Escafandrista flauta

Escafandrista urbano

Roger Marzochi, São Paulo, roger@entresons.com.br

O mar inspirou diversos artistas, de Dorival Caymmi a Arnaldo Antunes, desde os desafios que impõe ao homem, suas culturas e crenças. E, em suas profundezas, o oceano continua alimentando toda uma geração de artistas. Não é à toa que Caio Cesar Mateus Ferreira ganhou o apelido de “Timoneiro” e hoje, aos 19 anos, desenha pelas paredes das ruas de São Paulo figuras de escafandristas que dançam, tocam e amam com a mesma plasticidade fluída da água.

Em uma livre interpretação de seus grafites, é possível dizer que é a cultura o ar que alimenta seus escafandristas, imersos na cena urbana, mas conectados à superfície dos sonhos, que permitem chegar mais fundo aos sentimentos. Há quem possa questionar essa interpretação, argumentando que os escafandristas estão presos às suas vestes, mantidos vivos por um tubo de ar, obrigados a correr todos os perigos para sobreviver. E ainda há aqueles que vão achar que Caio Cartenum, como é também conhecido o artista, é simplesmente um pichador que emporcalha a rua. O fato é que essa arte tem revelado muitos talentos, como OSGEMEOS, Eduardo Kobra e Alexandre Keto, reconhecidos internacionalmente.

E as reações, quanto mais diversas, melhor para o artista. “Eu moro em São Paulo há 14 anos e me encontro na cidade como um atuante político, porque o grafite é uma das maiores expressões. É uma ferramenta de expressão, porque está na rua, pode contemplar mais pessoas com a sua arte que em um museu, expor suas idéias de uma forma justa.” E além de artista plástico, Timoneiro também é poeta e compositor. Na noite do dia 22 de abril, o rapaz que nasceu em Limoeiro, Pernambuco, estava andando pela Avenida Paulista com seu ukelele (instrumento de quatro cordas muito usado no Havaí) e resolveu conversar com Alejandro, um argentino que viaja pelo mundo vendendo seu artesanato e que, há um ano, leva em sua companhia um charango (instrumento de cordas sul-americano da família do alaúde) “para onde soprar o vento”. “Nós nos encontramos aqui e resolvemos partilhar esse momento (tocando).”

E, entre a esquina da Paulista com a Augusta, fizeram uma parceria inesperada. “Eu tava sentado aqui e… eu tô meio perdido, não sei o que faço da minha vida, e comecei a tocar aqui”, diz Caio, após cantar a música abaixo:

“O que esse sistema criou

Um monstro que eu não sou

E o que será de nós, o que será de nós?

Essa história não acaba aqui!

E essa história não há de ter um fim

Antes terra à vista, hoje concreto e asfalto

A vida é sofrida e a mãe Terra chora alto

Mas ninguém quer o fim

E o que será de mim?”

Ao fim do som, perguntei qual era o nome da música. Ele respondeu que não tinha nome, que é artista plástico e escreve poesias, que são vendidas em um livreto que custa R$ 5. “Mas posso tocar outra?” Sentei ao seu lado, pronto para ouvir a próxima:

“Cidade cheia, corações vazios

O tempo é frio, o tempo é frio

Abraços que não aquecem

Falsos amores, amores que perecem

Cidade cheia, corações vazios

O tempo é frio, o tempo é frio

Abraços que não aquecem

Falsos amores, amores que perecem

E a felicidade onde está?

Onde estará?

E a felicidade onde estará?

Se liga brasa mora eu vou

Fim de semana eu vou, eu vou Para Salvador

Chegando lá, desaguar no mar

Mar de alegria, mar de poesia

E me libertar deste caos

Cidade cheia, corações vazios

O tempo é frio, o tempo é frio

Abraços que não aquecem

Falsos amores, amores que perecem

E a felicidade onde está, onde estará?

E a cidade a naufragar”

“Essa daí eu também não tenho nome. Eu nem sou músico. Eu sou artista plástico e gosto de escrever poesia, sou mais artista plástico que compositor. Quando eu era mais jovem eu aprendi violão e tem as coisas que eu escrevo.” Para ele, a música é vista como um lazer, mas sente que é mais que isso, podendo causar “uma transformação numa pessoa”.

“Cada palavra tem um peso. E unindo a palavra e a harmonia ela tem um cunho muito maior e consegue tocar muito mais as pessoas. A música tem uma energia, tem a palavra, e quando tem tudo que te toma, a música tem muito mais que oferecer, para além do lazer.” Assim como em seus poemas e grafites, o jeito como canta suas letras e a sua voz, entrecortada pelos sons de carros e buzinas da cidade, é um tibum no oceano urbano.

Comentários
Uma resposta para “Escafandrista urbano”
  1. Belo texto Roger Marzochi. Belo texto! Bela reportagem!

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