No tom da fé

Caboclo Pena Verde

Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, em São Paulo, lança seu primeiro CD em plataformas digitais com canções autorais compostas pelos seus fiéis

Roger Marzochi, do entresons.com.br / Arte da Capa do CD feito por Menelua

A música é ciência e, paradoxalmente, religião. Aceitando a acepção dessa palavra do grego “religare”, de atar novamente, de reconexão com as origens, o uso da música para ascender ao sagrado é tão antigo quanto a humanidade. E vem do eco ancestral dos primeiros tambores a soarem na África o primeiro disco digital do Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, localizado na zona oeste de São Paulo. Lançado em agosto de 2019 nas plataformas digitais, o CD tem 18 canções próprias, compostas por membros da congregação e pela dirigente espiritual da casa, Rosângela Bologna. Nem sempre as canções são exatamente as mesmas utilizadas no ritual religioso, mas são expressões artísticas fundamentadas na fé.

“A Umbanda tem toda essa relação da musicalidade, que ajudar na estrutura de energia da casa, ao trazer a história de seu guia e o orixá trazem. Quando tem oportunidade, a gente canta. A ideia era fazer um álbum de pontos, de guias de orixá. Mas reestruturando acabaram entrando outros instrumentos e ficou mais uma música de Umbanda para a gente ouvir ao invés do ponto tradicional”, explica Rosângela, que sonhava com o projeto há seis anos.

O “ponto”, explica Igor Bologna, filho de Rosângela, é como que a interpretação das mensagens recebidas pelos médiuns. “Esses pontos cantados podemos enxergar como algo a ser desatado, algo metafórico. A mensagem chega carregada de vários sentidos e você vai desatar esse ponto dentro da manifestação religiosa. E você consegue desatar os pontos de acordo com o seu repertório cultural e sua vivência dentro dos terreiros.”

Há um ano, o sonho de Rosângela começou a se tornar realidade quando o musicoterapeuta Daniel Braga Lima soube desse desejo. Além de músico, ele é dono do Estúdio Damata, no Jaçanã, e tomou a liderança do projeto, reunindo todas as pessoas interessadas em participar de ensaios e da gravação. Pós-graduado pela FMU em Musicoterapia Organizacional e Hospitalar, Lima defendeu a tese “Ciência da Musicoterapia na Umbanda Sagrada”. Lima ainda é professor de yoga e toca vários instrumentos.

Daniel Lima e Curimba

“Cada pessoa tem uma identidade sonora que se constrói durante a vida, mas também no momento de formação na barriga da mãe”, diz Daniel Lima, o primeiro da direita para a esquerda na foto de divulgação.

“Quando falamos de musicoterapia, é diferente de escutar música e sentir relaxamento ou felicidade ao ouvir a música que gosta. Na musicoterapia, de forma sucinta, o musicoterapeuta identifica a identidade sonora da pessoa. Cada pessoa tem uma identidade sonora que se constrói durante a vida, mas também no momento de formação na barriga da mãe. Identificando essa identidade sonora, o musicoterapeuta usa essa identidade sonora para auxiliar em algum processo terapêutico que aquela pessoa está passando”, explica Lima.

Para ele, os processos religiosos são muito terapêuticos. “A música tem um papel importante dentro das religiões. Cada pessoa tem uma identidade sonora no campo da psicologia transcendental. Se uma pessoa que escuta um louvor evangélico e aquilo toca a alma, traz coisas boas para ela, é um recurso terapêutico de uma egrégora religiosa. Quando ouvi pela primeis vez os pontos cantados da Umbanda me trouxe uma felicidade que há muito tempo não sentia. Fiquei apaixonado pela música.”

Rosângela não apenas desejava muito o CD, como já havia escrito uma letra, que ficou registrada na música “Oxum, Senhora da Minha Vida”. A música foi composta por Igor Bologna, estudante de teatro e percussionista, filho de Rosângela. Lima também compôs músicas como “Mãe Oya”, “Obaluaê, no Seu Cruzeiro” ( com letra de Menelua) e “Caboclo Pena Verde” (em parceria com Rosângela), além de participar a maioria dos coros. Ingrid Baracho canta sua composição “Getruê, Getruá Boiadeiros”, uma congada no qual o triângulo se soma aos tambores. Paus de chuva ecoam em “Salve o Povo do Mar”, composição de Mariana Aragão e Taime Gouvêa que flutua sobre o ritmo ijexá. Muitas das canções expressam o que a MPB faz pelas religiões de matriz africana, tornando a música em si uma só religião e amplificando o amor para além do sagrado, como músicos incríveis como Milton Nascimento e Tiganá Santana.

Além de alfaias e agogôs, foram usados os três principais tambores do Candomblé, o lê (agudo), rumpi (médio) e rum (grave). É neste ponto que a Umbanda sofre uma inflexão, um debate histórico sobre o qual não há registros. Em 1908, Zélio de Moraes foi incorporado pela entidade Caboclo das Sete Encruzilhadas durante uma sessão espírita na Federação Espírita de Niterói. À época, os mentores dessa federação determinaram que o espírito deixasse Zélio, pois não era bem recebido naquele local. E, a partir de então, Zélio criou um culto que foi batizado de Umbanda, que se assemelha a uma reunião espírita, mas sem a utilização de tambores, apenas cantos.

O Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum usa a música por avaliar que é um resgate ancestral da religião. “O que busco dizer com minhas pesquisas e aulas, é que na verdade, a Umbanda não tem como se determinar um momento de fundação, porque essas práticas, como são dadas até hoje nos terreiros, estão muito mais associadas à vinda dos escravos para o Brasil. E eles vieram de uma região central da África, porque toda a filosofia e a forma de lidar com os espíritos vêm de filosofia centro africana, de países como Angola”, explica Igor Bologna.

Ele também discorda da versão da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, o centro criado por Zélio, para a definição de Umbanda, como uma palavra derivada do sânscrito que significaria “ao lado de Deus”. “A palavra vem também do Kimbundo, que significa medicina. A Umbanda é a medicina e quem a pratica, seguindo a língua, é kimbandeiro, é o praticante dessa medicina. A deturpação da palavra busca desassociar a uma imagem dos negros, no começo do século 20, que refletem essas tensões com o fim da escravidão, que são ainda muito fortes e acirradas”, afirma. Independentemente das diferenças e ressignificações, a música é capaz de celebrar o mistério da vida.

 

Músicas do CD

1 – Oração do Encontro

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima, Elisandra Figueiredo

 

 

2 – Salve o Povo do Mar

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Mariana Aragão, Taime Gouvêa

 

 

3 – Obá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

4 – 7 Ondas

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

 

5 – Repente

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

 

6 – A Trabalho de Olorum

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Jean Lima

 

 

7 – Obaluaê, no Seu Cruzeiro

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima e Menelua

 

 

8 – Salve Nossa Esquerda

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Bruno Beretta, Patricia Kohn

 

 

9 – Getruê, Getruá Boiadeiros

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Ingrid Baracho

 

 

10 – Caboclo Pena Verde

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Daniel Braga Lima

 

 

11 – Vou Correr o Mundo, Zé Pelintra

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Patricia Kohn

 

12 – Ooh Pescador

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna

 

13 – Os Erês

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Daniel Braga Lima

 

14 – Eparrei!

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Ingrid Baracho

 

15 – Mãe Egunitá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

16 – Oxum, Senhora da Minha Vida (ft. Alberto Kohn)

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Rosângela Bologna, Luciana Menezes

 

17 – Vovó Catarina

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Mariana Aragão, Mônica Patrícia Lima

 

18 – Mãe Oyá

Artista: Curimba Templo Pena Verde

Compositores: Daniel Braga Lima

 

Bruna Moraes despe a humanidade em “Nua”

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Cantora, compositora, violonista e poetisa ousa no romantismo ao estilo voz e violão, buscando pela empatia despertar o amor no ser humano

Roger Marzochi, do entresons.com.br – projeto eLab#Sons / Créditos das Fotos: Instagram

É impossível sair ileso após ouvir “Nua”, o segundo CD da violonista, compositora e cantora paulistana Bruna Moraes, lançado em abril de 2019 nas plataformas digitais. A densidade de sua voz, a gravidade de suas palavras, desencobrem a grossa camada de resistência à alteridade, poeira que a contemporaneidade tem depositado nos relacionamentos nas mais diversas camadas. A capa, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva. E Bruna Moraes revela em suas canções o amor que mora na essência do ser humano, num mergulho perpendicular, o mesmo no qual o poeta Manuel Bandeira se jogou em “Nu”: para dentro do olhar líquido da amada, com o seu corpo reluzente como estrela, no qual “baixo até o mais fundo de teu ser, lá onde me sorri tu’alma, nua, nua, nua…”

Com 24 anos de idade, Bruna Moraes comprova nesse novo disco que entrou definitivamente para a história da Música Popular Brasileira (MPB). O trabalho conta com a participação dos violonistas Romero Lubambo e André Fernandes. Cinco anos após o seu primeiro disco “Olho de Dentro”, ela retorna ousada, no estilo voz e violão, desafiando a indústria do entretenimento, pois seu show deixa marcas profundas. “Acho que quem tem coragem é meio doido. Mas a coragem não é ausência de medo. Eu cheguei a pensar que as pessoas não iriam gostar desse disco. Mas a felicidade de continuar cantando e compondo foi uma realização profunda”, explica Bruna. O amor, cantado em suas mais diversas expressões, no entanto, não chega a ser “sofrência”, pura dor de cotovelo. Com apenas dez anos de estrada, ela aprendeu a sensibilizar o seu canto sentindo a dor do outro. Mas isso, no entanto, sem se colocar exatamente na pele da pessoa que sofre, para que a sua interpretação poderosa não a deixasse dilacerada a cada música.

“Esse disco fala sobre a simplicidade dessa ideia da empatia, da existência do ser humano que se machuca, que se empolga, deseja e desiste. É um foco na nudez do ser humano, sem mascarar ou esconder nada. O maior talento da minha vida é a empatia, e só. Existem outros. Mas é o que eu sei fazer da minha vida: é sentir o que os outros sentem. A minha arte existe porque eu não sei não pensar no outro. Eu acho que ser artista tem a ver com humanidade”, explica. “E pode ser um defeito meu, mas quando eu vejo as piores pessoas do mundo, penso que alguma coisa de muito errado aconteceu com elas. Isso porque eu acredito que a natureza humana é empática.”

Bruna Moraes

“Esse disco fala sobre a simplicidade dessa ideia da empatia, da existência do ser humano que se machuca, que se empolga, deseja e desiste”, explica Bruna Moares.

Das 11 músicas, quatro são apenas de Bruna, mas que também faz parceria com outros compositores e músicos. Romero Lubambo participa no início e no fim do disco, em “Acalanto” (Bruna Moraes) e Quem Ama (Marcus Marinho e Achiles). Suas letras e interpretações são tão profundas, explica Bruna, porque a poesia chegou em sua vida antes das primeiras aulas de violão: a sua mãe, professora, deu-lhe livros de poetas como Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade.

“Sem a poesia eu não conseguiria fazer metade do que faço hoje, sem dar esse valor que eu dou à palavra. Eu sou apaixonada pela palavra, por isso que a música funciona tão bem”, afirma Bruna, que também é poetisa. “Permita-me, Poesia / que o silêncio seja teu; / que seja em tua mão / meu deleite e sossego. / Ajuda-me, amada minha, / que calar o amor é mortífero / e devastador. / Seja meu braço, meu ombro duro. / Refaça meu corpo em tua força”, escreve a artista em “Oro”, publicada em seu blog Abissal.

O amor à palavra levou a moça a ingressar na Faculdade de Letras da FMU, em São Paulo, curso que durou apenas um semestre, pois Bruna participou, no Rio de Janeiro, do musical “Gonzaguinha – O Eterno Aprendiz”, em 2018. Suas viagens para o Rio eram realizadas às sextas, exatamente no dia da aula de Literatura Brasileira. Sem essa aula, o curso não poderia continuar. “Não vou fazer um show pensando que não estaria nessas aulas”, explica. Mas, no entanto, um professor desse curso a inspirou ainda mais nas letras e na música.

A canção “Aérea” nasceu de um poema do professor Rogério Duarte, que ela musicou. Bruna tem, inclusive, promovido várias incursões na criação de melodias: foi assim com a incrível canção “Mínimo Volume”, com letra de Bruno Kohl. “Essa música quase virou o nome do disco”, diz o parceiro André Fernandes, que dobra o violão com Bruna nessa música. “Essa coisa da voz e violão, do canto mais sussurrado, é um canto um pouco distante do sentido técnico e vigoroso do canto aberto da Bruna, que tem característica das grandes cantoras da Era do Rádio. E nessa música, ela foi mais para esse lugar de Rosa Passos. Porque ela canta e se sobressai dentro de uma orquestra, ela enche uma sala, um teatro gigantesco. Foi um presente fazer esse disco.”

Bruna Moraes CD NUA

A capa do CD “Nua”, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva da busca do amor nas profundezas do ser.

Há quem ouça em Bruna ecos de cantoras inesquecíveis, como Elis Regina. Há quem a defenda de possíveis injustiças que possa ter sofrido ao longo de sua breve e intensa carreira até o presente. O fato é que, enquanto poetisa, Bruna vive o agora de maneira visceral, sem precisar de comparações. E ela entende, mais do que ninguém, as palavras de Manoel de Barros, poeta que transformou a forma pela qual a artista se relaciona com o mundo. Em “Autorretrato Falado”, o pecuarista e poeta faz um balanço de sua vida, que quem sabe pode servir para todos os artistas brasileiros. “Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo”, escreve ele, que nasceu em Cuiabá entre “garimpos e ruelas entortadas”. “Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.”

Ou vai, ou vai – Bruna Moraes nasceu em 14 de março de 1995, em São Paulo, no início da popularização da internet no País. Pisciana convicta, ela acredita que a vida sem amor não tem sentido. Com 10 anos, ela começou a estudar violão como atividade extracurricular do Colégio São Paulo, na Mooca. Incentivada pelo pai, entrou na então ULM, hoje Emesp Tom Jobim, aos 12 anos, para estudar violão. E, rapidamente, chamou a atenção dos professores pelas suas interpretações vigorosas inspiradas na cantora Ana Carolina. Bruna caiu no gosto do cantor Zé Luiz Mazziotti, que se tornou seu primeiro padrinho musical.

Foi com o apoio de Mazziotti que, aos 14 anos, Bruna Moraes subiu pela primeira vez em um palco, para cantar “Chega de Saudade”, música de João Gilberto, acompanhada nada menos pela Orquestra Jovem Tom Jobim, no Memorial da América Latina. “Essa é a minha única oportunidade. Ou você vai ou vai. Ou dá certo ou desiste”, pensou à época Bruna. “Minutos antes pensei em ir embora. Quando eu coloquei o pé no palco eu me senti em casa.”

Em 2015, foi desclassificada do programa The Voice Brasil, mas saiu vitoriosa de diversos festivais de música. É poetisa, tem profundo amor às letras, compõe usando a internet, conectando-se a amigos “reais” e “virtuais”. E, nas horas vagas, ama beber café e jogar videogame. Entre erros e acertos, ela desenvolveu a mesma maturidade que há na essência das músicas que canta desde muito jovem.

Músicas do CD “Nua”

01 Acalanto – Bruna Moraes

02 Maná – Luis Dillah

03 Desenho – Bruna Moraes

04 Espreita – Paulo Monarco e Vinícius Castro

05 Para me Curar – André Fernandes e Bruna Moraes

06 Mínimo Volume – Bruna Moraes e Bruno Kohl

07 Cor de Rosa – Lencker e André Fernandes

08 Como Teu Coração – Bruna Moraes

09 Visão – Bruna Moraes

10 Aérea – Bruna Moraes e Rogério Duarte

11 Quem Ama – Marcus Marinho e Achiles

Ciência e meio ambiente inspiram o CD “Quantum”

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Encontro do piano de Daniel Grajew com pandeiro de Túlio Araújo vai do microcosmo da física quântica aos rios voadores da Amazônia

Roger Marzochi, do entresons.com.br – projeto eLab#Sons / Crédito Fotos: Flávio Charchar

Cientistas têm criado arte no Brasil, em um movimento que vem crescendo desde a década de 1960, refletindo um processo que ocorre em todo o mundo. Eles usam modelos matemáticos, microscópios, sensores, biossensores e algoritmos para fazer da técnica uma expressão lúdica e abstrata. A arte em si, no entanto, também é uma ciência, cujos métodos são muito diversos daqueles empregados pelo modelo cartesiano, que ainda exige prova em laboratório. A ciência da música é a capacidade de sentir e fazer sentir por meio de sons. A música não é matemática, não é física, apesar de as notas musicais e os instrumentos, na maioria das vezes, respeitarem leis dessas áreas do saber.

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CD “Quantum” foi encomendado pelo Savassi Festival, de Belo Horizonte. A imagem da capa foi clicada pelo fotógrafo Márcio Rodrigues.

“Em um primeiro momento, você conta o compasso. E, então, para de contar, pois você o internalizou. Você para de contar porque sente o número”, explica o pianista paulistano Daniel Grajew, que buscou inspiração na física quântica e no meio ambiente em “Quantum”, seu novo CD em parceria com o percussionista Túlio Araújo. Há participações especiais em várias composições, como Carlos Malta, Dani Gurgel, Jorge Continentino e Lea Freire. O disco foi feito sob encomenda do Savassi Festival, de Belo Horizonte, evento no qual os músicos realizaram o primeiro show do trabalho, em agosto deste ano. “Eu acho que a arte é uma ciência, as duas se convergem. E a música e o ritmo bebem muito na matemática. Tudo que usamos no disco têm fundamentos matemáticos”, diz Araújo, que estudou e trabalhou na área de ciência da computação até se tornar também música.

Grajew sempre foi um músico transcendental. Em “Manga”, o seu primeiro CD autoral, o compositor bebeu nas fontes do budismo, como conta reportagem do entresons, de 2014. Curioso sobre a origem do Universo, Grajew tem seguido podcasts de ciência e livros, que o levaram à canção que dá nome ao novo trabalho. Antes de contar sobre essa inspiração, é bom fazer um breve resumo sobre a gênese dessa palavra, que se refere a fenômenos que ocorrem nas partículas elementares da matéria.

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“Essa música tem uns saltos porque eu pensei na coisa do salto quântico. Você não enxerga os saltos”, diz Grajew sobre a música “Quantum”.

Incerteza como regra – De acordo com Stephen Hawking em seu livro “Uma breve história do tempo”, o sucesso da lei da gravitação de Isaac Newton acabou por inspirar em pesquisadores uma ideia de previsibilidade total no universo. O francês Marques Laplace, no início do século 19, era um desses obstinados, que extrapolava o determinismo não apenas para o cosmo, mas pesava que essas leis também seriam aplicadas aos humanos. Na contramão, outros cientistas buscavam outras explicações, até que os britânicos lord Rayleigh e Sir James Jeans criaram cálculos matemáticos segundo os quais uma estrela emitiria energia a uma taxa infinita.

“A fim de evitar esse resultado obviamente absurdo, o cientista alemão Max Planck sugeriu, em 1900, que a luz, os raios X e outras ondas não poderiam ser emitidos a uma taxa arbitrária, mas apenas em certos pacotes, que ele chamou de quanta”, explica Hawking. Em 1926, mais uma teoria sepultaria o determinismo: Werner Heisenberg, cientista alemão, formulou o “princípio da incerteza”, segundo o qual é impossível saber a velocidade ou a posição de uma partícula. Ao se aplicar um “quantum” de energia sobre a partícula ela mudará ou sua velocidade ou posição. Um elétron de hidrogênio, o único que circunda o núcleo desse átomo, pode mudar de posição ou velocidade, sendo impossível determinar esse salto quântico.

Essa sutiliza primordial mudou completamente a física, em cujos cálculos buscam explicar de buracos negros a viagens no tempo. E, que em sua mais radical metáfora artística, está vinculada ao free-jazz, levou Grajew a criar uma música num ritmo incomum de 13/16. “Essa música tem uns saltos porque eu pensei na coisa do salto quântico. Você não enxerga os saltos. Quando uma partícula muda de órbita, você não vê a trajetória que ela fez, partiu desse conceito. Essa música foi uma levada que o Túlio me mandou e eu fiz a melodia em cima”, explica o artista, que chamou a multi-instrumentista e cantora Dani Gurgel para representar esse exemplo do princípio da incerteza.

Segundo Araújo, a musicalidade que o conectou a Grajew. Mas, como ambos adoram matemática, e as conversas musicais desembocavam em questões filosóficas sobre quem somos no Universo e física quântica, a fusão desse duo foi irresistível. “Compomos Quantum que é um 13 por 16, mas que soa parecido com quatro por quatro. É um andamento diferente que os brasileiros costumam fazer. É uma espécie de algo que tem similaridade com dimensões paralelas. E o conceito veio natural, porque era o que nos movia.”

“A analogia musical e visual para o salto quântico é perfeita”, diz o físico Mauro Pontes, professor de física e de oficinas do Colégio Equipe e da Arco Escola Cooperativa, em São Paulo. “Em primeiro lugar, o Daniel é muito sensível, toca muito; e segundo, quando ele faz os comentários, as suas associações têm o máximo de respeito ao quanto ele sabe e não sabe, isso é muito legal. Algumas pessoas falam muitas bobagens em suas inspirações quânticas, mas ele faz isso com o respeito pelo mistério.”

De acordo com Grajew, a arte é importante para o aprendizado científico nas escolas. “Quando você fala que a Terra gira em torno do Sol, é preciso um nível de abstração. E é preciso entrar nesse universo abstrato para que as pessoas possam entender, especialmente na física quântica. E o ouvinte precisa ter um nível de abstração também. A arte desenvolve na criança e nas pessoas o pensamento abstrato, a imaginação, que é uma necessidade para a ciência”, afirma.

No calor do debate – A maioria das composições, aliás, foi feita em 2019, no extremo calor de um governo de extrema-direita em plena ação contra a cultura, a educação e, principalmente, a ciência. “O artista absorve um clima do contexto geral”, diz o músico. Um documentário do pesquisador Antonio Donato Nobre, que em 2014, no estudo “O Futuro Climático da Amazônia”, explica como o vapor de água das árvores transmitem umidade, Grajew compôs “Rios Voadores”. Essa humidade forma um verdadeiro rio voador que, segundo Nobre, em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, transporta 20 bilhões de toneladas de água em um dia, mais que os 17 bilhões de toneladas de água do Rio Amazonas.

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“Eu acho que a arte é uma ciência, as duas se convergem. E a música e o ritmo bebem muito na matemática”, diz Túlio Araújo.

Essas nuvens carregadas levam chuva para o centro-oeste, sul e sudeste do País, além de banhar também as terras de Bolívia, Paraguai e Argentina. É devido à essa amplitude que Grajew pensou em misturar ritmos. A música começa com um maracatu, depois vira uma salsa, “como se geograficamente tivesse rios voadores que levassem os ritmos”. “É uma coisa meio sonhadora, um ambiente onírico. Um ritmo que evapora aqui e começa alí”, diz o músico. E para soprar essa umidade, Grajew convidou o parceiro Carlos Malta, reconhecido como o “escultor dos ventos”. Malta pode ser brisa, mas também, é a própria tempestade. A entrevista com Grajew, por incrível que pareça, aconteceu justamente na segunda-feira dia 19 de agosto, quando São Paulo anoiteceu em razão da nuvem de fumaça das queimadas da Amazônia, o completo oposto dos rios voadores.

O CD conta ainda com a participação de Lea Freire, a Velha Maluca, em “Winter Flower”, uma composição que tem ares de música da Idade Média; Jorge Continentino faz participação especial em “Jack Cem”, tocando pífano numa música em homenagem a Jackson do Pandeiro, cujo centenário de nascimento é comemorado neste ano. Das nove músicas de “Quantun”, apenas duas são releituras de composições presentes em “Manga”: “Sete vidas”, que ganha um pulsar de coração no pandeiro; e “Choro Vermelho”, que faz muito lembrar o maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga. Em “Óleo Branco” Grajew divide-se entre o baião e o jazz bebop e, em “Giramundo”, mergulha em sintetizadores. Os físicos podem torcer o nariz para a popularização de conceitos complexos da ciência, mas não há como não pensar que em “Quantum” o piano e o pandeiro agem no mais completo “emaranhamento quântico”.

entresons.com.br cria o projeto eLab#Sons

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Mudança é uma necessidade frente aos novos desafios da arte e do jornalismo

Roger Marzochi, do entresons.com.br / Crédito da Foto Imagem de Bessi por Pixabay

Os painéis “Guerra e Paz”, do pintor brasileiro Cândido Portinari, foram parar na sede da ONU na década de 1950 sob encomenda do governo brasileiro. Inúmeros são os artistas que recebem encomendas para criar obras. Eu posso não ser um Portinari, mas faço arte com as letras e sons com o pouco de técnica que tenho no saxofone.

Por isso, o entresons.com.br vai passar por uma mudança. Nesses quase sete anos de existência, escrevi textos gratuitamente para centenas de artistas. Com a crise e a falta de apoio no projeto de financiamento coletivo, vou escrever textos no blog sob demanda dos artistas. Isso não significa que serei assessor de imprensa, com todo respeito à profissão a qual já professei por pelo menos dois anos. O que eu faço é diferente do que é feito por uma assessoria, que apresenta, em sua maioria, ótima qualidade e bom nível de informação. E o projeto se chamará projeto eLab#Sons.

Quando escrevo, eu costumo viajar um pouco mais na poesia algumas vezes e entrelaçar minha experiência de vida às obras descritas. Bom ou ruim, não sei. O que tenho ouvido de amigos músicos é que exploro tessituras que eles não haviam pensado antes. E que, algumas vezes, colaboram para que pessoas fora dos círculos da arte tenham empatia com relação a essas obras. Nos últimos oito meses, o blog recebeu a visita de 4,1 mil usuários. É muito, é pouco? Acredito que conseguir chegar ao coração de uma única pessoa já é um sucesso. Mas com o comissionamento, será possível impulsionar as publicações nas redes sociais, ampliando o seu alcance.

Não desejo ser crítico de arte nem mesmo usar a falsa máscara da independência do jornalismo. Sou um ativista cultural, sempre defendendo um espaço de divulgação de vários artistas. A ideia é fazer um meio de campo entre a chamada mídia tradicional, financiada por publicidade, e os amigos assessores, financiados pelos artistas. Mas não “venderei” o artista para um jornalista (apesar de muitos jornalistas acompanharem o entresons.com.br), mas para o público.

E os assessores que tiverem interesse em ver um texto seu publicado no blog serão convidados a também contribuir com o blog. E será desta forma que pretendo, a partir de agora, trabalhar. Excepcionalmente, escreverei sobre algum artista sem demanda. Ninguém é de ferro! Mas não será mais a regra desde a criação do blog, em 2012. Entre guerra e paz vou alternando esse imenso desafio de sobreviver de cultura.

“Operação Riga” é um canto místico de liberdade

Victoria Crédito Joana Peressinotto

Músico, repórter free-lancer e blogueiro do entresons.com.br lança seu primeiro ebook em “uma crítica aos valores escolhidos pelas estruturas dominantes da sociedade” 

 

Música é uma questão de gosto? A repórter e musicista Victória, protagonista do romance ficcional “Operação Riga – Sons entre a guerra e a sublimação”, de Roger Marzochi, sentirá na pele que o som pode destruir, construir e transcender. Enfrentando barreiras para publicar reportagens sobre música no Diário Brasileiro, recebendo muito pouco com as apresentações de sua banda de jazz, Victoria ainda descobrirá segredos sobre sua família que estão intrinsecamente ligados ao mistério dos sons, usados tanto para a guerra quanto para a cura. O ebook chegou na loja da Amazon no domingo, dia 18 de agosto. O livro pode ser encontrado neste link.

Nascida em Nova Odessa, no interior de São Paulo, em uma família que emigrou da Letônia, a protagonista mal pode suspeitar que a mística de seu som está relacionada a tempos imemoriais do mais antigo do Egito Antigo e até de seres de outros planetas. Seria ela capaz de descobrir se a morte de seus pais na década de 1980 foi uma fatalidade ou, em tempos modernos, a razão seria incapaz de dar conta da tragédia cotidiana?

Operação Riga Roger Marzochi Capa Joana Peressinotto“A narrativa constitui uma crítica aos valores escolhidos pelas estruturas dominantes da sociedade de nosso tempo e à mentira formal e hipocritamente aceita que todos chamamos de Economia, um dragão dominado pelas grandes corporações e os governos que as servem, com aparência de democracia no Ocidente e de opressão no Oriente. Mas a mesma coisa: o amor ao dinheiro e ao poder, acima da solidariedade”, escreve o jornalista e escritor Pedro Fávaro Júnior no prefácio da obra.

A ideia da estrutura do livro nasceu de um sonho, somado às experiências que Marzochi teve como repórter e músico. Em 2015, Marzochi estava escrevendo textos para o Jornal de Artes Helena Barufaldi, veículo de comunicação da escola de pintura de mesmo nome da cidade de Nova Odessa, que recebeu grande influência da imigração leta no Brasil. No mesmo ano, a arquiteta Joana Peressinotto encomendou a Marzochi uma pesquisa sobre a imigração dos letos no País, em decorrência de um empreendimento que estava realizando nessa cidade.

Além da pesquisa na Biblioteca da PUC de São Paulo, Marzochi conheceu Laima Mesgrawis, uma senhora de 80 à época, que não se casou e não teve filhos. Laima nasceu em Nova Odessa, mas mora em São Paulo e concedeu ao autor uma longa entrevista sobre a sua vida e a Letônia, material que acabou não sendo publicado. Consultada pelo autor, ela autorizou a utilização de trechos de sua história em um romance.

Um sonho musical no Egito levou o autor a dar vida à Victória, personagem principal de “Operação Riga”, como se esta fosse neta de Laima – com uma pequena mudança no sobrenome-, colocando-a na pele de uma jornalista-musicista. Há na obra duas reportagens publicadas pelo autor em seu blog entresons.com.br, mas assinadas pela protagonista do romance, e entrevista com o músico Dyonisio Moreno. O trabalho conta com ilustração de capa de Joana Peressinotto, que também assina com o artista plástico Giuseppe Buoso Filho ilustrações no interior do livro, a partir de suas interpretações sobre a história.

 

 

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