Jazz na zona de guerra

Vinicius Chagas Warzone

Saxofonista Vinícius Chagas lança seu segundo disco autoral, exorcizando seus demônios e refletindo tempos turbulentos

Roger Marzochi, do entresons

Eu me envolvi muito na primeira década dos anos 1990 com a faculdade de jornalismo da Unimep, em Piracicaba. Professores incríveis como Ana Maria Cordenonsi, que promovia Rodas-Vivas e práticas de vários estilos de redação jornalística; Belarmino César, que fazia um mergulho na teoria da comunicação de massa; e Regina Davalle, que me incentivou a ser bolsista em projeto de ciência política. E, entre tantos bons professores, havia o Rondon de Castro. Ele brincava dizendo que, mesmo que uma bomba atômica explodisse, haveria sempre um editor mandando um repórter para o local para descrever a cena. Nem que, ao gesticular ao repórter sobre o imperativo da pauta, seus braços caíssem em decorrência da radiação.

Há na arte o mesmo envolvimento. Os artistas anteveem as disfunções sociais e as retratam, ou usam a estética para expressar a superação de tragédias. “Uma bomba sobre o Japão / Fez nascer o Japão da paz”, canta Gilberto Gil em “Paz”. Alguns, adotando essa linha, seguem o que o pianista Benjamim Taubkin pensa sobre o papel da arte, que seria o de mostrar caminhos sem chocar o público. Como a triste beleza de “Retirantes”, de Cândido Portinari, e “Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar”, da companhia Os Barulhentos, numa incrível fusão de textos do romeno Matéi Visniec.

Por outro lado, alguns artistas tornam o mundo mais sombrio, como o inacreditável “Dilúvio” que Gerald Thomas fez cair em 2017, em São Paulo. Alguns aspectos da estridência sonora dessa peça me vieram à mente agora, escutando “Warzone”, o segundo disco do jovem saxofonista Vinícius Chagas, lançado no dia 18 de janeiro deste guerrilheiro ano de 2019. Em 2015, eu havia participado de um workshop com Mr. Chagas, uma pessoa calma e que me dava dicas sobre como chegar perto do que o maestro Itiberê Zwarg pedia em um curso de Música Universal. O multi-instrumentista da banda de Hermeto Pascoal cantava as notas e os músicos as captavam no ar, tocando-as na hora. Ouvia com grande admiração a todos, especialmente Chagas, cuja linha melódica era incrível.

A grande surpresa foi perceber o caminho autoral que esse músico está seguindo, carregado em velocidade de execução e gritos muito próximos do completo desespero, desalento e desamor. Sua fascinação pelo jazz de Miles Davis e Charlie Parker estão nítidos em seu swing e na fotografia que escolheu para ilustrar o seu WhatsApp, embora suas dissonâncias o deixem mais próximo de Ornette Coleman e do free-jazz. Mas, afinal, por que você toca assim? Por que você grita?

“Eu cresci em igreja evangélica, ouvindo muita música gospel. E música raiz, samba, por influência do meu pai. Isso está dentro da minha musicalidade. Tem uma coisa melódica, mas tem uma tristeza. Todos esses fragmentos são coisas da minha vida pessoal que se refletem na música”, explica o saxofonista. “A maneira de tocar vem da influência da minha vivência, minha personalidade. Reflete o jeito que eu toco, reflete mais a minha personalidade que o momento. As composições podem ter minha maneira de tocar, que desenvolvi há anos.”

O músico, que nasceu em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, começou a tocar na igreja. Entrou para uma banda de dixieland, subgênero do jazz nascido em New Orleans. Com o crescente interesse e estudo musical, Chagas se mudou para São Paulo após conseguir ser aceito na antiga ULM, hoje Emesp Tom Jobim, em São Paulo. Além de seu grupo, Chagas também é integrante do projeto Jazz na Kombi, parceiro do trombonista Bocato, um dos grandes nomes da música instrumental brasileira, e integrante da banda Aláfia, que se apresentará no Lollapalooza, em show no dia 7 de abril.

O disco novo foi gravado há dois anos, portanto, após um período crítico em decorrência do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o início do governo de Michel Temer. E hoje, principalmente por causa da capa do disco, “Warzone” não deixa de representar um momento delicado na história mundial, com a ameaça latente de retorno da da Guerra Fria, com a volta da disputa sobre armas atômicas entre Rússia e Estados Unidos, e a ascensão da extrema direita no continente americano.

“Eu acredito que há um reflexo do momento em que estávamos vivendo. A gente faz arte e estamos interligados com a sociedade. Muita gente fala que o primeiro disco foi dramático e que o atual também é. Não que eu queria fazer drama, mas são histórias da minha vida. Mas não é só coincidência (o fato de o disco refletir a crise social e política). Pensando em um plano maior, a arte sintetiza muito o momento em que a gente vive. A arte sempre foi bem expressiva, conversa com o que está acontecendo na sociedade.”

Vinícius explica que a palavra warzone simboliza, entre os músicos de jazz norte-americanos, o momento no qual suas mentes estão em ebulição durante as improvisações. Para ele, essa zona de guerra seria esse momento que é preciso sentir, mas também pensar. “É uma zona de guerra na qual você não pensa, mas você tem que estar pensando”, diz ele. Zwarg ensina que pensar a música durante a performance, ao invés de senti-la, é morte certa. “É uma zona de guerra que pode definir se você vai viver ou morrer. É um lugar futurista de criação, uma zona de guerra que você precisa viver. O objetivo é a vida.”

O grupo é formado por Fernando Amaro (bateria), Thiago Alves (contrabaixo acústico) Gabriel Gaiardo (piano elétrico e acústico), Robinho Tavares (baixo elétrico), Adauto Dias (guitarra), Allyson Bruno (percussão), Clayton Souza (sax tenor e soprano) e Maycon Mesquita (trompete). Chagas diz que gravou “Warzone” pensando em Miles Davis. “Eu fiz inspirado nos discos do Miles. Os caras erram, se desencontram e se encontram, é o som… Os discos do Miles têm ele falando e dando esporro, o que prova que os caras são humanos. Ninguém é perfeito. O negócio tão polido não me atraia muito. O equilíbrio é o mais certo.”

Um novo disco deverá sair neste ano. Com a Aláfia, Chagas viajou recentemente para Istambul, na Turquia. E foi dentro do Grand Bazaar, um dos mais antigos mercados do mundo, que o músico teve a ideia de gravar um novo disco que se chamará “Cota Racial”, somente com músicos negros. Como líder de bandas, Chagas explica que aprendeu a lidar com o ego. “A gente é muito vaidoso, o que não serve para bosta nenhuma. Por gravar sempre e liderando, aprendi muitas coisas sobre o ego. A gente estuda muito. Os desânimos são reflexos do seu ego. Se ele não concorda, você vai ficar mal. É uma maneira de melhorar como pessoa. Quanto mais quieto seu ego ficar, melhor. E sempre é frustrante alimentar o ego.”

Um todo mais que completo

Giba Estebez

Pianista paulistano Giba Estebez lança “Omni”, seu primeiro trabalho autoral

Roger Marzochi, do entresons; crédito da foto Neoback

O pianista paulistano Giba Estebez resgatou o conceito do “todo” como inspiração para o seu primeiro trabalho autoral, lançado em meados de 2018 nas plataformas de streaming. “Omni”, que vem do latim todo, inteiro, reúne dez composições autorais do músico, que além de acompanhar cantoras como Alaíde Costa, Claudette Soares e Patricia Marx, é um dos instrumentistas mais ativos da cena do jazz brasileiro.

O CD físico deverá ser lançado em 2019, com realização de shows em São Paulo. As composições são inspiradíssimas, resultado de grande dedicação ao estudo musical, que deslanchou nos anos 1980, apresentando ao público diversos estilos entre jazz, samba-jazz, bossa nova e uma incrível fusão das tradições ocidental e oriental na peça que batiza o trabalho.

Aos 53 anos, Estebez avalia que o primeiro trabalho autoral custou a sair. O que importa é que veio à tona, e que a cada vez em que se escuta, mais rico o som se faz aos ouvidos. “Tem mistura de vários ritmos, tudo que já fiz até agora, músicas que gosto de tocar”, explica o pianista.

“Omni” nasceu de uma grata junção de universos. O pianista, que já foi professor do prestigiado CLAM, vem aprimorando sua técnica estudando música contemporânea com Celso Mojola, professor da Escola Superior de Música da Faculdade Cantareira.

Estebez se aprofundou nos estudos do dodecafonismo, criado pelo compositor austríaco Arnold Schönberg, movimento musical do século 20 que rompeu com a música tonal promovendo o que o compositor se referia como a “emancipação da dissonância” evitando ao máximo a repetição.

“De fato, como qualquer ouvinte constata à primeira audição, a música dodecafônica não se presta à escuta linear, melódica, temática. A memória dificilmente é capaz de repetir o que ouviu, porque a própria música diversifica as suas repetições de modo a que elas não sejam captadas na superfície como repetição”, explica José Miguel Wisnik no livro “Som e o Sentido – Uma Outra História das Músicas”, na página 174.

“A Omni saiu de uma racionalidade, unindo duas escalas diminutas. Eu extraí os acordes dessas escalas. E criei uma melodia em cima dessas duas escalas, que acabou gerando uma escala cromática, que só depois que eu fui descobrir. E foi tudo bem racionalizado”, diz Estebez.

Ao estudo, novos elementos contribuíram para uma música transcendental como essa. Estebez convidou o multi-instrumentista Mario Aphonso III e o percussionista Jorge Marciano para gravar esse som, músicos que ele conheceu no projeto Jobim Instrumental. Para além de música incrível de Jobim, Aphonso é líder do Coletivo Tarab, que promove o ensino da música e dança orientais em São Paulo.

Os sons ancestrais do oriente levaram Estebez a realizar em “Omni” a fusão das músicas brasileira, europeia e africana com a música oriental. “E o contrabaixo ainda toca imitando o OM, o mais importante mantra do hinduísmo.”

O “todo” é em 360 graus com esse pianista. E em sete dimensões. O músico atua na banda Bossa Brazillis e no incrível B3 Órgão Trio, criado em 2006, que destila um groove ora funkeado ora mais jazzístico. É por essas e outras que se deve agradecer à dona Maria Helena, a primeira professora de piano de Estebez.

O músico enfrentou muitas luas cheias para alcançar a alma que conquistou: teve até que trabalhar como caixa no finado Banco Real, mas foi salvo por Alaíde Costa para acompanhá-la nos bailes da vida, aos 21 anos. “No Brasil acompanhante não é valorizado. E agora vou mostrar o que sei fazer, que é música instrumental.”

Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

pixinguinha_e_jacob_do_bandolim-IMS

Bandolinista Izaías Bueno de Almeida faz uma reflexão sobre os caminhos do Choro e da música instrumental brasileira e uma crítica ao programa Brasil Toca Choro, da TV Cultura

Roger Marzochi, do entresons; Foto de Pixinguinha e Jacob do Bandolim do Instituto Moreira Salles

Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim.

O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.”

Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão) - Foto Ed Figueiredo

Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão). “Não sou contra o improviso. O Pixinguinha fazia muito isso, o Jacob do Bandolim também. Mas eles improvisavam de forma inteligível. Hoje, o improviso é ininteligível”, afirma Izaías (Foto Ed Figueiredo)

Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia. “Os jovens se esquecem que virtuosismo é saber também interpretar, não é só velocidade”, explica o bandolinista, ao fazer uma avaliação do que tem visto no programa Brasil Toca Choro, da TV Cultura. O músico, que figura entre os agradecimentos especiais do próprio programa, além de entrevistado, e que lutou para levar o gênero de volta para a televisão brasileira, vê com tristeza jovens que estariam exagerando nos improvisos deste que é o mais brasileiro dos estilos musicais. Izaías está na torcida para esse programa continue. A primeira temporada, com 13 episódios, terminará no dia 27 de janeiro de 2019. E o seu sucesso frente ao público pode ajudar que novas temporadas sejam realizadas. Mas Izaías pede para que o choro seja mostrado “da forma como é.” Na adolescência, o bandolinista conhecera pessoalmente Jacob no início da década de 1950, no Rio. Izaías ainda conheceu e viu tocar em rodas de choro o mestre Pixinguinha e ainda fez parte do conjunto de D’Auria.

“Não sou contra o improviso. O Pixinguinha fazia muito isso, o Jacob do Bandolim também. Mas eles improvisavam de forma inteligível. Hoje, o improviso é ininteligível”, afirma. “Eu indago os jovens, por que fazer isso? E eles me explicam que têm família para sustentar. E eles têm razão, o choro não dá dinheiro nenhum. E eles acham que precisam desse pseudo-virtuosismo para impressionar a plateia, que parece gostar mais de circo do que música. E, então, os músicos precisam fazer verdadeiros malabarismos para ganhar dinheiro. A ideia geral que tem o público é que quem toca rápido é um grande músico. É algo que tem acontecido no programa Brasil Toca Choro.”

Em resposta a questionamentos enviados pelo entresons.com.br, o programa afirma que Izaías teve papel importante no projeto “para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram”. “Outros elementos também foram importantes para consolidação dessa perspectiva não segregacionista, como o fato do corpo instrumental e musical do programa ser composto por 130 músicos, todos de diferentes visões, bagagens culturais, credos, idades, gêneros e cores.” Leia a resposta completa do Brasil Toca Choro no fim da matéria.

Izaías avalia que tanto o choro quanto o jazz brasileiro refletem no som hoje o movimento frenético e alucinante imposto à sociedade pela tecnologia e suas redes sociais. A música instrumental brasileira chega ao fim de 2018 com muitas conquistas, como o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino para “Natureza Universal”, do multi-instrumentista Hermeto Pascoal e sua big band. O merecido prêmio vem coroar a trajetória de um dos músicos mais criativos do mundo, capaz não apenas de produzir temas inspiradores, mas de surpreender em suas improvisações de tirar o fôlego. Mas há novos talentos da música instrumental brasileira que nem sempre têm seguido o equilíbrio entre técnica e poesia no que se refere à improvisação. Há músicos capazes de tocar melodias belíssimas, mas preferem a velocidade e gritos desesperados e estridentes em seus solos.

No que se refere ao choro, Izaías tem completa aversão de que o gênero possa passar pela transformação pela qual trilhou o jazz, com suas fusões com o rock, por exemplo. “O início do jazz foi uma beleza, é uma música rica, de raiz. E com o tempo, de certa forma, foi se deteriorando. Inventaram o jazz-rock. E fico meio temeroso que se faça um choro-jazz ou choro-rock dado ao excesso de improviso, principalmente os mais jovens, empolgados, que depois não sabem que música estão tocando.”

Caminho natural - A pianista mineira Luísa Mitre tem 29 anos e não se considera uma improvisadora. Vencedora de concursos como o 18º Prêmio BDMG Instrumental de 2018, I Concurso Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em 2010 e Jovem Instrumentista BDMG Instrumental de 2013, Luísa tem grande respeito por Izaías e todos os mestres do choro. Com seu grupo de choro Toca de Tatu, gravou disco em homenagem a ninguém menos que Radamés Gnatalli, que teve papel importante no resgate do gênero.

“O que vem acontecendo, como toda música, o choro vem se transformando e se misturando com outros gêneros, influências de músicas de outros países”, explica ela, que esteve no início de dezembro na 15ª edição do Festival Chorando Sem Parar, em São Carlos (SP). E o evento homenageou justamente Gnatalli. Nesses shows, a jovem instrumentista conheceu o grupo The Israeli – Choro Ensemble – Chorolê, um grupo israelense que propaga o Choro usando, inclusive, elementos da música do Oriente Médio.

Luísa Mitre Crédito de Leandro Couri

“O que vem acontecendo, como toda música, o choro vem se transformando e se misturando com outros gêneros, influências de músicas de outros países”, explica Luísa Mitre. (Crédito da foto de Leandro Couri)

“Algumas músicas do grupo tinham um choro meio árabe. A ideia é essa. Porque o choro já nasceu de uma mistura: nasceu da maneira que brasileiros e muitos negros tocavam as músicas que vinham da Europa, influenciadas pela música negra. Isso faz parte da história do gênero e continua acontecendo. Eu acho que é um caminho natural”, afirma ela, que se apresentou no evento com o Toca de Tatu e assistiu também shows do próprio Izaías e Seus Chorões, presentes no Chorando Sem Parar.

“Eu não sou improvisadora e a minha música prioriza outras abordagens, é mais arranjada e previamente elaborada. Mas eu aprecio também quem faça esse outro tipo de música, mas são pensamentos diferentes. Não acho legal condenar, não acho que há certo ou errado. E não deixa de ser choro se começar a improvisar. Se tocar como todo mundo sempre tocou a música não evolui, não no sentido de ser melhor, mas de instigar novos músicos”, afirma Luísa, que lançou neste ano “Oferenda”, seu primeiro CD autoral de música instrumental. O trabalho saiu pelo Savassi Festival Records, selo criado pelo Savassi Festival, de Belo Horizonte.

Ganha quem ouve – O multi-instrumentista Carlos Malta, um dos maiores músicos do Brasil, é um apaixonado por choro e pela cultura popular brasileira. Conheceu o saxofonista e clarinetista Abel Ferreira, o multi-instrumentista Copinha, viu e ouviu muitos shows de Izaías. “Sempre gostei desse ambiente por conta da riqueza do Choro, que tem a exuberância que o standard (jazz) não tem.” O músico, que lançou em novembro o disco “O Mar Amor – Canções de Caymmi”, pela DeckDisc, lembra que também os chorões beberam na fonte do jazz. “O fraseado do Pixinguinha passa pelo jazz, tem jazz na música do Jacob, eles ouviam isso. Todos esses caras ouviram o jazz dos anos 40 e 50, era o que tocava no rádio”, explica.

E Malta tem opinião próxima a de Izaías no que se refere à importância da interpretação no improviso. Mas acredita que quem ganha nessa discussão sempre será o ouvinte. Ele entende que existe o músico que toque para querer provar ser bom, outros buscam provar quão boa é a música. E que a ideia da música como “circo” não é de todo abominável. O picadeiro é sempre usado como referência pela velha guarda. No Brasil Toca Choro exibido no domingo, 16 de dezembro, dedicado ao cavaquinho, a instrumentista Luciana Rabello chegou a expressar seu carinho pelo cavaquinista Jonas Pereira da Silva, explicando que seus solos eram românticos e com uma expressividade que não era circense.

Carlos Malta 1

“A essência do ato de improvisar é você transgredir e recriar, como se fosse uma mandala. Você passa a vida montando e você apaga e faz tudo de novo. A improvisação não é a contemplação da mandala, é a desconstrução e reconstrução, que será feita sempre de uma outra forma”, explica o multi-instrumentista Carlos Malta.

“O grande barato da música é tocar e se divertir, ver as pessoas se divertindo. Mas o divertir se passa longe da coisa do circo, mas a gente deveria lembrar da essência do circo para o nosso espetáculo também”, explica Carlos Malta. “Não é fazer palhaçada. Há um drama e uma beleza estética e desafiadora. O músico tem certo preconceito com relação à cena musical. Não precisa ter cenário e figurino, mas uma luz legal, mais uma comunicação dos músicos para a plateia, porque às vezes a música instrumental fica ensimesmada. O nosso objetivo como artista é levar arte para dentro do coração da pessoa. Nesse ponto o cara que usa o remédio improvisação, ele não pode abusar.”

Malta compara a improvisação como uma estrada: harmonia e melodia são com paisagens e curvas pelas quais o músico atravessa na direção de seu caminho. Pode ser belo até mesmo quem deseja andar até na contramão. Mas, para ele, o grande problema na improvisação é quando o músico estuda em casa passagens musicais que serão usadas como cartas na manga na hora do improviso, quando se tenta domar a energia criativa do agora.

“A essência do ato de improvisar é você transgredir e recriar, como se fosse uma mandala. Você passa a vida montando e você apaga e faz tudo de novo. A improvisação não é a contemplação da mandala, é a desconstrução e reconstrução, que será feita sempre de uma outra forma”, explica o músico, que tocou 12 anos com Hermeto Pascoal. “Tudo tem que passar por uma coisa chamada bom gosto, para saber dosar sua capacidade de conhecimento e intuição, para que a improvisação seja agradável, seja uma forma de se comunicar com a plateia e com seus amigos músicos. Você percebe isso quando tocam da forma mais simples… não é pouca nota, mas tocar o essencial. Mas isso passa pela intuição, comunicação entre os músicos e passa essa coisa de jogar a energia momentânea com sabedoria, porque pode ficar muito chato. É chato ficar numa mesa com cirurgião plástico e ele só falar de cirurgia. Não é tocar menos, mas tocar melhor. E o melhor é o de cada um.”

 

RESPOSTA DO BRASIL TOCA CHORO ÀS CRITICAS DE IZAÍAS BUENO DE ALMEIDA

“Sobre o Brasil Toca Choro, a escolha de repertório e artistas e a arte do improviso

Inicialmente, é importante ressaltar que o choro foi e é influenciado por diversas sonoridades: tem um parentesco com o ragtime, com o início do jazz, com a música europeia misturada com a africana e explora, ainda, de guitarras portuguesas a violões espanhóis. É natural, portanto, que um gênero matriz como esse, com 140 anos de história e tantas facetas, seja transformado com o aprimoramento da técnica dos artistas e possua diferentes tipos de vertentes e formas de interpretação. O choro não é só um, são vários, e vai de Villa-Lobos até Hamilton de Holanda, de Callado até Armandinho, de Nazareth a Hercules. O choro é tradição e contemporaneidade. Como exemplo concreto dessa síntese, o próprio Pixinguinha, em seu último disco, lançado em 1970, usa uma guitarra distorcida de rock e ritmos afro de terreiro na faixa Urubu.

Haja vista todo esse contexto, o Brasil Toca Choro foi idealizado para demonstrar as diversas formas de tocar e de compor o choro, incluindo as tradições e as modificações que o gênero teve desde a sua criação. Pensando nisso, a seleção do repertório foi feita pela produção do programa em conjunto com vários músicos, no sentido de homenagear os grandes compositores e de ampliar o entendimento do choro – sem privilegiar visões ou vertentes, nem limitá-lo. Izaias Bueno de Almeida, um dos maiores mestres dentro da linguagem tradicional, foi essencial para imprimir essa pluralidade ao programa, contribuindo com sua vasta experiência e riquíssima perspectiva para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram.

Brasil Toca Choro_Foto Nadja Kouchi 7

Maurício Carrilho (esq.) e Izaías do Bandolim no programa Brasil Toca Choro: “Izaias Bueno de Almeida, um dos maiores mestres dentro da linguagem tradicional, foi essencial para imprimir essa pluralidade ao programa, contribuindo com sua vasta experiência e riquíssima perspectiva para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram” (Crédito da Foto de Nadja Kouchi/TV Cultura)

Outros elementos também foram importantes para consolidação dessa perspectiva não segregacionista, como o fato do corpo instrumental e musical do programa ser composto por 130 músicos, todos de diferentes visões, bagagens culturais, credos, idades, gêneros e cores. Optamos sempre por transparecer essa multiplicidade por meio das interpretações e, principalmente, dos improvisos. Isso porque a forma dos artistas improvisarem é resultado do sentimento e intenção no momento da gravação. É decorrência de como eles receberam aquelas canções e de que forma eles preferiram transmiti-las ao mundo. É honesto. E, como mestres em seus instrumentos, todos os músicos convidados expressam máximo virtuosismo em suas interpretações.

Além de valorizar a sinceridade, técnica e talento do intérprete, é significativo lembrar que improvisos de diferentes formas fazem parte da tradição e contemporaneidade do choro. Mais do que isso, fazem parte de um processo histórico que engloba esse e outros gêneros que se perpetuam entre gerações e gerações. É sobre se aperfeiçoar e, ainda assim, ser um dos raros casos que conseguem manter suas características essenciais.

Pensado para apresentar as diferentes facetas do choro em sua totalidade de episódios, o Brasil Toca Choro apresenta ainda múltiplas visões e correntes até 27 de janeiro, data em que o último dos 13 episódios inéditos vai ao ar. O programa, que estreou no dia 4 de novembro, exibe neste domingo (16/12) sua sétima edição, intitulada Cavaquinho. Nela, Izaías Bueno de Almeida e Maurício Carrilho contam histórias curiosas que passam pelo som solo de “banheiro” de Waldir Azevedo; pelo professor de cavaquinho Galdino Barreto, o primeiro compositor de choro que se tem notícia; por Nelson Alves, que tocou no grupo de Chiquinha Gonzaga; e por Paulinho da Viola, que tem um trabalho importante no choro. De parte dessa turma conceituada, saem composições que são tocadas por nomes como Henrique Cazes, Armandinho e Messias Brito.

 

Brasil Toca Choro”

“Ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação”

KASTRVP_by Gal Oppido_2

Kastrup lança “Ponto de Mutação”, sons de um disco-conceito que carregam a esperança que um dia haja uma mudança positiva e profunda na sociedade

Roger Marzochi, do entresons; crédito das fotos de Gal Oppido

Pode parecer contraditório se pensar em esperança em tempos como agora, com a ascensão da extrema direita, que nas pesquisas eleitorais tem vantagem na disputa pela Presidência da República. E, mesmo se Fernando Haddad ganhar, terá pela frente um País fraturado, tendo que negociar com extremistas e as fake news que os alimentam. Mas o percussionista e produtor musical Kastrup mantém viva essa capacidade de sonhar, desejo esse que se transformou em som.

O músico, com a participação de vários artistas, está lançando neste mês “Ponto de Mutação”, um álbum-conceito que desenha no ar uma trilha sonora da transição de uma sociedade capitalista, ancorada numa visão cartesiana de mundo, para um sistema mais igualitário, no qual atributos considerados como arquétipos femininos como intuição, solidariedade e afeto serão “mola propulsora dessa virada de era”.

Para o músico, as sementes dessa nova era já estão germinando, mas não será agora que darão frutos. “… ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar”, afirma Kastrup.

Esse conceito artístico nasceu em Kastrup em 2016, momento no qual o ruidoso som de panelas terminou na orquestra de impeachment de Dilma Rousseff. Enquanto iniciava a produção do disco nessa época, que está disponível apenas no meio digital, o percussionista leu “O Ponto de Mutação”, livro do físico e ambientalista Fritjof Capra, do início dos anos 1980.

O livro, que virou filme (Mindwalk, EUA, 1990), “descreve os tempos em que vivemos como o final de um ciclo e início de outro, onde esse período, regido por paradigmas masculinos (YANG) como a competição e a agressividade, seria então substituído por uma nova era, de égide feminina (YIN), de mais solidariedade, cuidado e afeto – ‘onde a nova civilização compreenderá finalmente que somos todos sistemas interligados’.”

Carioca, formado em percussão pela Faculdade de Música da Estácio de Sá, Kastrup foi “reconhecido recentemente pela criação e direção do premiado ‘A Mulher do Fim do Mundo’ (2015), de Elza Soares (Grammy Latino, APC, Prêmio da Música Brasileira, Prêmio Dinamite) – bem como a produção musical do novo disco da cantora ‘Deus é Mulher’ (2018) e a direção musical do show dos dois trabalhos”.

Em “Ponto de Mutação”, o músico contou com a participação de Elza Soares, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Coelho, Ricardo Prado, Estevan Sincovitz, Marcelo Monteiro, Ná Ozzetti, Alessandra Leão, Lenna Bahule, Bixiga 70, Ricardo Herz, Arícia Mess, Alexandre Ribeiro, Swami Jr e Henrique Albino entre outros.

O trabalho começa com a música “Reaction”, com samples de voz de Noam Chomsky e Malcolm X retirados do filme “Requiem For The American Dream”, cedidos pela PFPictures. Essa primeira música seria como um retrato da sociedade atual. Ao longo das faixas, o som também se altera, com a abertura de novas sensibilidades e possibilidades. Abaixo, segue uma entrevista feita com o artista por e-mail. O show de lançamento foi realizado na quarta-feira, dia 17 de outubro, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Versão 2 – Versão 3Você achou uma esperança ao ler “Ponto de Mutação”, um livro da década de 1980, quando buscava respostas para a crise política de 2016, que levou aos panelaços e ao impeachment de Dilma Rousseff. Hoje, com a ascensão de uma extrema direita violenta nas eleições brasileiras, sua esperança continua a mesma?

Sim. Totalmente. Acho que a questão toda que o Capra trata no livro “O Ponto de Mutação” permanece absolutamente atual. Segundo as palavras do I Ching referenciadas no livro,  “ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida, ressurge”. São os ciclos naturais, descritos pelo Tao. Acredito que o declínio do sistema capitalista que ele prevê ainda está em curso, e infelizmente, ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar.

Tanto em “O Ponto de Mutação” quanto no livro “Nada Brahma”, de Joachim Berendt, há essa defesa da necessidade de a humanidade ser mais Yin (feminina) do que Yang (masculina). A audição, inclusive, Berendt explica ser uma característica feminina e mais importante que a visão, que seria um sentido masculino. Em seu novo disco, é possível perceber essa transição na evolução das músicas, há esperança. O movimento #Elenão é prova da força feminina, embora muita gente aprove o discurso de Jair Bolsonaro. Como fazer essa transição da arte para a vida? Quanto de sua música você deseja que se faça a nossa vida?

A arte é reflexo direto da vida. Eu não teria feito esse álbum, dessa forma, se as circunstâncias fossem outras. Ele foi uma consequência direta do meu sentimento de angústia na época, e depois de esperança, ao ir lendo o livro e ganhando novas perspectivas. O golpe no Brasil me fez sair de uma zona de conforto em que me encontrava, e acordar para uma realidade internacional muito mais ampla. E não fui só eu. Muita gente passou a ter mais contato com a realidade desse sistema opressor, e passou a contestar e repensar padrões e comportamentos, e isso em si já é um movimento. Não é só o Brasil que está doente e sofrendo com a opressão dos “senhores do capital”, esse é um movimento global dos 1% mais ricos, querendo sugar e explorar mais de todos os povos. São as grandes corporações quem detêm esse poder e não mais os Estados. E elas são multinacionais e “querem tudo para elas, e nada para os outros”. E esse é um sistema construído basicamente sob paradigmas masculinos, da competição, do individualismo, da meritocracia e da guerra. Erguido pela classe dominante do homem-branco-hetero sob uma visão cartesiana de mundo. Mas esse sistema está se esgotando. Não é mais sustentável! Em bem pouco tempo, todos os recursos do meio ambiente que nos sustenta vão se esgotar, e não será mais possível esse grupo, dos 1% dominantes, oprimir e explorar dessa forma os 99% restantes. Como você disse, é o ciclo YANG se esgotando, abrindo espaço para um novo ciclo, YIN. E essa não é uma teoria do Capra ou do Berendt, e sim um conhecimento milenar oriental muito mais antigo, que tem sido constantemente relegado no Ocidente, mas que cada vez mais mostra sua força e sabedoria. Acredito que a força do feminino, e não apenas das mulheres, mas dos arquétipos femininos como a intuição, a solidariedade e o afeto é que vão ser a mola propulsora dessa virada de era, para que aprendamos a usar toda essa tecnologia criada, prá nos cuidar enquanto espécie, com a compreensão de que somos um só e estamos todos intrinsecamente interligados. E esse movimento já começou.

O avanço das fake news no Brasil tem sido assustador nestas eleições. E me parece uma atuação completamente terrorista de desestabilização do sistema por completo. Mas é também um sintoma do quanto o público deixou de acreditar na mídia, na Justiça, no Estado e nos políticos em geral. Como você avalia esse fenômeno? Ele faz parte da “Transmutação” ou mais da “Mídia Deshipinoise”, para citar duas músicas do disco-coletivo Ponto de Mutação?

O sistema inteiro e suas instituições, da forma como acreditávamos, está em colapso.  É o colapso total do ideal capitalista! Noam Chomsky (que eu sampliei em Reaction) descreve isso perfeitamente em seu filme “Requiem Para o Sonho Americano”, mas que serve para todos nós. É realmente impressionante como exatamente na época em que teríamos acesso a todas as notícias, e parecia que iríamos nos livrar da condução tendenciosa da grande mídia. A internet abriu a possibilidade de termos acesso a notícias sem passar pelo filtro da grande mídia, mas as fake news criaram uma cortina de fumaça que agora ninguém mais sabe em que acreditar.

As duas faixas têm sentido complementares nesse aspecto; “Transmutação” sugere que precisamos de uma reformulação profunda em nossos paradigmas, atitudes e hábitos. Para darmos a volta por cima, não vai ser por um sistema eleitoral, completamente comprometido com o sistema financeiro, e sim por uma mudança de hábitos e valores que pare de alimentar os monstros que nos oprimem, e nesse caos estou me referindo especificamente as grandes corporações. E “Midia Deshipinoise” sugere que, para isso, vamos precisar nos des-hipinotizar das mídias todas que nos escravizam e conduzem o pensamento para que permaneçamos enjaulados a esse sistema, com ideais de felicidade ligados ao consumo, ao sucesso pessoal e individual, e a um conjunto de valores absolutamente desnecessários de fato. Vai ser preciso reformularmos tudo isso. Lermos mais, conversarmos mais, nos amarmos mais, e trabalhar prá viver bem em uma sociedade mais igualitária e mais justa.

Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Dani Gurgel

Multi-instrumentista lança seu segundo disco autoral 11 anos após “Nosso”; mas desde 2012 participou de sete discos como integrante do grupo DDG4

Roger Marzochi, do entresons

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro.

Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Debora Gurgel, mãe e parceira musical de Dani, já teria ouvido coisas parecidas pelos bares da vida. “E a Ingrid defende a posição da mulher, de ser mulher e músico de jazz, que tem que sempre se afirmar o tempo todo. A letra é sobre isso. É uma ave que não precisa de nada disso para sair voando, que é como eu ouço o trompete dela.” Dani avalia que não é o caso de se criar cotas para mulheres em orquestras ou big bands. “É preciso valorizar e colocar os dois como iguais. A música não deve ser selecionada com base em ter sido feita por alguém assim ou assado, mas a música pela música.”

Ao dar uma letra a esse canto de pássaro, Dani também passa essa sensação mágica que esses animais têm em muitas culturas. Os habitantes de Papua Nova Guiné acreditam que os pássaros são espíritos de pessoas desencarnadas, seus cantos as vozes dessas pessoas. Toda cosmologia desse povo se relacionada com os pássaros, incluindo a forma de tocar os tambores usados em rituais, imitando o canto do pássaro tibodai. “Assim nós temos a noção que os sons dos pássaros não são apenas indicadores naturais da fauna de Bosavi; mas são igualmente considerados como comunicação entre os mortos e destes com os vivos. O som dos pássaros e suas categorias são poderosos mediadores; eles ligam padrões sonoros com ethos sociais e emoções”, diz o etnomusicólogo americano Steven Feld, em “Sound as a symbolic system: the Kaluli drum”, de 1986.

TUQTIPerspectivas - Dani sempre compôs pensando sobre a sua realidade. Em “Whispers”, música com letra em inglês em parceria com o baixista e compositor Frederico Heliodoro, Dani reflete sobre as fake news, com a crescente polarização de ideias e a tendência de julgar as pessoas por cima, sem se buscar entender suas razões. E, mais um exemplo do disco, “Cade Rita?”. O título desta música, em homenagem à filha de dois anos, traz a onomatopeia que dá nome ao CD: TUQTI, uma forma de trazer no som de sua voz a representação da uma célula percussiva do samba. A música, feita em parceria com o violonista Gabriel Santiago, tem a participação do vibrafone do americano Joe Locke.

Com essa forma de cantar, Dani encantou a mídia especializada em todo o mundo. “Sílabas fantásticas”, segundo o jornal alemão Badische Zeitung; “aventuras vocais em scat” pela revista especializada alemã Jazzthetik; “fascinante como manipula livremente a precisão da extensão de sua voz”, por Republik (Japão); “Seu scat soa Brasileiro. Seus intervalos, ataques e articulações soam como Jazz”, segundo Mauro Apicella, do jornal argentino La Nación; “Dani Gurgel representa uma nova geração musical, ao mesmo tempo tradicional e inesperada”, Libération (França).

“Cadê Rita?” também representa as novas perspectivas que se abriram na vida da musicista com a maternidade. “É uma coisa que muda nossas perspectivas”, diz ela, sobre ser mãe. “A sua prioridade totalmente muda, para ser prioridade de criar uma pessoa e que o mundo precisa de pessoas melhores. E temos responsabilidade grande para essa geração ser muito melhor que a gente. Quando muda essas prioridades o normal seria pensar que outras coisas ficaram em segundo plano, mas na verdade não. Quando uma coisa faz sentido junto com a outra, elas não vão competir por espaço, mas vão conviver.”

O trabalho reúne um total de 11 músicas, com a participação de novos compositores brasileiros. A produção musical ficou com o baterista Thiago Rabello, com uma banda formada por Gabriel Santiago (violão), Conrado Goys (guitarra) e Frederico Heliodoro (baixo). Daniel Santiago substitui Gabriel nos shows no Brasil. O CD atual é muito mais jazzístico que “Nosso”, de 2007, que foi um trabalho primoroso em letras inspiradas e inesquecíveis. Desde 2012, gravou sete discos com o DDG4, ganhando fãs até no Japão. Dani, que também é fotógrafa, construiu sua carreira no diálogo constante com novos compositores e novos ares, dando amplas asas à onomatopeia, sem deixar de cantar letras de profundidade.

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal