Novelos de história

Ovelhas na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

Tradição oral no campo se mantém para que trabalhadores lidem com suas próprias emoções; nas cidades, Receita Federal tem projeto de preservação da memória

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto de Andrea Madruga

Você já contou carneirinhos para conseguir dormir? Pois saiba que o trato desses animais inspira muito mais que o sono dos noctívagos. Em Piratini, no interior do Rio Grande do Sul, homens que retiram lãs de ovelhas sem o uso de máquinas, da forma mais tradicional possível, contam entre si histórias de assombrações das centenárias fazendas da região. Em Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, coletores de café também trabalham contando causos. É uma demonstração que vive forte a tradição oral apesar dos avanços da tecnologia.

O trabalho é mais que um meio de se obter recursos financeiros para sobreviver. É, também, um ambiente de socialização que reforça vínculos afetivos e sociais. Resistem até hoje histórias que são contadas no ambiente de trabalho que servem tanto para reforçar tradições, cultivar a memória e relatar experiências de vida. Além de histórias da tradição oral, o trabalho também motiva a memória. A Receita Federal possuiu um projeto chamado “Histórias de Trabalho”, que registra em livros a experiência vivida por servidores no dia a dia de seus escritórios.

Primeiro, vamos ao campo. Os causos de assombração rondam a Fazenda Santa Izabel, em Piratini, propriedade de Andrea Madruga, artesã que há dez anos criou o Fio Farroupilha, ateliê de roupas de lã. Suas mantas, ponchos e outras vestimentas, que traduzem a cultura dos pampas e andina, chegaram aos centros de grandes cidades e conquistaram clientes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e a até nove países.

O desejo do consumidor das grandes metrópoles de estar próximo a produtos que refletem as paisagens bucólicas do campo explica parte desse sucesso, mais vai muito além do designer: a preocupação com a sustentabilidade. O ateliê usa forno a lenha, com madeiras caídas naturalmente no chão, e as tinturas são feitas a partir de raízes e ervas da fazenda Santa Isabel.

A busca por sustentabilidade é seguida, também, pela preservação cultural da retirada de lã das ovelhas, conhecida como “esquila”. Apesar do avanço cada vez maior da tecnologia no campo, Andrea defende costumes antigos que contribuem para valorizar o seu produto final. “É quase uma unanimidade entre os técnicos o uso da esquila Tally-Hi (com uso de máquinas)”, explica Andrea. “Nós ainda utilizamos a esquila à martelo (com uso de tesoura). Nós temos alguns objetivos na criação e no ateliê, que é o de manter o mais tradicional possível, com a menor intervenção química no ateliê e de máquinas na fazenda.”

Esquilador na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

Senhor Nair retira lã de ovelha na Fazenda Santa Izabel, em Piratini, no Rio Grande do Sul, um processo que segue até hoje a tradição de contação de histórias durante o trabalho e alimentação com pratos típicos. (Crédito da foto de Andrea Madruga)

Para ela, a mecanização dessa importante parte do processamento da lã prejudicaria a cultura dos esquiladores. “Se nós levarmos o Tally-Hai para lá, vamos eliminar a cultura dos esquiladores. A cultura dos causos no galpão, das conversas e do barulho das tesouras. Isso tudo faz parte de uma cultura de muitos anos, são séculos de cultura. E queremos preservar isso enquanto estivermos por aqui.”

Durante o processo de esquila, além dos causos contados, muitas vezes de assombração envolvendo fazendas centenárias da região, os esquiladores se alimentam de pratos típicos, como o pastel de carne de ovelha e o arroz carreteiro. “Se inserirmos uma máquina no meio desse romantismo todo, dessas risadas todas e dos causos até de assombração que eles contam, nós vamos transformar a esquila extremamente rápida e totalmente sem graça.”

Reagindo à vida – O filólogo Waldemar Ferreira Netto, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP), já teve a oportunidade de acompanhar as histórias contadas por coletores de café, em Águas de Santa Bárbara, no oeste de São Paulo. O especialista em tradição oral e cultura indígena estava na região e ouviu, por acaso, os causos que eram contados por esses trabalhadores. Essa prática não se transformou em uma pesquisa científica, mas pode colaborar com a compreensão de quão importante é a tradição oral.

“Apesar de a oralidade ter ficado marginalizada em tempos de internet, nos textos online, ela permanece viva. Especialmente em alguns ambientes onde a informação só pode ser transmitida oralmente”, diz Ferreira Netto.

O estudioso lembra que a oralidade tem sua grande força vinculada à forma como educamos as crianças. A narrativa é a maneira mais convincente de mostrar como o mundo funciona. “A criança sente e vive as personagens e as relações e, consequentemente, entende como se comportar no mundo, quando ficar triste, ou como sentir o mundo. Todas essas informações são passadas por histórias contadas oralmente.”

No caso dos esquiladores de Piratini ou, mais precisamente, dos coletores de café de Águas de Santa Bárbara, Ferreira Neto acredita que muitas das histórias têm o intuito de preparar as pessoas sobre coisas que podem vir a acontecer na realidade. “É um processo fantástico de manutenção de comportamentos e questões emocionais, voltada mais para a pessoa saber a conviver com as suas próprias emoções do que replicar comportamentos padronizados. Essas histórias não ensinam como se comportar na sociedade, mas como se deve reagir à vida.” Ele cita, por exemplo, histórias que são narradas para preparar o sujeito para receber a notícia da morte de um amigo ou familiar, por exemplo.

Anjo da lápide – Mas não é apenas em ambientes rurais que a memória é cultivada. A Receita Federal do Brasil promove, há oito anos, o concurso “Histórias de Trabalho”, no qual os servidores contam não apenas suas experiências de vida dentro da instituição, mas até mesmo histórias importantes sobre a constituição de alfandegas.

As histórias de atendimento a casos curiosos são saborosas, como a contada pelo servidor Edson Fernandes da Cunha, de Goiânia, no conto “O anjo da lápide“, publicado em 2010. Ele atendeu um pedreiro que queria regularizar as terras que havia adquirido de uma senhora, morta na década de 1970 aos 87 anos, que não deixou para trás nenhum bendito documento. Era preciso, no entanto, a data de nascimento da vendedora e o CPF para emitir uma certidão negativa. Como não foi possível encontrar o documento em cartórios, o pedreiro arrancou a lápide do cemitério como prova.

O senhor simplesmente levou a placa de mármore negro para dentro da unidade da Receita Federal, em Goiânia. Alertado que isso era crime, o pedreiro voltou para devolver a lápide, mas foi preso em flagrante por profanar uma sepultura. Na delegacia, o cidadão explicou do que se tratava e, inclusive, pediu para que o delegado ligasse para o funcionário da Receita para confirmar a narrativa.

Ao confirmar a história do pedreiro, Fernandes da Cunha achou uma forma de resolver o impasse: pediu para que se incluísse no Boletim de Ocorrência a data de nascimento da falecida, para que assim pudesse resolver o problema da falta de documentação de uma vez por todas. E, como o relato do pedreiro foi fiel, o delegado encerrou o caso. Histórias como essas são publicadas em livros há oito anos e podem ser lidas no site da Receita Federal. Neste ano, os servidores podem escrever prosa e poesias no projeto com inscrições até o dia 28 de setembro.

Dissipando dificuldades - Há histórias que são contadas por líderes no ambiente de trabalho que transcendem as obtusas dimensões da economia. Em 1996, eu trabalhava em um jornal de Americana, no interior de São Paulo, liderado pelo jornalista Paulo San Martin. Toda quinta-feira, ele contava a história de Mushkil Gushá, o dissipador de todas as dificuldades. A história, pertencente à tradição oral iraniana, tem relação com o sulfismo, uma corrente mística do Islã.

Sua voz rouca, a eloquência do alto de uma experiência jornalística admirável, ecoava a trajetória do pobre lenhador que foi ajudado por uma divindade de uma maneira que me hipnotizava. Houve um tempo, anos após meu primeiro contato com essa narrativa, em que tive somente essa história para alimentar a fé e buscar sentido. O novelo de histórias, assim, desata-se em forma de tecidos que cobrem a nossa vida. É a história, seja na tradição oral ou na escrita, que torna rica a nossa existência.

 

Gostou dessa narrativa? Eu sei, a crise está feia. Mas, se for possível, contribua com a manutenção da existência do entresons, com cinco anos de histórias sobre artistas e suas culturas. Clique aqui e conheça um pouco da trajetória de seu autor e formas de contribuição. 

Batismo na Folia de Reis

Gabriel Cobaia foto Facebook

Cantor de 21 anos de Vinhedo ganha público na web e sonha em gravar seu primeiro CD com músicas autorais

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto/Divulgação

Gabriel Cobaia nasceu em Vinhedo (SP), em 1997. Mas desde pequeno, ele viajava para Cambuquira (MG) para visitar o avô, que tocava violão na Folia de Reis. E, assim, todo início de ano, Gabriel se maravilhava com essa festa cristã, com influências africanas, espanholas e portuguesas, que comemora a peregrinação dos três reis magos ao local de nascimento de Jesus, em Belém. Não do Pará, mas da Judeia! Sem confusão, oh seu Matias Cão! “Eu acompanhava a folia, meu avô tocando. Eles iam passando de casa em casa, tocando nas casas e tinham as pessoas vestidas de palhaços. A população acompanhava até chegar na última casa, até ser servido um almoço para todo mundo que estava alí”, lembra Gabriel.

O violão foi passado para o tio, que o repassou para a irmã de Gabriel. Até que o menino, com 12 anos, resolveu se aventurar. “Peguei para aprender e não parei mais”, diz Cobaia, que cursa o último ano de Relações Públicas na PUC, em Campinas. “Além de eu ter influência do meu avô e do meu tio, eu sempre tive grande necessidade de me expressar, tanto através de pintura, arte urbana, grafitti. A música foi o ápice, na qual eu realmente me encontrei.”

Aos 16 anos criou um canal no YouTube. Aprendeu a editar vídeos e a trabalhar o áudio e, dentro de casa, ele começou a realizar gravações. O primeiro vídeo foi uma grande surpresa. Ele gravou uma versão de “Telegrama”, de Zeca Baleiro. “Teve umas cinco mil visualizações, o que foi uma surpresa, porque foi o primeiro vídeo. Não é tanto comparado aos youtubers, mas para mim foi uma conquista. Foi realmente uma conquista”, lembra Gabriel. À época, sua voz de adolescente já era rouca e mais grave. E hoje essa voz está muito aveludada, muito bonito de se ouvir.

Além de violão, ele toca ukulele, e diz arranhar guitarra, piano e escaleta. A percussão é também por conta dele. Com as músicas que foi postando no canal, começaram a surgir convites de tocar em festas. O primeiro cachê foi para tocar na inauguração de uma loja. “É demais ganhar dinheiro fazendo algo que você gosta”, afirma ele, que trabalha na área de treinamento de uma companhia. O vídeo com maior visualização foi uma música da dupla Maiara e Maraísa. O sertanejo dessa dupla fica na voz de Gabriel mais próximo do pop e MPB, mais o seu estilo. As visualizações desse vídeo chegaram a 21 mil. Hoje, Gabriel soma 4,1 mil inscritos no canal, embora tenha um ritmo mais lento de postagem dos vídeos.

Mas a fama que já obteve chegou até a cantora Ana Gabriela, outro fenômeno dos tempos da web, com 1,3 milhão de inscritos em seu canal. Gravaram um vídeo juntos, viraram amigos. O cover da música “Prá você dar o nome”, do grupo 5 a Seco, com a participação de Ana, foi visto 25,8 mil vezes no canal de Gabriel, superando as sertanejas. Mallu Magalhães, um grande nome que nasceu com sucesso nas redes sociais, inspira muito Gabriel.

Mas ele gosta muito de poesia também. Adora Mário Quintana, Vinicius de Moraes e Vitor Isensee, poeta, compositor e integrante de bandas como Forfun e Braza. Isso talvez o ajude muito em seu projeto de música autoral. Gabriel já tem 15 músicas próprias e sonha em gravar um CD. “Meu sonho seria poder viver da música, que o pessoal pudesse acompanhar meu trabalho e fazer que eu possa viajar pelo Brasil inteiro tocando minha música.”

Mais vivo a cada segundo

RUMBO TUMBA - PHWEB

Rumbo Tumba, grupo argentino de um homem só, lança seu terceiro disco com a fusão instrumental entre as músicas andina e eletrônica

Roger Marzochi, do entresons

A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só.

Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música, no YouTube e neste site. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

Músico intuitivo, Salgado vai além do que já disse Pablo Ziegler, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino de 2018, sobre os músicos jovens em entrevista ao entresons. “Para além do tipo de fusão, eu acredito que os músicos jovens devem se aventurar na investigação, e deixar de seguir professor, livros e, muito menos, o que quer a audiência. O músico jovem deve investigar o seu interior para expressá-lo de uma forma artística pura e sincera”, afirma Salgado. Abaixo, você acompanha a entrevista deste músico inspirador.

 

Em que cidade você nasceu? Como a música fez parte de sua vida?

Nasci na cidade de Campana e a música chegou em minha vida na adolescência com o punk rock. Passei muitos anos tocando punk e hard core e muitos anos mais com o rock experimental.

Qual foi o primeiro instrumento que você aprendeu a tocar? Quantos instrumentos você toca hoje?

Comecei com o baixo, mas logo depois de uma viagem pelo norte da Argentina, Bolívia e Peru eu me apaixonei pela música andina do charango, instrumento que conduz as melodias de Rumbo Tumba. E também toco instrumentos de sopro andinos e um pouco de percussão. Mas sempre sobre a perspectiva da experimentação, pois nunca estudo tocar os instrumentos de modo tradicional. Eu aprendo a tocar passando tempo com os instrumentos, somos grandes amigos.

Como foi a criação de Rumbo Tumba? Parece que seu avô teve uma participação especial na decisão sobre o nome da banda. É verdade?

A ideia do projeto surge depois da viagem que fiz pela região andina, por volta de 2006. Voltei enamorado pela cultura andina, sua música, suas paisagens, sua comida, tudo. Essa experiência realmente me transformou. Mas, ao regressar, todos os meus amigos punks não queriam tocar essa música. Então, eu comecei a gravar coisas sozinho, em casa. Mas, seis anos depois, em 2012, tomei coragem em ser solista e comecei a tocar ao vivo e lancei um disco.

Meu avô sempre me lembra que estamos morrendo a cada dia. E, por isso, precisamos desfrutar a vida 100%. É daí que vem Rumbo Tumba (A caminho da tumba). Isso é para não se esquecer para onde vamos nós todos. E um modo de estar o mais vivo o possível a cada segundo.

Porque continua tocando sozinho. Você também faz parte de outras bandas em Buenos Aires?

Como disse anteriormente, no momento em que comecei a experiência com a música sul-americanca e andina, em particular, o círculo de músicos que eu frequentava era do punk e rock. Então, ninguém quis me seguir. Anos mais tarde me tornei amigo da tecnologia e me dei conta que podia levar adiante um show solo. E aqui estou hoje, tocando com Rumbo Tumba há seis anos. Mas também faço parte de um projeto chamado Ensamble Folclórico Digital, que conjuga os sons de raíz e a nova música eletrônica. Eu me apresento ocasionalmente com o DJ Villa Diamante.

Quais são os benefícios de ser uma banda de um só homem?

Eu te respondo com uma pergunta. Quais são os benefícios de ser uma pessoa só no mundo? Há coisas a favor e contra, mas tudo depende do tipo de pessoa que você é. Eu sempre estou trabalhando com outras pessoas em outros projetos, mas realmente preciso de espaço para desenvolver meu ser individual. E, desse modo, também voltar mais completo para o espaço de criação coletiva. E esse espaço, para mim, é o Rumbo Tumba.

Poderia dar exemplos de canções e artistas do universo da música andina que te inspiram até hoje?

Não sou de escutar muita música. Mas se existe algo que sempre volto a escutar é o folclore andino tradicional. Artistas como Jaime Torres, Illiapu, Ínti Illimani e, principalmente, Los Jaivas, que fizeram minha cabeça com sua mistura de rock progressivo e música andina, dois dos meus estilos preferidos.

Como é o seu processo de compor canções?

Eu me agarro aos meus instrumentos e toco. Assim, simples, improvisando sempre. Logo pego as partes dessas improvisações de que eu gostei e começo a produzir e apurar, até que fiquem de um modo que me agrade. E que seja possível tocá-las ao vivo no formato que utilizo, quer dizer, um homem-orquestra fazendo looping ao vivo.

Como você descobriu os equipamentos eletrônicos de looping e quão importante eles são em suas composições?

Descobri o loop quando me dei conta que deveria fazer esse projeto sozinho. Olhava muitos vídeos sobre isso, até que juntei dinheiro e comprei o primeiro, BOSS RC50. Eu me apaixonei e compus em uma semana meu primeiro EP “Groove Andina”. Um material que levei em um tour pelo Brasil. Nos primeiros anos de Rumbo Tumba eu toquei mais no Brasil que na Argentina. É a minha forma de compor. O looper é muito limitado, mas eu gosto muito de trabalhar com limitações, com poucos elementos e ferramentas para sempre exploradas aos máximo em suas ideias. Essa forma de fazer música me faz sentir muito melhor do que usar um software, no qual você tem infinitas ferramentas.

Na última sexta-feira, dia 29 de junho, você lançou o disco “Madera Sur”. Como foi fazer este trabalho? Quais foram suas principais inspirações?

Como deixa bem claro o nome Madera Sur, a inspiração desse disco é o continente da América do Sul e da madeira que nele todo vive, mesmo que depois de morta. Uma frase de Atahualpa Yupanki é muito clara nesse sentido: “Antes de ser um instrumento, o violão foi uma árvore onde cantavam pássaros. A madeira sabia de música muito antes de ser um instrumento”. Cabe destacar que todos os instrumentos que soam no disco foram construídos especialmente para o projeto por luthies com madeiras nativas do Continente.

Tem planos de tocar no Brasil?

Estamos preparando um tour assim que voltarmos dos nossos na Europa, entre outubro ou dezembro. Estou morrendo de vontade de voltar ao Brasil.

Em recente entrevista ao blog entresons, Pablo Ziegler, argentino que venceu o grammy de Melhor algum de Jazz Latino de 2018 com o CD “Jazz Tango”, afirmou que os instrumentistas jovens de jazz deve se aventurar na fusão com outros gêneros musicais para rejuvenescer a audiência. Você considera que Rumbo Tumba seja uma fusão de música folcólica com jazz ou música eletrônica? Você sonha em conquistar um Grammy?

Rumbo Tumba é uma fusão que utiliza instrumentos de povos andinos com tecnologia, especificamente um Looper e suas ferramentas e limitações para dar forma à música. Para além do tipo de fusão, eu acredito que os músicos jovens deve se aventurar na investigação, e deixar de seguir professor, livros e, muito menos, o que quer a audiência. O músico jovem deve investigar o seu interior para expressá-lo de uma forma artística pura e sincera. Se decidimos antes de criar algo que será jazz ou folclore, por exemplo, já estamos limitando bastante, ainda mais se pensarmos no que quer a audiência, o que reduz muitíssimo o espectro de criação. Mas bom, está bem. Eu também respeito essa forma de criação, mas eu gosto de outra coisa. Eu toquei punk e hard core por dez anos, outros sete anos de música instrumental psicodélica pós rock-progressivo. E, em um momento, eu me agarrei aos instrumentos folclóricos, passei anos investigando e nasceu Rumbo Rumba, que hoje se cataloga dentro da cena que mescla a fusão do folclore com elementos eletrônicos. Mas jamais na hora da concepção pensei em fazer tal ou qual coisa, quando fiz nem sabia que existia. Eu estou em meu sonho, um dia antes saiu meu novo disco “Madera Sur” e no dia seguinte eu o toquei pela primeira vez em um incrível festival em Hungria. Depois de tocar, comprei um vinho e o tomei na companhia de gente querida que conheci aqui, olhando a lua deitados na grama.

Brasil e Argentina são rivais no futebol. Há também estranhamento na área cultural. Em sua avaliação, a língua é uma barreira cultural entre os dois países? Acredita que o futebol, ao invés de unir, separa nossos países?

O futebol separa, e isso está claro. Mas é ao contrário o que ocorre na arte, fiz muitos tours pelo Brasil, em projetos distintos há dez anos. Corri pelo País do Rio Grande do Sul até o mais profundo Nordeste. E tenho recordações maravilhosas e grandes amigos. O idioma é o portunhol, que é perfeitamente possível de se entender em ambos os países.

 

“Nesse Trem” a vida é boa

SOM D'LUNA - NESSE TREM 3

Irmãos Luna dão a volta por cima dos perrengues arretados desse mundaréu para lançar luz sobre a existência em seu disco de estreia

Roger Marzochi, do entresons; na foto de divulgação, Diogo Luna (esq.) e Vitor Luna 

Os trens desenhados na capa do CD “Nesse Trem”, trabalho de estreia do grupo paraibano Som D’Luna, desafiam a gravidade. Eles rodam deitados em paredes de cubos, sobem morros em 90 graus, atravessam casas, divisando em seu horizonte o sol e a lua. A ideia foi fazer desse modo de transporte, tão maltratado no Brasil, uma metáfora da vida. “O trem passeia pelos cubos sem direção certa, sem gravidade. Isso é para simbolizar a vida da gente, que não tem uma direção certa. O que podemos fazer são escolhas”, explica Vitor Luna. Ele e o irmão gêmeo Diogo, acompanhados de uma excelente banda e produtor, conseguiram criar um CD com 11 músicas que irradiam poesia e otimismo, numa visão pró-ativa desse nosso trilho de cada dia. “A gente sempre diz que o intuito é ser um disco otimista, de levar boas energias para quem o escuta. ‘Que o som te leve a bons lugares’, essa é a dedicatória que faço em todos os discos que autografo. E isso é muito sincero.” Os cubos da capa também representam o ofício daquele que constrói a sua realidade, que transforma o seu mundo. Mas, para chegar a esse resultado, os irmãos Luna viram o “trem” quase virar de cabeça prá baixo. Não é coisa de mineiro! Calma lá! E se você chegou a ler até esse ponto, prepare-se porque o trem está partindo!

SOM D'LUNA - NESSE TREM 1

Parece Minecraft, mas não tem nada a ver com videogame: os cubos representam a capacidade construtiva do ser humano

A viagem começou no bairro Mangabeira, em João Pessoa, considerado o maior da capital, com 76 mil moradores. Há 20 anos, correu pelas escolas da região o ensino de flauta doce. De repente, a criançada do bairro surgiu na rua assoprando essa bendita. A febre desse instrumento chegou aos irmãos Luna, que até bem próximo da adolescência se vestiam igualzinhos, como par de jarro, como se diz na Paraíba. Esses moleques assopravam o cano furado direto, sem piedade. Tinham uma guitarrinha de plástico para fazer o som ficar completo. Até que começaram a tirar algumas músicas, de verdade. Isso deixou o seu Herbert, pai dessas crianças, fã de carteirinha de Zé Ramalho e João Bosco, orgulhoso e decidido. Ambos foram estudar violão na Escola de Música Anthenor Navarro (Eman), criada em 1931 pelo maestro Gazzi de Sá (1901 – 1981). Quando haviam criado intimidade com a teoria musical, tiveram que parar o curso por conflito de horários com a escola tradicional.

Mas a semente, plantada, germinou. Ao voltarem da escola, nada de videogame: pegavam o violão para tocar as gravações de seus artistas preferidos. Além de Zé Ramalho e João Bosco, os já adolescentes irmãos Luna se deleitavam aos sons de Lenine. Aulas de harmonia com o professor Leo Porto e, aos 18 anos, nasciam as primeiras composições e shows em bares da região e festas de casamento. A fama da dupla, no entanto, gerou decepções. Um produtor iludiu os garotos a gravarem um disco em Portugal, um fiasco que só não foi completo porque eles chegaram a fazer algumas apresentações no país. Mas voltaram ao Brasil desiludidos, mas com a decisão de gravar de qualquer jeito. Fizeram um EP, com sete músicas, gravadas no quarto dos meninos, com o equipamento que tinham à mão.

SOM D'LUNA 2

Irmãos Luna produziram a arte de capa do CD, na qual trens desafiam a gravidade em uma metáfora da vida

Foi essa produção rústica, mas de profundidade, que colocou a dupla nos trilhos novamente. Com ajuda de um financiamento coletivo, o sonho pode ser concluído. Três músicas do EP estão no “Nesse Trem”: “Todo dia”, um samba swingado para fazer qualquer um levantar da cama e viver o melhor do dia; “De lá de longe” (letra com participação de Vanessa Carvalho), que exalta a magia do ser músico (“que o segredo oculto de cada nota é lindo ao meu pensar, vou cantar”); e “Nesse Trem”, com arranjos de metais com a participação do produtor Jader Finamore, nos sopros de Joab Andrade (saxofone), Emanoel Barros (trompete) e Sabiano Araújo (trombone). E, não apenas nesta música, o baixista Ítalo Viana faz uns grooves generosos, sempre. E o arranjo de metais se estende, como em “Sempre a Dois”, com um solo quente de Joab. Irmãos Luna se somam em vocais, violões e guitarras. “Nordeste Vivo” é outra música incrível, escrita em acróstico. O grupo espera realizar shows no Rio de em São Paulo, mas ainda sem previsão. “Esse disco é muito importante. Eu sei que está entre os maiores de clichês dizer isso, mas é uma conquista de verdade. Nós sabíamos como gravar um disco. E, agora, nós conseguimos!”

 

Nas asas de um mistério

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

Capixaba defensor da sustentabilidade atrai pássaros ao seu corpo e consegue ter uma especial relação até com peixes

Roger Marzochi, do entresons

Um filhote de passarinho estava pendurado no ninho, no alto do prédio da escola em que eu estudava, em 1979, em Americana (SP). Com ajuda de amigos, reunimos um punhado de folhas, acreditando que essa cama verde impediria que o despenado animal se machucasse na iminente queda. O sinal tocou, mas não queria ficar longe daquele bicho. Com o coração apertado, beirando o desespero, deixei-o nas mãos do destino. Além do carinho que sempre tive com animais, essa criatura representava o sonho de tocar as nuvens. Meus pais diziam que eu estava afundando o sofá da última casa em que eles viveram antes da separação, pois a cada salto que eu dava no móvel, acreditava fielmente que aprenderia a voar. Fazia dos braços asas da imaginação.

Em meados da década de 1970, uma outra criança iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), Sidemberg Rodrigues contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

Sidemberg Rodrigues e Karel Frans van den Bergen Imagem do Instagram

Sidemberg Rodrigues (esq.) e o filósofo Karel Frans van den Bergen, inspiradora da sustentabilidade em seis dimensões

Influenciado pelo filósofo Karel Frans van den Bergen, Rodrigues liderou a implantação na companhia do conceito de sustentabilidade em seis dimensões, levando em consideração as iniciativas nas esferas ambiental, econômica, social, cultural, política e – a mais controversa – espiritual. Este último aspecto é defendido pelo ex-executivo sem conotação religiosa, sempre relacionado à necessidade de se firmar no indivíduo um sentimento de pertencimento e transcendência. Católico, com uma queda pelo Budismo, Rodrigues relatou em livros possuir mediunidade, que o permite conversar com espíritos, até mesmo de familiares já falecidos de seus ex-companheiros de trabalho.

Some-te daqui! – Essa controversa figura, que viveu no coração de aço do capitalismo, é ainda poeta, escritor, escultor, pianista e espiritualista. Aposentado desde o ano passado, hoje ele realiza palestras pelo País em defesa da espiritualidade e da transcendência, até mesmo no meio empresarial. “Eu já me sentia estranho por ser adolescente e ainda os pássaros pousavam em mim. Os meninos faziam chacota comigo.” A situação é bem diferente, mas faz lembrar Vinicius de Moraes: “Para que vieste / Na minha janela / Meter o nariz? / Se foi um por um verso / Não sou mais poeta / Ando tão feliz! / Se é para uma prosa / Não sou Anchieta / Nem venho de Assis / Deixa-te de histórias / Some-te daqui!”, diz em versos o poeta, cantor e compositor em “A um passarinho”.

Curado dos olhos, o rapaz começou a se encantar com essa cumplicidade com os pássaros. E, ainda, descobriu que de alguma forma se comunica até com peixes. Quando se mudou para Vitória, as visitas dos passarinhos ocorriam com menor frequência. Mas ainda aconteciam, até mesmo em Luxemburgo, durante uma viagem a trabalho na Europa. O vai e vem de penas cresceu quando comprou um sítio na região de Vitória. Jacutingas pousam em seu piano e beija-flores chegam até a sua mão. “Eu não consigo controlar”, afirma. Rodrigues acredita que essa relação nasceu pelo fato de ter uma natureza compassiva. “Eu nunca fui ligado a esporte por problema na vista. Ficava verão e primavera sem ver. Nem sei como fui alfabetizado. Mas eu tinha natureza de altruísmo, de gratuidade, de fazer pelo outro. O cachorro levava pedrada, eu ia lá e cuidava do bicho.”

Essa relação com os pássaros também faz lembrar do ambientalista e cientista capixaba Augusto Ruschi, que no dia 3 de junho completam-se 32 anos de sua morte. Além da ciência, ele deu grande contribuição aos saberes dos povos da floresta, ao pedir ajuda a pajés para ser curado de um veneno de sapo. Ruschi amava beija-flores, abundantes na mata próxima à sua casa, em Santa Teresa (ES). Ele descreveu cinco espécies e 11 subespécies desses pássaros e foi imortalizado em uma foto de Ricardo Azoury, na qual um beija-flor beija a boca do cientista. Há, inclusive, uma estátua retratando essa imagem na capital do Estado chamada de “O Beijo”. “Ele teve um capricho maior com beija-flores”, explica Gabriel Ruschi, ambientalista, neto do “cientista dos beija-flores” e diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, uma escola de ecologia criada por Augusto dedicada à educação e o meio ambiente. “Ele alimentava os beija-flores que, mesmo em campo aberto, pareciam domesticados por ele”, diz Gabriel, em entrevista ao entresons.

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor2

Certa vez, estava tocando piano quando um beija-flor pousou nas teclas. Ele o pegou nas mãos, trouxe-o próximo da boca, pedindo para que o pássaro enviasse uma boa mensagem para uma amiga, que sofria com um câncer terminal. (Imagens retiradas de vídeo postado no Instagram do entrevistado)

Mensagens – Rodrigues acredita que, muitas vezes, que os pássaros transmitem mensagens. Certa vez, estava tocando piano quando um beija-flor pousou nas teclas. Ele o pegou nas mãos, trouxe-o próximo da boca, pedindo para que o pássaro enviasse uma boa mensagem para uma amiga, que sofria com um câncer terminal. “No período em que tive uma depressão foi o momento que mais pássaro vinha. Pousavam na minha perna, no meu ombro, acho que tentando me animar.”

Seriam feromônios de seu corpo que exerceriam tal atração? Ele acha que não. Em recente viagem à Bahia, ele estava mergulhando na Praia do Forte e viu peixes num coral. A sua intuição o levou a colocar uma pedrinha sobre o coral e, depois, apontar o dedo para o peixe. E não é que o peixe cutucou a pedra para fora daquela plataforma, como num jogo de futebol? E não foi apenas uma vez, várias vezes. “Eu acho que é o meu desejo de ver todo mudo bem. Compaixão, ser capaz de estar no lugar do outro para o outro não sofrer, identificar-se com a dor do outro, sem ter nada em troca. Fazer algo pelo bem. Isso deve dar para a gente um tipo de energia que causa confiança nos animais.”

As experiências com os pássaros e até com o peixe estão documentadas, compartilhadas em redes sociais, acompanhadas muitas vezes de frases positivas. O número de seguidores caiu, diz ele, após a sua aposentadoria, no ano passado. “Há ainda quem se apegue ao cargo”, explica. Mas seu ímpeto com essa iniciativa é mostrar que a vida é mágica. “Estamos vendo as estrelas, o sol e a lua? É muita ansiedade, muita doença, muito sofrimento evitável, por isso que faço questão de mostrar.” Mesmo quando não acreditam, achando que ele deu comida para o peixe ou que tenha treinado um beija-flor, Rodrigues aposta que essas imagens despertem sonhos nas pessoas. “Quero tirar as pessoas da briga política. Crítica e acusação não levam a nada. É tempo de beleza, razão e transcendência.”

Fabio Caramuru - Foto Casa Florália (1) MR

O pianista Fábio Caramuru, que lançou em 15 de abril de 2018, na Sala São Paulo, o CD “Ecomúsicas – Aves”, inspirado em cantos de aves japonesas.

Meu sofá ainda é esburacado, agora é meu filho quem nele pula. Mas hoje consigo entender aqueles meus antigos saltos, que me vem à memória como garoa. Frases simples e imagens compartilhadas por Rodrigues nas redes sociais se somam a gente como o pianista Fábio Caramuru, que lançou em 15 de abril, na Sala São Paulo, o CD “Ecomúsicas – Aves”, inspirado em cantos de aves japonesas. Desde 2015, o artista tem se inspirado na ecologia em suas composições, lançando neste ano “EcoMúsica – Conversas de um piano com a fauna brasileira”, um diálogo entre seu piano e os sons de aves. O trabalho atual foi realizado após o músico passar um período no Japão. “É, sim, meu sincero tributo à incrível cultura japonesa”, diz, em texto de divulgação. Mesmo que você não tenha esse dom de comunicação com pássaros e peixes, é na fruição cultural que é possível ampliar a sua sensibilidade e seu autoconhecimento. São poesia, literatura, teatro, música e dança o material do qual é feito a cera que grudam as penas das asas da sociedade, esse imenso Ícaro prestes a se esfacelar rumo às estrelas. Há, ainda, muitos mistérios em plena Terra.

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