Gui Afif - F.Pepe Guimarães

Gui Afif solta a voz com a Orquestra Arruda Brasil

Saxofonista e integrante da primeira formação da Orquestra Urbana Arruda Brasil na década de 1990, Gui Afif começou a cantar em 2000 e não parou mais. Ontem (15/04), no show realizado no Centro Cultural Rio Verde pelo Movimento Elefantes, coletivo que reúne 11 big bands, Afif mais uma vez deixou o sax de lado e mostrou muita energia ao cantar músicas como “Summertime” e “I’get a kick out of you”, com uma orquestra com naipes afiadíssimos, com 18 músicos no palco.

A orquestra é comandada por Dário Arruda, filho do maestro Antonio Arruda, conhecido como “Cangaceiro”. Todas as músicas apresentadas do grupo são de arranjos que o Cangaceiro fez durante sua vida, em trabalhos em programas de televisão e rádio. Foi dele o arranjo das músicas “Prá não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, e “São Paulo”, de Tom Zé, que disputaram os famosos festivais de música da TV Record.

Além de outros standards do jazz, como “Georgya on My Mind”, “Angel Eyes” e “Night and Day”, a banda tocou clássicos como “Aquarela do Brasil” de Ari Barroso, “Ponteio” de Edu Lobo e Capinam e “Nega” de Valdemar Gomes e Afonso Teixeira. E o interessante é que, ao tocar standards de jazz, o maestro Dário Arruda se transformou ele mesmo num expoente da “elite” do jazz paulistano, contrariando sua frase polêmica em entrevista à Carta Capital em fevereiro ao discutir os motivos que levaram à decadência das orquestras.

O maestro e saxofonista Dário Arruda de camisa branca, filho do maestro Antonio Arruda, o “Cangaceiro”. Foto de F.Pepe Guimarães, o mesmo autor da foto de destaque deste texto.

“A elite musical de São Paulo não faz a manutenção da música brasileira”, disse Arruda à revista ao comentar sobre o fim das orquestras. “Eles querem tocar jazz, um som que Ted Jones fazia em 1980, em Nova York, com a cúpula dos jazzistas. Cada um tem o direito de tocar o que bem entender, mas existe o efeito dominó”, diz. Essa declaração causou mal estar entre membros do Movimento, que se pauta pela diversidade de estilos, lembrando ainda que ele já estava no Elefantes quando deu a entrevista e não saiu uma mísera linha sobre a luta contínua de manter viva as grandes bandas, com apresentação de repertórios incríveis autorais e da história da música universal. Essa frase, aliada a outros desentendimentos, motivaram a saída da Soundscape e da Reteté, duas importantes bandas do Movimento, que ainda tem bandas importantíssimas como o Grupo Comboio, que recentemente lançou “Samba Pra Dori”, uma incrível composição de Rui Barossi em homenagem ao grande Dori Caymmi.

Apesar de a Reteté ser uma ótima banda de jazz, com ótimos solistas como Cássio Ferreira, um dos maiores expoentes da nova safra de instrumentistas, tem produção própria fraca. Thiago Alves, contrabaixista e líder da Reteté, é inegavelmente um grande músico. Mas colocou sua criatividade artística a serviço de uma asia que ele teve por causa de um pastel. E assim, com esta inspiração, escreveu “Remebering Pastels”. A música é um protesto? É ácida? Explora novas vertentes do jazz? Não, parece só uma graça, que ele fez com o único prazer de se divertir com gazes e queimações percorrendo sua pança, mas sempre pronto a julgar com impropérios artistas como Amy Winehouse, que sofreram com as drogas. Distorções, asias, o que seria essa música? A música é uma comédia, pode-se levar a sério apenas enquanto tal, o que não deixa de ser uma das funções da arte. O que seria, sem sombra de dúvida, um chamariz importante para atrair mais público ao Movimento.

Criatividade também não é o forte da Arruda Brasil, que se atém ao arranjo sem dar espaço para improvisações, momento muito esperado pelos apreciadores da música instrumental. É uma excelente banda de baile e contribui com o Elefantes pela diversidade de estilos, sem que isso seja menosprezado pela importância histórica dos arranjos do Cangaceiro. “Os arranjos são obras que resistem ao tempo, mas o repertório remete a épocas passadas”, explica Afif, em entrevista após o show de ontem. “Existe um componente na música que as pessoas vinculam com momento específico da época. Você ouve ‘Night and Day’ e um rapaz conhece uma moça aqui ouvindo essa música, e ela ganha uma nova dimensão. Mas os arranjos são atemporais, porque remetem a uma época, mas não é datada. Os arranjos são eternos, conseguir fazer um negócio que é elegante e cabe bem em qualquer situação. Acho um luxo fazer parte do coletivo de 11 orquestras e ter esse espaço aqui para mostrar o trabalho. A questão de ganhar dinheiro é a condição de qualquer músico. E tinha muita gente querendo ouvir, não tenha dúvida que é um luxo”, explica o músico, que acredita que mais pessoas poderão presenciar os shows à medida que novas bandas se apresentarem.

Ilker Ezaki quebrando tudo na percussão. Foto de F.Pepe Guimarães

Ana Paschoalini, artista plástica, biógrafa e terapeuta artística estava na platéia, nem cheia nem vazia, e adorou o show. “Eu achei muito louco, primeiro porque foi uma surpresa. Eu estava em casa e meu filho me convidou para sair. Dá tempo de tomar um banho? Nossa, foi aquela correria. E estava sem saber o que seria apresentado. Adorei o espaço, que é lindo, no estilo art nouveau, o papel de parede, os arcos, as luminárias, tudo remetendo aos anos 1920.”

Além disso, as músicas o levaram até a sua infância, quando tinha cinco anos em Campos, no Rio de Janeiro. Havia uma banda que ensaiava na frente da casa de sua tia músicas de carnaval, como “Saca-Rolha”, que foi apresentada no show ontem. “E músias da minha infância que foram tocadas aqui eu nem sabia o nome, como ‘Nega’. E outras que eu não me lembro agora, outras são mais modernas, como ‘Ponteio’. E quando era pequena via pela janela o carnaval passar, as pessoas com aquele lança perfume num frasco de cobre. Os meus pais tinham e eu me lembro do cheiro, era uma coisa grande. Seus avós não são tão caretas (disse olhando para o filho).” Para ela, essas músicas são atemporais. “Porque música é atemporal, eu parto deste princícpio. Especialmente as músicas boas, que não morrem nunca. E trazendo nossa memória, ai não morre nunca mesmo.”

Comentários
Uma resposta para “Gui Afif solta a voz com a Orquestra Arruda Brasil”
  1. Cássio Ferreira disse:

    Roger, você já me entrevistou, em ocasiões onde fostes assistir a Reteté Big Band (faço parte da banda e, na época, outro entrevistado também, o Gustavo D’Amico, hoje no EUA), nos encontramos eventualmente nos “sons” por aí, falamos de música, você é sempre muito gentil e atencioso, e por isso realmente não entendo a discrepância entre o teu comportamento e o conteúdo deste texto. Parece contraditório. Já falamos sobre a profundidade da música e sua capacidade natural de ir além das palavras. Portanto, nome de música não é pretexto para crítica musical. O significado da música instrumental está na Música, em suas notas, em sua Estética Musical. O nome da música pode ser uma referência do autor ao que ele quiser, mas isso não muda o conteúdo musical. Qualquer um que queira fazer crítica de música publicamente e que, ao me ver, deveria ter os conhecimentos necessários de Música, Harmonia Musical, História da Música, Filosofia e Estética Musical, só pra começar, deveria saber disso. O Moacir Santos gravou um disco antológico chamado “Coisas”, onde as músicas são chamadas de Coisa N.1, Coisa N.2, etc. O que você acha disso? Criticar uma banda pelo nome de uma música ou pelas opiniões pessoas de um dos integrantes me parece descabido. E achar que o nome “engraçado” de uma música ou alguma piada vai atrair público é, no mínimo, ser “otimista”.Quais são suas reais motivações? Esta é uma boa oportunidade. Atenciosamente.

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