Um brasileiro na banda de Garbarek

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A trajetória de Yuri Daniel, um contrabaixista que toca com um dos maiores saxofonistas do mundo

Roger Marzochi, do entresons

Reconhecido como um dos maiores saxofonistas do mundo, uma verdadeira lenda viva do jazz, o norueguês Jan Garbarek tem em sua banda atual a companhia de um brasileiro. Nascido em Recife e criado em Curitiba, o contrabaixista Yuri Daniel toca há dez anos com Garbarek. “Sou um grande fã dele”, diz Daniel, em entrevista por e-mail ao entresons. Garbarek está presente em mais de 70 discos da cultuada gravadora alemã ECM, que no ano passado abriu o seu catálogo para os aplicativos de streaming de música. O músico, que ganhou fama internacional na década de 1970 ao integrar o quarteto do pianista americano Keith Jarret, gravou discos históricos na companhia do brasileiro Egberto Gismonti e do contrabaixista Charlie Haden, como “Carta de Amor”, “Folk Songs” e “Mágico”.

Para conseguir chegar até a banda de Garbarek o contrabaixista brasileiro, que já tocou até com o inesquecível Paulo Moura e ainda toca com Ivan Lins, empreendeu uma longa caminhada. Em 1986, Daniel deixou o Brasil para estudar em Lisboa, na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. “A música sempre esteve presente na minha vida”, explica o brasileiro, que iniciou o estudo do violão aos cinco anos. O contrabaixo surgiu como uma necessidade: o contrabaixista da banda de seu irmão guitarrista adoeceu. E Daniel foi chamado para substituir o enfermo.

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“Já tivemos duas vezes para ir (para o Brasil), mas acho que é muito longe para o Jan. Ele não quer viajar muito”

Uma vez em Portugal, Daniel montou grupos e participou de bandas com expoentes da música portuguesa, como a cantora Maria João. Gravou ainda com Rui Veloso, Dulce Pontes, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Mário Laginha, entre outros. “Tem sido uma experiência fantástica, sou um privilegiado. Com cada artista, eu estudo e toco como se fosse o meu projeto e dou o meu máximo.”

Daniel ainda tem uma banda com uma proposta inspiradora, chamada MIR, com João Barradas (acordeão), Bruno Pedroso (bateria) e Sónia Oliveira (voz). Mas para a qual não consegue se dedicar muito de seu tempo. “Na realidade, ainda não tivemos oportunidade de tocar por uma questão de agenda, minha principalmente. Eu tive uma tour no ano passado com o Jan Garbarek, alguns concertos com o Ivan Lins, estúdio, preparação e gravação do CD da Sónia Oliveira, Diogo Vida, Pedro Madaleno. E mais gigs em bares. Foi um ano de muito trabalho.”

O músico explica que já possuía uma ótima base musical quando decidiu mudar de país. Pesou muito em sua decisão de morar em Portugal o clima político no Brasil, que em 1989 elegeu Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito pelo povo após a Ditadura Militar, e que renunciou em 1992 após escândalos de corrupção. “Eu não queria compactuar com aquilo que o Brasil veria a ser. Tenho muitas saudades, mas não consigo viver nesse país que tem o melhor povo e os piores políticos.”

A sua grande oportunidade de tocar com o mito do jazz mundial ocorreu mais ou menos da forma como havia descoberto o contrabaixo. O contrabaixista alemão Eberhard Weber, que tocava com Garbarek, adoeceu. E o empresário de Maria João era também o responsável pela banda do músico norueguês. “Quando o Eberhard Weber adoeceu no meio da tour, o Peter (empresário) me pediu para substituir o Eberhard por alguns concertos até decidirem o que fazer. Eles tinham feito um concerto em trio e, no seguinte, eu fui ensaiar com eles antes do concerto. Na realidade não era suposto eu tocar logo. Eu tinha 1h de ensaio para 2h30 de concerto. Mas o Jan gostou, se sentiu bem. Na realidade eu sou um grande fã dele e alguns temas já os sabia, e pronto: já lá estou há 10 anos.”

Na formação atual, integram também o grupo de Garbarek o percussionista indiano Trilok Gurtu e o pianista Rainer Brüninghaus. Em outros momentos, faz parte da banda o baterista francês Manu Katche. É possível imaginar essa banda, que fechou 2017 viajando pela Europa, tocando no Brasil? “Já tivemos duas vezes para ir, mas acho que é muito longe para o Jan. Ele não quer viajar muito”, diz Daniel, que está se preparando para gravar seu terceiro CD autoral. Ele já lançou “South Way” e “Ritual Dance”. Voltar ao Brasil? Só se for um convite para apresentar seus trabalhos autorais ou na companhia de Garbarek, embora ele adoraria voltar a viver no País.

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Da esquerda para a direita, o pianista Rainer Brüninghaus, o contrabaixista Yuri Daniel, o saxofonista Jan Garbarek e o percussionista Trilok Gurtu

Som, paz e sustentabilidade

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Rico Verenito faz pré-estreia de lançamento de espaço ecocultural no Tatuapé unindo música, permacultura e alimentação

Roger Marzochi, do entresons; Foto de destaque é a vista do espaço C’Alma

Quem já teve a oportunidade de participar de uma meditação do Tambores Flow com a presença de Rico Verenito pôde viajar pelo universo profundo aos sons de sua cítara maravilhosa. Sua simples presença já transborda paz, seus alongamentos antes de começar a tocar lembram que a música é também extensão da memória muscular. Mas sua atuação no projeto que une música e meditação, dirigido pela meditadora Monica Jurado, é uma das pontas do imenso iceberg que esse multi-instrumentista construiu ao longo de seus 43 anos de idade. O músico está promovendo o pré-lançamento do C’Alma, espaço ecocultural localizado no Tatuapé, em São Paulo, com dois workshops sobre o aproveitamento da água da chuva e a construção de telhados verdes. O local, com 800 metros quadrados, receberá ainda cursos que introduzem os conceitos da música clássica indiana, música das esferas e discussões sobre qualidade de vida e alimentação. “O C’Alma traz os valores que a gente acredita, que são os da consciência da arte, do meio ambiente e da alimentação”, explica Verenito, também membro da banda de música de improvisação livre Aguaúna, que em 2018 batalhará por financiamento para concluir duas webséries e apresentações com dançarinos.

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O espaço C’Alma privilegia o cultivo de Pancs, plantas alimentícias não-convencionais

Na quarta e quinta-feira (10 e 11/01), das 10h às 18h, o espaço receberá o engenheiro Edison Urbano, inventor, palestrante e incentivador da sustentabilidade do projeto Sempre Sustentável. Urbano realizará oficinas de construção de minicisternas e captação de água de chuva. “É para explicar sobre a qualidade da água da chuva em meio a grandes centros urbanos. É preciso muito cuidado para captar água dos telhados das casas nos grandes centros, exposta a metais pesados. Além disso, os telhados na cidade são visitados não apenas por passarinhos, mas também ratos, gatos, ou seja, há uma contaminação sobre a qual é preciso ter certos cuidados”, diz Verenito. A contribuição para o espaço neste evento é de R$ 30 e é deixado em aberto uma contribuição consciente dos participantes do curso para remunerar a palestra do engenheiro. Serão construídos sistemas para caixas d’água de mil litros e uma de 200 litros. Inscrições por meio dos contatos: contato@espacocalma.com.br ou 11 99642.3546

Com o mesmo contato de inscrição é também possível participar de outro evento. Nos dias 20 e 21 de janeiro, o espaço receberá a “Vivência de Telhado Verde na Cidade”, em palestras com teoria e prática lideradas pelo bioarquiteto Gustavo Queiroz, com investimento de R$ 120. “Queiroz vai discutir a falta de áreas verdes nas cidades, apresentando uma solução interessante de telhado verde”, diz Verenito. “Há diversos tipos de telhados verdes, mas no curso vamos fazer um sistema desses em uma laje de bambu de 43 metros quadrados, para plantar Pancs – plantas alimentícias não-convencionais. Aqui no espaço damos prioridade a plantar coisas que podem ser comidas, além de sementes crioulas, que não são sementes híbridas, cruzadas ou transgênicas. Há um movimento mundial das sementes crioulas, há guardiões dessas sementes no mundo todo.” Ao longo do ano, muitos outros cursos serão realizados no espaço buscando levar informação sobre música indiana, música das esferas e sustentabilidade.

Natureza sonora – Foi o contato com a natureza que levou Verenito a se enveredar pela música. Começou logo cedo com piano, estudou violão clássico e, aos 18 anos, conheceu a cítara de uma forma inusitada. “Eu tive oportunidade, desde pequeno, de conviver na natureza. Então dá para se dizer que o convívio na natureza que me levou à música, buscar uma música que eu considero mais conectada com a natureza.” Em um passeio pela feira de antiguidades da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, Verenito encontrou uma banca que vendia instrumentos musicais, partes de instrumentos e até instrumentos musicais pequenos, adaptados para crianças. Ele se encantou por um instrumento que nunca havia visto antes e, quando teve a oportunidade, comprou seu brinquedo. Mas não tinha a menor ideia do que era e de onde vinha. Quando estava finalizando o terceiro grau, ganhou de um professor uma fita K7 com um disco do citarista indiano Ravi Shankar, que o deixou fascinado. Logo associou o som daquela obra prima ao instrumento que comprara.

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Verenito foi aluno do brasileiro Alberto Marsicano e da indiana Krishna Chakravarty. Crédito da Foto de Silvia Bandeira.

Após um show no Masp do citarista brasileiro Alberto Marsicano, que passou para o plano espiritual em agosto de 2013, Verenito foi ao encontro do músico e se tornou aluno de um dos responsáveis pela divulgação da cítara no Brasil. Verenito ainda conseguiu realizar diversas aulas na Argentina, promovidas pela professora indiana Krishna Chakravarty, da Faculdade de Música Hindú de Benares (Índia) em suas visitas à América do Sul.  “Eu não tinha condições de ir para a Índia, mas fui para a Argentina para imersões, em anos consecutivos. Eram grupos de 30 a 40 músicos do mundo inteiro, que se reuniam em fazendas no interior da Argentina, muitas vezes em Córdoba. E lá fazia imersão de 12 dias aprendendo tanto com ela como com alunos avançados e professores que lá se encontravam, como os argentinos Ariel Chab-Tarab e Guido Pera. Eu trazia muito material didático para estudar em casa. Ficava dois a três anos estudando solo com o material que a gente trazia.”

Ele também sempre se interessou pela construção de instrumentos indianos, africanos e australianos. “Construí kalimbas por muito tempo; kora, que é um tipo de harpa africana. Uma parte da minha família mora na Austrália e me interessei pelos instrumentos dos povos de lá. Construí didjeridoo, um instrumento de sopro australiano, dos aborígines. Não gosto dessa palavra, você pega uma civilização mais que milenar e coloca num bolo só. Havia 500 etnias antes do homem branco chegar lá. A civilização do norte da Austrália usava didjeridoo em seus ritos e tratamentos de cura.”

Os chamados “ragas indianos”, que são esquemas melódicos de improvisação, que não exigem leitura de partitura, levaram Verenito a experimentar essa essência da música do mundo, na qual é valorizada a liberdade de improvisação e o sentimento. Com isso na cabeça, Verenito conseguiu participar, em 2008, da criação do Aguaúna. “Aguaúna é como uma água só. A água que escorre pelo seu rosto é a mesma que banha todos os Continentes, a música do mundo que vem da alma, independentemente da sua crença ou cultura.”

O grupo de improvisação livre reúne grandes mestres, como Pedro Osmar, Célio Barros, Gugué Medeiros e Fábio Negroni. “É um encontro de músicos de várias vertentes, para desenvolver processo criativo que não tem ensaio. Só nos encontramos para gravar disco, para fazer show. As músicas são as que acontecerem naquele momento”, explica Verenito. O grupo, que tem dois discos gravados, tem histórias curiosas. Uma vez foram chamados para gravar junto com o dançarino Marcos Abranches. Após 20 minutos de música, o diretor do videoclipe corta e diz: “Vamos agora para o take bom.” Pela proposta da banda, impossível repetir a mesma música mais de uma vez, pela sua característica de improvisação livre. “O processo criativo do momento tem um lugar de acessibilidade que não é como apertar o botão e começar. Foi uma cena engraçada, porque tivemos que parar. E eles queriam que a gente começasse de novo, com o mesmo clima. No Aguaúna uma música não tem o mesmo clima porque o ponteiro gira.” Mas a experiência com o dançarino foi positiva, e o grupo está batalhando por editais para unir música e dança novamente. Verenito ainda fez o trabalho de fotografia e cinema “Quintao”, no qual une agricultura e taoísmo. Com esse leque naturalíssimo nas mãos, o espaço C’Alma já começa com tudo para se fixar como uma área de resistência cultural para as próximas gerações, que sempre precisarão de som, paz e sustentabilidade.

Uma pedra no caminho

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Pedras e cristais são usados na medicina integrativa e ajudam músico em shows e aulas particulares

Roger Marzochi, do entresons

Desde pequeno, sempre fui interessado pelo formato de pedras e pedregulhos. Com seis anos, guardei por muito tempo como amuleto uma “pedra-infinito”, com formato de número oito, praticamente duas bolinhas grudadas pela natureza. Em 2007, comemorei a decisão pelo nome de meu filho, definido naquele momento em uma praia de Caraguatatuba, mergulhando no mar para coletar uma das várias pedras que haviam no fundo, um macuco que guardo até hoje e que já foi tema de redação na escola do meu filho.

As pedras vão muito além de item de colecionadores. Pedras e cristais têm sido usados há milênios pela humanidade em processos de cura. Cada gema tem propriedades específicas, que podem ajudar desde o combate à depressão a melhoraria da memória, como ametista, quartzo-rosa e jade. E até hoje ainda são usadas de várias formas por músicos e especialistas como massoterapeutas, meditadores, terapeutas holísticos e acupunturistas.

“As pedras e cristais funcionam como amplificadores de energia. A sua força consiste na capacidade de ampliar e direcionar nossas próprias forças e poderes”, diz a terapeuta holística Simone Kobayashi, em entrevista ao entresons. “Por isso, o mais importante ao lidar com pedras e cristais é conseguir sintonizar nossas vibrações com as dessas pedras, melhorando e aprimorando as nossas energias. Com um trabalho contínuo, trazemos para nosso benefício a prática de interiorizar as características vibracionais das pedras e cristais que estamos necessitando”, afirma Simone, autora do livro “Pedras e Cristais – Em Busca do Equilíbrio” (2005 – Sindicato dos Terapeutas).

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“Todas (pedras de rios, mar e cristais) têm e carregam a assinatura energética de onde estavam na natureza”, diz Simone Kobayashi, terapeuta holística de São Paulo. Crédito foto Divulgação.

Forjadas há milhões de anos na fornalha da Terra, seja por força do magma, minerais, árvores em decomposição e até ossos, pedras e cristais recebem a energia do Universo quando estão imersas na terra, explica Tadeu Cury Manfroni, terapeuta acupunturista. “Enquanto estão encrustadas na terra, pedras e cristais ganham a vibração magnética da Terra e do Universo. Por isso a pedra, assim como todos os seres vivos, emite uma onda energética, uma onda magnética.”

Assim que a gema é extraída da terra, ela retransmite essa energia vital, uma vibração magnética, que é específica de acordo com o tipo de material do qual é feita. No hinduísmo, budismo e no xamanismo, por exemplo, a pedra Olho de Tigre representa a busca pela espiritualidade. De acordo com o artigo “Os cristais e as outras pedras de cura”, do site Somos Todos Um, essa pedra pode colaborar para “elevar a criatividade e a percepção extra-sensorial”. “A pedra tem esse lado sagrado porque veio da natureza e possui uma energia vital assim como eu e você, assim como uma planta”, afirma Tadeu.

Diferentemente de Simone, que teve seu despertar para as pedras na adolescência, Tadeu percorreu um longo caminho até esse conhecimento. Por mais de 30 anos ele trabalhou na área de tecnologia de grandes bancos, mas sempre teve uma grande preocupação com as pessoas com as quais trabalhava. Foi quando a esposa realizou um curso de acupuntura que seu interesse pela medicina chinesa foi despertado. Há dez anos, ele começou a atuar na área e percebeu que, muitas vezes, apenas a acupuntura não resolve, sendo necessária a aplicação de outras técnicas, que são englobadas na chamada “medicina integrativa”. “Se o paciente tiver dor de estômago ou dor nas costas, por exemplo, isso pode estar associado com o seu estado emocional. Mas chega uma hora que a acupuntura esgota seu poder de cura, e você busca outras terapias, como o uso das pedras, o heike e massagens.”

As pedras são utilizadas principalmente no heike, uma técnica milenar que consiste em transmitir ao paciente a energia vital da Terra para cada um dos sete chacras do corpo. Cada chacra possui uma cor, sendo possível utilizar pedras de cores próximas aos chacras durante o heike. O terapeuta também pode escolher uma pedra ou cristal de acordo com a necessidade do paciente, utilizando no processo de escolha a radiestesia, que utiliza um pêndulo para decifrar as vibrações do paciente.

“As pedras são uma das maneiras de adicionar energia no paciente. Pessoas com problemas psicológicos graves, traumas de infância, às vezes não têm força para superar esses traumas. A acupuntura não trabalha com essa energia. Já o heike dá nova energia à essa pessoa, dá um alívio. Não que ela ficará sem o trauma, mas ela terá mais energia para repensar nela e passar por aquilo, não levar mais isso no peito. A gente manda o paciente para psicólogo. E tem psicólogo que manda o paciente para a acupuntura.”

O músico Francisco Lobo, 25 anos, tem um verdadeiro fascínio pelas pedras e cristais. Um dos maiores percussionistas brasileiros da Música Oriental, integrante de várias bandas fomentadas no Coletivo Tarab, Francisco usa pedras para meditação, para tocar e até dar aulas. Em sua coleção pessoal já chegou a reunir 146 gemas, número que tem se reduzido porque ele tem o costume de dar algumas dessas pedras de presente aos amigos que precisam de determinada energia.

Com cinco anos, Francisco ficou encantado em ver cristais florescendo à beira da estrada quando estava a caminho de Vianópolis, em Goiás. Quando sua família estava passando pela cidade de Cristalina, a caminho da casa do avô de Francisco, decidiram parar para coletar os cristais no acostamento da estrada. “Brotavam cristais na beira da estrada. Por um bom tempo, fiz coleção de pedras que coletava em rios, cachoeiras, praias e as que encontrava na rua.” Segundo ele, as pedras simplesmente aparecem para ele quando está caminhando pela rua. Recentemente, ele achou uma grande Ametista perto de casa. Em 2016, em viagem à Amazônia, trouxe na bagagem pedras maravilhosas do Rio Amazonas. “Todas (pedras de rios, mar e cristais) têm e carregam a assinatura energética de onde estavam na natureza”, diz a terapeuta Simone.

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O percussionista Francisco Lobo já chegou a reunir 146 gemas, mas a coleção vem se reduzindo pois ele gosta de dar pedras de presente aos amigos que precisam de determinada energia. Crédito da Foto Roger Marzochi.

Depois de um período sem muita atenção aos macucos, sua curiosidade foi desperta na adolescência devido a uma namorada que trabalhava com terapias alternativas. “Eu estava nessa época pirando com meditação e fui percebendo que as pedras têm uma frequência. Uma Angelita para meditar vai me trazer muita calma, é uma pedra analgésica. Um quartzo tangerina vai me deixar agitado, para outro tipo de meditação. Fui sentindo e pesquisado.”

Para se apresentar em público, o músico também utiliza a energia das pedras. Quando o show é realizado em um ambiente de balada, com muitas pessoas bebendo e muito loucas, Francisco leva consigo uma pedra que o isola dessa frequência para conseguir tocar direito. “É para manter uma distância dessa frequência. E, além disso, quando estou emocionalmente abalado, meditar com pedras me ajuda a tranquilizar.” Segundo ele, a Angelita é uma das pedras que o ajudam muito a conquistar a tranquilidade para tocar seus instrumentos. Para dar aulas, ele usa a pedra Albita, que o ajuda a trabalhar com a energia dos alunos. “E algumas pedras servem como analgésico físico. Começa a doer, pego a pedra e vai embora. Pode até ser um placebo forte, mas não sou só eu que sinto isso.”

Simone, terapeuta holística, lembra que há sim saberes científicos nas pedras e cristais, considerando também haver saberes sociais, expressos em tradições antigas e mitologia. Mas todos devem ser levados em consideração. “Elementos e composição química, formação geológica e geométrica, frequência energética, esses são saberes científicos; mais usos e costumes de tradições antigas, mitologia relacionada, que são saberes sociais; e acrescente a prática mental do placebo, que também entra de qualquer jeito em tudo que colocamos o foco, a atenção, energia e entendimento. Eu não descarto nenhuma dessas possibilidades, inclusive tento utilizar todas essas visões a favor do trabalho de harmonização e equilíbrio energético do meu cliente.” Pode até haver pedras em nosso caminho em 2018, mas a maioria nos ajudará a revigorar nossa energia vital nos contornos e desafios que nos esperam.

Uma meditação latino-americana

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Luis Leite se inspirou na América Latina para o seu terceiro CD, uma verdadeira viagem à essência do continente

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da foto de Aline Müller

Por mais revoltante e injusto que o mundo nos pareça, só com amor é possível mudar a nossa perspectiva para uma sociedade mais justa. “Vento Sul”, o terceiro CD autoral do violonista carioca Luis Leite, dá grande colaboração nesse sentido ao fazer um convite a um tipo de introspecção que não tem nada de passivo. Lançado no final de 2017, o trabalho pode ser considerado um mergulho na essência da América Latina, de suas veias até hoje abertas, e um forte estímulo para a meditação sobre quem somos, o que queremos e para onde vamos. O disco físico pode ser adquirido por meio do site do artista (R$ 30) ou por download no mesmo endereço eletrônico (R$ 15). O violinista não disponibilizou o CD em plataformas de streaming por questões estéticas e econômicas.

“Esse disco é um tipo de música que depende da fruição que passa muito por um estado meditativo”, explica o compositor, em entrevista ao entresons. “Para alcançar a mensagem que está sendo dita é preciso estar em estado de calma e de ‘meditação sonora’.” Leite reconhece que a sociedade caminha em ritmo frenético e sabe que está na contramão da indústria cultural, que privilegia a cultura e a estética norte americana e gêneros artísticos que dão pouco ou nenhum espaço para a reflexão. “A sociedade caminha acelerada, sem pausa. Ninguém para para ouvir música”, afirma.

“No ‘Vento Sul’ eu fiz questão de direcionar para uma linguagem latino-americana, porque somos carentes disso no Brasil. Não consumimos a música latino-americana, não temos contatos com nossos vizinhos. A cultura norte americana é mais forte no Brasil em termos de consumo.” Apesar disso, muitos grupos brasileiros se inspiram nos ritmos da América Latina. Exemplo disso é o Rodrigo Nassif Quarteto, do Rio Grande do Sul, que no trabalho “Todos os Dias Serão de Outono” (2015) apresenta influências regionais de uma forma contemporânea.

A entrevista com Luis Leite ocorreu no dia 14 de dezembro, um dia após a derrota do Flamengo para o time argentino Independiente na Copa Sul-Americana, com toda a rivalidade e violência que se presenciou entre a torcida antes, durante e após o jogo. Leite concorda que o futebol não é capaz de unir as pessoas, algo que a música consegue fazer não apenas na América Latina, mas em escala mundial. “A música congrega sempre, sempre une emoções. É uma forma de expressão muito nossa, natural e orgânica do ser humano, que esteve sempre presente desde os primórdios, como expressão do que podemos considerar a alma humana.”

Nascido em uma família muito musical, Leite conta que desde pequeno ouvia muita música latino-americana em casa, gente incrível como o cantor chileno Víctor Jara, a cantora chilena Violeta Parra – uma das inspirações para “Vento Sul”, ao lado de compositores como o violonista colombiano Gentil Montaña e o trio argentino Aca Seca. Leite captou todo o sofrimento de uma gente e traduziu um sentimento, que não está necessariamente preso a um gênero musical, mas a uma inspiração que se transmuta em música universal. Assim como o violonista Ulisses Rocha, Leite consegue utilizar seu imenso conhecimento técnico para fazer poesia, tão bem expressa no trabalho de Maria Birba e Aline Müller, responsáveis pela fotografia, projeto gráfico e retratos de “Vento Sul”.

Luis Leite Vento Sul CD

Terceiro CD autoral do violonista e compositor carioca Luis Leite, “Vento Sul” está à venda apenas no site do artista, que se negou a disponibilizar o trabalho em plataformas de streaming de música

E não poderia deixar de existir, entre tanta poesia, uma homenagem ao compositor, violonista e cantor brasileiro Guinga, na música “Flor da Noite”, com a participação do clarinetista Giuliano Rosas. “Foi uma música que eu compus mais na sonoridade associada ao Guinga, que foi inventor de uma linguagem. Você ouve uma música dele e já reconhece suas linhas sinuantes e harmonias marcantes, elementos que me inspirei para fazer a música, buscando uma cor guinguiana.”

Vocalizes que sopram as dores do continente podem ser ouvidos nas vozes da cantora paulistana Tatiana Parra (“Veredas” e “Céu de Minas”) e Lívia Nestrovski (“Noturna”). Há também “Beniño”, uma bela composição em homenagem ao filho do violonista gaúcho Yamandu Costa, com uma sanfona mágica tocada por Marcelo Caldi, acompanhado Leite, Márcio Sanches (violino) e Diego Zangado (bateria). “Caravan” tem um swing irresistível, um jazz latino que conta com o pulsar de músicos incríveis como Peter Herbert (baixo acústico), Wolfgang Pusching (flauta) e Luis Ribeiro (percussão).

O trabalho não deixa de ser uma resistência, não apenas cultural mas também econômica. O artista se negou a disponibilizar o trabalho em plataformas de streaming digital, diferentemente de seu primeiro CD autoral “Mundo Urbano” (2009), um magnífico tratado sobre a urbanidade, em duo com o percussionista Luis Ribeiro, que pode ser ouvido no Deezer e Spotify. “A opção de não colocar no streaming veio de um pensamento ideológico e econômico. A gente fez um cálculo: com o dinheiro que investimentos no projeto, para ter retorno, seria necessário 10 milhões de plays no Spotify. É uma estrutura que funciona bem para a indústria, que funciona para grande comércio, uma máquina, uma engrenagem grande. A música de nicho, música instrumental, que é uma música que trabalha com conceito diferente, não precisa ter o mesmo comportamento da indústria. É uma busca por alternativa, uma forma de pensar em alternativas para esse mercado que é ditado pela grande indústria. E de valorização do fonograma. Não tenho nada contra o Spotify, sou usuário. Mas atende determinado tipo de mercado.”

Outra razão seria o fato de que as composições do instrumentista são pensadas com um sentido narrativo. “As músicas do ‘Vento Sul’, do ‘Mundo Urbano’, faço questão de dar um sentido narrativo, uma ordem musical coerente. Com playlist você dilui isso. É uma das razões também, um aspecto ideológico, financeiro e conceitual.” O investimento, sem dúvida, vale muito para quem gostaria de ouvir uma música contemplativa, que transborda muito amor apesar das tragédias do continente, sejam elas históricas ou contemporâneas. O acalanto da viola de Elisa Monteiro, em “Despedida”, a décima e última música de “Vento Sul”, diz haver sempre esperança.

 

Só a fé não move o canto

Saúde de cantores evangélicos 2 MTC

Estudos revelam que a voz de cantores evangélicos amadores está sob ameaça

Roger Marzochi, do entresons; Arte de Marcos Tavares Costa (MTC)

Com a proximidade do Natal e Fim de Ano, corais de igreja se apresentam em todos os cantos. A música, no entanto, não é um veículo de louvor apenas nessas festas. Todas as religiões têm na canção um componente essencial em sua liturgia. Entre os evangélicos, o uso da música é ainda mais intenso. Mas o canto dos evangélicos está ameaçado pela falta de técnica, com “elevado risco vocal” que pode prejudicar a saúde de cantores amadores que participam desses cultos. É o que mostram dois estudos coordenados pelo Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (USP), e Centro de Estudos da Voz (CEV).

Ambas as pesquisas foram realizadas com cem cantores evangélicos, todos amadores, nas regiões de Bauru e Campinas entre 2011 e 2012. O estudo entrevistou 25 cantores e 25 cantoras de igrejas tradicionais, como a Batista, a Luterana e a Presbiteriana; e a mesma quantidade de fieis, igualmente dividida entre gênero, em igrejas pentecostais, como Assembleia de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja da Graça, Congregação Cristã, Missionária Unida e Universal do Reino de Deus. Os fieis revelaram cantar uma média de seis a oito horas semanais e apenas 2% dos entrevistados afirmaram ter “conhecimentos sobre técnicas e preparação vocal”.

“Cantores evangélicos amadores relataram queixas vocais como rouquidão e pigarro constante, falhas na voz, perda de voz, garganta seca, voz fraca e dor na região de pescoço e nuca. Durante o canto, as queixas mais reportadas foram dificuldades para alcançar notas agudas, rouquidão e falhas na voz”, constata a pesquisa “Índice de Desvantagem para o Canto Moderno em Cantores Evangélicos de Igrejas Tradicionais e Pentecostais”, conduzida pelos pesquisadores Joel Pinheiro, Perla do Nascimento Martins Muniz, Janine Santos Ramos, Alcione Ghedini Brasolotto e Kelly Cristina Alves Silverio. Essa primeira pesquisa foi divulgada em 2013, utilizando como método o Índice de Desvantagem para o Canto Moderno (IDCM).

“Essas alterações podem ser consequência de falta de conhecimento sobre a anatomia e fisiologia vocal, classificação vocal equivocada, uso da voz de maneira inadequada, bem como desconhecimento de técnicas e treinamento vocal específico para o uso da voz cantada. Tais fatores facilitam o aparecimento de quadros de disfonias nos cantores, que apesar de serem amadores, podem apresentar comprometimento de sua qualidade de vida.”

A maioria dos cantores relatou dificuldades de alcançar notas agudas, sendo 46% no grupo tradicional e 52% no grupo pentecostal; dificuldade de afinação aflige 14% e 16%, respectivamente. Mais de 20% dos dois grupos apresentaram dor, desconforto na garganta após o canto ou ensaio. 12% nos dois grupos têm falta de ar durante o canto ou ensaio. A voz falha ou fica rouca após o canto para 18% do grupo tradicional e 26% no pentecostal. “Esse estudo mostra que há necessidade de um profissional (para orientar o canto). E a igreja, como instituição, ela investe no pastor, investe na faxineira. Se o culto, o louvor, é tão importante, tem que sair dessa atmosfera de achar que tem o dom de cantar e acabou. Sem preparação você vai ter danos, vai se lesionar e prejudicar a sua voz”, diz Joel Pinheiro, fonoaudiólogo e preparador vocal de Campinas, em entrevista ao entresons.

Em novo estudo com a mesma base de entrevistas, divulgada em agosto de 2017, os pesquisadores se aprofundaram nas diferenças de gênero. “Cantoras evangélicas apresentaram maior frequência e intensidade de sintomas de desconforto do trato vocal, bem como maior desvantagem vocal para o canto, quando comparadas aos cantores evangélicos”, conclui a pesquisa “Sintomas do trato vocal e índice de desvantagem vocal para o canto moderno em cantores evangélicos”.

“Além do despreparo e falta de conhecimento vocal evidenciados nos cantores evangélicos, há também a presença de aspectos de religiosidade e espiritualidade que interferem no comportamento vocal desses indivíduos, levando-os a praticarem seus atos religiosos quase sempre em intensidade vocal elevada, inclusive durante o canto”, diz o estudo, do qual participaram os pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru e do Centro de Estudos da Voz (CEV) Joel Pinheiro, Kelly Cristina Alves Silverio, Larissa Thaís Donalonso Siqueira, Janine Santos Ramos, Alcione Ghedini Brasolotto, Fabiana Zambon e Mara Behlau. Acrescentando ao já utilizado IDCM, o estudo também buscou métricas de estudo a partir do método da Escala de Desconforto do Trato Vocal (EDTV). A pesquisa original está neste link. “As mulheres têm a anatomia da laringe com pré-disposição de ter fendas. Elas têm sensibilidade maior que os homens”, explica Pinheiro.

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