Projeto Coisa Fina_Foto de F  Pepe Guimaraes

RESSACA DE ELEFANTE

Os dilemas sobre os caminhos a serem tomados para que um movimento artístico ganhe maior projeção causaram uma crise no Movimento Elefantes, uma das mais importantes iniciativas em São Paulo para difundir a música instrumental. Criado em 2009, o movimento perdeu seu quartel-general no início de 2013, uma vez que o Teatro da Vila, na Vila Madalena, foi fechado deixando órfãos vários movimentos musicais que conseguiram manter uma programação de alta qualidade independentemente do retorno financeiro. O Elefantes conseguiu fazer um acordo com o Centro Cultural Rio Verde por dois meses, com pagamento de ingresso, e não mais o sistema usado anteriormente, do pague o quanto vale. Os shows começarão em abril, às segundas-feiras. E, para atrair público, o movimento decidiu investir R$ 13 mil em marketing e comunicação.

O contrabaixista Thiago Alves, da big band Reteté, que critica o “caminho comercial” que o movimento teria tomado. Foto Roger Marzochi

 A adequação do movimento ao mercado e desentendimentos entre os grupos sobre a questão artística foram um dos motivos que levaram a saída das bandas Soundscape e Reteté na penúltima semana de março, reduzindo de 14 para 11 o número de big bands do coletivo, uma vez que a Ensemble Cayowaá também deixou o movimento por estar em processo de montagem de repertório. Em 2009, dez bandas integravam o movimento. “O Elefantes está indo para o caminho comercial e a gente não quer fazer parte desse caminho”, afirma o contrabaixista Thiago Alves, líder da Reteté. O crescimento, para ele, deveria ser natural, sem “jogar isca” para o público comparecer. Para ele, o marketing pode ajudar, “mas a partir do momento que vira prioridade, a música fica de lado”.

Outro foco de discordância surgiu com o projeto que o Elefantes está discutindo para gravar um documentário e um grande show com as big bands até o fim do ano, que custará cerca de R$ 60 mil ao coletivo. “Também tem a ver com o documentário. Eles querem fazer vídeos, tem banda com repertório dançante, é um repertório mais simples para atrair público, isso não bate com a minha filosofia”, diz Alves.

A reportagem apurou que essa crítica tem como alvo Dário Arruda, líder da Orquestra Urbana Arruda Brasil, recentemente incorporada ao movimento. “A música faz as pessoas dançarem, mas a gente não faz música para agradar as pessoas. A gente faz música porque acredita na música. Mas não em fazer um repertório dançante para atrair pessoas. Isso é baile, fazemos isso até hoje para ganhar dinheiro. Baile é uma situação de trabalho profissional”, diz.

O trompetista Junior Galante, líder da Soundscape, diz que a banda deixou o Elefantes por acreditar que o movimento está perdendo o foco que norteou o nascimento do coletivo. “A filosofia do movimento era montar um grupo de big bands onde a gente queria levantar a música instrumental. E a big band é um grande organismo que você tem múltiplas possibilidades sonoras. Não é à toa que se chama Elefantes, de grupos grandes, um movimento que veio contemplar as big bands para divulgar a música instrumental no Brasil, independente do gênero musical, não só a música brasileira”, explica, em outra indireta a Dario Arruda, que em entrevista à Carta Capital, publicada em fevereiro, fez uma crítica às big bands que tocam jazz, numa suposta contraposição à música brasileira. “A eleite musical de São Paulo não faz a manutenção da música brasileira”, disse Arruda à revista ao comentar sobre o fim das orquestras. “Eles querem tocar jazz, um som que Ted Jones fazia em 1980, em Nova York, com a cúpula dos jazzistas. Cada um tem o direito de tocar o que bem entender, mas existe o efeito dominó”, diz. “Nós temos um compromisso de fazer música na sua maior plenitude, não necessariamente música brasileira. Os compositores são brasileiros”, diz Galante, que já tocou com o maestro Antonio Arruda, o Cangaceiro, pai de Dário que ficou famoso pelos arranjos que fazia e disse não se sentir parte da “elite musical”.

Assim que surgiu, o Elefantes teve como suas primeiras iniciativas a gravação de um DVDê, chamado assim porque o intuito era incentivar que cópias fossem feitas do material produzido para conseguir alcançar o maior número de pessoas. Os custos, explica Galante, foram rateados entre os integrantes das bandas. “A banda como um todo quis sair do movimento porque não atende ao que era no começo. Não adianta ter 20 grupos, um número hipotético, sendo que sem ferir a ética. São interesses de marketing, de se divulgar a si mesmos e fazer disso um grande negócio. Mas um grande negócio começa com um produto, com a origem do movimento, que é a música”, afirma.

Big band Soundscape, que também deixou o Elefantes. Foto de F. Pepe Guimarães

Para ele, a perda do Teatro da Vila foi um duro golpe. E, apesar de considerar que as pessoas que lideram o movimento tenham as melhores das intenções, a Soundscape não acredita em um grande movimento popular que dê suporte ao Elefantes.  “Para fazer virar, precisa um movimento do Movimento Elefantes, com show para um grande públcio. Eu tenho 48 anos, já vi tudo na vida, e não existe um movimento assim. Você consegue levar muitas pessoas para a música instrumental, como fez Michael Brecker há 25 anos em São Paulo. Esses caras levam uma multidão. E para fazer um movimento assim depende de uma série de coisas, e isso é tão dispendioso, e como fica a música? Vai ter o melhor técnico de som? Os melhores arranjadores? O que me deixou de cabeça quente foi que alguém, inocentemente, disse que o grande barato é a união das big bands. O grande barato, eu rebati, é a música. É o motivo pelo qual estou aqui. Quero fazer a melhor música. Não precisa ter muitas big bands, mas ter as que são engajadas com o interesse único: fazer a renovação da música instrumental.”

Vinícius Pereira, líder do Elefantes, diz que todas as questões que se apresentam como queixa poderiam ser resolvidas se todos conversassem com calma. Para ele, a perda do Teatro da Vila foi realmente um ponto importante para todas essas discordâncias, pois lá a única pretensão dos músicos era o lado artístico. “Quando a gente perde esse espaço e se vê dentro da socidade que sem dinheiro não tem como sobreviver, é difícil. Agora terá que pagar entrada na casa parceira, a gente tem que forçar a levar público. Muda o comprometimento na parte econômica. Como fica para pagar assessoria de imprensa, fotógrafo, parceiros? Precisa de grana.”

Ele nega o desvirtuamento do movimento e afirma que o Elefantes chegou a um ponto de precisar de uma profissionalização porque, apesar dos parceiros que já tem, na cadeia de produção “há um buraco”. “Que não vai ser preenchido por músicos. Hoje tenho consciência que os músicos têm que se preocupar com a questão artística e os projetos tem que ficar na mão de outras pessoas.“

Segundo ele, os líderes da banda já têm sua atuação em outras orquestras, precisam estudar o instrumento, realizar ensaios frequentes e reuniões do coletivo. Isso torna a vida do líder de orquestra um inferno. “Manter uma big band é um negócio muito desgastante. É um inferno ser band lider, e o Galante cuida de tudo da Soundscape, marcar estúdio, confirmar os horários, pensa no repertório, é muito trabalho. Fazer a gravação com o melhor técnico que corresponde ao seu desejo de audição. Exige muito. E no caso das bandas do coletivo é tudo centralizado em uma pessoa só. Brigar pelo coletivo e, além disso, dispender energia em prol do coletivo de bandas é uma questão difícil se não tem suporte dos outros músicos da banda. O cara fica supercarregado e é compreensível não querer participar da organização pela metade. Se estiver pela metade, melhor não estar.”

Orquestra HeartBreakers, de Guga Stroeter, sócio do Centro Cultural Rio Verde. Foto de Tripoli

Ele entende importante a preocupação de Galente em se discutir a questão artística, avaliar como estão as big bands. “A Soundscape tem uma exigência de qualidade musical muito grande, estão ensaiando três vezes por semana; enquanto que tem banda que mal consegue ensair, essa é uma preocupação do Galente. E é uma preocupação do coletivo todo. Precisa ter atuação remunerada, porque todo mundo precisa pagar as contas. Um cara não vai deixar de dar aula ou tocar num casamento, fazer trabalho remunerado, para tocar de graça. São inumeras as dificuldades que o coletivo tem. A crise do Elefantes é encontrar soluções para reverter essa situação agora, que é uma fragilidade. Todo relacionamento tem crise. As crises são ótimas, porque depois a gente cresce ou vai para o buraco”, diz Pereira, que compôs “Dia Seguinte”, com arranjo feito em conjunto com Vitor Caffaro com o Projeto Coisa Fina. Essa música, em sua definição, expressa que sempre haverá uma saída após uma ressaca. “Da sensação que todos experimentamos após um atrito afetivo”, diz o encarte do CD “Projeto Coisa Fina – Homenagem ao Maestro Moacir Santos”.

É com o Projeto Coisa Fina que Pereira decidiu abrir essa nova fase do Elefantes, com músicos que estão dando mais do que vida à música de compositores como Moacir Santos e Laércio de freitas. No dia 1 de abril, ele tentará encontrar uma saída com a apresentação da banda, com ingressos a R$ 15 na porta e R$ 10 para quem compartilhar o evento no Facebook e se inscrever. A negociação com a casa é para apresentações por dois meses, para após avaliar se o movimento tem condições de fincar bandeira no local, que tem como sócio Guga Stroeter, da Orquestra Heartbreakers, também do Elefantes.  “O ideal mesmo era cobrar R$ 30 na entrada e R$ 20 na lista, não sabemos como vai ser a reação do público. Não sabemos como vamos competir com as programações gratuitas que há na cidade. Esse é o desafio.”

 

PROJETO COISA FINA

Dia 1 de abril às 21h

Centro Cultural Rio Verde

R. Belmiro Braga, 119 – Pinheiros,  São Paulo, 05432-020

(11) 3034-5703

Entrada R$ 15

Confirma e compartilha no facebook R$ 10

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