formações – sextetos, quintetos, quartetos, trios e duos (Sexteto Tango, Sexteto Mayor, Quinteto Real, Cuarteto Típico Troilo-Grela, Duo Troilo Grela, etc). Buscando reproduzir a sonoridade praticada na época o Jogando Tango interpreta composições das raízes do tango.” Por isso, explica a agência, “a particularidade de Jogando Tango é a adaptação dos grandes arranjos de quarteto para formação de trio, substituindo o guitarrón argentino pelo contrabaixo de cinco cordas e adaptando o acordeom ao som tão particular do bandoneón”.

Entre as composições está “Taconeando”, de Pedro Maffia e José Horacio Staffolani que estreou em 1931 com a orquestra de Pedro Maffia, com versos de Horacio Staffolani, no Teatro San Martin, em Buenos Aires, tornando-se um clássico na Argentina e sendo até interpretado por Carlos Gardel. A mais antiga música é “El Pollo Ricardo”, que Luis Alberto Fernández compôs em 1911. O trio é formado pela grande sintonia de dois brasileiros e um argentino: este é Juan Pablo Ferrero (violão); aqueles são Ricardo Pesce (acordeom) e Vinicius Pereira (contrabaixo).

Os professores e bailarinos Luciana Mayumi e Marco Kina

Diálogo Corporal - Luciana, que também se apresenta dançando tango com outros grupos, explica que a proposta do show do Jogando Tango é oferecer ao grande público uma dança que, a princípio, parece ser restrita a um pequeno grupo de pessoas. “Se você fala de um forró, é uma dança mais abrangente e muito mais gente vai dançar e conhece a música. A mesma coisa com o samba, pode até não fazer a performace de Carlinhos de Jesus. Mas o tango, para o grande público, parece distante. Mas há pessoas no Brasil e em outros lugares do mundo  que experimentaram e passaram a ter gosto por essa dança, que no primeiro olhar parece teatral, cênica. Mas tem uma delicadeza e um requinte de escuta corporal, é um grande diálogo corporal.”

Segundo ela, o tango tem um viés erudito, um requinte que vem da elaboração dessa dança. Ao mesmo tempo, explica ela, os dançarinos precisam ter uma entrega muito grande, de proximidade do seu corpo com o corpo do outro. “É preciso sentir o deslocamento, sentir parte do corpo se movimentando. O cavaleiro movimenta o torso e esse movimento vai reverberar no corpo da dama até chegar aos seus pés. Por isso, acaba sendo apaixonante, porque quem  dança acaba querendo mais e mais e por isso que o tango é patrimônio da Unesco, assim como o frevo.”

Segundo ela, há alunos com até 16 anos, deixando de ser uma dança para a terceira idade. Por isso, é comum em bares onde o tango é dançado pessoas de 20 anos dançando com pessoas de 80 anos. Ela ainda lembra que a música eletrônica misturada ao tango ajudou a expandir o gosto pelo gênero. “Você realmente une gerações. E a proposta do Jogando Tango é bem interessante, porque os meninos (os músicos) se propuseram a fazer um baile de tango, uma milonga, com música ao vivo, que é uma coisa cara, porque para tocar tango o músico tem que estudar muito. Os meninos tem uma formação longa, muitos que tocam tango têm formação erudita. Eles propuseram para São Paulo uma milonga com música ao vivo, coisa que é muito rara em São Paulo.”

 

Repertório do show

01. La Cachila  – Tango – 1917

(Eduardo Arolas e Hector Polito)

 

02. Madame Ivonne – Tango – 1933

(Eduardo “Chon” Pereyra e Enrique Cadícamo)

 

03. Gallo Ciego – Tango – 1917

(Agustín Bardi)

 

04. Taconeando – Tango – 1930

(Pedro Maffia e José Horacio Staffolani)

 

05. Romántica – Vals – 1937

(Félix Villa e Homero Manzi)

 

06. El Pollo Ricardo – Tango – 1911

(Luis Alberto Fernández)

 

07. De vuelta y media – Milonga

(Máximo Barbieri)

 

08. Pa’ que bailen los muchachos  – Tango – 1942

(Aníbal Troilo  e Enrique Cadícamo)

 

09. Palomita blanca  – Vals – 1929

(Anselmo Aieta  e Francisco García Jiménez)

 

10. El choclo – Tango – 1930

(Ángel Villoldo e Enrique Santos Discepolo)

 

11. Milonga de mis amores – Milonga – 1937

(Pedro Laurenz  e José María Contursi)

 

12. La cumparsita  – Tango – 1915

(Gerardo Matos Rodríguez)

 

13. Quejas de Bandoneón – Tango – 1918

(Juan de Dios Filiberto)

 

14. Por Una Cabeza – Tango –  1935

(Carlos Gardel e Alfredo Le Pera)

15. La Trampera – Milonga (1950)

Música: Aníbal Troilo

16. La Maleva – Tango – 1922

(Antonio Buglione e Mario Pardo)

17. De Puro Guapo – Tango – 1927

(Rafael Iriarte e J. C. Fernández Díaz)

 

18. Romance de Barrio – Vals – 1947

(Anibal Troilo e Homero Manzi)

 

 Serviço:

Show Trio Jogando Tango no Estação Rio Verde

Dia 03 de março, domingo, às 20h

Local: Centro Cultural Rio Verde

Endereço: Rua Belmiro Braga, 119 – Vila Madalena

Tel.: 3034-5703

Valor do Ingresso: R$30 na porta e R$20 – Para aqueles que confirmarem e compartilharem no http://www.facebook.com/events/484464361613828/

Duração – 2h15min (3 entradas de 45 min)

Indicação de faixa etária: 18 anos

Estacionamento no local, não conveniado

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