“Nesse Trem” a vida é boa

SOM D'LUNA - NESSE TREM 3

Irmãos Luna dão a volta por cima dos perrengues arretados desse mundaréu para lançar luz sobre a existência em seu disco de estreia

Roger Marzochi, do entresons; na foto de divulgação, Diogo Luna (esq.) e Vitor Luna 

Os trens desenhados na capa do CD “Nesse Trem”, trabalho de estreia do grupo paraibano Som D’Luna, desafiam a gravidade. Eles rodam deitados em paredes de cubos, sobem morros em 90 graus, atravessam casas, divisando em seu horizonte o sol e a lua. A ideia foi fazer desse modo de transporte, tão maltratado no Brasil, uma metáfora da vida. “O trem passeia pelos cubos sem direção certa, sem gravidade. Isso é para simbolizar a vida da gente, que não tem uma direção certa. O que podemos fazer são escolhas”, explica Vitor Luna. Ele e o irmão gêmeo Diogo, acompanhados de uma excelente banda e produtor, conseguiram criar um CD com 11 músicas que irradiam poesia e otimismo, numa visão pró-ativa desse nosso trilho de cada dia. “A gente sempre diz que o intuito é ser um disco otimista, de levar boas energias para quem o escuta. ‘Que o som te leve a bons lugares’, essa é a dedicatória que faço em todos os discos que autografo. E isso é muito sincero.” Os cubos da capa também representam o ofício daquele que constrói a sua realidade, que transforma o seu mundo. Mas, para chegar a esse resultado, os irmãos Luna viram o “trem” quase virar de cabeça prá baixo. Não é coisa de mineiro! Calma lá! E se você chegou a ler até esse ponto, prepare-se porque o trem está partindo!

SOM D'LUNA - NESSE TREM 1

Parece Minecraft, mas não tem nada a ver com videogame: os cubos representam a capacidade construtiva do ser humano

A viagem começou no bairro Mangabeira, em João Pessoa, considerado o maior da capital, com 76 mil moradores. Há 20 anos, correu pelas escolas da região o ensino de flauta doce. De repente, a criançada do bairro surgiu na rua assoprando essa bendita. A febre desse instrumento chegou aos irmãos Luna, que até bem próximo da adolescência se vestiam igualzinhos, como par de jarro, como se diz na Paraíba. Esses moleques assopravam o cano furado direto, sem piedade. Tinham uma guitarrinha de plástico para fazer o som ficar completo. Até que começaram a tirar algumas músicas, de verdade. Isso deixou o seu Herbert, pai dessas crianças, fã de carteirinha de Zé Ramalho e João Bosco, orgulhoso e decidido. Ambos foram estudar violão na Escola de Música Anthenor Navarro (Eman), criada em 1931 pelo maestro Gazzi de Sá (1901 – 1981). Quando haviam criado intimidade com a teoria musical, tiveram que parar o curso por conflito de horários com a escola tradicional.

Mas a semente, plantada, germinou. Ao voltarem da escola, nada de videogame: pegavam o violão para tocar as gravações de seus artistas preferidos. Além de Zé Ramalho e João Bosco, os já adolescentes irmãos Luna se deleitavam aos sons de Lenine. Aulas de harmonia com o professor Leo Porto e, aos 18 anos, nasciam as primeiras composições e shows em bares da região e festas de casamento. A fama da dupla, no entanto, gerou decepções. Um produtor iludiu os garotos a gravarem um disco em Portugal, um fiasco que só não foi completo porque eles chegaram a fazer algumas apresentações no país. Mas voltaram ao Brasil desiludidos, mas com a decisão de gravar de qualquer jeito. Fizeram um EP, com sete músicas, gravadas no quarto dos meninos, com o equipamento que tinham à mão.

SOM D'LUNA 2

Irmãos Luna produziram a arte de capa do CD, na qual trens desafiam a gravidade em uma metáfora da vida

Foi essa produção rústica, mas de profundidade, que colocou a dupla nos trilhos novamente. Com ajuda de um financiamento coletivo, o sonho pode ser concluído. Três músicas do EP estão no “Nesse Trem”: “Todo dia”, um samba swingado para fazer qualquer um levantar da cama e viver o melhor do dia; “De lá de longe” (letra com participação de Vanessa Carvalho), que exalta a magia do ser músico (“que o segredo oculto de cada nota é lindo ao meu pensar, vou cantar”); e “Nesse Trem”, com arranjos de metais com a participação do produtor Jader Finamore, nos sopros de Joab Andrade (saxofone), Emanoel Barros (trompete) e Sabiano Araújo (trombone). E, não apenas nesta música, o baixista Ítalo Viana faz uns grooves generosos, sempre. E o arranjo de metais se estende, como em “Sempre a Dois”, com um solo quente de Joab. Irmãos Luna se somam em vocais, violões e guitarras. “Nordeste Vivo” é outra música incrível, escrita em acróstico. O grupo espera realizar shows no Rio de em São Paulo, mas ainda sem previsão. “Esse disco é muito importante. Eu sei que está entre os maiores de clichês dizer isso, mas é uma conquista de verdade. Nós sabíamos como gravar um disco. E, agora, nós conseguimos!”

 

Nas asas de um mistério

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

Capixaba defensor da sustentabilidade atrai pássaros ao seu corpo e consegue ter uma especial relação até com peixes

Roger Marzochi, do entresons

Um filhote de passarinho estava pendurado no ninho, no alto do prédio da escola em que eu estudava, em 1979, em Americana (SP). Com ajuda de amigos, reunimos um punhado de folhas, acreditando que essa cama verde impediria que o despenado animal se machucasse na iminente queda. O sinal tocou, mas não queria ficar longe daquele bicho. Com o coração apertado, beirando o desespero, deixei-o nas mãos do destino. Além do carinho que sempre tive com animais, essa criatura representava o sonho de tocar as nuvens. Meus pais diziam que eu estava afundando o sofá da última casa em que eles viveram antes da separação, pois a cada salto que eu dava no móvel, acreditava fielmente que aprenderia a voar. Fazia dos braços asas da imaginação.

Em meados da década de 1970, uma outra criança iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), Sidemberg Rodrigues contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

Sidemberg Rodrigues e Karel Frans van den Bergen Imagem do Instagram

Sidemberg Rodrigues (esq.) e o filósofo Karel Frans van den Bergen, inspiradora da sustentabilidade em seis dimensões

Influenciado pelo filósofo Karel Frans van den Bergen, Rodrigues liderou a implantação na companhia do conceito de sustentabilidade em seis dimensões, levando em consideração as iniciativas nas esferas ambiental, econômica, social, cultural, política e – a mais controversa – espiritual. Este último aspecto é defendido pelo ex-executivo sem conotação religiosa, sempre relacionado à necessidade de se firmar no indivíduo um sentimento de pertencimento e transcendência. Católico, com uma queda pelo Budismo, Rodrigues relatou em livros possuir mediunidade, que o permite conversar com espíritos, até mesmo de familiares já falecidos de seus ex-companheiros de trabalho.

Some-te daqui! – Essa controversa figura, que viveu no coração de aço do capitalismo, é ainda poeta, escritor, escultor, pianista e espiritualista. Aposentado desde o ano passado, hoje ele realiza palestras pelo País em defesa da espiritualidade e da transcendência, até mesmo no meio empresarial. “Eu já me sentia estranho por ser adolescente e ainda os pássaros pousavam em mim. Os meninos faziam chacota comigo.” A situação é bem diferente, mas faz lembrar Vinicius de Moraes: “Para que vieste / Na minha janela / Meter o nariz? / Se foi um por um verso / Não sou mais poeta / Ando tão feliz! / Se é para uma prosa / Não sou Anchieta / Nem venho de Assis / Deixa-te de histórias / Some-te daqui!”, diz em versos o poeta, cantor e compositor em “A um passarinho”.

Curado dos olhos, o rapaz começou a se encantar com essa cumplicidade com os pássaros. E, ainda, descobriu que de alguma forma se comunica até com peixes. Quando se mudou para Vitória, as visitas dos passarinhos ocorriam com menor frequência. Mas ainda aconteciam, até mesmo em Luxemburgo, durante uma viagem a trabalho na Europa. O vai e vem de penas cresceu quando comprou um sítio na região de Vitória. Jacutingas pousam em seu piano e beija-flores chegam até a sua mão. “Eu não consigo controlar”, afirma. Rodrigues acredita que essa relação nasceu pelo fato de ter uma natureza compassiva. “Eu nunca fui ligado a esporte por problema na vista. Ficava verão e primavera sem ver. Nem sei como fui alfabetizado. Mas eu tinha natureza de altruísmo, de gratuidade, de fazer pelo outro. O cachorro levava pedrada, eu ia lá e cuidava do bicho.”

Essa relação com os pássaros também faz lembrar do ambientalista e cientista capixaba Augusto Ruschi, que no dia 3 de junho completam-se 32 anos de sua morte. Além da ciência, ele deu grande contribuição aos saberes dos povos da floresta, ao pedir ajuda a pajés para ser curado de um veneno de sapo. Ruschi amava beija-flores, abundantes na mata próxima à sua casa, em Santa Teresa (ES). Ele descreveu cinco espécies e 11 subespécies desses pássaros e foi imortalizado em uma foto de Ricardo Azoury, na qual um beija-flor beija a boca do cientista. Há, inclusive, uma estátua retratando essa imagem na capital do Estado chamada de “O Beijo”. “Ele teve um capricho maior com beija-flores”, explica Gabriel Ruschi, ambientalista, neto do “cientista dos beija-flores” e diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, uma escola de ecologia criada por Augusto dedicada à educação e o meio ambiente. “Ele alimentava os beija-flores que, mesmo em campo aberto, pareciam domesticados por ele”, diz Gabriel, em entrevista ao entresons.

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor2

Certa vez, estava tocando piano quando um beija-flor pousou nas teclas. Ele o pegou nas mãos, trouxe-o próximo da boca, pedindo para que o pássaro enviasse uma boa mensagem para uma amiga, que sofria com um câncer terminal. (Imagens retiradas de vídeo postado no Instagram do entrevistado)

Mensagens – Rodrigues acredita que, muitas vezes, que os pássaros transmitem mensagens. Certa vez, estava tocando piano quando um beija-flor pousou nas teclas. Ele o pegou nas mãos, trouxe-o próximo da boca, pedindo para que o pássaro enviasse uma boa mensagem para uma amiga, que sofria com um câncer terminal. “No período em que tive uma depressão foi o momento que mais pássaro vinha. Pousavam na minha perna, no meu ombro, acho que tentando me animar.”

Seriam feromônios de seu corpo que exerceriam tal atração? Ele acha que não. Em recente viagem à Bahia, ele estava mergulhando na Praia do Forte e viu peixes num coral. A sua intuição o levou a colocar uma pedrinha sobre o coral e, depois, apontar o dedo para o peixe. E não é que o peixe cutucou a pedra para fora daquela plataforma, como num jogo de futebol? E não foi apenas uma vez, várias vezes. “Eu acho que é o meu desejo de ver todo mudo bem. Compaixão, ser capaz de estar no lugar do outro para o outro não sofrer, identificar-se com a dor do outro, sem ter nada em troca. Fazer algo pelo bem. Isso deve dar para a gente um tipo de energia que causa confiança nos animais.”

As experiências com os pássaros e até com o peixe estão documentadas, compartilhadas em redes sociais, acompanhadas muitas vezes de frases positivas. O número de seguidores caiu, diz ele, após a sua aposentadoria, no ano passado. “Há ainda quem se apegue ao cargo”, explica. Mas seu ímpeto com essa iniciativa é mostrar que a vida é mágica. “Estamos vendo as estrelas, o sol e a lua? É muita ansiedade, muita doença, muito sofrimento evitável, por isso que faço questão de mostrar.” Mesmo quando não acreditam, achando que ele deu comida para o peixe ou que tenha treinado um beija-flor, Rodrigues aposta que essas imagens despertem sonhos nas pessoas. “Quero tirar as pessoas da briga política. Crítica e acusação não levam a nada. É tempo de beleza, razão e transcendência.”

Fabio Caramuru - Foto Casa Florália (1) MR

O pianista Fábio Caramuru, que lançou em 15 de abril de 2018, na Sala São Paulo, o CD “Ecomúsicas – Aves”, inspirado em cantos de aves japonesas.

Meu sofá ainda é esburacado, agora é meu filho quem nele pula. Mas hoje consigo entender aqueles meus antigos saltos, que me vem à memória como garoa. Frases simples e imagens compartilhadas por Rodrigues nas redes sociais se somam a gente como o pianista Fábio Caramuru, que lançou em 15 de abril, na Sala São Paulo, o CD “Ecomúsicas – Aves”, inspirado em cantos de aves japonesas. Desde 2015, o artista tem se inspirado na ecologia em suas composições, lançando neste ano “EcoMúsica – Conversas de um piano com a fauna brasileira”, um diálogo entre seu piano e os sons de aves. O trabalho atual foi realizado após o músico passar um período no Japão. “É, sim, meu sincero tributo à incrível cultura japonesa”, diz, em texto de divulgação. Mesmo que você não tenha esse dom de comunicação com pássaros e peixes, é na fruição cultural que é possível ampliar a sua sensibilidade e seu autoconhecimento. São poesia, literatura, teatro, música e dança o material do qual é feito a cera que grudam as penas das asas da sociedade, esse imenso Ícaro prestes a se esfacelar rumo às estrelas. Há, ainda, muitos mistérios em plena Terra.

Projeto empodera mulheres com câncer

Além da Cura1 Entrevistada Karina Goldberg Crédito da foto Estéfane Oliveira

Jornalista e cineasta pernambucana apresenta em SP curta-metragem que mostra como o jornalismo pode ser usado para transformar a visão da realidade

Da redação do entresons; crédito da foto de destaque de Estéfane Oliveira

“O jornal é um instrumento indiferente para o bem e para o mal; lutemos, pois, para que ele siga o bom caminho.” Para além da dicotomia entre o bem e o mal, tão habilmente explorada pelas igrejas até hoje e movimentos políticos contemporâneos, é inegável que a pernambucana Bruna Monteiro segue um bom caminho, no melhor sentido da frase acima, atribuída a São Francisco de Sales, alçado a Patrono do Jornalismo pela Igreja Católica após a sua luta de guerreiro e escritor para combater o calvinismo, no século 16. No dia 24 de maio, quinta-feira, Bruna e Estéfane Oliveira apresentam em São Paulo parte do projeto que está empoderando mulheres ao redor do mundo que enfrentam a batalha contra o câncer: o curta-metragem “Além da Cura – Europa”. Em Recife, a exibição será realizada no dia 26 de maio, um sábado. A apresentação do projeto, que é apenas uma parte de um trabalho amplo, conta com bate-papo com duas mulheres que enfrentam ou enfrentaram essa doença e participaram do projeto.

Como jornalista e cineasta, Bruna descobriu que o “audiovisual pode transformar o mundo”. É dela “A praça é de quem?” (2011), documentário que denunciava a criação de um estacionamento em uma praça na zona oeste de Recife, que deveria ser cuidada por uma companhia privada. E é dela também “Somos Todos” (2013), vídeo que denunciou a violência da polícia na desocupação da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, em 2012. Mas foi uma história pessoal que mudou o foco do seu trabalho.

Além da Cura3 Bruna e Estefane

Bruna Monteiro (esq.) e Estéfane Oliveira lideram o projeto Além da Cura, que pretende entrevistar mulheres dos cinco continentes para mudar o estigma do câncer

Ao saber que um grande amigo estava com câncer, Bruna entrou em parafuso. Pensou que o amigo morreria, e o encheu de mensagens, como se fossem as últimas. O amigo, então, pediu calma: estava se tratando, ele conseguiria sair dessa. Ao perceber que o perturbava com essas mensagens, deixou de escrever. Mas o esquecimento do colega também foi notado. Não era preciso exagerar nas emoções, nem mais nem menos. Ao acompanhar o rapaz no momento de cortar o cabelo, pensou que a estética era a coisa menos importante diante de um problema tão grave quanto o câncer. Com o cabelo raspado, as pessoas elogiavam o rapaz, pensando que ele havia passado na universidade. Mas, e se fosse uma mulher? E se a mulher fosse a própria Bruna? “O bom de conhecer pessoas é que um dia elas podem representar a vocês mesmos”, disse Bruna, hoje com 26 anos, em palestra na TEDxTalk, em 2016.

Com esses questionamentos, Bruna escreveu o livro “O peso do vento”, no qual narra a história de três mulheres diagnosticadas com esse problema de saúde. “O importante é que eu descobri que a estética é relevante. Uma entrevistada disse que era pior perder o cabelo do que retirar a mama, que serve para sexo e dar leite aos filhos. Mas os filhos dela estavam crescidos. A mama não tinha função social, mas o cabelo, sim.”

Além da Cura2 Entrevistada Cecília Rodriguez Crédito da foto Bruna Monteiro

Cecília Rodriguez em entrevista a Bruna Monteiro. Crédito da Foto de Bruna Monteiro.

Motivada por uma de suas leitoras, decidiu criar um trabalho audiovisual mais amplo sobre o assunto: Além da Cura. E o trabalho vai além do jornalismo, com a realização de palestras e desfiles para ressignificar a doença e dar voz às mulheres que sofrem com este mal. As primeiras viagens para entrevistas foram feitas à Europa e Argentina. Até o momento, foram entrevistadas 31 mulheres no Brasil, Argentina, França e Alemanha. Mas a ideia é conhecer a história de mulheres nos cinco continentes, incluindo Ásia, Oceania e África.

Por isso, as empreendedoras lançaram uma nova campanha de financiamento coletivo com meta de R$ 86.200. Em 2015, para iniciar as entrevistas, a equipe levantou R$ 50 mil também em ações de financiamento coletivo. A iniciativa está disponível no site do Catarse (https://www.catarse.me/alemdacura) até o dia 10 de junho, com opções de apoio a partir de R$ 10,00 e entre as recompensas estão, o nome do apoiador nos créditos no filme, produtos personalizados, o livro, convite para a pré-estreia e, no caso de pessoa jurídica, exposição da marca no filme e nos produtos do projeto. A campanha funciona no sistema “tudo ou nada”, assim o projeto somente recebe os recursos se atingir ou ultrapassar a meta. “Um dos grandes problemas de mulheres com câncer é que elas não são ouvidas”, afirma Bruna. “Eu aprendi a ouvir mulheres fortes, inesquecíveis e grandiosas.”

 

Além da Cura Riana Araujo Crédito da Foto Bruna Monteiro

O diagnóstico de câncer foi uma surpresa para a médica oncologista, mas logo Riana Araujo compreendeu que não era uma sentença de morte e não se assustou. Durante a vida profissional sempre teve a tendência de agregar e unir e ao ser diagnosticada, criou o Grupo Nascer de Novo. Ela acredita que compartilhar histórias fortalece as pessoas. Criou o grupo para que as pessoas que iam a sua procura pudessem se fortalecer e aprender umas com as outras. “Cada sol que nasce é uma nova vida, a vida é cada dia. Viver um dia de cada vez é o maior aprendizado.” (Texto do projeto Além da Cura / Crédito da Foto de Bruna Monteiro)

 

“Além da Cura – Europa”

Sessão especial prévia:

Local: Pulsara

Endereço: Rua Butirapoa, 30 – Alto da Lapa, São Paulo, SP

Investimento: contribuição livre para a campanha de crowdfunding do Além da Cura (https://www.catarse.me/alemdacura)

Capacidade:  40 pessoas.

Telefone para reservas: (11)98853-9696

Vivi Rocha lança “Entreatos”

Vivi Rocha, Entreatos - Foto Karen Montija (38)

CD reúne 11 músicas autorais com letras sobre solidão e amor nas grandes cidades

“Entreatos”, primeiro CD autoral de Vivi Rocha, será lançado em show no dia 30 de maio, às 21h, no Teatro Viradalata (Rua Apinajés 1387, Sumaré, R$ 25). O nome do trabalho revela um pouco da história da compositora, que há dez anos integra o Coro Lírico do Theatro Municipal de São Paulo. O momento seguinte para o início de um novo ato em uma apresentação de música erudita revela o momento em que o ser é plena potência, prestes a materializar no palco o sonho de um compositor. Com influências do tango argentino, do pop e da MPB, a artista compôs e arranjou 11 canções que tocam fundo em temas como o amor, a solidão, o sentimento de impotência e a exposição da vida em redes sociais.

Vivi Rocha - Foto Karen Montija (18)

Vivi Rocha lança “Entreatos”. Crédito das fotos de Karen Montija.

O disco tem a participação de músicos como Luciana Silva (clarinete), Matthew Taylor (fagote), Rodolfo Coutinho (bandolim), Vicente Falek (acordeom), Luiz Sena e Milena Salvatti (violoncelo); e Priscila Brigante e Ale Damasceno (bateria). Gilberto Assis, que produziu o trabalho, também faz um som muito bonito tocando contrabaixo no disco, disponível em lojas físicas, virtuais e streaming.

De acordo com texto de divulgação, a cantora explic  a que cresceu numa casa em que “o rádio permanecia ligado o dia todo” e que viveu “imersa no eclético universo musical” de seus pais. Como exemplo, cita algumas de suas influências na infância: Bach, Chico Buarque, Boca Livre e Beatles. Estudou canto lírico na Escola Municipal de Música de São Paulo e no Instituto de Artes da Unesp. Em paralelo, teve também formação em piano popular e arranjo. Por isso, “Entreatos” representa um momento de grande síntese de sua carreira, na qual a musicista pode expressar seus sentimentos em letras e arranjos.

Em seus poemas há um retrato do velho desencontro das almas – ao qual o poeta Manuel Bandeira já se referira em “Antologia” e “Arte de Amar” – e uma tristeza pelos textos e fotos que se compartilham nas redes sociais. Mas, antes de achar que a vida “não vale a dor e a pena de ser vivida”, Vivi Rocha canta “Poema para o futuro”.  “Desejo que você seja alegre e muito amada / Que tenha força e coragem / Ao encontrar uma alma gelada / Que possa soltar sua voz/ Sem ouvir que ela é menor / Que seja cheia de paz / E construa um mundo bem melhor.”

 

“A benção, vô!”

Bruno Firmino

A história do caminhoneiro percussionista de Alagoas, que viu uma vez só na vida o avô, o músico Natalício Santos, o Trovador do Norte

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da foto - selfie de Bruno Firmino com seu caminhão em Vila Garça Branca, na Serra de Petrovina, no Mato Grosso

“A benção, vô!” Bruno Firmino disse isso apertando firme as mãos do avô, o cantor Natalício Santos, conhecido como Trovador do Norte. Bruno tinha apenas 15 anos e se encontrava com o músico pela primeira vez na vida. Ouvia muito as histórias do velho, que lançou dois discos de forró pé-de-serra. Em sites de venda pela internet, como no Mercado Livre, um dos bolachões chega a valer R$ 1,2 mil. “Peguei na mão dele, isso ficou gravado na minha memória. Ele me olhou e disse: ‘Quem é esse?’ Era tanto filho e neto – só com a minha avó ele teve 20 filhos, fora os que ele tem por aí. Foi uma emoção muito grande”, lembra Bruno, em entrevista no dia 27 de março de 2018, em uma espera de 21 horas para descarregar o caminhão de farelo de soja no terminal rodoferroviário da Rumo Logística, na cidade de Alto Araguaia, no Mato Grosso.

A entrevista com Bruno foi possível devido ao Caminhos da Safra, projeto da revista Globo Rural para mostrar o escoamento da produção agrícola do campo até portos, ferrovias, rodovias e hidrovias. No segundo percurso da série, trabalhei como repórter free-lancer para o projeto. Junto com o repórter fotográfico Fernando Martinho e os instrutores de direção da Scania Aylon José dos Santos e Juarez Reis Ferri percorremos 2.030 quilômetros de Cuiabá a Santos, contando com a volta a São Paulo. Com a permissão da publicação, a história de Bruno está sendo contada pelo entresons. A edição de maio da revista Globo Rural está chegando às bancas de São Paulo neste fim de semana com as reportagens do projeto. Em uma banca da Lapa, a revista já está à venda.

Natalício Santos Trovador do Norte Youtube

Natalício Santos, o Trovador do Norte, nasceu em Traipú, em Alagoas. Lançou dois LPs, correu por Rio e São Paulo, onde morou em Ferraz de Vasconcelos nos últimos dias de sua vida

Bruno nasceu em Arapiraca, no agreste alagoano. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, apenas 17,6% da população tinha trabalho formal na cidade, com uma renda média mensal de 1,6 salário mínimo. O forte é a agricultura, especialmente fumo, cuja plantação vai de maio a junho. Há também plantações de feijão e mandioca. Graças ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), do Ministério do Desenvolvimento Social, Bruno pode estudar até completar o Ensino Médio. Os pais trabalhavam, mas o projeto ajudou a evitar que ele começasse cedo na lavoura. Em Vila Bananeiras, no povoado onde morava, a fumicultura é forte. “Esse projeto Peti ajudou bastante.”

A partir dos 13 anos, Bruno começou a viajar com seu Joal, irmão do seu pai Itamar. Joal comprara um caminhão que hoje é conhecido entre os caminhoneiros como Muriçoca, um 1113, da Mercedes-Benz. Hoje, Bruno dirige uma carreta Scania G-420 Bitrem. “Prá quem começou debaixo num 1113 de 1973, esse caminhão agora é um luxo.” À época, Joal carregava produtos de PVC produzidos na região de Arapiraca para destinos como a Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais. Nas férias da escola, Bruno seguia em frente com o tio, apaixonando-se pela profissão rapidamente. E o outro lado bom é que durante as viagens ficava afastado da irmã Alice, um pouco mais nova que ele, que tinham brigas juvenis. Mas e o avô? Sempre ausente. Seu Itamar, que guarda com carinho os LPs do pai (Trovador do Norte e Forró em Traipú), dizia a Bruno que seu Natalício viajava muito, vivia entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Bruno ouvia os discos e sentiu um gosto pela música também. Na casa de amigos, que tocavam violão e cavaquinho, Bruno sacava uns baldes ou tambores para acompanhar. Não por acaso, gosta de Hermeto Pascoal, por conseguir fazer som com de qualquer utensílio. E, ainda mais, porque o bruxo albino nasceu em Lagoa da Canoa, município vizinho de Arapiraca. Em 1984, Hermeto gravou até um disco em homenagem à cidade. Esse gosto musical faz do rapaz, hoje com 28 anos, uma raridade entre a maioria da população e dos companheiros de estrada. “O pessoal não curte muito cultura. Eu já escutei o som dele, ele tira som de qualquer coisa.”

Quando começaram a aparecer viagens para São Paulo, Bruno ficou curioso em ver o avô. Joal ficara sabendo que o velho mestre do forró havia criado raízes em Ferraz de Vasconcelos, na grande São Paulo. E, em um dos serviços, ambos conseguiram visitar seu Natalício. Bruno pediu até para o avô voltar a Arapiraca, mas o músico afirmou que para lá nunca mais iria. Bruno avalia que o músico passava por dificuldades financeiras após viver um período de bonança e teria vergonha de voltar à cidade na situação que se encontrava. “Ele era também poeta, tinha até livro de poesia.” Pouco tempo depois desse encontro, Natalício morreu. A família em Arapiraca não sabe mais nada sobre a história do músico.

“Com o título de ‘O Trovador do Norte’ este LP reúne entre os diversos ritmos nordestino como: coco, baião, arrasta-pé, forró e rojão,  além de uma excelente interpretação com um acompanhamento nota dez, mas que infelizmente, por deficiência do mercado fonográfico, não tem ficha técnica, pois só assim poderíamos conhecer melhor quais os músicos que participaram deste trabalho, que aliás é de excelente qualidade, além de mostra o valor de Natalício como compositor, pois todas as composições são de sua autoria e cada uma melhor que a outra”, afirma José Lessa, em resenha do LP no site Forró Alagoano. O entresons buscou contato com Lessa, mas ele não respondeu até o momento. O músico, no entanto, não é lembrado no Sudeste e Centro-Oeste. A Secretaria de Cultura de Ferraz de Vasconcelos desconhece a história do Trovador do Norte. Cacai Nunes, violeiro e pesquisador de forró de Brasília, que mantém o projeto Acervo Origens – Sons que Tocam o Brasil, também nunca ouviu falar do alagoano, nascido em Traipú, às margens do Rio São Francisco.

Há dois anos, Bruno se mudou com a esposa e uma filha pequena para Nova Mutum, no Mato Grosso. De Nova Mutum, cidade na qual ele carrega o farelo de soja, até Alto Araguaia são 704 quilômetros, numa estrada muito perigosa até Cuiabá. “Trazer soja pelas BRs 163 e 364 é difícil, as estradas estão péssimas. Com tantos impostos que o governo arrecada a situação é lamentável”, diz o caminhoneiro. “Não enxergam que é através do caminhão que se cria riqueza do País.”

São Paulo, Brasil 02-04-2018 Viagem de Cuiabá, MT até Santos, SP. Fotos Fernando Martinho.

Entrevista com Bruno Firmino, em bar ao lado da fila de caminhões para descarga no terminal rodoferroviário da Rumo Logística em Alto Araguaia (MT). Crédito da foto: Fernando Martinho

A espera, de 21 horas para descarregar, também é um martírio. Em um bar improvisado de madeira, Bruno cumpria sua longa espera e tinha esperança de descarregar o produto até meia noite. “A gente fica amarrado. A gente não tem culpa se está faltando trem. Se não fizer, não tem salário.” Douglas Cunha, gerente da Rumo Logística, nega que haja falta de trem. O desembarque é feito em janelas de um dia na unidade de Alto Araguaia, para evitar filas que chegaram a 80 quilômetros na BR 364, em 2011. “Há um problema cultural”, diz Cunha. “Para carregar, o motorista precisa exigir o agendamento da carga. E o produtor precisa carregar porque precisa desovar o silo dele. O caminhão vira armazém.”

Enquanto espera a fila para descarregar, pensa na vida. A esposa e a filha já retornaram para Arapiraca, pois não se adaptaram ao Mato Grosso. Para enfrentar os desafios do Estado e fortalecer sua fé, começou a frequentar uma igreja evangélica em Nova Mutum, apegando-se às palavras que lê na Bíblia e o desejo de uma vida melhor. Ele sente nas veias a música, tem isso no sangue. Mas, diferentemente de Hermeto, nunca tocou um instrumento de percussão tradicional. O que não significa que não seja músico. “Eu tirava som em casa com o vizinho mesmo, com violão, cavaquinho, pegava uns baldes e tambor. Aprendi alguma coisa nos clubes. E não toco em igreja, não cheguei a ter essa oportunidade. Seria um prazer se chegasse. Fazia isso só naquelas cachaçadas. Mas agora não bebo mais, estou sossegado.”

 

*Como músico aprendiz, escrever sobre artistas, sejam profissionais ou amadores, é um grande prazer. Mas é, também, uma profissão: o jornalismo. Assim como os grandes jornais e revistas, o entresons busca formas alternativas para sobreviver e lançou uma campanha de financiamento coletivo recorrente para manter seu acervo de cinco anos e realizar novas matérias. Conheça a história do blog e como colaborar clicando aqui.

Logo Clube de Assinantes entresons Arte de MTC

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal