Cau Karam À Deriva

Uma carta de amor À Deriva

Escrever sobre música nunca foi para mim uma profissão. Talvez seja por isso que hoje posso me sentir um completo desempregado. Isso porque escrever sobre sons era uma forma de fazer com que eles tomassem conta de meu corpo. Quando me apaixonava por uma banda, buscava escrever cartas de amor, mas nada de reportagens, contextualizações. Infelizmente, também já odiei, igualando-me àqueles que criticava. Mas há uma frase pichada na rotatória de casa que me ajuda a perceber meus erros: “odeie o seu ódio”. Estou pagando pelos pecados, mas vamos falar sobre amor. Quando se ama, não existe competição, comparações. O amor também disfaz da linguagem a mordaça da famigerada palavra “imparcialidade”. É dispido de intenções catedráticas e jornalísticas que desejo apenas revelar o meu amor pela banda À Deriva, sem entrevistas, fotos e filmagens. Tudo isso eles entregam pronto e em alta qualidade. Resta-me o testemunho da comunhão daquilo que só pode ser sentido.

E foi pelo Correio que chegou em casa uma carta enviada por um amigo da banda. Dentro da carta o disco “Cau Karam À Deriva – De senhores, baronesas, botos, urubus, cabritos e ovelhas”, o quinto CD do grupo de jazz contemporâneo, mas o primeiro com a participação do violonista Cau Karam, com seu violão e viola de dez cordas. Receber essa carta foi um grande presente, como as cartas de amor que se trocavam pelos Correios, que hoje só entrega cartão de crédito e cobrança. E neste “Cau Karam À Deriva” há dezenas de amores, de profundidades abissais.

Meu amor por esta banda nasceu na Vila Madalena, em 2010, na praça dos prédios do BNH. Estava brincando com meu filho no parquinho quando surgiu um sujeito magro e alto, também levando pela mão seu filho. Era Beto Sporleder, o saxofonista da banda, que morava no mesmo condomínio com outros músicos. Essa pracinha foi fonte de muitos encontros e amizades.

No parquinho, Beto me contou sobre o lançamento de um novo disco de uma banda de jazz que ele fazia parte. À Deriva. Nunca havia escutado. Ao ver meu interesse, passou seu endereço. Era só chegar lá e pegar o disco. No outro dia, estava eu tocando o interfone de sua casa. Com um sorriso no canto da boca, ele comentou: “não sei se você vai gostar.” O disco era “Suíte do Náufrago”, o terceiro disco do À Deriva. A dúvida de Beto tem seu lastro: o grupo, que toca em completa sinergia e liberdade, aliando música erudita, jazz e free jazz, produz uma música bem distante de padrões e rótulos. É preciso estar predispoto, acordar os sentidos para mergulhar nesse universo.

E, da mesma forma como Raul de Souza avalia que John Coltrane abre uma nova forma de percepção da vida, À Deriva segue o mesmo caminho, um caminho brasileiro que se confunde com o próprio planeta. Eu fiquei abalado com a emoção que esse disco foi capaz de me proporcionar, com uma capacidade incrível de me ligar ao profundo rio do inconsciente, sugerindo-me histórias de uma beleza arrebatadora, com toda sua tragédia, que chega a sufocar em alguns momentos, até a resolução da história. Não há jornalismo capaz de relatar essa emoção. Eu bem que tentei, mas fracassei.

Sempre vou fracassar. Em “Móbile”, lançado em fevereiro de 2013, eu fiz o máximo para apresentar a ideia do disco, caindo fora da história de cada composição. É bom contar histórias, mas elas limitam a amplitude que a música produzida pelo grupo é capaz de alcançar. “Móbile” segue a mesma sintonia que o grupo teve nos últimos trabalhos, capaz de criar novas músicas na interação com sucatas e outros materiais fora do escopo do mundo dos instrumentos musicais. Esse disco é também belíssimo.

Além da música, outra coisa que distingue o grupo dos outros é a sintonia que transborda os sons. Os CDs são acompanhados de fotografias de Mariana Chama, uma verdadeira artista da imagem, que amplia em muito a obra de arte. Neste último, a capa e o fundo do CD são de autoria do baterista Guilherme Marques e a direção de arte é de Lula Carneiro. Mas em todo o encarte, Mariana povoa o imaginário com fotos que são expressão inspiradíssima das músicas. No site (www.musicaaderiva.com.br) ainda é possível ler um texto muito bom sobre esse novo trabalho.

Não tenho ideia do porque do título do disco ser “De Senhores, baronesas, botos, urubus, cabritos e ovelhas”. E não vou perguntar não. Não estou fazendo jornalismo, não quero informar, nem te convencer. Estou escrevendo uma carta de amor. O título me sugere o limiar entre o chamado “mundo dos saberes”, como é chamada por Rubem Alves a academia no livro “Variações sobre o prazer” – e sua busca extrema pela razão e pelo método – em contraposição ao mundo dos sentidos, no qual a fala é a música do corpo, a palavra e os sons se substanciam em sangue, o mesmo que corre nas veias de um Brasil mundializado, repleto de contradições. Não quero comparar, dizer que é o melhor disco, a melhor banda. É melhor amar. E À Deriva dá lições de amor a cada música. Desejo a todos muitos shows e a expansão da beleza dessa amizade entre vocês a todos nós, que desagua em música e compaixão.

 

Comentários
Uma resposta para “Uma carta de amor À Deriva”
  1. JOÃO BATISTA disse:

    MARAVILHA IRMÃO!

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