Escultor das águas

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Saxofonista de free-jazz molda o som com a mesma facilidade com que se dá forma ao líquido mais precioso da Terra, às vezes suave, noutras extremamente violento

Roger Marzochi, do entresons.com.br / Foto de Angela Conner da escultura “Renaissance” em Hatfield House, Hertfordshire, Inglaterra/Wikimedia Commons

Pode ser uma fina garoa, as ondas do mar ou um tufão junto com rodamoinho no oceano ao mesmo tempo. Assim como o meio ambiente dá forma à água, Ivo Perelman molda o som de seu saxofone da mesma forma impressionante. Em seus últimos dois discos é possível perceber, de formas muito bem distintas, essa sua capacidade.

Em “Efflorescence”, caixa com quatro CDs lançada em outubro, o músico brasileiro, em parceria com o pianista americano Matthew Shipp, expressa uma suavidade inventiva e inspiradora, até mesmo romântica; enquanto que em “Ineffable Joy”, lançado em novembro, afoga o ouvinte nas piores tormentas inimagináveis.

“As notas (musicais) são como a água – elas tomam a forma de quem as está usando. O seu Dó pode fazer alguém chorar, mas o Dó de outra pessoa pode fazer alguém rir. Essa é a beleza da criação: não temos que seguir a mesma linha para conseguir os mesmos resultados”, disse Ornette Coleman, saxofonista americano, um dos principais criadores do free-jazz, em entrevista à revista Down Beat, em 1986, segundo citação da Coleção Folha Clássicos do Jazz.

EfflorescenceApós a harmonia chegar a um alto nível de complexidade com o Jazz Bebop, Coleman dá início a um movimento que influenciaria até mesmo John Coltrane, tocando músicas nas quais não há hierarquia de instrumentos, livre de melodias e harmonias. “Free Jazz”, disco gravado em 1960 pelo sax alto nascido no Texas em 1930, batizou de vez esse movimento, criando ferozes críticos entre tantos outros importantes apoiadores.

É comum, até hoje, em pleno século 21, ouvir de um jovem saxofonista comentários maldosos sobre outros colegas. “Fulano é uma fraude”, já ouvi, quando era repórter, algo parecido de um grupo de músicos em momento descontraído. “É fácil enganar o público”, emendou o outro, num show há anos numa casa na Vila Madalena. Coleman ouvia isso e muito mais. Chegou a ser espancado ao fim de um show.

Era comum grupos de pessoas deixarem seus shows, indignados. É triste, mas eu vi isso acontecer duas vezes: na peça “Dilúvio”, de Gerald Thomas, no Sesc Consolação; e no show de Ivo Perelman no Sesc Pompeia, em julho deste ano. Perelman e Shipp tocaram em plena sintonia uma música na qual não há nada pré-estabelecido, um tipo de música que poderia ser vista entre um riacho a um rio Tocantins, grande e caudaloso.

Como à época estava lendo livros do físico Marcelo Gleiser, após fazer uns freelas para a Galileu, eu viajei no chamado “princípio da incerteza”. Eu explico um pouco disso, aliás, no texto que escrevi dos meninos Daniel Grajew e Túlio Araújo. Leia, não tenha preguiça. E ouvir “Strings 3”, no qual o saxofonista toca com violinista Mat Maneri e o trompetista Nate Wooley, lançado em março deste ano, reforça uma viagem interestelar, que inspirou o ping-pong que anunciava o show. Muitos outros ainda preciso ouvir.

Assim como no teatro pós-moderno, o free-jazz é uma caixa de surpresas. Não há melodias que o ouvinte pode se segurar nesse oceano. Vez ou outra surge alguma coisa que faz a nossa memória buscar um trecho de uma música já ouvida. Mas a base é o jazz improvisando, explicou-me Shipp, a improvisação supera a memória auditiva de músicas que já existem.

Quando eu improviso, vez ou outra, descubro em mim mesmo uma melodia que já existe em minha mente, de músicas já gravadas na alma. Geralmente, vou atrás dela, imaginando a delícia em descobrir que sei uma música sobre a qual não havia pensado previamente, num processo de descoberta. Perelman e Shipp fazem o contrário, desviam dessas memórias em busca do novo. É um processo poético muito bonito, que me foi despertado pelo incrível quarteto À Deriva, que faz um flerte com a improvisação do free-jazz no magnífico “Suíte do Náufrago” (2010), inspirado pelo saxofonista Beto Sporleder.

Ineffable JoyE com a imensa técnica de Perelman, o ar flui com incrível plasticidade. E com a experiência de Shipp, os acordes são construídos ao sabor da correnteza. Mas é de se entender a repulsa que esse som pode gerar no público. Como saxofonista é que escrevo essas linhas, como músico em constante aprendizado. Não sou crítico musical, nem tenho a mínima pretensão. E nem penso agora como jornalista.

O fato é que “Ineffable Joy”, o último CD do músico, é o próprio furacão com rodamoinho no mar com demônios e tudo mais, bastante infernal. A velocidade de execução chega a beirar o inaudível, com agudos que espetam os viventes, exceto em músicas como “Elation” e “Rejoicing”. O disco conta com o baterista Bobby Kapp, que gravou com Gato Barbieri o disco “Search of the Mystery” quando o músico argentino se enveredou pelas ondas do free-jazz antes da fama. Este disco é também uma quebradeira dos maremotos!

Para Perelman, essa é uma gravação importante em sua vida, feita em uma gravadora americana que apoia o chamado jazz de vanguarda, a ESP, que também recebeu o músico brasileiro. O novo trabalho conta ainda com o contrabaixista William Parker e o parceiro Matthew Shipp. As esculturas de água podem afogar, e nesse completo desespero que senti em “Ineffable Joy”, fiquei agarrado ao meu colchão de ar do romantismo. E você, ousaria navegar nessas mesmas águas bravias?

 

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Velha Maluca embarca em grupo bíblico: San-São Trio

BAIXA de San-São Trio

Lea Freire, Amilton Godoy e Harvey Wainapel lançam “Novos Caminhos”, jazz, choro e sambas em tom camerístico

Roger Marzochi, do entresons.com.br

Em janeiro de 2018, eu visitei a casa da multi-instrumentista Lea Freire, em São Paulo. Deixei o local extremamente inspirado. Ela é uma artista maravilhosa, com uma história de vida muito bonita, capaz de produzir um som incrível e em dar dicas valiosas: é preciso errar. “Minha teoria é que quando você acerta, você está fazendo o que já sabe. Você só faz o novo quando erra”, disse-me, na matéria “Irresistivelmente Maluca”. Ela tem uma linha de camisetas com a estampa “Velha Maluca”, uma autorreferência criativa.

Cheguei em casa, acendi um cigarro em baixo do pé de pitanga, na entrada do prédio, e pensei: é isso que gostaria de fazer a minha vida toda. À época, a ideia era de fazer esses tipos de reportagens a vida toda, impulsionar o blog, fazer jornalismo. Mas, no fundo, era a ideia se jogar na música e errar de braçada. Aos poucos, vou errando. No dia 1º de novembro, entrei de bico numa dupla que se apresentava no Sopa de Letrinhas Sarau, no Bar do Julinho, Vila Madalena.

_AF_SanSaoTrioCapa.inddE o jornalismo, afinal, é uma boa universidade de música. Com o blog, fico sabendo dos lançamentos de discos. E ouvir música boa é uma das principais formas de estudar saxofone. E eis que mais uma novidade de Lea Freire vem ao mundo: “Novos Caminhos”, CD no qual Lea se uniu ao parceiro de longa data, o pianista Amilton Godoy, e ao saxofonista e clarinetista americano Harvey Wainapel.

Juntos, eles formam o San-São Trio, uma fusão entre San Francisco, onde mora o músico apelidado de “O Árvore” por Hermeto Pascoal, e a São Paulo de Lea e Amilton. Não há Dalila que possa tirar a força desse “San-São” lhe cortando as madeixas. O trabalho, também disponível em CD físico e streaming digital, reúne 11 composições: quatro de Amilton; sete de Lea, sendo que “Samba do Árvore” é a única composição nova do disco, em homenagem a Wainapel. Parece pouca novidade, mas não é. As outras composições já gravadas no trabalho dos mestres em outros momentos da vida estão com novos arranjos para o trio e são clássicos como a “Fé”, de Lea, música na qual a musicista assume o piano.

A sinergia entre Lea na flauta transversal e O Árvore no sax alto, soprano e clarinete é incrível em uníssonos e em contracantos, tudo muito harmonioso. O espírito “camerístico” é, na minha audição, talvez a única coisa que acho estranho, uma vez que a sonoridade está muito limpa, coisa dos temíveis eruditos.

Se não fosse por isso, Wainapel daria mais motivos para fazer saudade a Paulo Moura, que no alto da sua popular erudição, era mais ousado também nas notas dissonantes. E, sem dúvida, como vou estudar para chegar perto – ou longe mesmo que perto em sonho -, de um timbre de sax alto como O Árvore alcança. Com ele, não tem quebra galho. O gringo já tocou com mestres como Ray Charles, Dave Brubeck, Johnny Coles e Joe Lovano.

E, ao mesmo tempo, ele espalha seus ramos em choros e sambas, tendo grande paixão pela música brasileira. Wainapel tocou com brasileiros como Airto Moreira, Dori Caymmi, Guinga, Jovino Santos Neto, Laércio de Freitas, entre outros. “Ser convidado para unir forças com esses dois músicos e compositores brilhantes é uma grande honra, certamente um ponto alto na minha vida musical. A paixão e dedicação deles são tão inspiradoras; a pura alegria que eles mostram em fazer música é contagiante”, diz O Árvore, segundo a assessoria de imprensa do San-São Trio.

Enquanto soam nos botecos das cidades brasileiras – e nas redes de televisão e internet – sucessos do quilate de “Caneta Azul”, veja aqui onde você pode ouvir ao vivo esse trio bíblico:

16/11 – Guarda do Embaú

30/11 – Campinas

07/12 – Belo Horizonte

 

*Depois da pregação, é hora de passar a sacolinha. Entre em https://benfeitoria.com/entresons para deixar a sua contribuição especial de Natal e Ano Novo.

 

Esculturas sonoras tornam toda orelha ‘absoluta’

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Saxofonista ícone do free-jazz e artista plástico brasileiro radicado em Nova York lançará na quarta-feira, dia 13 de novembro, sua primeira coleção de joias na Central de Designers, em São Paulo

Roger Marzochi, do entresons.com.br                 Crédito das Fotos: Almir Pastore

Você já ouviu a expressão “ouvido absoluto”? Ela se refere à capacidade que algumas pessoas têm em saber, apenas ouvindo, qual é a nota musical que está sendo tocada, em qualquer instrumento. Essa habilidade muito desejada entre os músicos, que pode ser desenvolvida com estudo e paixão, ultrapassa todos os limites da pauta musical pela criatividade do brasileiro Ivo Perelman.

O saxofonista ícone mundial do free-jazz e artista plástico radicado em Nova York lança, na quarta-feira, dia 13, sua primeira coleção de joias em evento em São Paulo na Central de Designers (Alameda Lorena, número 1616, das 17h às 21h). São dez brincos e um pingente que trazem não apenas ouro, prata e pedras preciosas em sua composição, mas verdadeiras expressões musicais.

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“Essas peças são solos de saxofone transformadas em brincos”, afirma Perelman

“Essas peças são solos de saxofone transformados em brincos”, afirma Perelman, que está no Brasil desde julho para comemorar seus 30 anos de carreira na música e o lançamento da primeira caixa com quatro CDs do projeto “Efflorescence”, em parceria com o pianista americano Matthew Shipp. “O design vem da música, que se congela em imagens que remete de volta à grafia da música. Suas curvas são viagens ondulantes da nota musical.”

Não espere encontrar símbolos tradicionais da escrita musical como claves de sol, colcheias e semicolcheias. Como a mais poderosa antena de sentir o universo, Perelman capta a energia do ambiente e de sua conexão com a sociedade para tocar livremente saxofone, sem as convenções musicais tradicionais. Essas expressões intuitivas, extremamente influenciadas pela música, buscam representar a expansão das ondas sonoras no ar, bem como seus efeitos em quem as ouve.

As imagens se parecem com a escrita oriental, em algumas vezes. Algo parecido fazia o escritor russo, pedagogo e diretor teatral Constantin Stanislávski, que criava hieróglifos para registar a melodia interior dos papeis no teatro, “como se fossem melodias musicais”, escrevem Elena Vássina e Aimar Labaki no livro “Stanislávski: Vida, Obra e Sistema”, publicado pela Funarte.

As pinturas de Perelman, não entanto, não são reproduzidas em seus brincos e pingentes. “Eu gosto do novo, do lúdico. Quero ter a experiência que uma criança tem em ver tudo pela primeira vez. Essa experiência lúdica infantil é catártica, é redescobrir o mundo de novo. Eu não me repito. Quando eu esbarro em algo que já conhecia eu o evito, na música e na pintura e, agora, nas joias. O meu prazer é ver o novo na medida do possível, é tudo um processo que evolui e vai se expandindo.”

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“Eu gosto do novo, do lúdico. Quero ter a experiência que uma criança tem em ver tudo pela primeira vez.”

A sua transição do ouvido das pessoas para a orelha das mulheres começou também há 20 anos, aproximadamente no mesmo momento em que o artista iniciou suas pinturas. Perelman produziu algumas peças, mas avaliou que não era o momento de dar prosseguimento ao projeto. Em julho deste ano, com uma exposição de seus quadros em São Paulo, ele recebeu incentivo para transformar suas imagens em esculturas. Foi quando o responsável pela fundição das peças explicou a Perelman que as imagens eram delicadas o suficiente para serem trabalhadas por um ourives.

Essa ideia simplesmente fez desaguar o fluxo criativo do artista que, com base em novas técnicas computacionais, pode realizar agora o seu projeto de design com liberdade e criar a Ivo Perelman Jewels. “Pensei nesse momento que era o tempo de voltar com o projeto. E segui o fluxo. É quase como pensar no mundo nano. Costumo gravar CDs de uma hora, realizar pinturas de um metro e meio. E, agora, estou no mundo microscópico, delicado. Em contato com a pele da mulher a escultura toma outra proporção.”

As joias podem ser encontradas em ouro maciço de 18 quilates, prata banhada em ouro e prata. Há entalhado nas peças também pedras preciosas como esmeraldas, brilhantes, turmalinas e topázios. “Mas o forte disso é a concepção rítmica. As joias nasceram num útero musical, não é de um joalheiro, senão por extensão da práxis. Estou há 40 anos tocando saxofone: acha que, da noite para o dia, vou deixar de pensar que estou tocando saxofone? Eu toco quando realizo minhas obras de arte e minhas joias, nas quais você pode encontrar o som dos grandes mestres do jazz e a minha própria digital.”

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A primavera de Heitor Branquinho

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Músico mineiro radicado em São Paulo retoma sua vida na música com o lançamento de “Três”, álbum com influências de Milton Nascimento, Nando Reis, Roberta Campos …e jazz

Roger Marzochi, do entresons.com.br  no Projeto eLab#Sons

Músicas de amor geralmente são endereçadas a companheiras, companheiros e companheirxs. Gente de carne e osso. O mineiro Heitor Branquinho, nascido em Três Pontas, mesma cidade na qual viveu Milton Nascimento e com quem o jovem compositor e cantor teve o privilégio de se somar ao palco em diversos momentos, direciona a sua paixão ao seu retorno à música em “Três”, seu terceiro disco após 11 anos de “um Branquinho e um violão”, no qual apresentava suas composições acompanhado apenas de seu violão com cordas de nylon.

Gravado no segundo semestre de 2018, o álbum vinha sendo construído sem pressa desde 2015, com a parceria do saxofonista Décio “Buga” Jr. E, agora, Heitor toca violão com cordas de aço e, em alguns momentos, contrabaixo elétrico, sendo acompanhado de bateria, saxofone, flauta. Em alguns momentos, entram em cena também piano, violoncelos e até guitarras em uma canção. Com inspiração profunda em Milton Nascimento, especialmente no período do eterno Clube da Esquina, e pitadas de rock e pop de Nando Reis, o álbum ainda tem a participação do maestro e também conterrâneo Wagner Tiso em arranjos para cordas e piano.

Não era para o álbum ter qualquer nome, o que foi resultado da imposição do formato digital, que exige o título do trabalho. Em razão de uma viagem à Veneza, na Itália, em 2010, Heitor percebeu que fizera muitas fotos nas quais apareciam sempre três elementos repetidos nas cenas: três barcos, três portas, três janelas. Uma dessas imagens, inclusive, foi escolhida para ilustrar a capa. A ideia era para que fosse uma mensagem subliminar, tanto que o nome “Três” está só no trabalho distribuído nas plataformas de streaming e no logotipo de seu nome no novo álbum: H3ITOR 3RANQUINHO.

Mistério e tecnologia - “O três tem muito significado. Eu toco três instrumentos: violão, baixo e pandeiro; tenho três irmãos; sou de Três Pontas; minha mãe é de Três Corações. E você vai vendo tanto significado que o três tem na vida. Quando viajei fiz várias fotos de coisas em grupos de três. Já fiz numerologia e o três abre os caminhos, ele chega às pessoas”, explica Heitor. O lançamento do trabalho também acompanhou essa numerologia. No dia 3 de julho, o álbum foi lançado no exterior, no dia do aniversário de Três Pontas, quando o músico estava fazendo um intercâmbio na Inglaterra. No dia 12 de setembro, o músico lançou o “Bundle – Três”, dois singles no Brasil: 1+2=3! E, finalmente, no dia 30 de setembro, o disco inteiro foi lançado no país.

Capa - Três

“O três tem muito significado. Eu toco três instrumentos: violão, baixo e pandeiro; tenho três irmãos; sou de Três Pontas; minha mãe é de Três Corações. E você vai vendo tanto significado que o três tem na vida”, diz Heitor Branquinho sobre a imagem da capa do trabalho que inspirou “Três”.

“Segundo a numerologia esotérica, o três contém as qualidades da manifestação, com as qualidades máximas da comunicação e da alegria de viver. Ele transborda o dinamismo, é radiante e transporta todos ao estado de entusiasmo”, explica a taróloga sensitiva Bel Aidar à reportagem. “Um ser que possui o 3 em sua numerologia natal tem o dom artístico, cultiva os prazeres da vida, os romances, as artes e as belezas em geral. Tem imaginação criativa e permite que tudo seja possível.” Heitor nasceu no dia 30 de setembro.

Além da numerologia, Heitor também acredita na tecnologia. Ele desenvolveu, em parceria com Leonardo Amorim de Oliveira, aluno da Faculdade de Computação e Informática (FCI) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, um aplicativo de realidade aumentada, por enquanto disponível na Apple Store. Por meio desse aplicativo, o usuário que mirar a câmera do celular para a capa do CD terá uma surpresa: as janelas fotografadas por Heitor em sua viagem a Veneza se abrem para paisagens e músicas. No caso do LP, há ainda a opção de navegar pela contracapa, com acesso a outras três músicas. O aplicativo ainda dá acesso à ficha técnica do trabalho. “É uma coisa muito moderna juntamente com algo vintage”, explica o músico.

Tempero da vida – O álbum abre com a música Um Refrão para Recomeçar, composição que Heitor fez em parceria com a cantora e compositora Roberta Campos, que está comemorando dez anos de carreira, na qual embalou muitas cenas de novela. Heitor conheceu a também mineira Roberta em saraus, quando a cantora estava lançando seu primeiro trabalho independente, que recebeu muita influência de Nando Reis. Essa mistura de Clube da Esquina, Nando Reis, Roberta Campos, pop, MPB, jazz e rock desagua no arranjo para violoncelo de Wagner Tiso, parceria que vai se repetir em outras três músicas do trabalho. “É uma letra que passa uma verdade, parece um casal brigando, que depois de tudo quer fica bem, escuta uma música para recomeçar e vencer as adversidades. E se encaixa muito bem com o momento que estou vivendo: depois de 11 anos sem lançar disco é um recomeço. É muito mais que um começo.”

Essa mesma energia pode ser interpretada dessa forma, segundo o músico, em Rodopiava. Heitor iniciou o estudo do piano aos seis anos e do violão, aos 10. Aos 13 já se apresentava nos bares de Três Pontas, num envolvimento crescente com o público: participou do DVD Pietá de Milton Nascimento, integrou o grupo Änïmä Minas, criado para apresentações em lançamentos do livro de Maria Dolores “Travessia – A Vida de Milton Nascimento” (Record) e integrou o CD de Bituca “…E a gente sonhando”.

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Heitor volta aos palcos após ter investido no nos estudos: formado em História, fez uma pós-graduação em Gestão Cultural, nova graduação em Administração de Empresas e uma importante certificação no mundo dos vinhos – WSET3

Neste último trabalho, Heitor cantou com Bituca “Olhos do Mundo”, canção sua em parceria com Marco Elizeo. E também participou do coro presente em várias das músicas do disco. Depois dos shows desse álbum, que terminaram em 2011, Heitor se afastou dos palcos. Ele investiu mais nos estudos. Formado em História, fez uma pós-graduação em Gestão Cultural, nova graduação em Administração de Empresas e uma importante certificação no mundo dos vinhos – WSET3. Heitor é enófilo, paixão que o fez escrever “Violáceo”, música de “Três”, com participação do baixista Yuri Popoff. Esse amor pelo vinho ainda o levou a criar um perfil no Instagram apenas para abordar esse tema: @harmonizacom.

Das 12 canções de “Três”, apenas “Tierra América” não é de Heitor. A composição, de Keco Brandão e Pedro La Colina, é em espanhol, e passeia pela natureza das Américas, clamando por sua unidade e pelo olhar atento aos índios. “Hasta” é instrumental, com muita influência de Milton Nascimento, e melodias andinas. Heitor ainda fez parceria com Claudio Nucci, compositor e ex-integrante do grupo Boca Livre, canção com participação de Wagner Tiso ao piano.

O músico trespontano também faz parceria com Danilo França em Outros Meios, uma música que revela que o amor no mundo também se expressa nas adversidades. Em Meu Bem, música de Branquinho com Marcelo Sarkis, há participações especiais de Marco Elizeo (guitarra), Ismael Tiso Jr. (guitarra solo) e Ademir Fox Jr. (Hammond e Fender Rhodes), três amigos e companheiros nos palcos de longa data de Três Pontas.  O ritmo de todas as canções de “Três” foi ditado por Thadeu Lenza na bateria e por Sidiel Vieira ao baixo acústico.

Poesia contemporânea – Entre as mais bonitas músicas do disco estão Soleira e Calhas. Nesta, o irmão Hugo Branquinho, também cantor e compositor, assina com Heitor a composição e os vocais, numa grande meditação sobre as voltas que a vida dá; naquela, Wagner Tiso assume além dos arranjos de cordas, o piano, fazendo uma composição transcendental e, ao mesmo tempo, minimalista nas letras, uma poesia contemporânea.

As duas últimas canções do álbum são vistas por Heitor com estética diferente do trabalho, por isso carregam também o nome de faixas bônus – que ficaram fora do vinil pela restrição de tempo. Em Computador, Branquinho grava solo seus três instrumentos, fazendo uma reflexão sobre os tempos modernos e em Não Acredito, parceria com Fernanda Mello, letrista conhecida por escrever sucessos da banda mineira Jota Quest. Nesta última, Heitor teve ainda a contribuição de um grande amigo, que partiu para a espiritualidade, Carlos Assad, mas que deixou gravados pianos, hammond, gaita e um arranjo de cordas.

É por essas e outras que Milton Nascimento teve que se explicar após ter generalizado que a “música brasileira está uma merda”, como disse em entrevista à Folha de São Paulo, publicada no dia 22 de setembro de 2019. Depois, nas redes sociais, Milton explicou que se referia ao “mainstream do mercado nacional”. Está explicado. Mas a culpa disso é dos meios de comunicação ou da audiência? Este é um tipo de dilema que Heitor prefere não discutir. Em São Paulo há 12 anos, tudo que o músico deseja é levar a sua voz para o público, onde quer que ele esteja.

 

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No tom da fé

Caboclo Pena Verde

Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, em São Paulo, lança seu primeiro CD em plataformas digitais com canções autorais compostas pelos seus fiéis

Roger Marzochi, do entresons.com.br / Arte da Capa do CD feito por Menelua

A música é ciência e, paradoxalmente, religião. Aceitando a acepção dessa palavra do grego “religare”, de atar novamente, de reconexão com as origens, o uso da música para ascender ao sagrado é tão antigo quanto a humanidade. E vem do eco ancestral dos primeiros tambores a soarem na África o primeiro disco digital do Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, localizado na zona oeste de São Paulo. Lançado em agosto de 2019 nas plataformas digitais, o CD tem 18 canções próprias, compostas por membros da congregação e pela dirigente espiritual da casa, Rosângela Bologna. Nem sempre as canções são exatamente as mesmas utilizadas no ritual religioso, mas são expressões artísticas fundamentadas na fé.

“A Umbanda tem toda essa relação da musicalidade, que ajudar na estrutura de energia da casa, ao trazer a história de seu guia e o orixá trazem. Quando tem oportunidade, a gente canta. A ideia era fazer um álbum de pontos, de guias de orixá. Mas reestruturando acabaram entrando outros instrumentos e ficou mais uma música de Umbanda para a gente ouvir ao invés do ponto tradicional”, explica Rosângela, que sonhava com o projeto há seis anos.

O “ponto”, explica Igor Bologna, filho de Rosângela, é como que a interpretação das mensagens recebidas pelos médiuns. “Esses pontos cantados podemos enxergar como algo a ser desatado, algo metafórico. A mensagem chega carregada de vários sentidos e você vai desatar esse ponto dentro da manifestação religiosa. E você consegue desatar os pontos de acordo com o seu repertório cultural e sua vivência dentro dos terreiros.”

Há um ano, o sonho de Rosângela começou a se tornar realidade quando o musicoterapeuta Daniel Braga Lima soube desse desejo. Além de músico, ele é dono do Estúdio Damata, no Jaçanã, e tomou a liderança do projeto, reunindo todas as pessoas interessadas em participar de ensaios e da gravação. Pós-graduado pela FMU em Musicoterapia Organizacional e Hospitalar, Lima defendeu a tese “Ciência da Musicoterapia na Umbanda Sagrada”. Lima ainda é professor de yoga e toca vários instrumentos.

Daniel Lima e Curimba

“Cada pessoa tem uma identidade sonora que se constrói durante a vida, mas também no momento de formação na barriga da mãe”, diz Daniel Lima, o primeiro da direita para a esquerda na foto de divulgação.

“Quando falamos de musicoterapia, é diferente de escutar música e sentir relaxamento ou felicidade ao ouvir a música que gosta. Na musicoterapia, de forma sucinta, o musicoterapeuta identifica a identidade sonora da pessoa. Cada pessoa tem uma identidade sonora que se constrói durante a vida, mas também no momento de formação na barriga da mãe. Identificando essa identidade sonora, o musicoterapeuta usa essa identidade sonora para auxiliar em algum processo terapêutico que aquela pessoa está passando”, explica Lima.

Para ele, os processos religiosos são muito terapêuticos. “A música tem um papel importante dentro das religiões. Cada pessoa tem uma identidade sonora no campo da psicologia transcendental. Se uma pessoa que escuta um louvor evangélico e aquilo toca a alma, traz coisas boas para ela, é um recurso terapêutico de uma egrégora religiosa. Quando ouvi pela primeis vez os pontos cantados da Umbanda me trouxe uma felicidade que há muito tempo não sentia. Fiquei apaixonado pela música.”

Rosângela não apenas desejava muito o CD, como já havia escrito uma letra, que ficou registrada na música “Oxum, Senhora da Minha Vida”. A música foi composta por Igor Bologna, estudante de teatro e percussionista, filho de Rosângela. Lima também compôs músicas como “Mãe Oya”, “Obaluaê, no Seu Cruzeiro” ( com letra de Menelua) e “Caboclo Pena Verde” (em parceria com Rosângela), além de participar a maioria dos coros. Ingrid Baracho canta sua composição “Getruê, Getruá Boiadeiros”, uma congada no qual o triângulo se soma aos tambores. Paus de chuva ecoam em “Salve o Povo do Mar”, composição de Mariana Aragão e Taime Gouvêa que flutua sobre o ritmo ijexá. Muitas das canções expressam o que a MPB faz pelas religiões de matriz africana, tornando a música em si uma só religião e amplificando o amor para além do sagrado, como músicos incríveis como Milton Nascimento e Tiganá Santana.

Além de alfaias e agogôs, foram usados os três principais tambores do Candomblé, o lê (agudo), rumpi (médio) e rum (grave). É neste ponto que a Umbanda sofre uma inflexão, um debate histórico sobre o qual não há registros. Em 1908, Zélio de Moraes foi incorporado pela entidade Caboclo das Sete Encruzilhadas durante uma sessão espírita na Federação Espírita de Niterói. À época, os mentores dessa federação determinaram que o espírito deixasse Zélio, pois não era bem recebido naquele local. E, a partir de então, Zélio criou um culto que foi batizado de Umbanda, que se assemelha a uma reunião espírita, mas sem a utilização de tambores, apenas cantos.

O Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum usa a música por avaliar que é um resgate ancestral da religião. “O que busco dizer com minhas pesquisas e aulas, é que na verdade, a Umbanda não tem como se determinar um momento de fundação, porque essas práticas, como são dadas até hoje nos terreiros, estão muito mais associadas à vinda dos escravos para o Brasil. E eles vieram de uma região central da África, porque toda a filosofia e a forma de lidar com os espíritos vêm de filosofia centro africana, de países como Angola”, explica Igor Bologna.

Ele também discorda da versão da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, o centro criado por Zélio, para a definição de Umbanda, como uma palavra derivada do sânscrito que significaria “ao lado de Deus”. “A palavra vem também do Kimbundo, que significa medicina. A Umbanda é a medicina e quem a pratica, seguindo a língua, é kimbandeiro, é o praticante dessa medicina. A deturpação da palavra busca desassociar a uma imagem dos negros, no começo do século 20, que refletem essas tensões com o fim da escravidão, que são ainda muito fortes e acirradas”, afirma. Independentemente das diferenças e ressignificações, a música é capaz de celebrar o mistério da vida.

 

Músicas do CD

1 – Oração do Encontro

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima, Elisandra Figueiredo

 

 

2 – Salve o Povo do Mar

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Mariana Aragão, Taime Gouvêa

 

 

3 – Obá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

4 – 7 Ondas

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

 

5 – Repente

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

 

6 – A Trabalho de Olorum

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Jean Lima

 

 

7 – Obaluaê, no Seu Cruzeiro

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima e Menelua

 

 

8 – Salve Nossa Esquerda

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Bruno Beretta, Patricia Kohn

 

 

9 – Getruê, Getruá Boiadeiros

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Ingrid Baracho

 

 

10 – Caboclo Pena Verde

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Daniel Braga Lima

 

 

11 – Vou Correr o Mundo, Zé Pelintra

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

12 – Ooh Pescador

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna

 

13 – Os Erês

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Daniel Braga Lima

 

14 – Eparrei!

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Ingrid Baracho

 

15 – Mãe Egunitá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

16 – Oxum, Senhora da Minha Vida (ft. Alberto Kohn)

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Luciana Menezes

 

17 – Vovó Catarina

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Mariana Aragão, Mônica Patrícia Lima

 

18 – Mãe Oyá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

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