Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

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Bandolinista Izaías Bueno de Almeida faz uma reflexão sobre os caminhos do Choro e da música instrumental brasileira e uma crítica ao programa Brasil Toca Choro, da TV Cultura

Roger Marzochi, do entresons; Foto de Pixinguinha e Jacob do Bandolim do Instituto Moreira Salles

Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim.

O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.”

Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão) - Foto Ed Figueiredo

Izaias (esq ) e seu irmão Israel Bueno de Almeida (violão). “Não sou contra o improviso. O Pixinguinha fazia muito isso, o Jacob do Bandolim também. Mas eles improvisavam de forma inteligível. Hoje, o improviso é ininteligível”, afirma Izaías (Foto Ed Figueiredo)

Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia. “Os jovens se esquecem que virtuosismo é saber também interpretar, não é só velocidade”, explica o bandolinista, ao fazer uma avaliação do que tem visto no programa Brasil Toca Choro, da TV Cultura. O músico, que figura entre os agradecimentos especiais do próprio programa, além de entrevistado, e que lutou para levar o gênero de volta para a televisão brasileira, vê com tristeza jovens que estariam exagerando nos improvisos deste que é o mais brasileiro dos estilos musicais. Izaías está na torcida para esse programa continue. A primeira temporada, com 13 episódios, terminará no dia 27 de janeiro de 2019. E o seu sucesso frente ao público pode ajudar que novas temporadas sejam realizadas. Mas Izaías pede para que o choro seja mostrado “da forma como é.” Na adolescência, o bandolinista conhecera pessoalmente Jacob no início da década de 1950, no Rio. Izaías ainda conheceu e viu tocar em rodas de choro o mestre Pixinguinha e ainda fez parte do conjunto de D’Auria.

“Não sou contra o improviso. O Pixinguinha fazia muito isso, o Jacob do Bandolim também. Mas eles improvisavam de forma inteligível. Hoje, o improviso é ininteligível”, afirma. “Eu indago os jovens, por que fazer isso? E eles me explicam que têm família para sustentar. E eles têm razão, o choro não dá dinheiro nenhum. E eles acham que precisam desse pseudo-virtuosismo para impressionar a plateia, que parece gostar mais de circo do que música. E, então, os músicos precisam fazer verdadeiros malabarismos para ganhar dinheiro. A ideia geral que tem o público é que quem toca rápido é um grande músico. É algo que tem acontecido no programa Brasil Toca Choro.”

Em resposta a questionamentos enviados pelo entresons.com.br, o programa afirma que Izaías teve papel importante no projeto “para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram”. “Outros elementos também foram importantes para consolidação dessa perspectiva não segregacionista, como o fato do corpo instrumental e musical do programa ser composto por 130 músicos, todos de diferentes visões, bagagens culturais, credos, idades, gêneros e cores.” Leia a resposta completa do Brasil Toca Choro no fim da matéria.

Izaías avalia que tanto o choro quanto o jazz brasileiro refletem no som hoje o movimento frenético e alucinante imposto à sociedade pela tecnologia e suas redes sociais. A música instrumental brasileira chega ao fim de 2018 com muitas conquistas, como o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino para “Natureza Universal”, do multi-instrumentista Hermeto Pascoal e sua big band. O merecido prêmio vem coroar a trajetória de um dos músicos mais criativos do mundo, capaz não apenas de produzir temas inspiradores, mas de surpreender em suas improvisações de tirar o fôlego. Mas há novos talentos da música instrumental brasileira que nem sempre têm seguido o equilíbrio entre técnica e poesia no que se refere à improvisação. Há músicos capazes de tocar melodias belíssimas, mas preferem a velocidade e gritos desesperados e estridentes em seus solos.

No que se refere ao choro, Izaías tem completa aversão de que o gênero possa passar pela transformação pela qual trilhou o jazz, com suas fusões com o rock, por exemplo. “O início do jazz foi uma beleza, é uma música rica, de raiz. E com o tempo, de certa forma, foi se deteriorando. Inventaram o jazz-rock. E fico meio temeroso que se faça um choro-jazz ou choro-rock dado ao excesso de improviso, principalmente os mais jovens, empolgados, que depois não sabem que música estão tocando.”

Caminho natural - A pianista mineira Luísa Mitre tem 29 anos e não se considera uma improvisadora. Vencedora de concursos como o 18º Prêmio BDMG Instrumental de 2018, I Concurso Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em 2010 e Jovem Instrumentista BDMG Instrumental de 2013, Luísa tem grande respeito por Izaías e todos os mestres do choro. Com seu grupo de choro Toca de Tatu, gravou disco em homenagem a ninguém menos que Radamés Gnatalli, que teve papel importante no resgate do gênero.

“O que vem acontecendo, como toda música, o choro vem se transformando e se misturando com outros gêneros, influências de músicas de outros países”, explica ela, que esteve no início de dezembro na 15ª edição do Festival Chorando Sem Parar, em São Carlos (SP). E o evento homenageou justamente Gnatalli. Nesses shows, a jovem instrumentista conheceu o grupo The Israeli – Choro Ensemble – Chorolê, um grupo israelense que propaga o Choro usando, inclusive, elementos da música do Oriente Médio.

Luísa Mitre Crédito de Leandro Couri

“O que vem acontecendo, como toda música, o choro vem se transformando e se misturando com outros gêneros, influências de músicas de outros países”, explica Luísa Mitre. (Crédito da foto de Leandro Couri)

“Algumas músicas do grupo tinham um choro meio árabe. A ideia é essa. Porque o choro já nasceu de uma mistura: nasceu da maneira que brasileiros e muitos negros tocavam as músicas que vinham da Europa, influenciadas pela música negra. Isso faz parte da história do gênero e continua acontecendo. Eu acho que é um caminho natural”, afirma ela, que se apresentou no evento com o Toca de Tatu e assistiu também shows do próprio Izaías e Seus Chorões, presentes no Chorando Sem Parar.

“Eu não sou improvisadora e a minha música prioriza outras abordagens, é mais arranjada e previamente elaborada. Mas eu aprecio também quem faça esse outro tipo de música, mas são pensamentos diferentes. Não acho legal condenar, não acho que há certo ou errado. E não deixa de ser choro se começar a improvisar. Se tocar como todo mundo sempre tocou a música não evolui, não no sentido de ser melhor, mas de instigar novos músicos”, afirma Luísa, que lançou neste ano “Oferenda”, seu primeiro CD autoral de música instrumental. O trabalho saiu pelo Savassi Festival Records, selo criado pelo Savassi Festival, de Belo Horizonte.

Ganha quem ouve – O multi-instrumentista Carlos Malta, um dos maiores músicos do Brasil, é um apaixonado por choro e pela cultura popular brasileira. Conheceu o saxofonista e clarinetista Abel Ferreira, o multi-instrumentista Copinha, viu e ouviu muitos shows de Izaías. “Sempre gostei desse ambiente por conta da riqueza do Choro, que tem a exuberância que o standard (jazz) não tem.” O músico, que lançou em novembro o disco “O Mar Amor – Canções de Caymmi”, pela DeckDisc, lembra que também os chorões beberam na fonte do jazz. “O fraseado do Pixinguinha passa pelo jazz, tem jazz na música do Jacob, eles ouviam isso. Todos esses caras ouviram o jazz dos anos 40 e 50, era o que tocava no rádio”, explica.

E Malta tem opinião próxima a de Izaías no que se refere à importância da interpretação no improviso. Mas acredita que quem ganha nessa discussão sempre será o ouvinte. Ele entende que existe o músico que toque para querer provar ser bom, outros buscam provar quão boa é a música. E que a ideia da música como “circo” não é de todo abominável. O picadeiro é sempre usado como referência pela velha guarda. No Brasil Toca Choro exibido no domingo, 16 de dezembro, dedicado ao cavaquinho, a instrumentista Luciana Rabello chegou a expressar seu carinho pelo cavaquinista Jonas Pereira da Silva, explicando que seus solos eram românticos e com uma expressividade que não era circense.

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“A essência do ato de improvisar é você transgredir e recriar, como se fosse uma mandala. Você passa a vida montando e você apaga e faz tudo de novo. A improvisação não é a contemplação da mandala, é a desconstrução e reconstrução, que será feita sempre de uma outra forma”, explica o multi-instrumentista Carlos Malta.

“O grande barato da música é tocar e se divertir, ver as pessoas se divertindo. Mas o divertir se passa longe da coisa do circo, mas a gente deveria lembrar da essência do circo para o nosso espetáculo também”, explica Carlos Malta. “Não é fazer palhaçada. Há um drama e uma beleza estética e desafiadora. O músico tem certo preconceito com relação à cena musical. Não precisa ter cenário e figurino, mas uma luz legal, mais uma comunicação dos músicos para a plateia, porque às vezes a música instrumental fica ensimesmada. O nosso objetivo como artista é levar arte para dentro do coração da pessoa. Nesse ponto o cara que usa o remédio improvisação, ele não pode abusar.”

Malta compara a improvisação como uma estrada: harmonia e melodia são com paisagens e curvas pelas quais o músico atravessa na direção de seu caminho. Pode ser belo até mesmo quem deseja andar até na contramão. Mas, para ele, o grande problema na improvisação é quando o músico estuda em casa passagens musicais que serão usadas como cartas na manga na hora do improviso, quando se tenta domar a energia criativa do agora.

“A essência do ato de improvisar é você transgredir e recriar, como se fosse uma mandala. Você passa a vida montando e você apaga e faz tudo de novo. A improvisação não é a contemplação da mandala, é a desconstrução e reconstrução, que será feita sempre de uma outra forma”, explica o músico, que tocou 12 anos com Hermeto Pascoal. “Tudo tem que passar por uma coisa chamada bom gosto, para saber dosar sua capacidade de conhecimento e intuição, para que a improvisação seja agradável, seja uma forma de se comunicar com a plateia e com seus amigos músicos. Você percebe isso quando tocam da forma mais simples… não é pouca nota, mas tocar o essencial. Mas isso passa pela intuição, comunicação entre os músicos e passa essa coisa de jogar a energia momentânea com sabedoria, porque pode ficar muito chato. É chato ficar numa mesa com cirurgião plástico e ele só falar de cirurgia. Não é tocar menos, mas tocar melhor. E o melhor é o de cada um.”

 

RESPOSTA DO BRASIL TOCA CHORO ÀS CRITICAS DE IZAÍAS BUENO DE ALMEIDA

“Sobre o Brasil Toca Choro, a escolha de repertório e artistas e a arte do improviso

Inicialmente, é importante ressaltar que o choro foi e é influenciado por diversas sonoridades: tem um parentesco com o ragtime, com o início do jazz, com a música europeia misturada com a africana e explora, ainda, de guitarras portuguesas a violões espanhóis. É natural, portanto, que um gênero matriz como esse, com 140 anos de história e tantas facetas, seja transformado com o aprimoramento da técnica dos artistas e possua diferentes tipos de vertentes e formas de interpretação. O choro não é só um, são vários, e vai de Villa-Lobos até Hamilton de Holanda, de Callado até Armandinho, de Nazareth a Hercules. O choro é tradição e contemporaneidade. Como exemplo concreto dessa síntese, o próprio Pixinguinha, em seu último disco, lançado em 1970, usa uma guitarra distorcida de rock e ritmos afro de terreiro na faixa Urubu.

Haja vista todo esse contexto, o Brasil Toca Choro foi idealizado para demonstrar as diversas formas de tocar e de compor o choro, incluindo as tradições e as modificações que o gênero teve desde a sua criação. Pensando nisso, a seleção do repertório foi feita pela produção do programa em conjunto com vários músicos, no sentido de homenagear os grandes compositores e de ampliar o entendimento do choro – sem privilegiar visões ou vertentes, nem limitá-lo. Izaias Bueno de Almeida, um dos maiores mestres dentro da linguagem tradicional, foi essencial para imprimir essa pluralidade ao programa, contribuindo com sua vasta experiência e riquíssima perspectiva para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram.

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Maurício Carrilho (esq.) e Izaías do Bandolim no programa Brasil Toca Choro: “Izaias Bueno de Almeida, um dos maiores mestres dentro da linguagem tradicional, foi essencial para imprimir essa pluralidade ao programa, contribuindo com sua vasta experiência e riquíssima perspectiva para a escolha de parte do repertório e dos artistas que o executaram” (Crédito da Foto de Nadja Kouchi/TV Cultura)

Outros elementos também foram importantes para consolidação dessa perspectiva não segregacionista, como o fato do corpo instrumental e musical do programa ser composto por 130 músicos, todos de diferentes visões, bagagens culturais, credos, idades, gêneros e cores. Optamos sempre por transparecer essa multiplicidade por meio das interpretações e, principalmente, dos improvisos. Isso porque a forma dos artistas improvisarem é resultado do sentimento e intenção no momento da gravação. É decorrência de como eles receberam aquelas canções e de que forma eles preferiram transmiti-las ao mundo. É honesto. E, como mestres em seus instrumentos, todos os músicos convidados expressam máximo virtuosismo em suas interpretações.

Além de valorizar a sinceridade, técnica e talento do intérprete, é significativo lembrar que improvisos de diferentes formas fazem parte da tradição e contemporaneidade do choro. Mais do que isso, fazem parte de um processo histórico que engloba esse e outros gêneros que se perpetuam entre gerações e gerações. É sobre se aperfeiçoar e, ainda assim, ser um dos raros casos que conseguem manter suas características essenciais.

Pensado para apresentar as diferentes facetas do choro em sua totalidade de episódios, o Brasil Toca Choro apresenta ainda múltiplas visões e correntes até 27 de janeiro, data em que o último dos 13 episódios inéditos vai ao ar. O programa, que estreou no dia 4 de novembro, exibe neste domingo (16/12) sua sétima edição, intitulada Cavaquinho. Nela, Izaías Bueno de Almeida e Maurício Carrilho contam histórias curiosas que passam pelo som solo de “banheiro” de Waldir Azevedo; pelo professor de cavaquinho Galdino Barreto, o primeiro compositor de choro que se tem notícia; por Nelson Alves, que tocou no grupo de Chiquinha Gonzaga; e por Paulinho da Viola, que tem um trabalho importante no choro. De parte dessa turma conceituada, saem composições que são tocadas por nomes como Henrique Cazes, Armandinho e Messias Brito.

 

Brasil Toca Choro”

“Ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação”

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Kastrup lança “Ponto de Mutação”, sons de um disco-conceito que carregam a esperança que um dia haja uma mudança positiva e profunda na sociedade

Roger Marzochi, do entresons; crédito das fotos de Gal Oppido

Pode parecer contraditório se pensar em esperança em tempos como agora, com a ascensão da extrema direita, que nas pesquisas eleitorais tem vantagem na disputa pela Presidência da República. E, mesmo se Fernando Haddad ganhar, terá pela frente um País fraturado, tendo que negociar com extremistas e as fake news que os alimentam. Mas o percussionista e produtor musical Kastrup mantém viva essa capacidade de sonhar, desejo esse que se transformou em som.

O músico, com a participação de vários artistas, está lançando neste mês “Ponto de Mutação”, um álbum-conceito que desenha no ar uma trilha sonora da transição de uma sociedade capitalista, ancorada numa visão cartesiana de mundo, para um sistema mais igualitário, no qual atributos considerados como arquétipos femininos como intuição, solidariedade e afeto serão “mola propulsora dessa virada de era”.

Para o músico, as sementes dessa nova era já estão germinando, mas não será agora que darão frutos. “… ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar”, afirma Kastrup.

Esse conceito artístico nasceu em Kastrup em 2016, momento no qual o ruidoso som de panelas terminou na orquestra de impeachment de Dilma Rousseff. Enquanto iniciava a produção do disco nessa época, que está disponível apenas no meio digital, o percussionista leu “O Ponto de Mutação”, livro do físico e ambientalista Fritjof Capra, do início dos anos 1980.

O livro, que virou filme (Mindwalk, EUA, 1990), “descreve os tempos em que vivemos como o final de um ciclo e início de outro, onde esse período, regido por paradigmas masculinos (YANG) como a competição e a agressividade, seria então substituído por uma nova era, de égide feminina (YIN), de mais solidariedade, cuidado e afeto – ‘onde a nova civilização compreenderá finalmente que somos todos sistemas interligados’.”

Carioca, formado em percussão pela Faculdade de Música da Estácio de Sá, Kastrup foi “reconhecido recentemente pela criação e direção do premiado ‘A Mulher do Fim do Mundo’ (2015), de Elza Soares (Grammy Latino, APC, Prêmio da Música Brasileira, Prêmio Dinamite) – bem como a produção musical do novo disco da cantora ‘Deus é Mulher’ (2018) e a direção musical do show dos dois trabalhos”.

Em “Ponto de Mutação”, o músico contou com a participação de Elza Soares, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Coelho, Ricardo Prado, Estevan Sincovitz, Marcelo Monteiro, Ná Ozzetti, Alessandra Leão, Lenna Bahule, Bixiga 70, Ricardo Herz, Arícia Mess, Alexandre Ribeiro, Swami Jr e Henrique Albino entre outros.

O trabalho começa com a música “Reaction”, com samples de voz de Noam Chomsky e Malcolm X retirados do filme “Requiem For The American Dream”, cedidos pela PFPictures. Essa primeira música seria como um retrato da sociedade atual. Ao longo das faixas, o som também se altera, com a abertura de novas sensibilidades e possibilidades. Abaixo, segue uma entrevista feita com o artista por e-mail. O show de lançamento foi realizado na quarta-feira, dia 17 de outubro, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Versão 2 – Versão 3Você achou uma esperança ao ler “Ponto de Mutação”, um livro da década de 1980, quando buscava respostas para a crise política de 2016, que levou aos panelaços e ao impeachment de Dilma Rousseff. Hoje, com a ascensão de uma extrema direita violenta nas eleições brasileiras, sua esperança continua a mesma?

Sim. Totalmente. Acho que a questão toda que o Capra trata no livro “O Ponto de Mutação” permanece absolutamente atual. Segundo as palavras do I Ching referenciadas no livro,  “ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida, ressurge”. São os ciclos naturais, descritos pelo Tao. Acredito que o declínio do sistema capitalista que ele prevê ainda está em curso, e infelizmente, ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar.

Tanto em “O Ponto de Mutação” quanto no livro “Nada Brahma”, de Joachim Berendt, há essa defesa da necessidade de a humanidade ser mais Yin (feminina) do que Yang (masculina). A audição, inclusive, Berendt explica ser uma característica feminina e mais importante que a visão, que seria um sentido masculino. Em seu novo disco, é possível perceber essa transição na evolução das músicas, há esperança. O movimento #Elenão é prova da força feminina, embora muita gente aprove o discurso de Jair Bolsonaro. Como fazer essa transição da arte para a vida? Quanto de sua música você deseja que se faça a nossa vida?

A arte é reflexo direto da vida. Eu não teria feito esse álbum, dessa forma, se as circunstâncias fossem outras. Ele foi uma consequência direta do meu sentimento de angústia na época, e depois de esperança, ao ir lendo o livro e ganhando novas perspectivas. O golpe no Brasil me fez sair de uma zona de conforto em que me encontrava, e acordar para uma realidade internacional muito mais ampla. E não fui só eu. Muita gente passou a ter mais contato com a realidade desse sistema opressor, e passou a contestar e repensar padrões e comportamentos, e isso em si já é um movimento. Não é só o Brasil que está doente e sofrendo com a opressão dos “senhores do capital”, esse é um movimento global dos 1% mais ricos, querendo sugar e explorar mais de todos os povos. São as grandes corporações quem detêm esse poder e não mais os Estados. E elas são multinacionais e “querem tudo para elas, e nada para os outros”. E esse é um sistema construído basicamente sob paradigmas masculinos, da competição, do individualismo, da meritocracia e da guerra. Erguido pela classe dominante do homem-branco-hetero sob uma visão cartesiana de mundo. Mas esse sistema está se esgotando. Não é mais sustentável! Em bem pouco tempo, todos os recursos do meio ambiente que nos sustenta vão se esgotar, e não será mais possível esse grupo, dos 1% dominantes, oprimir e explorar dessa forma os 99% restantes. Como você disse, é o ciclo YANG se esgotando, abrindo espaço para um novo ciclo, YIN. E essa não é uma teoria do Capra ou do Berendt, e sim um conhecimento milenar oriental muito mais antigo, que tem sido constantemente relegado no Ocidente, mas que cada vez mais mostra sua força e sabedoria. Acredito que a força do feminino, e não apenas das mulheres, mas dos arquétipos femininos como a intuição, a solidariedade e o afeto é que vão ser a mola propulsora dessa virada de era, para que aprendamos a usar toda essa tecnologia criada, prá nos cuidar enquanto espécie, com a compreensão de que somos um só e estamos todos intrinsecamente interligados. E esse movimento já começou.

O avanço das fake news no Brasil tem sido assustador nestas eleições. E me parece uma atuação completamente terrorista de desestabilização do sistema por completo. Mas é também um sintoma do quanto o público deixou de acreditar na mídia, na Justiça, no Estado e nos políticos em geral. Como você avalia esse fenômeno? Ele faz parte da “Transmutação” ou mais da “Mídia Deshipinoise”, para citar duas músicas do disco-coletivo Ponto de Mutação?

O sistema inteiro e suas instituições, da forma como acreditávamos, está em colapso.  É o colapso total do ideal capitalista! Noam Chomsky (que eu sampliei em Reaction) descreve isso perfeitamente em seu filme “Requiem Para o Sonho Americano”, mas que serve para todos nós. É realmente impressionante como exatamente na época em que teríamos acesso a todas as notícias, e parecia que iríamos nos livrar da condução tendenciosa da grande mídia. A internet abriu a possibilidade de termos acesso a notícias sem passar pelo filtro da grande mídia, mas as fake news criaram uma cortina de fumaça que agora ninguém mais sabe em que acreditar.

As duas faixas têm sentido complementares nesse aspecto; “Transmutação” sugere que precisamos de uma reformulação profunda em nossos paradigmas, atitudes e hábitos. Para darmos a volta por cima, não vai ser por um sistema eleitoral, completamente comprometido com o sistema financeiro, e sim por uma mudança de hábitos e valores que pare de alimentar os monstros que nos oprimem, e nesse caos estou me referindo especificamente as grandes corporações. E “Midia Deshipinoise” sugere que, para isso, vamos precisar nos des-hipinotizar das mídias todas que nos escravizam e conduzem o pensamento para que permaneçamos enjaulados a esse sistema, com ideais de felicidade ligados ao consumo, ao sucesso pessoal e individual, e a um conjunto de valores absolutamente desnecessários de fato. Vai ser preciso reformularmos tudo isso. Lermos mais, conversarmos mais, nos amarmos mais, e trabalhar prá viver bem em uma sociedade mais igualitária e mais justa.

Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Dani Gurgel

Multi-instrumentista lança seu segundo disco autoral 11 anos após “Nosso”; mas desde 2012 participou de sete discos como integrante do grupo DDG4

Roger Marzochi, do entresons

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro.

Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Debora Gurgel, mãe e parceira musical de Dani, já teria ouvido coisas parecidas pelos bares da vida. “E a Ingrid defende a posição da mulher, de ser mulher e músico de jazz, que tem que sempre se afirmar o tempo todo. A letra é sobre isso. É uma ave que não precisa de nada disso para sair voando, que é como eu ouço o trompete dela.” Dani avalia que não é o caso de se criar cotas para mulheres em orquestras ou big bands. “É preciso valorizar e colocar os dois como iguais. A música não deve ser selecionada com base em ter sido feita por alguém assim ou assado, mas a música pela música.”

Ao dar uma letra a esse canto de pássaro, Dani também passa essa sensação mágica que esses animais têm em muitas culturas. Os habitantes de Papua Nova Guiné acreditam que os pássaros são espíritos de pessoas desencarnadas, seus cantos as vozes dessas pessoas. Toda cosmologia desse povo se relacionada com os pássaros, incluindo a forma de tocar os tambores usados em rituais, imitando o canto do pássaro tibodai. “Assim nós temos a noção que os sons dos pássaros não são apenas indicadores naturais da fauna de Bosavi; mas são igualmente considerados como comunicação entre os mortos e destes com os vivos. O som dos pássaros e suas categorias são poderosos mediadores; eles ligam padrões sonoros com ethos sociais e emoções”, diz o etnomusicólogo americano Steven Feld, em “Sound as a symbolic system: the Kaluli drum”, de 1986.

TUQTIPerspectivas - Dani sempre compôs pensando sobre a sua realidade. Em “Whispers”, música com letra em inglês em parceria com o baixista e compositor Frederico Heliodoro, Dani reflete sobre as fake news, com a crescente polarização de ideias e a tendência de julgar as pessoas por cima, sem se buscar entender suas razões. E, mais um exemplo do disco, “Cade Rita?”. O título desta música, em homenagem à filha de dois anos, traz a onomatopeia que dá nome ao CD: TUQTI, uma forma de trazer no som de sua voz a representação da uma célula percussiva do samba. A música, feita em parceria com o violonista Gabriel Santiago, tem a participação do vibrafone do americano Joe Locke.

Com essa forma de cantar, Dani encantou a mídia especializada em todo o mundo. “Sílabas fantásticas”, segundo o jornal alemão Badische Zeitung; “aventuras vocais em scat” pela revista especializada alemã Jazzthetik; “fascinante como manipula livremente a precisão da extensão de sua voz”, por Republik (Japão); “Seu scat soa Brasileiro. Seus intervalos, ataques e articulações soam como Jazz”, segundo Mauro Apicella, do jornal argentino La Nación; “Dani Gurgel representa uma nova geração musical, ao mesmo tempo tradicional e inesperada”, Libération (França).

“Cadê Rita?” também representa as novas perspectivas que se abriram na vida da musicista com a maternidade. “É uma coisa que muda nossas perspectivas”, diz ela, sobre ser mãe. “A sua prioridade totalmente muda, para ser prioridade de criar uma pessoa e que o mundo precisa de pessoas melhores. E temos responsabilidade grande para essa geração ser muito melhor que a gente. Quando muda essas prioridades o normal seria pensar que outras coisas ficaram em segundo plano, mas na verdade não. Quando uma coisa faz sentido junto com a outra, elas não vão competir por espaço, mas vão conviver.”

O trabalho reúne um total de 11 músicas, com a participação de novos compositores brasileiros. A produção musical ficou com o baterista Thiago Rabello, com uma banda formada por Gabriel Santiago (violão), Conrado Goys (guitarra) e Frederico Heliodoro (baixo). Daniel Santiago substitui Gabriel nos shows no Brasil. O CD atual é muito mais jazzístico que “Nosso”, de 2007, que foi um trabalho primoroso em letras inspiradas e inesquecíveis. Desde 2012, gravou sete discos com o DDG4, ganhando fãs até no Japão. Dani, que também é fotógrafa, construiu sua carreira no diálogo constante com novos compositores e novos ares, dando amplas asas à onomatopeia, sem deixar de cantar letras de profundidade.

Fôlego de Cachalote

Iuri Nicolsky

Um dos criadores do Nova Lapa Jazz, Iuri Nicolsky integra A Cachalote, banda instrumental do Rio de Janeiro que prepara seu primeiro CD autoral

Roger Marzochi, do entresons

A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

A banda era formada por Eduardo Santana (trompete), Gabriel Balleste (guitarra) e Pablo Arruda (baixo) e Antônio Neves (bateria). Entre as novas perspectivas, surgiram projetos como Eletrotupiniquim e convites para realizar shows em eventos fechados. “O Rio tem essa onda de pessoas que se juntam. Foi um pouco o que aconteceu com o Nova Lapa, foi uma jogada de sorte, coincidência, uma conjuntura que gerou repercussão tão grande que abriu caminho para outras bandas de rua. Há artistas de rua que até hoje me buscam para agradecer, me trouxe frutos financeiros e emocionais. Foi um projeto muito importante e que me orgulho muito, foi um estopim da febre dos músicos de rua.”

A Cachalote é formada pelo baixista Alexandre Seabra, pelo baterista Thiago Dagotta e, até recentemente, era integrada pelo pianista Pedro Cabral, que teve que deixar o trio por motivos pessoais, mas começou as gravações das composições. Em breve, com um novo pianista, a banda deverá seguir para o estúdio. Iuri explica que o trio faz música instrumental com influências da música eletrônica e do hip-hop, a exemplo de bandas como a canadense Bad Bad Not Good (BBNG).

Cinco músicas compostas pelos integrantes, canções já antigas, mas inéditas em discos, foram adaptadas para essa estética, enquanto outras dez foram feitas coletivamente. Em shows recentes, a banda faz novos arranjos para músicas consagradas convidando uma cantora para interpretá-las. Uma das convidadas foi a atriz e cantora Nanda Onanda. Em redes sociais, é possível experimentar um pouco desses doces encantos (@a.cachalote no Instagram). Mas, por enquanto, A Cachalote está em seu fôlego abissal à espera de um novo salto.

Nova Lapa Jazz com Elza Soares Teatro Rival Petrobras Foto Divulgação

Nova Lapa Jazz em apresentação com Elza Soares no Teatro Rival Petrobras ; banda reunia milhares de pessoas na rua da Lapa para ouvir música instrumental.

“Entreter o público é parte importante do trabalho”, afirma Iuri, explicando a ideia de se fazer uma música mais dançante. “Não dá para tocar Miles Davis e John Coltrane para o resto da vida, por melhores que sejam.” As aspas ainda não se fecham, pois essa não é uma crítica feroz do músico a quem decide viver nessa trilha. “Os meus heróis vivem bem disso hoje, é possível agradar ao público também assim. Tem gente com apego a estilos instrumentais. Mas a nossa intenção é atingir pessoas que não têm tanto contato com jazz, que inicialmente não estavam abertas a ouvir um trabalho instrumental, de forma que se possa improvisar e se divertir enquanto toca, mas não ficar encerrado entre os músicos e expectadores da música instrumental tradicional.”

Iuri começou sua vida na música muito cedo. Aos cinco anos, ele iniciou os estudos com o violino, com um professor cuja rigidez o fez parar com a música um ano depois. Mas fazia som em casa com panelas, percutia Beethoven no xilofone de brinquedo, mas estava decidido a não estudar mais violino. Ganhou um violão e estudou o instrumento dos seis anos aos 12. Envolveu-se com música clássica, com aulas com Bartolomeu Wiesse, professor de violão da UFRJ. Na adolescência, com muito rock e reggae nos ouvidos, foi experimentando outros instrumentos, como a sanfona, gaita e guitarra. Aos 17 anos, começou a ouvir jazz e conseguiu emprestado um saxofone rachado. “Tocava dentro do armário, até aprender o básico”, lembra.

Juntou um trocado, comprou um instrumento mediano, e começou a ter aulas com o flautista Eduardo Neves. E chegou a fazer algumas aulas avulsas com os saxofonistas Nivaldo Ornelas e Idriss Boudrioua. Enquanto isso, Iuri trabalhava como técnico de gravação das peças de teatro, conseguindo recursos extras para sobreviver. Entrou para a Uni-Rio e levou música até mesmo para o meio da feira livre na rua, entre tomates e alfaces. Não à toa, foi a rua que lhe deu projeção.

Novelos de história

Ovelhas na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

Tradição oral no campo se mantém para que trabalhadores lidem com suas próprias emoções; nas cidades, Receita Federal tem projeto de preservação da memória

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto de Andrea Madruga

Você já contou carneirinhos para conseguir dormir? Pois saiba que o trato desses animais inspira muito mais que o sono dos noctívagos. Em Piratini, no interior do Rio Grande do Sul, homens que retiram lãs de ovelhas sem o uso de máquinas, da forma mais tradicional possível, contam entre si histórias de assombrações das centenárias fazendas da região. Em Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, coletores de café também trabalham contando causos. É uma demonstração que vive forte a tradição oral apesar dos avanços da tecnologia.

O trabalho é mais que um meio de se obter recursos financeiros para sobreviver. É, também, um ambiente de socialização que reforça vínculos afetivos e sociais. Resistem até hoje histórias que são contadas no ambiente de trabalho que servem tanto para reforçar tradições, cultivar a memória e relatar experiências de vida. Além de histórias da tradição oral, o trabalho também motiva a memória. A Receita Federal possuiu um projeto chamado “Histórias de Trabalho”, que registra em livros a experiência vivida por servidores no dia a dia de seus escritórios.

Primeiro, vamos ao campo. Os causos de assombração rondam a Fazenda Santa Izabel, em Piratini, propriedade de Andrea Madruga, artesã que há dez anos criou o Fio Farroupilha, ateliê de roupas de lã. Suas mantas, ponchos e outras vestimentas, que traduzem a cultura dos pampas e andina, chegaram aos centros de grandes cidades e conquistaram clientes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e a até nove países.

O desejo do consumidor das grandes metrópoles de estar próximo a produtos que refletem as paisagens bucólicas do campo explica parte desse sucesso, mais vai muito além do designer: a preocupação com a sustentabilidade. O ateliê usa forno a lenha, com madeiras caídas naturalmente no chão, e as tinturas são feitas a partir de raízes e ervas da fazenda Santa Isabel.

A busca por sustentabilidade é seguida, também, pela preservação cultural da retirada de lã das ovelhas, conhecida como “esquila”. Apesar do avanço cada vez maior da tecnologia no campo, Andrea defende costumes antigos que contribuem para valorizar o seu produto final. “É quase uma unanimidade entre os técnicos o uso da esquila Tally-Hi (com uso de máquinas)”, explica Andrea. “Nós ainda utilizamos a esquila à martelo (com uso de tesoura). Nós temos alguns objetivos na criação e no ateliê, que é o de manter o mais tradicional possível, com a menor intervenção química no ateliê e de máquinas na fazenda.”

Esquilador na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

Senhor Nair retira lã de ovelha na Fazenda Santa Izabel, em Piratini, no Rio Grande do Sul, um processo que segue até hoje a tradição de contação de histórias durante o trabalho e alimentação com pratos típicos. (Crédito da foto de Andrea Madruga)

Para ela, a mecanização dessa importante parte do processamento da lã prejudicaria a cultura dos esquiladores. “Se nós levarmos o Tally-Hai para lá, vamos eliminar a cultura dos esquiladores. A cultura dos causos no galpão, das conversas e do barulho das tesouras. Isso tudo faz parte de uma cultura de muitos anos, são séculos de cultura. E queremos preservar isso enquanto estivermos por aqui.”

Durante o processo de esquila, além dos causos contados, muitas vezes de assombração envolvendo fazendas centenárias da região, os esquiladores se alimentam de pratos típicos, como o pastel de carne de ovelha e o arroz carreteiro. “Se inserirmos uma máquina no meio desse romantismo todo, dessas risadas todas e dos causos até de assombração que eles contam, nós vamos transformar a esquila extremamente rápida e totalmente sem graça.”

Reagindo à vida – O filólogo Waldemar Ferreira Netto, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP), já teve a oportunidade de acompanhar as histórias contadas por coletores de café, em Águas de Santa Bárbara, no oeste de São Paulo. O especialista em tradição oral e cultura indígena estava na região e ouviu, por acaso, os causos que eram contados por esses trabalhadores. Essa prática não se transformou em uma pesquisa científica, mas pode colaborar com a compreensão de quão importante é a tradição oral.

“Apesar de a oralidade ter ficado marginalizada em tempos de internet, nos textos online, ela permanece viva. Especialmente em alguns ambientes onde a informação só pode ser transmitida oralmente”, diz Ferreira Netto.

O estudioso lembra que a oralidade tem sua grande força vinculada à forma como educamos as crianças. A narrativa é a maneira mais convincente de mostrar como o mundo funciona. “A criança sente e vive as personagens e as relações e, consequentemente, entende como se comportar no mundo, quando ficar triste, ou como sentir o mundo. Todas essas informações são passadas por histórias contadas oralmente.”

No caso dos esquiladores de Piratini ou, mais precisamente, dos coletores de café de Águas de Santa Bárbara, Ferreira Neto acredita que muitas das histórias têm o intuito de preparar as pessoas sobre coisas que podem vir a acontecer na realidade. “É um processo fantástico de manutenção de comportamentos e questões emocionais, voltada mais para a pessoa saber a conviver com as suas próprias emoções do que replicar comportamentos padronizados. Essas histórias não ensinam como se comportar na sociedade, mas como se deve reagir à vida.” Ele cita, por exemplo, histórias que são narradas para preparar o sujeito para receber a notícia da morte de um amigo ou familiar, por exemplo.

Anjo da lápide – Mas não é apenas em ambientes rurais que a memória é cultivada. A Receita Federal do Brasil promove, há oito anos, o concurso “Histórias de Trabalho”, no qual os servidores contam não apenas suas experiências de vida dentro da instituição, mas até mesmo histórias importantes sobre a constituição de alfandegas.

As histórias de atendimento a casos curiosos são saborosas, como a contada pelo servidor Edson Fernandes da Cunha, de Goiânia, no conto “O anjo da lápide“, publicado em 2010. Ele atendeu um pedreiro que queria regularizar as terras que havia adquirido de uma senhora, morta na década de 1970 aos 87 anos, que não deixou para trás nenhum bendito documento. Era preciso, no entanto, a data de nascimento da vendedora e o CPF para emitir uma certidão negativa. Como não foi possível encontrar o documento em cartórios, o pedreiro arrancou a lápide do cemitério como prova.

O senhor simplesmente levou a placa de mármore negro para dentro da unidade da Receita Federal, em Goiânia. Alertado que isso era crime, o pedreiro voltou para devolver a lápide, mas foi preso em flagrante por profanar uma sepultura. Na delegacia, o cidadão explicou do que se tratava e, inclusive, pediu para que o delegado ligasse para o funcionário da Receita para confirmar a narrativa.

Ao confirmar a história do pedreiro, Fernandes da Cunha achou uma forma de resolver o impasse: pediu para que se incluísse no Boletim de Ocorrência a data de nascimento da falecida, para que assim pudesse resolver o problema da falta de documentação de uma vez por todas. E, como o relato do pedreiro foi fiel, o delegado encerrou o caso. Histórias como essas são publicadas em livros há oito anos e podem ser lidas no site da Receita Federal. Neste ano, os servidores podem escrever prosa e poesias no projeto com inscrições até o dia 28 de setembro.

Dissipando dificuldades - Há histórias que são contadas por líderes no ambiente de trabalho que transcendem as obtusas dimensões da economia. Em 1996, eu trabalhava em um jornal de Americana, no interior de São Paulo, liderado pelo jornalista Paulo San Martin. Toda quinta-feira, ele contava a história de Mushkil Gushá, o dissipador de todas as dificuldades. A história, pertencente à tradição oral iraniana, tem relação com o sulfismo, uma corrente mística do Islã.

Sua voz rouca, a eloquência do alto de uma experiência jornalística admirável, ecoava a trajetória do pobre lenhador que foi ajudado por uma divindade de uma maneira que me hipnotizava. Houve um tempo, anos após meu primeiro contato com essa narrativa, em que tive somente essa história para alimentar a fé e buscar sentido. O novelo de histórias, assim, desata-se em forma de tecidos que cobrem a nossa vida. É a história, seja na tradição oral ou na escrita, que torna rica a nossa existência.

 

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