20 minutos e muita história

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Minifestival “Era uma vez no Oeste”, cuja 8ª edição será realizada no sábado em São Paulo, nasceu do prazer em se cantar histórias, para além do que é chamado de folk music

 

Roger Marzochi, do entresons                                 Crédito da Foto: Versos Polaris

“Meu amigo, meu compadre, meu irmão. Escreva sua história pelas suas próprias mãos.” Ao ouvir esse refrão, da música “Como Diria Dylan”, de Zé Geraldo, Douglas Man encontrou o seu caminho. Nascido no Jardim Imperador, em São Paulo, Douglas cresceu ouvindo modas de viola de duplas como Tonico e Tinoco. À época, algumas ruas do bairro da periferia da capital ainda eram de terra, o que deixavam mais naturais essas notas soltas no ar, criando um clima ainda maior de interior. “Eu comecei a ser tocado pela música de viola, a música sertaneja de raiz”, lembra. Ganhou um violão, aprendendo a tocar sozinho nos livrinhos que se vendiam em bancas de jornal.

E foi com Zé Geraldo que, da década de 1990, ele teve a consciência que também poderia compor suas próprias músicas. Ainda neste ano, Douglas lançará seu primeiro trabalho autoral. Mas sua atuação se estende em diversas frentes, mas todas elas amarradas a um mesmo nó: cantar histórias. A música sertaneja de raiz lhe apresentou as primeiras histórias, que foram depois sendo ditadas por Bob Dylan, Zé Geraldo, Zé Ramalho, Renato Russo, Led Zepplin, Raul Seixas. De tal forma que Douglas considera “folk music” toda aquela canção que contar uma história.

Sem dúvida é importante ampliar os conceitos, apesar da cara feia de quem viu Dylan na década de 1960 empunhar uma guitarra. E próprio Dylan também ampliou o conceito de arte, ao vencer o Nobel de Literatura em 2016, em referência às suas canções. “O contador de história, é isso que me impressiona. Nas músicas caipiras, eu me lembro muito de “Chico Mineiro” (Sérgio Reis). Eu também acho que é um folk, não sei se é uma visão única, muitos podem não considerar. Mas ao meu olhar, essa é uma canção que pode ser considerada ‘folk brasileiro’.”

E nessa toada, Douglas criou um movimento muito interessante, que está dando visibilidade para os artistas desta ampla gama musical. Ele criou o minifestival “Era uma vez no Oeste”, que já reuniu 30 músicos e musicistas em apresentações em São Paulo. O próximo será realizado no dia 13 de abril, sábado, às 20h, Piccolo Teatro (Rua Avanhadava, 40 – Consolação). Nesta oitava edição, com entrada é gratuita, estarão se apresentando o artista paraense Lucas Padilha, com o trabalho Meio Amargo, com influências de Wilco a Belchior (suas composições estão no Spotify); e a cantora e compositora Liliam Bogarim, que iniciou sua carreira em 2012 tocando em bares no Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira. Em 2015, ela gravou seu primeiro EP homônimo todo autoral, misturando rock, brega, coco e circense. Confira o Soundcloud da artista, especialmente a música “Chico Clemente”, uma obra-prima, e “Da Caminhada ao Suor”, que em alguns pontos tem um “quê” suave de Pixies.

E, para encerrar, o próprio curador do evento, que se apresenta no projeto Douglas Man & os Famigerados, com Thomas Incao na viola e Jesse Siqueira no violino, trazendo um sotaque irlandês nessa feijoada brasileira. “Eu jamais imaginaria que chegaríamos até a 8ª edição!”, comemora Douglas. “A intenção do festival é criar uma vitrine para os novos artistas da cena do folk contemporâneo.”

O interessante é que cada banda tem apenas 20 minutos no palco, algo que Douglas imaginou para evitar que uma banda ficasse mais tempo que outras, visto que algumas têm músicas um pouco mais longas. Só depois é que ele conheceu a história do festival Live Aid, festival de música realizado em Londres para combater a fome na África no qual as bandas tinham 20 minutos de apresentação. Douglas conheceu essa história no filme “Bohemian Rhapsody”, pois o Queen fizera um show inesquecível nesse festival em 1985. Uma boa história é eterna, mesmo que se tenha apenas 20 minutos, por isso “Era uma vez no Oeste” tem tudo para ser inesquecível.

Caridade em tempos de crise

Assimetria no Caminho ((Roger Marzochi)

Defendida por todas as religiões e até por agnósticos, qual é o significado de caridade nos tempos atuais?

Roger Marzochi, do entresons

A luz diáfana que atravessa as árvores entre os gentis caminhos do Parque Villa Lobos, em São Paulo, revela uma beleza baça na mistura entre o verde da vegetação, o cinza do chão e a suave névoa branca de uma manhã molhada do fim de fevereiro. Com uma pasta azul embaixo do braço, cujas pontas estão esgarçadas, revelando o bege do papelão da qual é feita, seu Gutemberg procura latinhas nas lixeiras. “A chuva deve ter espantado o povo daqui ontem, consegui quase nada”, diz.

Após reunir o que pode de recicláveis, que são colocados em sacos plásticos, esse homem negro com barba e cabelos embranquecidos, percorre empresas da região da Lapa entregando o conteúdo de sua pasta: currículos. “Trabalhei a vida toda de ajudante ou conferente, não sei fazer outra coisa”, afirma. Por não ter 60 anos completos, ele precisa conseguir dinheiro para pagar a passagem de volta para a sua casa, no Jaraguá.

Assimetria na Orquídea (Roger Marzochi)

“É algo que vai muito além da simpatia ou empatia. É um amor incondicional, que se entrega, um impulso de amor verdadeiro. É fazer o bem sem interesse”

Correndo ou em passos largos, a maioria dos usuários do parque mantém os olhos fixos no horizonte e os ouvidos grudado aos fones, na frequência de suas canções ou rádios prediletas. Muitos nem notam Gutemberg levando as mãos para dentro das lixeiras, retirando água ou resto de refrigerante acumulados nas latas. “O senhor quer uma ajuda?”, pergunto-lhe. “Dinheiro eu não peço, preciso é de um emprego”, responde Gutemberg, agradecido, com sorriso tímido.

Gutemberg me fez refletir sobre o que realmente significa a palavra caridade, um conceito que está na base de todas as religiões do mundo. Mas, afinal, o que é caridade? E como é possível hoje praticá-la? “A caridade é um impulso de amor que faz você ver o outro como um templo divino. O povo confunde com filantropia, que sempre diferencia o ajudado de quem ajuda”, diz o jornalista e escritor Pedro Fávaro Jr.

O escritor lançou, no ano passado, o livro “Freguês” (Chiado Books), um romance inspirado em sua experiência com jovens que viviam nas ruas de Jundiaí, no interior de São Paulo. “Eles vivem na praça, nas ruas de uma cidade no interior de São Paulo e ninguém lhes dá atenção por julgá-los estorvos, um bando de foras-da-lei”, escreve na sinopse do trabalho.

Fávaro, que também é diácono permanente da Igreja Católica, explica que a palavra caridade vem do latim caritas. Porém, em sua avaliação, seria melhor traduzi-la como “ágape”, uma palavra grega. “É você ‘com-padecer’ com o outro, padecer das mesmas dores, partilhar os mesmos sentidos e sentimentos. É algo que vai muito além da simpatia ou empatia. É um amor incondicional, que se entrega, um impulso de amor verdadeiro. É fazer o bem sem interesse.”

A ideia de ágape também inspirou o padre Marcelo Rossi, que chegou a escrever um livro homônimo (Editora Globo), embora haja um processo judicial relativo aos direitos autorais da obra. O ímpeto de ajudar os necessitados nasceu aos 20 anos na irmã Maria, minha tia-avó. Ela entrou para o convento para ajudar como enfermeira em Santas Casas no interior de São Paulo, em cidades como Casa Branca, Diamantina e São João da Boa Vista.

Hoje, aos 90 anos, ela não se arrepende de ter deixado o convívio com a família para ajudar os enfermos. “Me deu vontade. Mas foi difícil sair de casa, tinha a mãe e o pai em casa, foi difícil minha mãe deixar. Não é fácil sair assim, mas graças a Deus tive força. Foi um caminho bom, não me arrependi não”, conta ela, por telefone.

Assimetria nos Ares (Roger Marzochi)

“A caridade é frequentemente descrita como um meio de harmonizar as ofensas”

O jornalista Moacir Rodrigues da Cunha, especializado em agribusiness, também transformou sua vida ao iniciar um projeto de visitas a presos em Goiânia, onde vive. Ouvir o relato dos que estão no cárcere o fez perceber quão carentes essas pessoas foram no passado, com grande ausência de atenção familiar.

Um abraço profundo, como um pai ou uma mãe dá a um filho, é a lição que Cunha aprendeu nessa experiência: levar um abraço, um contato físico de carinho, a um detento para mostrar o quão especial ele é. O jornalista, que é luterano e também membro da Assembleia de Deus, afirma que com essa iniciativa deixou de sentir o que é solidão e depressão.

A caridade é também uma forma de apaziguar relações, como defende o islamismo. “As principais características da sociedade contemplada pelo Corão são a compaixão e a bondade, a honestidade e a Justiça”, escreve a professora de religião e humanidades Tamara Sonn, do College of William and Mary (EUA), no livro “Uma breve história do Islã” (José Olympio Editora).

“A caridade também é extremamente importante do ponto de vista alcorânico. ‘Certamente Deus recompensa o caridoso’ nos é dito quando a história de José é narrada (12:88). As pessoas são orientadas a perdoar seus devedores, como ato de caridade. A caridade é frequentemente descrita como um meio de harmonizar as ofensas.”

Católicos, protestantes, espíritas, umbandistas, membros de todas as religiões defendem e praticam a caridade. E a ágape não seria diferente entre os agnósticos. O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia do Dartmouth College, nos Estados Unidos, ganhou em março o prêmio Templeton de 2019, conhecido como o “Nobel da Espiritualidade”, comenda obtida por nomes como Madre Teresa de Calcutá e Dalai Lama.

O fato de ser agnóstico não torna Gleiser arrogante, uma vez que ele respeita a dimensão religiosa da sociedade e entende que a ciência não é capaz de responder a todas as questões sobre a vida. Isso, no entanto, não significa que ele deixe de ser um crítico com relação ao fundamentalismo. Ele alerta a sociedade sobre os reflexos negativos sobre a crença em um único Deus, que tem influenciado a maioria dos cientistas na busca da Teoria de Tudo, uma equação matemática perfeita que provaria a essência divina da criação.

“Dadas as descobertas das últimas décadas, basta abrir os olhos para ver que estamos avançando numa nova direção, criando uma nova visão de mundo, em que a ênfase deixa de ser o cosmo e passa a ser em nós, humanos: o mistério não é que um Universo especial gerou criaturas mundanas, e sim que um Universo mundano gerou criaturas especiais”, escreve Gleiser em “Criação Imperfeita” (Editora Record), argumentando que são as assimetrias e imperfeições que tornaram possível a nossa existência. A palavra “mundano” está em itálico no livro porque, a priori, é uma metáfora para a imperfeição da natureza cósmica.

Assimetria nas Flores (Roger Marzochi)

“o mistério não é que um Universo especial gerou criaturas mundanas, e sim que um Universo mundano gerou criaturas especiais”

A espiritualidade de Gleiser, que independente de religião, também tem sido promovida por meio do programa no YouTube “Caminho do Bem Viver”, no qual ele entrelaça cosmologia e a arte de viver, numa expressão áudiovisual muito próxima à beleza de suas palavras no livro “A Simples Beleza do Inesperado” (Editora Record).

As assimetrias e as forças imperfeitas que fazem do Universo um grande mistério também estão presentes em nossas mentes. Há quem diz praticar caridade, mas desconhece ágape pelo simples fato de defender governantes que apoiam e enaltecem a tortura e a pena de morte, promovem desinformação, incentivam a violência contra mulheres e homossexuais, incitam a intolerância religiosa e ameaçam a liberdade de expressão.

Desde aquela manhã de um fevereiro de ruas molhadas, a busca pelo significado da caridade me levou até uma associação que é uma verdadeira máquina “do bem”, com ramificações internacionais. Uma de suas representantes, no entanto, deixou escapar que para ela as frases lastimáveis do atual Presidente da República são apenas marketing, ele não é o que diz. Desde então, houve a defesa do Golpe de 1964, ofensa aos palestinos, violências em vários aspectos.

E, mesmo se fosse “marketing”, que tipo de sociedade vivemos para que o discurso de ódio seja inspiração de nação? Não vem ao caso revelar nomes, liberdade de expressão é também saber respeitar nossos limites, visto que muito do que vivemos hoje é reflexo de um denuncismo histérico. Não é por acaso que encontrei Gutemberg, que talvez tenha esse nome em homenagem a Johannes Gutenberg, que no século 15 criou os tipos móveis de impressão que revolucionaram a imprensa.

Assimetria na Música (Roger Marzochi)

“A caridade é um impulso de amor que faz você ver o outro como um templo divino. O povo confunde com filantropia, que sempre diferencia o ajudado de quem ajuda”

O senhor que recicla latas precisa de um emprego, precisa ressignificar sua existência nessa nova era; as crianças precisam de um plano de educação e não de uma cartilha “contrarevolucionária” de um ideólogo da Idade Média; é preciso promover a arte, a ciência e a tecnologia.

É preciso de muita “ágape” em tempos como em que vivemos, de ódio e de guerra, seja semântica ou física. A caridade só tem sentido se praticada. Que possamos ter a consciência mais ampla que cada um de nós somos agentes desse amor incondicional que é a humanidade. Ela pode estar em falta em algum lugar distante na África? Pode. Mas, como diz uma querida amiga, a caridade também está na forma como nos relacionamentos em casa e com as pessoas ao nosso redor.

 

Além de documentário, “Woodstock brasileiro” deve ser lançado em CD e vinil

Público de 1975 - foto de arquivo pessoal Leivinha

Festival de Águas Claras, em Iacanga, no interior de São Paulo, completa 44 anos com documentário que será exibido em abril; diretor do filme negocia o lançamento das gravações dos shows em disco duplo e vinil

Roger Marzochi, do entresons; foto de capa feito pela família de Antônio Checchin Júnior em 1975

Nem a direita, nem a esquerda. Foram os hippies que revolucionaram os padrões de comportamento durante a abertura lenta e gradual da Ditadura (1964 – 1985), a partir do governo de Ernesto Geisel, em 1974. É esta a mensagem de “O Barato de Iacanga”, documentário que será exibido em abril em São Paulo e Rio de Janeiro no festival “É Tudo Verdade”.

Thiago Mattar, diretor do filme, está negociando com artistas que participaram do Festival de Águas Claras, na cidade paulista de Iacanga, entre 1975 e 1984, para lançar um CD com as gravações originais dos shows, que transitavam entre o rock e baião, com ícones como Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, João Gilberto, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Alceu Valença, Raul Seixas, Walter Franco, Jorge Mautner e Gilberto Gil.

“O ideal seria fazer um álbum duplo. E aí entrariam duas músicas de cada artista. Eu acho que a gente precisa tornar esse material público. As pessoas precisam ouvir. Só o show do João daria um disco só dele. Existe uma máster, um original da gravação. E eu escutei e dá para lançar um disco ‘João Gilberto ao vivo em Águas Claras’”, diz Mattar.

O som viria também de registros feitos diretamente nas mesas de som, fitas k7 e fitas de vídeo cujos áudios seriam tratados, sem perder as características originais. Além de CD e streaming de música, a produção estuda o lançamento de um disco em vinil, para colecionadores. “Nós nos preocupamos com trabalho de arte, com um encarte bacana, possivelmente um pôster do cartaz do primeiro festival. Mas tudo depende de negociação”, explica o diretor.

Hermeto e Thiago Mattar nos bastidores da gravação de O Barato de Iacanga - Foto Divulgação

Hermeto Pascoal (esq.) e Thiago Mattar nos bastidores da gravação de “O Barato de Iacanga” (Foto Divulgação)

Paz e amor – Os hippies escancararam e escandalizaram a abertura lenta e gradual de Geisel. Um ano após sua eleição e a histórica derrota da Arena nas urnas no Congresso, o Festival de Águas Claras virou Iacanga de ponta cabeça, em 1975. Nas edições seguintes de 1981, 1983 e 1984 reuniu até 75 mil pessoas, ganhando o reconhecimento como o “Woodstock Brasileiro”. A festival de rock dos Estados Unidos, realizado em 1969, influenciou diversos outros movimentos no Brasil, mas nenhum com as dimensões de Iacanga.

Mattar chegou até essa história aos 20 anos, justamente quando, em 2009, assistia um documentário sobre Woodstock. Ao presenciar o filho vendo aquelas cenas, seu pai contou que ele próprio havia participado de um “Woodstock Brasileiro”, em 1975. “Meu pai trabalhou como fiscal de barraca. Andava de um lado para o outro só de cueca, bota de cano longo e chapéu.”

A partir de então, Mattar empreendeu várias viagens de Dracena, cidade do interior de São Paulo onde vivia, para Iacanga, cidade de sua bisavó e de seu pai. Com uma câmera amadora, começou a registrar as histórias contadas por moradores e teve contato com Antônio Checchin Júnior, mais conhecido como Leivinha, flautista que idealizou o festival na fazenda de seus pais.

Com extensa pesquisa em cenas de época, jornais e entrevistas com moradores e músicos, Mattar conseguiu apoio da produtora bigBonsai para apresentar agora o documentário, que estará no festival “É Tudo Verdade”, que será realizado em São Paulo entre 4 e 14 de abril e, no Rio de Janeiro, de 8 a 14 de abril. Esse documentário será exibido dias 12/04 (20h, Sesc 24 de Maio) e 14/04 (14h, IMS) em São Paulo; e 13/04 (20h, IMS RJ) e 14/04 (18h, Estação Net Botafogo 1) no Rio de Janeiro. A reportagem esteve presente na exibição do filme na segunda-feira (25/03), no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, em evento fechado à imprensa.

“Foi o primeiro grande festival alternativo do País e tem uma história de ativismo. Como fazer uma coisa dessas quando era impossível? É um festival que abriu muitos caminhos e cabeças”, diz Mattar, em referência à amplitude de ritmos da música brasileira que conviveram harmonicamente na plateia em plena Ditadura. “A fusão da atitude hippie com a música contemporânea, moderna e regional é uma mistura muito louca, que vai além da terminologia de ‘Woodstock brasileiro’.”

Vista aérea do camping e palco festival de 1981 - foto de Irmo Celso

Vista aérea do camping e do palco do Festival de Águas Claras na edição de 1981 (Foto de Irmo Celso/Divulgação)

Gororóbas e cogumelos – O primeiro festival, em 1975, contou com bandas como a paulistana Jazzco, do contrabaixista e guitarrista Amador Bueno. “O clima era bem feliz apesar de ser a época dos milicos”, diz. “Colocaram a gente para tocar num sábado no fim da tarde, foi bom porque tinha o pessoal que morava em volta da fazenda. Deveria ter umas 35 mil pessoas. Iacanga foi bem legal, foi aquele paz e amor do Woodstock de 69”, diz Bueno, que tinha 24 anos nos idos de 75.  Ao longo da estrada, Bueno lembra de ter visto muita gente pedindo carona, muita gente pelada na fazenda.

A comida era uma gororóba com arroz sobre a qual ele não tem boas lembranças. E nem chegou a conhecer a lagoa onde muitos nadavam nus. Ele ficava grudado ao lado do seu Fusca com medo de roubarem os instrumentos musicais do grupo. “Fui tomar banho numa tia em Bauru e voltei. E foi muito louco, o pessoal pegava cogumelo no pasto, tomava chá, tinha ácido, rolava todas lá. Mas não era só isso, não era só loucura”, diz Bueno. Naquele tempo, a Jazzco era uma banda de jazz-rock. E, hoje, é uma big band de jazz e música instrumental brasileira.

Para poder realizar o evento, Leivinha teve a coragem de assinar um documento na delegacia se responsabilizando por evitar o consumo de drogas e atos que atentassem contra a moral e os bons costumes, sob o risco de ser preso. Sem telefone (muito menos internet), o anúncio do festival foi sendo propagado pelos amigos músicos. E, aos poucos, barracas se estenderam pela grama da fazenda, muitos jovens tomaram conta da paisagem. Jornais de época davam conta que a multidão era de 15 mil pessoas.

E tudo foi acompanhado por um fotógrafo do aparato de repressão, que após o primeiro festival, entregou o material para investigadores. Rapidamente, as cenas de nudez, consumo de maconha e gritos de liberdade política acenderam o alerta na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que proibiu novos eventos.

João Gilberto (1983_ por Mario Luiz Thompson)

João Gilberto fez o seu primeiro show ao vivo ao ar livre no Festival em 1983 (Foto de Mário Luiz Thompson/Divulgação)

João faz nascer o Sol – O segundo festival só foi realizado seis anos depois, após o grupo de familiares e amigos que participou da organização do primeiro evento conseguir apoio em Brasília. A partir de então o festival ampliou a sua dimensão, ganhando cobertura da mídia, em especial da TV Bandeirantes.

E conseguiu trazer, em 1983, ninguém menos que João Gilberto para o palco em Iacanga, época em que a mídia noticiava um público total de 75 mil pessoas. As cenas de João Gilberto na apresentação são muito emocionantes, varando a madrugada com sua voz suave, seu violão e dividindo o vocal com a plateia, até o sol nascer. “Foi um show histórico, o primeiro dele ao ar livre”, conta Mattar.

São também emocionantes as cenas de época de Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Egberto Gismonti, Sandra de Sá e Gonzaguinha. O documentário soma 93 minutos, mas é possível ampliar para uma série de até quatro horas, diz Mattar. Só de material da TV Bandeirantes, que foi emissora oficial do evento em 1981 e 1983, há 20 horas de gravação. “É muito difícil condensar. Fiz priorizando a história, mas muita coisa ficou de fora, como o Belchior, no festival de 1984.”

Com o sucesso, choveram patrocinadores, que exigiram um festival em pleno carnaval em 1984. E, literalmente, uma chuva absurda colocou abaixo os sonhos dos jovens músicos: o último festival foi um completo desastre. Traumatizado, Leivinha evita falar em flauta, mudou-se para a Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, onde tem uma pousada e um restaurante. E tentou apagar da sua mente a história do festival.

Duas garotas se beijando em 1983 - Foto de Calil Neto

Garotas se beijam durante a edição do festival de 1983 (Foto de Calil Neto/Divulgação)

Mattar avalia que o festival foi um exemplo de como é possível a juventude se mobilizar mesmo frente à falta de liberdade de expressão. “Como diz o Gilberto Gil, o festival foi a vitória em uma pequena batalha, uma miniguerra cultural”, explica. Hoje, com o atual Presidente da República defendendo abertamente uma comemoração do Golpe de 1964, “O Barato de Iacanga” é um incentivo para que a classe artística e o público não desanimem.

“Nosso País perdeu a memória. Tem uma onda de conservadorismo tomando conta do País. É realmente importante que a juventude renasça e enfrente essa questão. Não dá para a gente ficar voltando para traz, cultuando um passado de mentira, de censura, de restrição de liberdade”, afirma o cineasta.

 

 

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Exibições

Um som “Solar”

foto divulgação Alfredo Dias Gomes -creditos Thiago Kropf

O multi-instrumentista Alfredo Dias Gomes, filho dos dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes, está lançando “Solar”, seu 11º disco autoral

Roger Marzochi, entresons (@entresons.com.br) – Crédito da foto/Thiago Kropf

O multi-instrumentista Alfredo Dias Gomes, filho dos dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes, está lançando “Solar”, seu 11º disco autoral, com a participação do saxofonista e flautista Widor Santiago. Gomes assina as composições, algumas com mais de 30 anos, mas ainda inéditas em CD, além de tocar bateria e teclados. “Viajante”, a música que abre caminhos do trabalho, foi composta em 1980 a pedido de Janete, que à época queria um tema para um personagem interpretado por Tarcísio Meira na novela “Coração Alado”.

O jovem baterista, que trabalhava nesse período na banda de Hermeto Pascoal, foi no coração do Brasil para representar esse personagem, que saíra do Nordeste para viver no Rio de Janeiro. O CD está disponível em streaming e meio físico, embora haja um problema ao ouvi-lo no Deezer. Exatamente aos 3 minutos e 36 segundos de “Viajante” nessa plataforma, a música dá um salto abrupto, coisa que não ocorre com o CD físico.

Diferentemente de “Jam”, CD de rock-jazz do músico que o entresons teve a alegria em abordar em reportagem no ano passado, “Solar” explora a confluência dos ritmos brasileiros com o jazz americano, fazendo em alguns momentos homenagens diretas a John Coltrane, por exemplo. É o que ocorre logo no início de “Smoky”, no qual Santiago conclama dos céus a melodia e a atmosfera inconfundíveis de “Equinox”, que se dissolve, recria-se e se desconstrói, em vários outros momentos dessa faixa. E os sopros de Santiago, um dos maiores saxofonistas brasileiros, que já trabalhou com ninguém menos que Milton Nascimento, o santo Coltrane abençoou com o máximo louvor libertário.

Há grooves mais puxados para o samba em alguns momentos e reflexos da influência espanhola em “El Toreador”, composta em 1993 para a peça de mesmo nome de Janete Clair. É interessante ouvir os baixos das faixas, todos feitos em teclado, não dá para acreditar. O disco foi gravado no estúdio de Gomes no Rio de Janeiro, mixado por Thiago Kropf e masterizado por Alex Gordon, no Abbey Road Studios. É bom demais ouvir esse som, sentindo a juventude dos veteranos, espalhando luz por sobre a música jazzística brasileira. Os jovens instrumentistas têm muito que aprender com a velha guarda.

Jazz na zona de guerra

Vinicius Chagas Warzone

Saxofonista Vinícius Chagas lança seu segundo disco autoral, exorcizando seus demônios e refletindo tempos turbulentos

Roger Marzochi, do entresons

Eu me envolvi muito na primeira década dos anos 1990 com a faculdade de jornalismo da Unimep, em Piracicaba. Professores incríveis como Ana Maria Cordenonsi, que promovia Rodas-Vivas e práticas de vários estilos de redação jornalística; Belarmino César, que fazia um mergulho na teoria da comunicação de massa; e Regina Davalle, que me incentivou a ser bolsista em projeto de ciência política. E, entre tantos bons professores, havia o Rondon de Castro. Ele brincava dizendo que, mesmo que uma bomba atômica explodisse, haveria sempre um editor mandando um repórter para o local para descrever a cena. Nem que, ao gesticular ao repórter sobre o imperativo da pauta, seus braços caíssem em decorrência da radiação.

Há na arte o mesmo envolvimento. Os artistas anteveem as disfunções sociais e as retratam, ou usam a estética para expressar a superação de tragédias. “Uma bomba sobre o Japão / Fez nascer o Japão da paz”, canta Gilberto Gil em “Paz”. Alguns, adotando essa linha, seguem o que o pianista Benjamim Taubkin pensa sobre o papel da arte, que seria o de mostrar caminhos sem chocar o público. Como a triste beleza de “Retirantes”, de Cândido Portinari, e “Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar”, da companhia Os Barulhentos, numa incrível fusão de textos do romeno Matéi Visniec.

Por outro lado, alguns artistas tornam o mundo mais sombrio, como o inacreditável “Dilúvio” que Gerald Thomas fez cair em 2017, em São Paulo. Alguns aspectos da estridência sonora dessa peça me vieram à mente agora, escutando “Warzone”, o segundo disco do jovem saxofonista Vinícius Chagas, lançado no dia 18 de janeiro deste guerrilheiro ano de 2019. Em 2015, eu havia participado de um workshop com Mr. Chagas, uma pessoa calma e que me dava dicas sobre como chegar perto do que o maestro Itiberê Zwarg pedia em um curso de Música Universal. O multi-instrumentista da banda de Hermeto Pascoal cantava as notas e os músicos as captavam no ar, tocando-as na hora. Ouvia com grande admiração a todos, especialmente Chagas, cuja linha melódica era incrível.

A grande surpresa foi perceber o caminho autoral que esse músico está seguindo, carregado em velocidade de execução e gritos muito próximos do completo desespero, desalento e desamor. Sua fascinação pelo jazz de Miles Davis e Charlie Parker estão nítidos em seu swing e na fotografia que escolheu para ilustrar o seu WhatsApp, embora suas dissonâncias o deixem mais próximo de Ornette Coleman e do free-jazz. Mas, afinal, por que você toca assim? Por que você grita?

“Eu cresci em igreja evangélica, ouvindo muita música gospel. E música raiz, samba, por influência do meu pai. Isso está dentro da minha musicalidade. Tem uma coisa melódica, mas tem uma tristeza. Todos esses fragmentos são coisas da minha vida pessoal que se refletem na música”, explica o saxofonista. “A maneira de tocar vem da influência da minha vivência, minha personalidade. Reflete o jeito que eu toco, reflete mais a minha personalidade que o momento. As composições podem ter minha maneira de tocar, que desenvolvi há anos.”

O músico, que nasceu em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, começou a tocar na igreja. Entrou para uma banda de dixieland, subgênero do jazz nascido em New Orleans. Com o crescente interesse e estudo musical, Chagas se mudou para São Paulo após conseguir ser aceito na antiga ULM, hoje Emesp Tom Jobim, em São Paulo. Além de seu grupo, Chagas também é integrante do projeto Jazz na Kombi, parceiro do trombonista Bocato, um dos grandes nomes da música instrumental brasileira, e integrante da banda Aláfia, que se apresentará no Lollapalooza, em show no dia 7 de abril.

O disco novo foi gravado há dois anos, portanto, após um período crítico em decorrência do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o início do governo de Michel Temer. E hoje, principalmente por causa da capa do disco, “Warzone” não deixa de representar um momento delicado na história mundial, com a ameaça latente de retorno da da Guerra Fria, com a volta da disputa sobre armas atômicas entre Rússia e Estados Unidos, e a ascensão da extrema direita no continente americano.

“Eu acredito que há um reflexo do momento em que estávamos vivendo. A gente faz arte e estamos interligados com a sociedade. Muita gente fala que o primeiro disco foi dramático e que o atual também é. Não que eu queria fazer drama, mas são histórias da minha vida. Mas não é só coincidência (o fato de o disco refletir a crise social e política). Pensando em um plano maior, a arte sintetiza muito o momento em que a gente vive. A arte sempre foi bem expressiva, conversa com o que está acontecendo na sociedade.”

Vinícius explica que a palavra warzone simboliza, entre os músicos de jazz norte-americanos, o momento no qual suas mentes estão em ebulição durante as improvisações. Para ele, essa zona de guerra seria esse momento que é preciso sentir, mas também pensar. “É uma zona de guerra na qual você não pensa, mas você tem que estar pensando”, diz ele. Zwarg ensina que pensar a música durante a performance, ao invés de senti-la, é morte certa. “É uma zona de guerra que pode definir se você vai viver ou morrer. É um lugar futurista de criação, uma zona de guerra que você precisa viver. O objetivo é a vida.”

O grupo é formado por Fernando Amaro (bateria), Thiago Alves (contrabaixo acústico) Gabriel Gaiardo (piano elétrico e acústico), Robinho Tavares (baixo elétrico), Adauto Dias (guitarra), Allyson Bruno (percussão), Clayton Souza (sax tenor e soprano) e Maycon Mesquita (trompete). Chagas diz que gravou “Warzone” pensando em Miles Davis. “Eu fiz inspirado nos discos do Miles. Os caras erram, se desencontram e se encontram, é o som… Os discos do Miles têm ele falando e dando esporro, o que prova que os caras são humanos. Ninguém é perfeito. O negócio tão polido não me atraia muito. O equilíbrio é o mais certo.”

Um novo disco deverá sair neste ano. Com a Aláfia, Chagas viajou recentemente para Istambul, na Turquia. E foi dentro do Grand Bazaar, um dos mais antigos mercados do mundo, que o músico teve a ideia de gravar um novo disco que se chamará “Cota Racial”, somente com músicos negros. Como líder de bandas, Chagas explica que aprendeu a lidar com o ego. “A gente é muito vaidoso, o que não serve para bosta nenhuma. Por gravar sempre e liderando, aprendi muitas coisas sobre o ego. A gente estuda muito. Os desânimos são reflexos do seu ego. Se ele não concorda, você vai ficar mal. É uma maneira de melhorar como pessoa. Quanto mais quieto seu ego ficar, melhor. E sempre é frustrante alimentar o ego.”

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