O tempo é agora

Paulio Celé Jazz nos Fundos

Multi-instrumentista criado no Tocantins prepara seu primeiro CD de Música Universal

Roger Marzochi, do entresons

“E se meu tempo não fosse agora” será o nome do primeiro CD do guitarrista, arranjador e compositor Paulio Celé. O trabalho, que deve ficar pronto entre agosto e setembro de 2017, vai enriquecer ainda mais a cena da música instrumental brasileira, mais especificamente, a da chamada Música Universal. A expressão, criada pelo multi-instrumentista Hermeto Pascoal, refere-se a um jeito de tocar que ressoa influências musicais planetárias, sem ser possível a definição de um gênero específico. Em fevereiro do ano passado, o guitarrista Alex Lameira também mergulhou nessa fonte, apresentando o seu primeiro CD, que está pleno desse espírito. O disco era para se chamar “Saudades do Sol”, mas com início das gravações em estúdio novas sensações apontaram para outros caminhos.

Celé prefere não associar seu som à Música Universal, por acreditar que apenas o mestre Hermeto Pascoal seja capaz de fazê-lo. Uma modéstia facilmente descoberta ao se ouvir “Partindo para o interior”, canção já disponível no Youtube e que fará parte de seu primeiro álbum.  “Violêra”, outra canção que estará no disco, pode ser conferida em um trecho de ensaio que o músico postou em seu perfil no Facebook. Aos 31 anos, o paulistano criado entre o Tocantins e o Maranhão, já fez arranjos para o quinteto do baterista Eduardo Sueitt e o sexteto do jovem saxofonista Vinícius Chagas, que lançou no ano passado o seu primeiro álbum, “Moment Storm”. O CD, aliás, traz uma música composta e arranjada por Celé: “Cruviana”.

Para o seu trabalho autoral, o guitarrista compôs dez músicas, que carregam toda a sua experiência de vida, calcada em festas populares como Folia de Reis, maracatus e Bumba meu Boi, expressões culturais muito vividas por sua família em Miracema, no Tocantins, e em Carolina do Maranhão, no Maranhão. Há dez anos em São Paulo, após deixar a cidade aos três meses de idade, Celé hoje é professor do Conservatório Souza Lima.

Ele se formou no Conservatório de Tatuí. E, em suas andanças por Palmas e Goiânia, o músico traz ainda mais forte em sua bagagem influências de Hermeto Pascoal, Itiberê Zwarg, Heraldo do Monte, George Benson e Milton Nascimento.  “São Paulo é a minha mãe biológica”, brinca o músico. “Mas eu tenho coisas do Tocantins que são tão fortes em mim que me considero tocantinense. Acredito que as fases da infância e da adolescência são cruciais para a construção da nossa personalidade.”

Ao sair de São Paulo, a família se mudou para Aparecida do Rio Negro, uma cidade muito pequena, sem banco ou posto de gasolina à época. Até os seis anos de idade, Celé foi criado solto no mato. “Eu tenho lembranças muito boas disso. Esse primeiro momento foi muito rico e construiu a minha forma de desenvolver a música.” Depois, ao se mudar para Miracema, Celé começou a ter aulas de teclado. Nas férias, viajava para casa da avó em Carolina do Maranhão, onde tinha vivência mais pura da Folia de Reis. “Sempre nas férias rolava Folia de Reis na casa dela. Chegava o povo de madrugada cantando, era uma coisa linda. E minha avó passava cantando. Festa lá em casa era todo mundo cheio de instrumento musical.”

Com nove anos, a professora de teclado, a dona Eunice, disse que já havia ensinado ao menino tudo que sabia. Celé começou a fazer aulas em Paraíso, uma hora de viagem de ônibus, para onde o músico pingava toda semana. Até que, com 11 anos, ele se interessou mais pelos dedilhados de seu pai ao violão. “O ouvido dele é muito impressionante, de descobrir acordes sem não saber nada de teoria”, diz Celé.  Seu pai chegara a gravar um disco de músicas católicas quando morou em São Paulo. Aos 14 anos, Paulio Celé foi morar em Palmas para completar o segundo grau e fez aulas de violão, uma vez que não havia um professor de piano naquela escola. Morou um ano em Goiânia, estudando num conservatório e, em 2005, mudou-se para São Paulo, estudando no Conservatório Carlos Gomes e no Conservatório de Tatuí. Só aos 19 anos a guitarra entrou em sua vida, tanto que o músico se considera mais um violonista.

O multi-instrumentista ainda canta, e faz o som flutuar ainda mais com vocalizes inspiradíssimos. “Tive a sorte de estudar com Fábio Leal, um dos melhores guitarristas do mundo, que entende muito a música brasileira. E fui descobrindo o som do Heraldo do Monte, do Hélio Delmiro, Egberto Gismonti. Pesquiso muito a música brasileira, essa coisa da guitarra brasileira, o folclore, o boi, o maracatu, o frevo… transpor esses ritmos para dentro da composição, que é a coisa que o Hermeto faz. Traspor a melodia de uma lavadeira e colocar num contexto de harmonia arrojada e de polirritmia.” Na companhia de músicos tão sensíveis quanto Celé, o novo disco está sendo gravado com grande empolgação e alegria, buscando vencer os obstáculos que todo músico brasileiro enfrenta. “Todo mundo que vai participar do disco tem a mesma energia, que é a da música brasileira. Não é jazz, não é funk, não é linguagem de jazz americano. É musica instrumental brasileira com muitas referências.”

Um São João na Suíça

1Salomão Soares por Luan Cardoso

Paraibano é o único brasileiro e latino-americano a disputar competição de piano no Montreux Jazz Festival

Roger Marzochi, entresons / Foto de Luan Cardoso

Aos 27 anos, o pianista, arranjador e compositor Salomão Soares é o único brasileiro e latino-americano entre os dez semifinalistas do Montreux Jazz Piano Solo Competition 2017, disputa que ocorrerá entre os dias 2 e 3 de julho na Suíça, que faz parte do renomado festival Montreux Jazz Festival, o segundo mais importante festival de jazz do mundo. O festival, que é realizado entre os dias 30 de junho a 15 de julho, nasceu em 1967 e se tornou uma das mais importantes vitrines da música popular brasileira, com apresentações histórias de Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Soares nasceu em Guarabira (PB) e foi criado em Cruz do Espírito Santo, também na Paraíba. Desde muito cedo teve a sua musicalidade despertada por influência do pai José – percussionista –  e da mãe Maria José – violonista que brindava com música todas as festas da família. O músico cresceu num pedaço de Nordeste musicalmente privilegiado. Ao mesmo tempo em que começou a estudar teclado, entrou para a banda marcial tocando saxofone, batendo triângulo, zabumba e pandeiro, embalado pelas festas de São João. “Com certeza o forró do São João foi o mais importante na minha formação musical. Era a época em que a gente mais trabalhava. Foi uma das minhas maiores escolas”, diz Soares, em entrevista ao entresons. “Vai ser um São João na Suíça”, brinca o músico.

Com a influência das festas populares, a musicalidade do pianista se fundiu à música instrumental brasileira, especialmente à chamada Música Universal, gênero criado pelo mago Hermeto Pascoal. Não é à toa que Soares, quando se mudou para São Paulo, em 2011, seguiu para estudar no Conservatório Dramático e Musical de Tatuí, orientado pelo pianista André Marques, que integra o grupo de Hermeto. Apadrinhado pelo multi-instrumentista Itiberê Zwarg, também um outro expoente do grupo do bruxo albino, Soares domina diversas linguagens da música popular, o que lhe permite uma versatilidade em seus trabalhos. Suas performances são notáveis e já foram realizadas ao lado de alguns nomes marcantes como Hermeto Pascoal, Filó Machado, Nenê, Gabriel Grossi, Itiberê Zwarg, Vinicius Dorin, Fábio Leal, Arismar do Espírito Santo, Altay Veloso e Lilian Carmona.

Essa sua musicalidade brasileiríssima chamou a atenção dos organizadores da competição, na Suíça. Soares enviou para a organização, além de seu currículo, duas músicas: “Loro”, de Egberto Gismonti; e “Boizinho Universal”, composição de sua autoria inspirada no Bumba meu Boi. Essa composição fará parte da disputa, além de músicas como “Billie’s Bounce”, de Charlie Parker; “Só danço Samba”, de Antônio Carlos Jobim; e uma composição inédita de Soares, que ainda não tem nome. “Fiquei muito feliz. Vou tocar uma música que acredito, a Música Universal. Sou grato por representar a escola da qual eu vim. Não precisei me moldar pra nada. É muito legal por parte do festival abrir o leque: não é só jazz, mas música instrumental brasileira.”

O vencedor do concurso leva 10 mil francos suíços, aproximadamente R$ 34 mil, além de ter o direito de gravar um CD com todos os custos pagos pelo festival. A passagem para a Suíça, que custou R$ 4.500, Soares teve que tirar de suas economias, recursos que conseguiu reunir no período em que tocava em navios de cruzeiro pela costa da América Latina. O músico tentou obter ajuda dos Estados de São Paulo e da Paraíba, mas não conseguiu apoio, apesar de representar o País num dos mais importantes eventos da música internacional.

“Sou o único cara da América Latina nessa competição, estarei representando a música brasileira. É quase que uma obrigação do governo de apoiar essa situação”, afirma Soares, que ao menos conseguiu hospedagem gratuita na casa de um amigo. Dentre os semifinalistas, estão pianistas da França, Ucrânia, Estados Unidos, Rússia, Itália e Áustria. Mas, se caso vencer a disputa, ele já está estudando a formação da banda que gravará seu primeiro CD. Repertório autoral para isso, afirma ele, já há de sobra.

Fernando Grecco se reinventa em “Repente da Palavra”

Fernando Grecco - Foto de Tarita de Souza

Idealizador  do selo e produtora Borandá apresenta canções autorais em seu primeiro EP

Roger Marzochi, Prana Comunicação; foto de Tarita de Souza

Fernando Grecco ficou conhecido no meio musical brasileiro por ter criado, em 2009, o selo Borandá. Essa iniciativa deu vida a novas obras de artistas importantes da MPB e da música instrumental brasileira, como Chico Saraiva, Marcelo Pretto, Swami Jr., Ná Ozzeti, Antonio Loureiro, Dani Gurgel, Toninho Ferragutti, Bebê Kramer, entre outros. O que poucos sabiam é que, no fundo do peito de Grecco, sempre bateu uma profunda vontade de tocar e compor. Essa pulsação artística foi materializada no dia 24 de maio de 2017, quando foi lançado, em plataformas digitais, e em versão física, o EP “Repente da Palavra”, com quatro canções autorais.

“A partir do EP, meu desejo é trilhar o  caminho como cantautor, músico e produtor musical. Até posso fazer produção executiva, mas meu objetivo agora é a música”, afirma o artista, que deixou o dia a dia do selo para se dedicar à arte. O lançamento do EP aconteceu nas plataformas digitais, e também como CD físico, que traz na capa a xilogravura “O Diálogo”, de Gilvan Samico (1928-2013).

O EP “Repente da Palavra” nasceu com a urgência do agora. “Presente” é, aliás, uma das músicas do trabalho, a primeira que surgiu nessa nova fase do artista. “Por que não viver o agora / se já sabemos o fim? / Abro a porta e salto fora / Meu presente espera por mim!” Até o fim deste ano, o EP se transformará em CD, com a gravação de novas músicas, que estão em processo de composição. “Eu quis fazer o EP porque esse meu lado artístico já estava represado há muito tempo, e senti uma urgência de produzir estas primeiras canções. E a vida é hoje, pois o amanhã eu não sei”, explica.

Com primazia pela palavra, significado e rima, não é exagero afirmar que as quatro primeiras canções dessa nova fase de Grecco fazem jus ao selo que ele idealizou. Não é à toa que muitos dos que transitam pelo universo da Borandá participam da obra, como o contrabaixista Marcelo Mariano, o baterista Thiago “Big” Rabello, o pianista Guilherme Ribeiro e o multi-instrumentista Antonio Loureiro. O músico e engenheiro de áudio Bernardo Goys divide com Grecco a produção musical. “Eu sempre tive uma base de comparação muito alta, de artistas como os que tive o prazer e a honra de trabalhar na Borandá, e de minhas influências musicais. Mas mesmo admirando todos eles, quero fazer canções que tenham a ver comigo. Acredito ter conseguido encontrar um caminho”, diz o músico.

Nascido em 1969, em São Paulo, o músico cresceu na década de 1970 ouvindo o melhor da MPB em programas de rádio e televisão. Apesar de avaliar que a sua família não tinha uma veia musical muito intensa, Grecco tem boas lembranças da avó tocando sanfona e de sua mãe, que dedilhava músicas engraçadas no violão. Este, aliás, foi o seu primeiro instrumento. Mas ele começou a estudar música aos 15 anos, quando, fascinado por bandas de heavy metal como Iron Maiden e Black Sabbath, começou a tocar guitarra. Ele chegou a se apresentar no festival do colégio, cantando músicas deste estilo.

Mas, aos 17 anos, entrou para a faculdade de Engenharia Elétrica, deixando a música em um mundo paralelo. Na faculdade, teve contato com o rock progressivo, o jazz e a música erudita, ampliando seu gosto musical. Chegou a criar uma banda para tocar sons do grupo canadense Rush e até formou um trio de música instrumental, do qual participava o baterista e percussionista Beto Angerosa. Seguiu, no entanto, a carreira  de executivo na área de informática, e depois, atuando na área de Marketing, onde podia usar um pouco de seu veio criativo, que foi fundamental na idealização da Borandá.

Após a criação do selo, o seu ímpeto artístico retomou fôlego. Montou  o grupo Zanzibar, que fazia versões instrumentais para canções de Edu Lobo, voltou a ter aulas de canto, realizou uma pós-graduação em Canção Popular pela Universidade Santa Marcelina e começou a escrever poemas com maior liberdade. Após iniciar sessões de psicanálise, Grecco abriu ainda mais os sentidos. “Eu achava que era preciso algum dom para escrever. Quando comecei a psicanálise, li muita coisa e percebi uma outra dimensão da palavra.”

Com a ajuda de Marcelo Segreto, da Filarmônica de Pasárgada, Grecco conseguiu amadurecer suas ideias musicais, dando vida a canções como a própria “Repente da Palavra”, um baião-rock sobre como o homem cria suas realidades e fantasias por meio da comunicação. “Tanto faz, amor”, canção que abre o EP, nasceu de leituras que fez do livro “Amor Líquido”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. “Bonde do Desejo”, que fecha o trabalho, é um funk dançante com influências de Mutantes, Wando e da peça/filme “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams. E, assim como diz essa faixa, o desejo de Grecco é encontrar público para seu trabalho. “Eu quero que gostem de minha música, claro, ser “querido”. Mas, como diz a canção, ‘Quero que você me queira, mas se não quiser, que se há de fazer?’”

“Nós S/A” é uma defesa contundente da cultura

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Roger Marzochi / Fotos Fábio Brazil

Não é fácil representar uma classe social, imagine então, toda uma sociedade. Mas foi bem isso o que conseguiu fazer “Nós S/A”, performance que o grupo de dança contemporânea do Instituto Caleidos, em São Paulo, apresentou entre os dias 10 a 19 de março. Em um momento em que vários grupos artísticos da cidade protestam contra o contingenciamento de 43,5% da verba da Secretaria de Educação de São Paulo, que inviabiliza espetáculos de teatro, dança e música, a diretora Isabel Marques, uma artista-educadora, levou o público a uma reflexão profunda não apenas do absurdo da administração João Dória (PSDB), mas a configuração de toda a sociedade, fundamentada no lucro exacerbado de poucos. “Nós S/A explora, por meio da dança, o universo da apropriação do espaço urbano pela lógica do mundo corporativo”, explica o folheto, entregue logo na entrada do espaço, criado em um antigo galpão na Lapa, zona oeste da capital. “O mundo dos negócios atuando sobre o espaço e sobre os corpos do mundo.”

Sob o início de uma garoa à beira do Outono, o público busca se proteger no pequeno hall, enquanto, do alto da cabine de comando, é liberado uma fumaça no salão de espetáculo. Abre-se uma porta, pela qual sai o poeta Fábio Brazil, responsável pela codireção e dramaturgia da peça, cinco minutos antes do início da apresentação, no sábado (18/03). “De repente, surge alguém e diz que sua vida não vale nada, e a joga no lixo”, diz Brazil. É uma referência ao corte no orçamento para a cultura, justamente em uma peça que foi selecionada, no ano passado, pelo Edital do Programa de Fomento à dança da Prefeitura. “Como fazer um trabalho de pesquisa de linguagens agora? A ideia é restar apenas o entretenimento, e nada mais?”, questiona. “Ah, a peça não é gratuita! Você a pagou quando pagou os seus impostos”, complementa, em tom espirituoso.

Sem tirar os sapatos desta vez, o que é praticamente uma regra nas apresentações da companhia, cerca de 30 pessoas entram no palco, acompanhadas à frente por um dançarino. No centro, há uma mesa de aproximadamente três metros, com umas 50 casas de papelão dobrável sobre a mesa, forrada de inúmeras propagandas de lançamento de apartamentos. Há ainda um pouco de fumaça, e a trilha sonora é a obra Réquiem, de Wolfgang Amadeus Mozart. Vestidos como homens de negócio, num terno estilizado em roupa de dança, com os pés pretos simbolizando sapatos (ou patas), os dançarinos criadores Nigel Anderson, Renata Baima, Kátia Oyama e Ágata Cérgole se posicionam sobre a ampla mesa, iniciando, pelos olhares contundentes, uma coreografia que revela o poder que possuem sobre a vida de todos os que habitam essas casas de papelão, metáfora da cidade. Participaram ainda do espetáculo os colaboradores Jailson Rodriguez, Bruna Milani, Felipe Lwe e Rodrigo Costrov.

À medida que a música avança, casas são derrubadas da mesa, num frenesi constante, em disputas de jogos de dama, tacadas de golfe e sinuca. Quando tudo está limpo, o público é convidado a adquirir um dos imóveis anunciados, que são ornamentados com carrinhos de brinquedo, bonecas e, também, panelas. Uma dançarina incentiva o público a bater panelas de brinquedo o que, com o clima fantasmagórico, vigoroso e poético da música que levou o compositor austríaco a se encontrar com a própria morte, a referência com o panelaço de Dilma Rousseff reforça ainda mais a sua perspectiva sombria. Por quem as panelas ‘dobram’? Não se escuta o mesmo com um governo corrupto como o de Michel Temer.

Nos_SA_-_Caleidos_Cia_de_Danca_Fabio BrazilCom a atuação de outros dois dançarinos, uma mesa de jantar repleta de comida é montada, com o centro preenchido pelo pato da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). ”#Chega de pagar o pato.” Com esse artefato inflável, toda comida é reunida em sua volta, simbolizando a concentração de renda. De homens de negócio, os dançarinos passam por uma profunda metamorfose após o banquete, que os leva a seres monstruosos, doentios, próximos a urubus gigantescos. Ao fim, são confinados em um espaço apertadíssimo, no qual vivem a saudável vida fitness. Entre as ações, muito movimento e controle sobre o corpo. Ao fim do espetáculo, Isabel Marques diz, de cima da cabine de som, que este foi claramente um evento em protesto ao corte do Orçamento de Cultura e em defesa de uma sociedade democrática. A apresentação foi muito além das cercanias de São Paulo, divisando à sua frente o imenso tsunami conservador que ameaça arrasar com todo o planeta.

Democracia sonora - No mesmo sábado, ocorreu o segundo encontro do movimento Música Instrumental Pela Democracia, no Jazz nos Fundos, com a proposta de realizar uma jam session de protesto contra o corte de verbas para a cultura. No mundo do jazz brasileiro, o autoritarismo de João Dória também se faz presente, prejudicando novas pesquisas sonoras. No ano passado, por exemplo, o grupo de jazz À Deriva lançou o CD “O muro rever o rumo”, fruto da associação da banda com o grupo de teatro Les Commedies Tropicales, mais especificamente, da última encenação “Guerra sem batalha ou Agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores neste mundo, apenas vencidos”. O projeto só foi possível devido à ajuda da Lei de Fomento ao Teatro da cidade de São Paulo.

“A prefeitura não está no vermelho, o Fernando Haddad deixou o governo com dinheiro em caixa. Usa-se argumentos burocráticos, os quais não acreditamos, por que isso é um plano maior. As orquestras estão sendo eliminadas em todo lugar, em São Paulo, também teve o fim da Orquestra de São José dos Campos, teve isso em Curitiba, em Belém… Estamos vendo um ataque à cultura não só no Brasil, mas no mundo todo”, afirma Carlos Ezequiel, baterista e professor do Conservatório Souza Lima. Ezequiel conta que, nos Estados Unidos, muitos músicos estrangeiros, que possuem autorização para morar no país, temem sair em turnês com suas bandas sob o risco de serem barrados na volta pelas leis de imigração de Donald Trump.

O músico, um dos criadores do movimento, diz que o objetivo é debater com a sociedade e realizar shows de protesto em outros bares e cidades. Não é possível, na opinião do músico, que se continue a criminalizar mecanismo importantes de financiamento público da cultura, como a Lei Rouanet. “Está na Constituição: a cultura é um dever do Estado”, afirma o músico. O show de sábado foi transmitido ao vivo pela página do movimento no Facebook e, segundo o músico, cerca de 7 mil pessoas acompanharam a apresentação, seguida de uma mesa redonda. “A ideia é não se restringir ao pessoal da música instrumental. Nós queremos estimular as pessoas a saírem da bolha e a criarem argumentos para defender a área em que vivemos e trabalhamos”, diz o músico, que explica que o palco é livre para qualquer músico que deseja se expressar. O movimento, no entanto, não tentará dialogar com o poder público.  “Que expectativa temos do Dória e do Geraldo Alckmin? Não acreditamos em diálogo com esse pessoal. Não é à toa que o Michel Temer, em uma de suas primeiras medidas, foi acabar com o Ministério da Cultura.” Toda expressão cultural já é, necessariamente, uma expressão política, mesmo que se afirme o contrário. Seja na imersão catártica de uma apresentação como a de “Nós S/A”, seja no prazer de uma bossa nova e jazz, a ordem é protestar contra a onda conservadora.

Bruna Milani incendeia estreia da TarabJazz

Zikir Trio

Roger Marzochi / Foto de Pedro Bonatto de Castro

A dançarina Bruna Milani levou ao êxtase a plateia que acompanhou a pré-estreia da banda TarabJazz, na sexta-feira 17 de março, no 38 Social Clube, em São Paulo. A banda do multi-instrumentista Mario Aphonso III, criada para tocar a fusão entre o jazz e a música oriental, fez uma primeira entrada apresentando um repertório dedicado à música do oriente, com composições próprias do instrumentista e do compositor libanês Rabih Abou-Khalil. Nessa primeira apresentação, antes do intervalo, foram 50 minutos de muita música oriental, com melodias sopradas em flautas turcas como nay, caval e a flauta indiana bansuri. Após o intervalo, as 20 pessoas que acompanharam a apresentação, viram entrar a dançarina Bruna Milani, envolta em um véu vermelho.

A segunda parte do show, que durou cerca de uma hora, foi dedicada a apresentar as composições do CD “Jazz Sahara”, gravado em 1958 pelo contrabaixista Ahmed Abdul-Malik, que tocou com nomes como Thelonious Monk, John Coltrane e Art Blakey. Bruna dançou a primeira música do CD, “Ya Annas (Oh People)”. O CD tem quatro músicas, todas gravações folclóricas do Oriente Médio com um arranjo que caminha para o mundo ocidental na medida do sopro do saxofonista Johnny Griffin. “Essas músicas têm mais de 2 mil anos”, disse Ian Nain, que tocou alaúde, e fez uma introdução de tirar o fôlego.

Aphonso III, tocando sax soprano nesta música, além de apresentar o tema muito bem, improvisou de olhos atentos em Bruna, num movimento duplo em que sons e gestos se fundem numa dança profunda. A improvisação, que você pode ouvir no arquivo abaixo, gravado de um celular no dia da apresentação, foi uma das mais incríveis da apresentação, devido à fusão total de som e movimento. A banda ainda é formada por Francisco Lobo, nas percussões orientais, e Vinicius Pereira, no contrabaixo acústico.

Bruna ainda dançou mais duas músicas, entre elas, “Farah ‘Alaiyna”, levando o público a acompanhar a percussão com palmas. Aphonso III tocou músicas usando também sax tenor, flautas transversal e baixo, intercalando as canções com um diálogo educativo com a plateia, não apenas sobre a história de cada instrumento, mas da tradição da música oriental e suas ramificações pala música ocidental.

Contribuiu também para a apresentação o espaço incrível do 38 Social Clube, que é, na verdade uma casa na Vila Romana. A família abriu, há três anos, o bar no primeiro andar da residência. Sidnea Nogueira, a dona da casa, é quem prepara um buffet com uma comida caseira sem igual. No dia 7 de abril, o grupo fará um novo show, agora no Espaç91.

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