Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão) - Foto Ed Figueiredo

Izaías do Bandolim quer levar o choro de volta à televisão

Pixinguinha já havia bebido prá burro. E desde que chegou na roda de choro naquela noite da década de 1950 em São Paulo, os amigos pediam insistentemente para que ele tocasse. “Não vim aqui para tocar, eu vim aqui para descansar e ouvir música”, respondia. De tanto insistirem, armou o sax para tocar a valsa “Rosa”, a primeira versão que havia escrito, não a que havia sido gravada. Ele fazia os contracantos enquanto era Jacob do Bandolim que solova. “Foi emocionante, foi de chorar. Só sax e bandolim. Tenha dó. Uma coisa fantástica”, lembra o bandolinista Izaías Bueno de Almeida, que presenciou esse som naquela noite e que lamenta só ter o registro na memória. Na foto acima, de Ed Figueiredo, Izaias está a esquerda, ao lado de seu irmão, o violonista Israel Bueno de Almeida, que formam o grupo Izaías e Seus Chorões.

Para contar casos como esse, da história da música brasileira que ele vivenciou, e apresentar novos grupos que dão continuidade ao choro, Izaías está procurando sarna para se coçar aos 76 anos. Ele está amadurecendo a ideia e criando coragem para lutar por um espaço para o choro na televisão brasileira, que tanto o ajudou em sua carreira artística, quando se apresentou na TV Tupi. Ele até participou ativamente com seu Chorões da programação do “A Alegria do Choro”, programa que por oito anos promoveu o gênero na década de 1970, sob o comando de Júlio Lerner.

Ele diz que, com 60 anos de carreira, que foram celebrados com show gratuito no dia 29/09, em São Paulo, alguém já deveria tê-lo procurado. Como ninguém o fez, ele o fará. E começará a entrar em contato com a TV Cultura. Nem quer saber do SBT. “O ideal seria a TV Cultura. Eu não quero falar no SBT, é uma porcaria. Há 70 anos sempre o mesmo sistema, com o Silvio Santos e a roletinha dele. Já a Globo promove o pessoal do Rio de Janeiro, mas não aqui. Tem a TV Gazeta, que poderia ser um polo de arte. A Inezita Barroso, que faz programa sertanejo puramente brasileiro, tem audiência. Por que o choro não teria? Tenho certeza que teria.”

Essa memória do som que Pixinguinha e Jacob fizeram naquela noite é em parte graças ao papel que a mídia exercia no choro naquela época, quando a TV Record lançou o programa “Noite dos Choristas”, em 1956, sob a direção de Jacob do Bandolim. Ele passou a vir constantemente a São Paulo, trazendo outros músicos. Foi nesse mesmo programa que Izaías foi escolhido por Jacob um dos melhores músicos do concurso, passando então a conhecer a fundo o ídolo que foi decisivo para que ele escolhesse o bandolim como seu instrumento musical.

Encontro com bandolim - Respeitado no meio artístico, Izaías se diz um amador por ser autodidata e ter a música como uma vida paralela, ao passo que trabalhou desde os 12 anos de idade até se aposentar como gerente de RH e contador. “Amador” porque não consegiu ganhar dinheiro com a música, porque seu profissionalismo é tamanho que ele ganhou no início de 2013 um song book: “Choros e Valsas de Izaías do Bandolim”, com 13 composições suas, como “Sorvete de Jabuticaba”. A obra foi lançada pela Choro Music.

O amor pelo choro veio muito cedo. O pai de Izaías era ferroviário, mas havia estudado música em bandas do interior, e tocava clarinete em rodas de choro com os amigos em casa. Desde os dois anos de idade, Izaías tem vaga lembrança das rodas de choro que eram realizadas na rua em que morava no Parque Peruche, na zona norte da capital. “O choro chegou ao Parque Peruche primeiro que o samba.” Até o seu nascimento foi festejado com uma roda de choro em sua casa.

“O bandolim acho que me procurou, porque eu tentei tocar clarinete e não consegui. O meu pai era clarinetista. Eu não consegui. Tentei tocar flauta e não consegui. Então meu avô materno me deu um cavaquinho de presente, imagine só. Eu não sabia como afinar, mas aprendi a afinar o cavaquinho e bandolim. E um foi um passo para o bandolim”, diz.

Aos 12 anos, trabalhava como office-boy e, em suas andaças pela cidade, descobriu uma roda de choro no fundo da fábrica de violões Casa Del Vecchio. “Todas as tardes, ao invés de entregar carta, eu passava nessa casa. Foi onde eu conheci o Antonio D’Áuria”, lembra ele do violonista, que ganhou a sua simpatia por tocar dois choros. Como D’Áuria era bem de vida, pois tinha a única fábrica nacional de projetores de cinema, ele tinha um chevrollet antigo que usou para levar Izaías, com 14 anos de idade, para conhecer Jacob do Bandolim em Jacarepaguá, no Rio. Izaías então conheceu o seu ídolo bem antes de participar do programa da TV Record.

Na casa de D’Áuria, no Bom Retiro, ocorriam também muitas rodas de choro que atraiam público e muitos artistas. Lá Izaías viu parte da história da música brasileira, como Maria Bethania, que como tantos outros artistas, passavam pela casa de D’Áuria para ouvir choro. Ele ainda conheceu Garoto, Altamiro Carrilho, Carlos Poyares, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, entre muitos outros músicos e seresteiros.

Não vai passar de um chorão – O pai de Izaías queria que ele estudasse violino, para que pudesse arrumar emprego em uma orquestra sinfônica, com carteira assinada. Ele bem que tentou, mas não conseguiu. Foi com o pai que aprendeu solfejo e música, mas foi a sua mãe que mais o incentivou. Foi ela, aliás, que o inscreveu no concurso do “Noite dos Choristas”. “E eu fico até emocionado, a minha mãe gostava muito de música. Minha mãe tinha ouvido musical terrível.”

Certa vez, quando Izaías tinha 14 anos, sua mãe fez uma surpresa para ele, que revela quanto carinho há em pequenos gestos. Ela havia comprado um disco de 78 rotações com a música “Doce de Coco”, de Jacob. Perto do horário do filho voltar do trabalho, ela espiava pela janela para ver se o ônibus se aproximava. Quando viu o filho descer da condução e andar para a ladeira que dava acesso à sua casa, ela colocou o alto falante na janela e ligou a vitrola.

“Desci a ladeira e ouvi um som: que eu nem sabia que era ‘Doce de Coco’. Falei ‘poxa, que beleza’. Parei para ouvir de onde que era. E foi minha mãe que preparou um toca disco que a gente tinha, ela preparou isso e botou o falante virado para onde eu vinha. E espiando. Acho que ela me viu descendo do ônibus e tocou aquilo lá. É uma emoção muito grande. Parti para o ‘Doce de Coco’, aprendi. E ela botava o disco eu tocava junto procurando aprender e ela falava ‘tem uma notinha que você não tá fazendo aí, volta é essa notinha aí, presta atenção’. Ela me ajudou muito, nossa senhora!”

“Meu pai me ajudou muito também, embora fosse contra eu levar a carreira de músico. Ele queria que eu fosse violinista de orquestra sinfônica. Coisa que nunca me dei bem, eu gostava era de choro. E uma vez eu estava treinando bandolim no terraço de casa e eu ouvi meu pai falar para minha mãe: ‘coitado desse rapaz, ele tem musicalidade, mas não vai passar de um chorão’. Uma vez ele falou isso para mim, ele já tava velinho.”

Apesar de não ter seguido o sonho do pai, que queria nele um músico de partitura, Izaías virou colecionador de partituras e tem guardado mais de mil delas, incluindo muitos manuscritos de Jacob do Bandolim. Levando a vida paralela de músico e contador, Izaías sofreu um bocado, tendo que estudar o instrumento só aos fins de semana. Na década de 70, durante o “Alegria do Choro”, chegou a receber um convite para passar 40 dias no Japão. Mas teve que declinar, porque era responsável pela folha de pagamento da empresa, trabalhava 12 horas por dia e ficou até sete anos sem tirar férias.

Na foto de Ed Figueiredo, os músicos dos grupos Izaías e Seus Chorões e Quintal Brasileiro

Virtuosismo X Emoção - Quando se aposentou, Izaías conseguiu arrumar um emprego de copista no Teatro Municipal, onde conheceu o spalla Luiz Amato, que também faz parte do grupo de música erutida Quintal Brasileiro. Amato, que já acompanhara várias rodas de choro com Izaías e seus Chorões, fez um pedido ao amigo: gravar juntos a “Suíte Retratos”, que Radamés Gnattali compôs em homenagem a Jacob do Bandolim entre 1956 e 1958.

Pedido aceito: a suíte está no disco “Izaías e Seus Chorões e Quintal Brasileiro – Valsas e Retratos”, lançado pelo selo Sesc no fim de 2012, unindo um quinteto de choro com um quinteto de música erudita.

Para Izaías, o choro como era feito antigamente, precisa ser preservado e, além disso, as novas gerações precisam entender que a música deve tocar o coração, o que em sua opinião tem sido pouco seguido pelos músicos de São Paulo. Em sua opinião, apenas os músicos do Rio têm conseguido fazer “choro de verdade”.

“O choro tem aquele jeito de choro, tocava-se de uma maneira languida, uma maneira mais emocional. Hoje a garotada está pensando mais em virtuosismo. Tá certo que o choro exige um certo virtuosismo. Mas o Jacob uma vez me deu um conselho: isso é muito interessante de ver, mas para se ouvir, a música é aquela que toca o coração. E é verdade. O Jacob além de aplausos arrancava lágrimas. E a molecada de hoje arranca aplausos tão somente.”

Assim como jazz flertou com o rock, o maior pesadelo de Izaías é que surja um choro-rock. Porque, segundo ele, os músicos de São Paulo já estão fazendo um choro jazz, com exagero na improvisação. “Mas eu vejo com bons olhos a molecada com boa intenção de fazer choro de boa qualidade, e não deixar o choro morrer. Isso é muito importante. A turma do Rio de Janeiro ainda pensa diferente. São Paulo que caminha para o virtuosismo. No Rio de Janeiro tem muito jovem tocando choro de verdade”, afirma, apontando o jovem bandolinista carioca Bruno Rian como um grande destaque da nova geração.

A música, para Izaías, independe do virtuosismo. “O Pixinguinha desafinava prá burro, mas era agradável. O Tom Jobim gravou ‘Luiza’ completamente bebado, desafinando no piano. Coisa mais emocionante do mundo! Tempos depois o Aguinaldo Raiol gravou com orquestra a mesma ‘Luiza’ e não tem graça nehuma. Para ver a música como é. É aquela coisa do desafinado que agrada o ouvido, o Pixinguinha tinha isso.”

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  1. […] Para ler a reportagem sobre o músico, que neste ano completa 60 anos de carreira, acesse o link http://www.entresons.com.br/?p=722 […]



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