Corações e mentes

As várias mágicas da música

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Solidariedade talvez seja uma das maiores “mágicas” que a música estimula em quem ouve e em quem a produz. No caso dos artistas, vários são os exemplos de momentos em que algo mágico acontece, mudando suas carreiras e abrindo novas perspectivas. Este texto busca contar a história de três bandas, de estilos musicais e estágios diferentes, que têm experimentado essas transformações inexplicáveis e que, de forma direta ou indireta, retribuem à sociedade toda a inspiração que dela se originou: o Grupo Araticum, Beatriz Azevedo & Bárbaros Tecnizados e o cantor Peu.

Você tem amigos ou parentes morando na Europa? Caso positivo, aceitaria incentivá-los a dar algum tipo de apoio voluntário para cinco músicos brasileiros? É esse tipo de apoio que busca o Grupo Araticum, que de 29 de julho a 26 de agosto, estará no Velho Continente fazendo a turnê de “Tarde”, o primeiro CD do grupo, com músicas autorais. E, por mais incrível que pareça, essa simples iniciativa está dando resultados. Escute o CD, lançado em setembro do ano passado, e entenda o porquê: http://grupoaraticum.com/album/tarde-2/.

Dicas de casas noturnas, de cidades com tradição de músicos de rua, albergues, parceria com restaurantes, um café com bolachas, fotos dos shows feitas por fotógrafos profissionais ou amadores, toda e qualquer ajuda é bem-vinda, explica Vinicius Pereira, contrabaixista do grupo. Com a ajuda dos amigos e dos amigos dos amigos do grupo a turnê já se expandiu. No início da campanha colaborativa, a previsão era rodar pela França, Alemanha e Holanda. Já estão na rota agora, com grandes chances de se concretizar, shows na Suíça e Bélgica.

“Nós nos escrevemos em todos os projetos de programas instrumentais do Brasil e não pegamos nenhum, nem com as críticas positivas, não conseguimos pegar nenhum festival no Brasil. Com isso tudo, nos disseram que o mercado está lá fora, que depois que a gente voltar do exterior, a galera aqui passa a contratar, é o ‘efeito Toquinho em Paris’ (risos). E vamos ver se é verdade”, diz o músico.

“Parcelamos as passagens em dez vezes, estamos pagando. E está dando muito certo nossa campanha, recebemos muitas mensagens, de gente oferecendo almoço e jantar. Uma amiga pianista ofereceu a casa para a gente cozinhar e, talvez, poderemos nos hospedar lá. Uma amiga fotógrafa está na Espanha, mas topa ir para o sul da França para cobrir o show. Essa primeira turnê vai ser na raça.”

Na Bretanha, eles foram orientados a tocar na rua. “Vamos se capitalizar na Bretanha. Tem amigos que fizeram 600 euros tocando um dia inteiro na rua, é muito melhor que em casas de shows”, diz. “Sem falar a venda de disco, que disseram que a galera compra. E vamos descobrir se isso é verdade mesmo.”

O primeiro apoio para a turnê nasceu da amizade dos músicos do grupo com o trompetista e produtor cultural Romain Quartier, de Toulouse, no sul da França, onde o grupo fará a sua primeira apresentação. Na Alemanha, outro amigo já conseguiu albergue para o grupo ficar e apoio de alimentação em um restaurante em Roterdã, entre vários outros amigos e conhecidos que os músicos do grupo fizeram em apresentações na Europa com outras bandas.

Em um show do Projeto Coisa Fina na Holanda, por exemplo, Pereira fez amizade com um artista plástico, que faz pinturas ao vivo enquanto os músicos se apresentam e que, agora,  apoiará o Araticum, num show que o músico tem grandes expectativas. “O que queremos com a turnê, não é pedir dinheiro, mas que as pessoas possam mandar ideias. A gente aceita cobertura fotográfica feita pelo celular, qualquer demonstração de apoio é bem-vinda. Melhor do que tudo é que, independente dos contatos e colaborações, temos recebidos comentários muito bons falando sobre a nossa música. E são pessoas que, no mínimo, vai levar público para as apresentações, estamos formando público.” Leia o texto sobre o lançamento do CD no link: http://www.entresons.com.br/?p=689.

O som do teatro - Integra o Araticum o multi-instrumentista Ângelo Ursini, que também faz parte da banda da atriz, cantora e poetisa Beatriz Azevedo, que é prova da mágica que a música proporciona. Ela está lançando neste ano, pela gravadora Biscoito Fino, o seu primeiro CD ao vivo de um show feito em Nova York, para o projeto Celebrate Brazil, realizado por Film Society of Lincoln Center, ImageNation e Itamaraty. O detalhe: “AntroPOPhagia”, o quarto CD de sua carreira, só chegou agora ao mercado porque o técnico de som Justin Bias decidiu, por conta própria e sem avisar a banda e a direção do Lincoln Center, gravar toda a apresentação em uma mesa de som das mais desenvolvidas.

“Eu, desde criança, escuto essas historias de que algo mágico acontece. E estava em NY, com gente falando inglês, buscando focar no show no ao vivo… Porque sou uma pessoa do sagrado, do efêmero (que é o teatro). E você imprime toda a energia no ar, e quem está lá captou. Amanhã será outro dia, o show vai sair de cartaz, não existe mais. Eu venho desse referencial e as coisas acontecem assim. E fiz o show com essa ideia. E vem essa vibração, de como as coisas acontecem”, explica Beatriz, dizendo que se soubesse que o show seria gravado, talvez não teria toda a espontaneidade no palco, pela pressão que o registro imprime.

Beatriz reforça o “sagrado” e o “efêmero” no teatro com base em um artigo de Fernanda Torres, divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, com o título “Artistas”, que pode ser lido na íntegra por meio do link: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernandatorres/2014/05/1461909-artistas.shtml.

“Artistas” debate sobre a marginalidade do teatro ao longo dos tempos, o desconhecimento do público sobre o ofício do ator e a visão estreita de muita gente, que achou que Fernandinha deixaria de ser atriz no momento em que se fez também escritora. No artigo, ela cita um trecho de uma aula ministrada por sua mãe Fernanda Montenegro para jovens atores, na Casa das Artes de Laranjeiras: “Na verdade, nenhuma atuação teatral viva pode ser arquivada, gravada ou exposta, como, por exemplo, um texto de Ésquilo, uma partitura de Beethoven ou um quadro de Da Vinci. Nossa caminhada pelos séculos se fez através de uma trajetória subliminar, subterrânea e, até mesmo, subversiva. Um ator, que viu um ator, que trabalhou com um ator, que foi discípulo de um ator.”

“O teatro só existe naquele instante. É impossível replicá-lo. Essa incapacidade o coloca a reboque das artes nobres e arquiváveis. Sobretudo na ordem econômica atual, voltada para a vastidão de internautas ávidos pelo milagre da multiplicação de bytes”, completa Fernanda Torres. “Trata-se de uma missa de corpo presente, baseada na observação íntima e recíproca. Uma invenção que nasceu na pré-história, junto com o arado e a roda. Dela, se originaram inúmeras formas de expressão ligadas à dialética, à gramática, à aritmética e à música; à matéria e ao espírito.”

Técnico de atitude - Justin surgiu na vida da cantora por indicação do amigo percussionista Cyro Batista, que foi convidado para ver o show, mas como estava viajando disse que não estará lá, mas convidaria esposa e filho para ir ao evento e, de quebra, indicaria o técnico que sempre trabalhou com ele. “E fiquei superagradecida, com um superengenheiro de som. Falei com o cara, trocamos e-mail e, chegando lá, fizemos a passagem de som e o cara entendeu que eram composições próprias e arranjos diferentes”, lembra Beatriz, que disse que o técnico ficou impressionado com a versão que ela fez de “What is this thing called Love?”, de Cole Porter, com uma levada de jongo, ritmo de terreiro.

E no show, a banda entrou com a inspiração de fazer a melhor apresentação. Era uma noite, uma única noite, era o agora, que se perderia para todo sempre no ar, apesar de o maestro Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz, já ter dito em uma entrevista: “Quando se toca uma nota, ela se propaga eternamente.”

“No outro dia, o técnico disse: ‘Bia você trouxe um HD externo?’ Eu disse não, trouxe violão, partitura e a roupa do corpo. ‘Acho bom você comprar um HD.’ Mas como assim? Eu respondi, obrigado, mas tá tudo tranquilo. ‘Eu gravei o show todo em canais ao vivo’. No dia seguinte do show, cai a ficha que o técnico tinha sido genial, teve atitude, por conta própria sem perguntar pra banda, Lincoln Center, nada.  Ele fez sem nos contar. Com isso, foi o CD é ao vivo mesmo, porque tem esse frescor e a verdade”, afirma, explicando que, muitas vezes, os CDs ao vivo dos grandes nomes da MPB, nem sempre são tão ao vivo assim, uma vez que o músico chega em alguns momentos a repetir a canção porque não teria ficado bom o som deste ou daquele instrumento, ou mesmo porque errou a letra. Mais informações sobre o disco, no link: http://www.loja.biscoitofino.com.br/beatriz-azevedo-2.

“Por muitos anos, eu tenho sido o gerente de turnê e engenheiro de som do percussionista brasileiro Cyro Baptista. Trabalhando com Cyro eu aprendi muito sobre música, mas ainda mais sobre a vida. Se ele me ensinou uma coisa é que fazer apenas um pouco mais de esforço pode dar uma grande recompensa”, diz Justin. “Quando eu conheci a banda – todos nós nos dávamos muito bem. Então, quando chegou a hora de fazer o show, eu pensei que seria um bom presente para eles se eu fizesse uma gravação. Estou tão feliz por eles poderem usar a minha gravação para o álbum. Na verdade, eu não tive a oportunidade de ouvir a mixagem final ainda – mas eu não posso esperar para ouvir!”

Há 15 minutos – Já Pedro Fávaro Neto, que decidiu usar o nome artístico de Peu, está no início da sua carreira com a música, e deve lançar primeiro um EP com cinco músicas que se chamará “Estaca Zero”, para depois lançar um CD com dez músicas, ainda sem nome. “Estaca Zero” é, aliás, uma música composta pelas suas irmãs Tatiana e Mariana e pelo seu pai, Pedro Fávaro Jr. Duas músicas dessa nova fase que ele chegou agora aos 25 anos, após tocar em várias formações em bares de Jundiaí, podem ser conferidas no site: www.peuofficial.com, no link “mídia”.

A mágica experimentada por Peu começou com o apoio da família, que o incentivou a seguir o caminho da música após iniciar e não completar quatro faculdades, dando valor para as suas 200 canções, que começaram com protestos políticos em uma banda de punk rock e que hoje se concentram em temas de amor, encontros e desencontros, numa mistura de MPB e pop, apesar das críticas ao estilo feitas por Hermeto Pascoal, que Peu conheceu aos dez anos em um projeto musical desenvolvido pelo bruxo na cidade. “O contato com ele desperta paixão, por mostrar que a música não tem limite, por isso que amo muito a música. Mas opinião todo mundo tem a sua (sobre estilos musicais), mas eu acho que a minha opinião é fazer o trabalho bem feito. Eu gosto de todo tipo de músico, não importa o estilo, sendo boa…”

Eu  o ouvi pela primeira vez, quando trabalhava ao lado do seu pai, que usou a música “Há 15 minutos” como ring tone do seu celular. A música de Roberto Morandini Jr. e Pedro Neto, cantada por Pedro Neto com o amigo Juninho, soava constantemente do celular de Pedro Pai, que depois me mostrou a música completa no link: https://soundcloud.com/#marifavaro/estava-te-esperando.

A música não estará no EP e no CD, mas senti a minha mágica com ele a partir desse som, sem contar que se não fosse por Pedro Pai, eu não estaria aqui agora escrevendo estas linhas. Em um curso de produção na Escola de Música e Tecnologia (EMT), Peu teve aula com o músico e produtor Fernando Quesada, das bandas Shaman e Norturnall, que conheceu algumas composições do aluno e propôs uma parceria, para gravar o primeiro disco. “E meu pai e minha família inteira sempre me apoiaram nas decisões, principalmente agora. Foi no ano passado, em março, que percebi que não dava mais para viver sem música, que era isso que eu queria realmente fazer. E, em três ou quatro meses, apareceu o Fernando. É louco, o universo conspira a favor.” A música, a arte como um todo, já é uma expressão política, querendo ou não. É a expressão da mágica maior: fazer com que a vida se sobreponha ao gás lacrimogêneo.

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