Araticum Fpepegmaraes

Grupo Araticum se antecipa à natureza

Já é época de o araticum florescer no cerrado, dentro de um ciclo de vida que faz surgir um dos frutos mais deliciosos do Brasil. Adiantado no tempo, o homem já apresenta os seus frutos em forma de som. O Grupo Araticum, criado há três anos, lançou “Tarde”, o seu primeiro disco, em show no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, no dia 15 de setembro. O disco pode ser conferido no site http://grupoaraticum.com.

Ao ouvir o grupo, você vai entender que, em contraste com a aridez da paisagem onde vive o araticunzeiro, ou da paisagem cultural brasileira, que as 11 composições autorais que floresceram do Araticum expressam a confluência de ritmos brasileiros e latino-americanos em forte relação com a cultura popular e a música europeia. “O araticum brota no meio da aridez, é uma fonte de alimento na seca muito importante. E nos dias de hoje, na sociedade que estamos vivendo, é uma experiência artística verdadeira. Da seca cultural da sociedade, brota uma esperança para nós, que é esse trabalho, o de tocar músicas que realmente nos tocam”, diz Vinicius Pereira, contrabaixista e também compositor de duas músicas do disco, “Gotita” e “Baraqueçaba”. O CD foi gravado no Espaço Cultural Cachuera, nos dias 23 e 26 de abril de 2013, e foi bancado com recursos próprios.

Além de Pereira, o grupo é formado pelos multi-instrumentistas Ângelo Ursini, Bruno Duarte, Ricardo Pesce e Ricardo Barros, todos com formação musical invejável e inspiração de sobra para fazer deste um admirável trabalho, que começou com a intenção de acompanhar as apresentações do cantor e compositor Carlos Walker. A química deu certo e, como são apaixonados pela música mundial, chegaram até a montar um repertório de música árabe. Entre os intervalos dos ensaios, cada um começou a apresentar aos amigos suas próprias composições, e perceberam que era essa a vocação do grupo.

O maestro Theo de Barros, pai e parceiro de música com o filho Ricardo Barros, avalia que “Tarde” representa “um novo universo na música popular brasileira instrumental”. “Eles conseguem fazer uma música estritamente brasileira, mas com influências globais, mas a espinha dorsal é brasileira”, afirma. “O trabalho deles é realmente fora de série e serve não só para a elite do público brasileiro, mas também vejo uma grande prosperidade de uma carreira internacional. O grupo tem base suficiente para suportar isso”, explica.

Influências – Benjamin Taubkin, que ouviu o CD do Araticum a convite do entresons, disse que a música do grupo lhe fez lembrar do grupo Romançal, criado no Recife em 1996 por Antonio José Madureira, devido à influência da música nordestina. O grupo foi inspirado pelo Movimento Armorial da década de 1970, liderado por Ariano Suassuna, que busca destacar a cultura popular e suas influências com a música europeia, mas sempre se esforçando para delinear aquilo que seria realmente brasileiro. Já em “A saga do Ouro”, música de Ricardo Barros, ele sentiu alguma influência de Dory Caymmi.

“Acho super bacana. Tem uma música que soou mais gaúcha que latino-americana. Para mim, ‘Gotita’ é um tipo de milonga”, disse Taubkin. “A levada, a própria sanfona como está tocada, tem um rasqueado que, para mim, remete a um universo gaúcho. Ela me trouxe imagens do Rio Grande do Sul. Mas sei que o Vinicius e o Ricardo têm ouvido coisas da América Latina, mas pelo menos essa música para mim – sei que tem zampoña, que eles usam no disco, mais ligado à cultura do Peru e Bolívia. Mas o universo brasileiro mesmo é o universo mais forte. Acho que tem soluções bacanas, uma busca bem legal.”

A música árabe, que também influenciou a cultura europeia, permeia também ritmos nordestinos e latino-americanos em “Tarde”, como na música de Ricardo Pesce “Torta de Baião”. Pereira conta que há uma transição na música entre o baião e a música árabe feita pela clarineta, que se mesclam em uma só.

Já em “Gotita” há forte inspiração de uma linguagem muito usada no merengue venezuelano, explica o contrabaixista Pereira, que a compôs após ter passado cinco meses ouvindo o disco “El matecito de las siete”, dos argentinos Luna Monti e Juan Quintero. Assim como há influência do Chile em “Hino”, de Angelo Ursini.

Eles carregam também a herança dos grandes mestres – como Moacir Santos – que conseguiram criar paisagens sonoras tão intensas quanto estas “áridas”, sabendo usar os elementos de cada cultura com poesia, inspirando-se na vida. “Coice na barriga”, por exemplo,  foi inspirada pelos chutes que o bebê de Riscardo Pesce dava na barriga de sua esposa Maria. E é assim, adiantando-se à natureza, que o Araticum transmite os sabores da música em todas as suas expressões.

 

Comentários
2 Respostas para “Grupo Araticum se antecipa à natureza”
  1. Nelson disse:

    Pessoal
    Bacana o texto, bem escrito, explicativo, o que é bom pra gente saber das informações básicas.
    Parabéns pelo disco !! abraços, Nelson

Trackbacks
Veja o que os outros estão dizendo...
  1. […] portal Entresons deu uma matéria muito bonita sobre o disco. Confira na integra aqui. Já é época de o araticum florescer no cerrado, dentro de um ciclo de vida que faz surgir um dos […]



Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal