Na estante dos proibidos

Douglas Mam - Crédito da Foto de Antônio Borduque

Definitivamente, o “rock and roll” brasileiro está mais vivo do que nunca, é o que prova Douglas Mam em “Fahrenheit”, seu primeiro disco autoral

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto de Antônio Borduque

(Facebook: www.facebook.com/Entresons – Instagram: @entresons.com.br)

A minha esperança no “rock and roll raiz” brotou ao ouvir o álbum “Transmutante”, da atriz, compositora e cantora Tchella, lançado no ano passado e revisitado em versão acústica em show no dia 13 de julho. Agora, com “Fahrenheit”, disco de estreia do poeta, compositor e cantor Douglas Mam, definitivamente o poder de transformação do rock retoma à cena com força. Mam é um poeta muito próximo de artistas como Cazuza e Renato Russo. Ele se inspirou no livro “Fahrenheit 451”, do escritor Ray Bradubury, que prevê um futuro distópico no qual um governo autoritário proíbe a existência de qualquer livro. O clipe da música-título do disco, dirigido por Antônio Borduque, já está no ar, assim como as oito composições, que podem ser encontradas em aplicativos de streaming. O trabalho será comemorado, com o CD físico, em show às 21h, no dia 26 de julho, no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

O texto de Bradubury, que foi escrito após a Segunda Guerra Mundial, faz uma reflexão sobre o nazismo em sua perseguição aos intelectuais. De acordo com o jornalista Manuel da Costa Pinto, que assina o prefácio da edição lançada pela Biblioteca Azul no Brasil, o totalitarismo é mais sutil, da doutrinação e anestesiamento que emana da indústria cultural e do governo. “Em ‘Fahrenheit 451’, as pessoas sabem ler, mas não estão interessadas. Estão doutrinadas. Estão atentas só ao meio, e o meio é a mensagem. No livro, a periculosidade está associada aos livros. É o que pode combater uma sociedade anestesiada”, diz Costa Pinto na palestra “Utopias e distopias do presente”, do programa Café Filosófico (TV Cultura/Instituto CPFL).

Fahrenheit é uma medida de temperatura, sendo 451 o nível no qual os papeis dos livros começam a queimar, o que significa 233 graus celsius. Sempre buscando inspiração na literatura ou em seus poemas para escrever suas músicas, Man abre o disco com a música “Fahrenheit”, imaginando encontros com os principais personagens da literatura mundial, como Macabea (Clarice Lispector), Brás Cubas (Machado de Assis), Macunaíma (Mário de Andrade), Raskólnikov (Dostoiévski), entre outros. “Eu queria ser um livro e ter em verso o meu destino”, canta Mam. “Eu queria ser um livro, na estante dos proibidos.”

“Já para o álbum como um todo, Mam escolheu como nome apenas a medida termométrica Fahrenheit. A escolha faz alusão às diversas temperaturas da vida e a escolha das canções do repertório vai nessa direção. Ainda como parte do conceito do disco, Mam também subverte a queima de livros presente no romance inspirador para a queima das próprias certezas – destacando o que ele chama de ‘momentos de combustão’ – onde a autoanálise desemboca em mudanças, rupturas e transformações que compõe a trajetória pessoal de cada um”, explica a agência de comunicação Locomotiva Cultural.

Faz parte dessa combustão o debate sobre a ideia de “sociedade líquida” na música “Fez”, um punk rock energético. Esse conceito foi criado pelo sociólogo Zygmunt Bauman, que faz uma crítica à superficialidade dos relacionamentos, especialmente quando mediados pela tecnologia. Bauman inspirou também outro bom jovem compositor, o violonista e cantor Fernando Grecco, idealizador do selo e produtora Borandá, em “Tanto faz, amor”, música que está no EP “Repente da Palavra”, que o artista lançou em 2017.

Há em “Fahrenheit” ainda canções românticas como “Amor Desafinado”, que apresenta a ambiguidade de uma relação amorosa, e “Estrada Corpórea”, “uma canção sensual que remete ao ‘corpo-estrada’ que deve ser percorrido com a língua e com os olhos. Narra atração e tensão sexual entre um casal que se reconciliou”, defini o compositor. Mam se apresenta com a sua banda, Os Famigerados, e no show terá a presença dos convidados Bruno Souto, Murilo Sá, Celso Gattaz e Thomas Incao. A obra vai além do entretenimento, faz pensar e refletir sobre uma distopia que não parece tão distante.

Ficha Técnica do álbum

Composição: Douglas Mam.

As faixas Fahrenheit 451, Amor Desafinado e Tá na Cara tem parceria de Thomas Incao e Sol é Assim tem parceria com Paulo César de Carvalho

Voz: Douglas Mam

Violão: Juliano Gauche, exceto na faixa Em Outra

Guitarra: Lucas Gonçalves

Contrabaixo: Rodrigo Cambará

Bateria: Lucas Gonçalves

Teclados: João Leão

Percussão: Lucas Gonçalves nas maracas, na faixa Fahrenheit 451 e Clayton Martin na pandeirola, na Faixa Fez

Backing Vocal: Juliano Gauche – faixas Fez e Estrada Corpórea

Produção Musical: Juliano Gauche

Gravado, mixado e masterizado no estúdio Submarino por Clayton Martin

Produção Executiva: Douglas Mam

Assessoria de Imprensa: Locomotiva Cultural – Nany Gottardi

Projeto Gráfico: Anna Leal

Clipe Fahrenheit 451 e Fotos: Antônio Borduque

 

 

 

Ficha Técnica do Show

Voz e Violão – Douglas Mam

Guitarra: Lucas Gonçalves

Contrabaixo: Rodrigo Cambará

Bateria: Guib Silva

Teclados: Klaus Sena

Convidados: Bruno Souto, Murilo Sá, Celso Gattaz e Thomas Incao.

 

 

 

DOUGLAS MAM

Lançamento do disco Fahrenheit

Dia 26 de julho de 2019. Sexta, às 21h

Local: Teatro (364 lugares)

Ingressos: R$ 20,00 (inteira); 10,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante) e R$ 6,00 (credencial plena do Sesc – trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes. Ingressos disponíveis pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) a partir de 16 de julho, às 12h e nas bilheterias das unidades do Sesc a partir de 17 de julho, às 17h30.

Recomendação etária: 12 anos

Duração: 90 minutos

 

Sesc Belenzinho

Endereço: Rua Padre Adelino, 1000.

Belenzinho – São Paulo (SP)

Telefone: (11) 2076-9700

www.sescsp.org.br/belenzinho

 

Estacionamento

De terça a sábado, das 9h às 22h. Domingos e feriados, das 9h às 20h.

Valores: Credenciados plenos do Sesc: R$ 5,50 a primeira hora e R$ 2,00 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 12,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional.

Para espetáculos pagos, após as 17h: R$ 7,50 (Credencial Plena do Sesc – trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo). R$ 15,00 (não matriculado).

Transporte Público

Metro Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)

 

“Vamos sentir a falta de João”, diz Chick Corea

João Gilberto (1983_ por Mario Luiz Thompson)

Pianista americano relembra o dia em que conheceu João Gilberto, que o venceu em todas as partidas de pingue-pongue

Roger Marzochi, do entresons.com.br  /  Crédito da Foto de João Gilberto de Mário Luiz Thompson em show do mestre ao vivo ao ar livre no Festival de Águas Claras em 1983

(Instagram: @entresons.com.br / Facebook: www.facebook.com/Entresons)

Os grandes ícones da música têm histórias inusitadas. O bruxo Hermeto Pascoal, por exemplo, gaba-se de ter nocauteado Miles Davis no ringue que o trompetista americano tinha dentro de sua própria casa. E, quem diria, João Gilberto não era apenas o gênio que inventou a bossa nova, mas também nutria grandes habilidades no pingue-pongue. Quem lembra da história é o pianista americano Chick Corea que, a pedido do entresons.com.br, escreveu uma breve homenagem ao músico brasileiro, que morreu no último sábado, dia 6 de julho.

“Eu e todos nós vamos sentir a falta do João. Vamos amar a sua contribuição musical para sempre”, afirmou Corea, que no fim de junho lançou o novo álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, no qual o maestro revisita “Desafinado”, música de Tom Jobim e Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto. Leia a reportagem sobre a verdadeira medicina social da arte neste trabalho de Corea clicando “aqui”. Há uma negociação para o lançamento de discos do Festival de Águas Claras, o Woodstock Brasileiro, realizado em Iacanga, no qual o mestre brasileiro da bossa nova fez uma surpreende participação ao ar livre, tema que também foi reportagem do entresons.com.br na matéria “Além de documentário, ‘Woodstock Brasileiro’ deve ser lançado em CD e Vinil“.

Essa música “Desafinado”, que faz uma enfática defesa da bossa nova, já estava presente em “Chega de Saudade”, disco de Gilberto que influenciou a arte brasileira para sempre, lançado em 1959. Em 1963, João Gilberto e Tom Jobim gravaram essa faixa e muitas outras incríveis canções em outro icônico disco com o saxofonista norte-americano Stan Getz: “Getz/Gilberto”, lançado em 1964. De acordo com o Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira, esse álbum ficou em segundo lugar da parada de sucesso da revista Billboard durante 96 semanas, tornando-se um dos 25 discos mais vendidos daquele ano.

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“Foi uma experiência que ficou comigo por toda a vida. Eu envio minhas condolências à família de João e um sentimento de amor eterno. E agradeço por tudo o que João deu a mim e ao mundo. Armando ‘Chick’ Corea.”

Desde 1962, quando Gilberto fez um show no Carnegie Hall, em Nova York, o músico decidiu morar nos Estados Unidos. E, com a fama conquistada, realizou uma série de shows com o saxofonista americano. É entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970 que Chick Corea conhece o pai da bossa nova. Corea já havia montado a sua incrível banda Return to Forever, com a participação dos brasileiros Airto Moreira na percussão e Flora Purim nos vocais.

Em 1967, Corea havia gravado com o quarteto de Getz o álbum “Sweet Rain” e viu uma  oportunidade para conhecer Gilberto. “Ouvi dizer que Stan estava planejando uma turnê, mas não tinha banda ainda. Eu tinha trabalhado com o quarteto de Stan em 1967 com Roy Haynes e Steve Swallow e já havíamos gravado ‘Sweet Rain’, então pensei que Stan gostaria que eu ajudasse a montar uma banda para ele nessa turnê. Ele perguntou quem faria parte da banda. Eu então consegui um acordo com Stanley Clarke, Tony Williams e Airto Moreira para sair e tocar com Stan e ele concordou em começar os ensaios em sua casa em Tarrytown, em Nova York”, diz Corea.

“Foi então que conheci o João. Nós nos tornamos amigos facilmente enquanto ensaiávamos as músicas que ele queria tocar com o grupo. Jogamos um pouco de pingue-pongue juntos – onde, em um estilo muito descontraído (com a mão esquerda no bolso), ele me bateu a cada partida! Tivemos uma semana maravilhosa no Rainbow Grill (casa de shows no Rockefeller Center, em Nova York). Foi uma experiência que ficou comigo por toda a vida. Eu envio minhas condolências à família de João e um sentimento de amor eterno. E agradeço por tudo o que João deu a mim e ao mundo. Armando ‘Chick’ Corea.”

Um antídoto contra a violência

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Em novo disco, pianista americano Chick Corea defende que a arte pode curar a sociedade; o músico ainda faz mistério ao revisitar “Desafinado”, clássico da bossa nova criado por Tom Jobim e Newton Mendonça e agora interpretado por uma amiga da família Corea

Roger Marzochi, do entresons / Imagens do YouTube

(Instagram: @entresons.com.br / Facebook: www.facebook.com/Entresons)]

Faça amor, não faça a guerra. E o amor pode se expressar de diversas maneiras. O pianista americano Chick Corea compartilha com o mundo a sua contribuição com essa máxima pacifista por meio de sua música, desde dos anos 1960. E, em 28 de junho, o músico com ascendência italiana, mas de coração latino, lançou o álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, com músicas dos álbuns “My Spanish Heart” (1976) e “Touchstone” (1982). Revisitar grandes clássicos que traduzem o amor de Corea pelo universo latino-americano contou com grandes músicos de diversas partes do mundo, como Cuba, Espanha e Venezuela. E, no jazz, especialmente para artistas que transpiram música como Corea, a música gravada nunca será exatamente a mesma daquela apresentada no palco, tornando uma das expressões musicais mais inovadoras do mundo.

Há, obviamente, ainda mais novidades no álbum. A primeira é “Antidote”, nova música composta por Corea para esse trabalho, interpretada pelo advogado, cantor e ator panamenho Rubén Blades. “A mensagem da música é simples: nós, os músicos e artistas, somos o antídoto para as doenças do mundo. Nós somos os únicos capazes de acabar com a guerra e a crueldade porque fazemos as pessoas cantarem e dançarem, nós as trazemos de volta ao seu estado nativo, seu espírito nativo”, explica Corea em comunicado enviado pela assessoria de imprensa do artista.

O tema é extremamente sério nos tempos atuais, com a ascensão da extrema-direita em todo mundo, o avanço do fundamentalismo religioso, o recrudescimento da tensão no Oriente Médio e a proliferação de armas atômicas. E a arte, sem dúvida, tem um papel importante nesse processo. Um dos principais desafios da sociedade contemporânea é conseguir unificar o conhecimento intelectual à experiência. Não no sentido usual da expressão, de se aplicar o conhecimento na prática, mas sim em valorizar a experiência e reconhecer que o corpo é fonte de sabedoria. Ao estudar a música e a dança em expressões religiosas afro-americanas em Cuba, Haiti e Bahia, a antropóloga Yvonne Daniel explica, em seu livro “Dancing Wisdom”, que por muito tempo o conhecimento intelectual foi visto como superior à experiência.

Mas, para a autora, a força do poder da experiência estética, emocional e espiritual não pode ser separada do conhecimento teórico. De acordo com ela, gerações foram incentivadas a pensar que o conhecimento teórico seria superior ao conhecimento empírico, causando uma dicotomia do saber. Ambas as experiências, teórica e estética – levando em consideração a intuição e a sinestesia – deveriam caminhar juntas para formar o que a cientista chama de “conhecimento incorporado”.

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“Nós, os músicos e artistas, somos o antídoto para as doenças do mundo. Nós somos os únicos capazes de acabar com a guerra e a crueldade porque fazemos as pessoas cantarem e dançarem, nós as trazemos de volta ao seu estado nativo, seu espírito nativo”

“A performace, as artes, a espiritualidade operam no sentido de corrigir e ajustar o ‘conhecimento desincorporado’ (aquele que privilegia o conhecimento intelectual). Através dos tempos e de um esforço extraordinário, performace, artes, e espiritualidade talvez transformem um ‘conhecimento desincorporado’ em ‘conhecimento incorporado’. A performace oferece benefícios tanto pessoais quanto sociais. O intelecto, considerado como o único conhecimento válido, tem suas deficiências, que se expressam em limitadas e inflexíveis perspectivas. Nós podemos encontrá-las em comportamentos sociais destrutivos e estados debilitantes de autoestima”, afirma.

A arte é, portanto, muito mais que uma forma de entretenimento, mas também uma “medicina social” caso seja integrada à vida em um sentido mais amplo, não restrito ao conceito de “sucesso” do praticamente, seja pela sua valoração estética quanto mercadológica. Para isso, a arte precisaria ir além de ser uma atividade extracurricular em escolas, para ter papel idêntico às outras disciplinas. É em decorrência dos vários benefícios da arte na saúde, não apenas do corpo mas da mente – uma vez que a mente é muito mais que apenas o cérebro – que governos de extrema-direita promovem campanhas contra os artistas, especialmente no Brasil. Não há dúvida que Chick Corea talvez não consiga levar essa mensagem àqueles que detêm o poder, mas “Antidote” chega em boa hora para revigorar o papel da arte e dar impulso ao desafio dos artistas na busca de mudanças sociais.

Em texto divulgado pela assessoria, Corea explica que muito dessa visão libertária da arte passa pela cultura latino-americana, mas sem antes lembrar que essas expressões são também resultado de fusões das culturas europeia, africana e do Oriente Médio. Um exemplo magnífico dessa confluência de tradições está em “Zyryab”, clássico do violonista de flamenco Paco de Lucía, em homenagem ao poeta, músico e astrônomo persa do século 9, que levou para a Espanha a influência do alaúde e da cultura africana e oriental que temperou a música flamenca. Dois dos músicos da Spanish Heart Band, aliás, que fizeram parte da banda de Lucía, participam do disco: o violonista Niño Josele e o flautista e saxofonista Jorge Pardo, ambos espanhóis.

Com forte influência da música latino-americana e do jazz norte-americano, o trabalho também apresenta uma nova versão para “Desafinado”, canção de Tom Jobim e Newton Mendonça, que na voz de João Gilberto deve ser talvez uma das melhores interpretações do planeta Terra (para um brasileiro). Mas é preciso, portanto, avançar. E sempre se arriscar na arte. E na versão de Chick Corea essa bossa nova ganha um suave, bem suave, tempero caribenho na percussão e na voz de Maria Bianca, amiga da família Corea.

Especialistas em música consultados pelo entresons.com.br desconhecem essa cantora, sobre a qual nem mesmo a assessoria de imprensa de Corea, a The Kurland Agency, quis dar detalhes. Tudo que foi informado é que Maria Bianca é amiga de Chick Corea e de sua esposa Gayle Moran Corea, que neste trabalho faz um coral vocal em “The Spanish Heart”, com letra recente defendida por Rubén Blades. Em pesquisa na web, há quem diga que Maria Bianca é uma cantora brasileira. Se realmente nasceu no País, deve ter vivido muito tempo no exterior pelo belíssimo sotaque. E, de qualquer forma, Jobim e Mendonça estão muito bem representados.

“’Desafinado’ é uma das minhas músicas favoritas do grande compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim que, junto com João Gilberto e outros, inventou a música bossa nova, que realmente influenciou o jazz em os anos sessenta. De fato, quando eu estava com Stan Getz, tive o prazer de trabalhar com João Gilberto, que cantou as melodias de Jobim de maneira tão bela. Eu tenho tocado piano solo de ‘Desafinado’ já há algum tempo, mas para este projeto, já que a música tem letras especialmente legais, eu queria usar um vocalista. Na verdade, existem dois conjuntos de letras – letras em português de Newton Ferreira de Mendonça e letras em inglês do grande Jon Hendricks. As letras de Mendonça são únicas – elas são realmente uma espécie de defesa da bossa nova. Eu organizei para a banda e pedi a minha velha amiga e talentosa vocalista Maria Bianca para cantar. O novo arranjo começa com uma seção que eu compus como um disfarce. Você verá o que quero dizer quando ouvir isso”, explica Corea, em comunicado aos jornalistas. Experimenta você também esse “remédio social” nas melhores plataformas de streaming de música.

 

*Como músico e jornalista tenho também o meu lado “farmacêutico/terapeuta” ao escrever sobre arte. E, assim como a grande imprensa, preciso da ajuda de meus pacientes leitores para continuar existindo. Colabore com o que for possível no crowdfunding do entresons no www.benfeitora.com/entresons.

 

Memórias e saberes das “Matriarcas” são tema de exposição em Campinas

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Por Claudia Miguel, de Campinas

Quem são essas mulheres que perpetuam a potência das Culturas Populares e Tradicionais na cultura na região de Campinas? A documentarista visual Fabiana Ribeiro mergulhou em territórios ricos e férteis para mapear o retrato das memórias, saberes, fazeres e a herança cultural da potência feminina. Em fotografias, livro e audiovisual, o público poderá conferir o resultado da empreitada no projeto “Matriarcas”, contemplado pelo Edital nº 26/2018 do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O registro da iniciativa estará em exposições fotográficas itinerantes por Campinas, em três  espaços públicos: Estação Cultura, Casa de Cultura Tainã e Casa de Cultura Itajaí. A abertura acontecerá na Estação Cultura no dia 5 de julho, sexta, a partir das 19h.

A mostra reúne vários elementos simbólicos do universo feminino e a da cultura popular. As fotos, nas dimensões 2,50 metros x 1,50 metro, são impressas em tecido que passou por um trabalho artesanal de bordado, realizado por Martha Alves, ex-integrante do Urucungos. As fotos são acompanhadas de textos que narram um recorte da trajetória dessas mulheres. “Retratar essa força  feminina  em suas memórias, em seus saberes e documentar a herança do seu legado em um material riquíssimo foi o que o projeto Matriarcas fez durante os cinco meses iniciais”, conta Fabiana Ribeiro.

Entre conversas e saberes - Durante o decorrer do projeto, iniciado no final de 2018, a autora conversou com mulheres, comunidades e grupos, resultando em retratos de 22 mulheres, cerca de 600 imagens das atividades e mais de 20 horas de gravações. “O projeto reconhece a importância de trazer para a narrativa o ponto de vista de um dos segmentos mais invisíveis, anônimos e discriminados da sociedade brasileira: as mulheres. E dentro do segmento, dar a devida visibilidade às mulheres negras”, destaca a autora, lembrando, ainda, das homenagens “à Vó Geralda, mãe de TC Silva, da Casa de Cultura Tainã, que faleceu em 2018, aos 101 anos; e também à Mãe Isabel, irmã de Mãe Eleonora e Mãe Eliana, falecida em 2018, uma mulher com um trabalho reconhecido dentro da economia criativa”.

Durante a abertura da segunda itinerância da exposição, na Casa de Cultura Tainã, haverá o lançamento do livro “Matriarcas”, que contém fotos e uma breve biografia de cada uma das mulheres retratadas. A publicação será  destinada a espaços culturais públicos, como bibliotecas, casas de cultura e  Centros de Artes e Esportes Unificados.

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“Cada matriarca foi fotografada em seu ambiente e, por mais que montássemos um estúdio com condições de luzes semelhantes em todos os retratos, a energia de cada uma delas em harmonia com o ambiente que pertencem, trouxeram luzes e cores diferentes umas das outras.”

Participaram das rodas de conversa os coletivos Caixeiras das Nascentes e Casa de Cultura Tainã, Comunidade Tradicional Senhora dos Ventos, Grupo de Dança Afro Oju Oba,Tabuleiro Ancestral, Ponto de Cultura Caminhos em Hortolândia, Comunidade Jongo Dito Ribeiro, Casa de Cultura Fazenda Roseira , Instituto Baobá de Cultura e Arte – Ponto de Cultura e Memória Ibaô, Urucungos Puitas e Quijengues.

Segundo Fabiana, foram retratadas 22 mulheres: Ana Miranda, Sinhá Rosário, Manô, Luiza e Maria Lúcia, Maria Angélica, Ivani e Isabel,do Urucungos; Alessandra Ribeiro, Maria Alice Ribeiro, Jacinta Brito e Lúcia Castro e Vera Zuin, da Comunidade Jongo Dito Ribeiro. Das Caixeiras das Nascentes, Cristina Bueno e sua mãe Dolores Bueno; Mãe Iberecy, Adriana Gama e Marilene Honorato, do Ibaô.

Em Hortolândia, Mãe Elonora e Mãe Eliana. Ernestina Estevam, a Dona Tina – mãe de Alceu Estevam, assim como Rosa Pires, viúva de Mestre Alceu, também tiveram seu registro fotográfico realizado. Todas as rodas de conversas originaram documentários. “Para mim, elaborar e realizar ‘Matriarcas’ foi uma grande experiência. Apesar de já conhecer um pouco da energia incrível dessas mulheres, no decorrer do projeto mergulhei ainda mais nessa força “matriarcal”, essa energia feminina poderosa”, contextualiza a autora.

“Cada matriarca foi fotografada em seu ambiente e, por mais que montássemos um estúdio com condições de luzes semelhantes em todos os retratos, a energia de cada uma delas em harmonia com o ambiente que pertencem, trouxeram luzes e cores diferentes umas das outras. Essas características individuais, que formam um conjunto de mulheres fortes e lindas, são a fonte de inspiração e de resistência de uma potente cultura ancestral”, reflete.

A autora - Fabiana Ribeiro é formada em Comunicação Social pela PUC Campinas. Coordenou departamentos de Comunicação na Prefeitura Municipal de Campinas se especializando na área cultural. É pós-graduada em comunicação social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. Cursou Cinema Documentário na Escola S. Cinema i Audiovisuals de Catalunya Audiovisual, Barcelona, Espanha. É responsável por vários projetos de comunicação visual na área cultural. Atua na área de fotografia desde 2013 registrando imagens de movimentos culturais e sociais. O acervo de imagens de registro de cultura tradicional e popular gira em torno de mais de 30  mil imagens. Como fotógrafa, participou das exposições ReExistir, Partiu para onde? É o Mandela, Faces da Paz, Corpus, Ubuntu, Foto Ceasa, Festival Hercule Florence, Folia de Reis, Do Samba ao Carnaval.

 

Projeto “Matriarcas – Retratos das Mulheres nas Culturas Populares e Tradicionais Paulista”

De 05 de julho a  4 de agosto

Estação Cultura (Praça Marechal Floriano, s/n, Centro. Campinas)

Abertura: 5 de julho, sexta, às 19h

Visitação:  segunda a domingo, das 9h às 21h.

 

De 10 de agosto a 8 de setembro

Casa de Cultura Tainã (Rua Inhambu, 645 – Vila Padre Manoel de Nóbrega, Campinas)

Abertura: 10 de agosto às 20h

Lançamento do livro fotográfico “Matriarcas”

 

De 12 de setembro a 13 de outubro

Casa de Cultura Itajaí (Rua Benjamin Moloisi, 669 – Conj. Hab. Parque Itajaí, Campinas)

 

Abertura: 12 de setembro às 19h

Exibição do curta “Matriarcas”

 

Todas as ações são gratuitas.

Visitas monitoradas e agendamentos para escolas e grupos:matriarcaspaulistas@gmail.com

Fora da prateleira

Tchella

Tchella comemora em São Paulo um ano de “Transmutante” com gravação de DVD ao vivo em versão acústica desse seu primeiro disco livre de qualquer rótulo

Roger Marzochi, do entresons (Instagram @entresons.com.br) / Crédito das Fotos – Adriano Carmona 

Há nove anos, uma cantora independente chamada Glaucia Nasser me disse uma coisa muito importante. Ela explicou que, apesar de ser independente de gravadoras, ela era “dependente” de muita gente: todos os ídolos da música e da arte; sua família, amigos e músicos; e, principalmente, seu público. A multi-talentosa e multi-instrumentista Marcela Brito tem essa mesma visão. Apresentando-se como Tchella, nome artístico que ganhou de seu pai quando se formou em artes cênicas, ela gravou em 2018 o disco “Transmutante”. Em julho, o trabalho completa um ano e será comemorado no dia 13, um sábado, com show acústico com o compositor e multi-instrumentista Antonio Dantas.

O evento será gravado, eternizado em DVD, que será batizado de “Acústico Transmutante Ao Vivo”. “Eu preciso de vocês nesse DVD, a participação do público é muito importante, preciso muito que vocês estejam aqui”, diz Tchella em vídeo divulgado nas redes sociais, conclamando seu público, que já a apoiara há 12 meses numa campanha de financiamento coletivo que possibilitou o lançamento do trabalho. “Fizemos esse show no Rio, em maio. E gostei tanto do resultado versão voz e violão e vou trazer esse show para comemorar em São Paulo”, explica a artista em entrevista ao entresons.com.br.

As 10 músicas de “Transmutante” são profundas, algumas são resultado de um período no qual a artista passou por uma profunda depressão. Assim como diz a letra de “Psicologia”, a arte lhe permitiu expressar a sua tristeza. Mas Tchella explica que depressão é coisa muito séria. A música lhe ajudou a evitar que a dor a consumisse, mas o que possibilitou realmente a sua recuperação foi o acompanhamento com psicólogo.

“Depressão é uma doença grave e é banalizada demais por aí. E me chegaram vários casos de pessoas que se suicidaram. Algumas tinham preconceito (em fazer análise) e não procuraram ajuda”, explica a artista, que chega algumas vezes a discutir no palco questões relativas a esses momentos. “Eu me descobri compositora na fase de depressão, ajudou como válvula de escape, eu só me expressei. Mas o que fez com que eu aprendesse a lidar e conseguisse me superar foi fazer terapia e uma série de mudanças na minha vida”, afirma.

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“Eu me descobri compositora na fase de depressão, ajudou como válvula de escape, eu só me expressei. Mas o que fez com que eu aprendesse a lidar e conseguisse me superar foi fazer terapia e uma série de mudanças na minha vida”

Sua atitude e voz são poderosas. E, como não somos “independentes”, o mais difícil seria encontrar um padrinho para Tchella. Na música e nas letras, quem sabe Rita Lee poderia colaborar como madrinha! Por que não? Ou, quem sabe, a atriz Fernanda Torres. O fato é que todos temos histórias mais complexas que as biografias autorizadas. Tchella começou no teatro aos 12 anos, estudando já com o palco e o público em mente. Aos 17, ela trabalhou como profissional e teve diversas experiências no teatro, no teatro de rua, no circo e até no cinema. E, aos poucos, entendeu que faltava dar asas à sua veia sonora.

Em um musical em homenagem a Patativa do Assaré, que circulou por Portugal e Holanda, Tchella teve a certeza de voar nesse sentido. “Fui convidada pelo Núcleo Caboclinhas para substituir duas atrizes, duas funções, uma atriz e uma musicista. E como tenho essas habilidades consegui fazer essa substituição. Eu fazia o próprio Patativa do Assaré e tocava todos os instrumentos e guiava as canções. Apresentamos para diversos públicos, até para quem não entendia a língua portuguesa. Mas com a força do nosso baião o público se emocionou. Muitas pessoas que não entendiam o que falávamos entenderam a estética da peça e se emocionaram por nossa expressão. Foi uma experiência muito importante na minha carreira e possibilitou gravar meu disco.”

Mas, no senso comum, que vez ou outra nos sopram aos ouvidos, “atriz não canta bem”. “Esse tipo de visão me fez sofrer por muito tempo. Porque sempre me entendi como artista plural e achava natural, dentro do teatro. Para ser uma boa atriz seria bom fazer aula de dança, tocar um instrumento, cantar… quanto mais plural mais enriquecedor é. Porque o ator vive do trabalho do corpo, emoções e do coletivo. Ser atriz exige que esteja atenta a muitas coisas que as pessoas não se ligam: precisa sentir a luz, contracenar com o parceiro, cenário, olhar o público. Na formação do trabalho do ator quão plural mais enriquecedor ficamos. Mas o mundo real quer nos colocar um rótulo, te carimbar e colocar na prateleira dos cantores, dos atores e dos jornalistas. Isso porque fica mais fácil manipular as situações e as pessoas. E nós somos muitos, somos uma infinidade de personas.”

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“Clamo para ir, sempre em frente sem resistir, ao que há de vir. Devo ultrapassar todas dimensões, expandir o meu coração.”

Ela avalia que isso vem da forma como tem sido criado várias gerações, com projeções sobre profissões que podem ser seguidas pelas crianças, projeções sobre os sonhos dos pais que não foram realizados. “Olhar para isso é passar a se refletir e a se reconhecer. E isso te faz questionar algumas coisas e não aceitar outras, algumas até banais como não comprar a calça da moda, porque não tem a ver comigo. Chega a um grau de reflexão que você muda seus hábitos diários. E não é interessante para o capitalismo que as pessoas reflitam sofre como são. E tem gente como eu que tem a força de ser plural, muitos têm e não conseguem e sofrem. E há quem pense que eu era arrogante por querer ser várias coisas. Ter várias habilidades me possibilitou sobreviver melhor como artista, e vamos se equilibrando como pode. O meu show tem curva dramática bem intensa porque mostra várias facetas de mim, da alegria à profunda tristeza.”

Ser uma artista de múltiplos talentos coloca Tchella – e muitos de nós que somos plurais – fora da prateleira da sociedade de consumo da forma como tem sido desenvolvido desde a Revolução Industrial, mas alça artistas independentes como ela para uma gama de possibilidades dentro da interdependência dos afetos e da experiência emocional que transcendem ao entretenimento. “Vou encontrar o lugar onde quero estar, sem me afobar. Rezo e peço para seguir, minha direção. Sempre digo não ao que eu não quero mais”, canta Tchella em “Lugar”. “Clamo para ir, sempre em frente sem resistir, ao que há de vir. Devo ultrapassar todas dimensões, expandir o meu coração.”

Acústico Transmutante Ao Vivo

Dia 13/07, às 21h

Ingresso no Sympla

Local: Teatro de Utopias

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