Sem fronteiras

Mariano Telles Créditos - Patrick Rigon

Violonista gaúcho transita entre o erudito e o popular em disco de estreia, dedicado aos professores que o ajudaram na música

Roger Marzochi, do entresons; crédito da foto Patrick Rigon

Mariano Telles tem 29 anos, mora hoje em Porto Alegre e, ano passado, lançou “Ária Metropolitana”. Neste seu primeiro CD autoral, o violonista faz uma viagem musical misturando música erudita, a música popular brasileira e a música regional do Sul, deixando escapar, sem querer, influências de dois Gonzagas: Chiquinha e Luiz. Sobrevivendo hoje como professor de violão, Telles tem a expectativa de realizar ainda mais dois shows do seu trabalho na capital gaúcha até junho. Mas vem batalhando mesmo para conseguir espaço nos Estados de Minas Gerais e São Paulo.

Em oito faixas, o violonista prova que tem capacidade para conquistar um público maior, especialmente à medida em que deixa a criatividade voar mais alto que a técnica. Em quatro música, há participações especialíssimas das cantoras líricas Clarisse Diefenthäler (mezzo soprano) e Cynthia Barcelos (soprano). “Tudo que faço está bem na zona de fronteira (entre o erudito e o popular). Eu tenho interesse em estar antenado na música moderna, música erudita e pop, mas tenho lado mais tradicional. Como cresci na zona rural, eu me descobri em Porto Alegre um bicho urbano”, diz ele, que viveu até a adolescência em Taquara, região metropolitana de Porto Alegre.

O trabalho ainda tem a participação de Bruno Vargas (baixo), Bruno Coelho (percussão) e Carlos Ferreira (sintetizadores, vibrafone e guitarras e sampling). Apesar de afirmar com toda energia que ele evita influências, a música “Seu Sebastião” tem uma pegada de “Corta Jaca”, de Chiquinha Gonzaga; e “Vanera para bailar solito” tem uma melodia muitíssimo próxima de “Que nem jiló”, de Luiz Gonzaga. “São influencias que vem de forma indireta, são compositores que já toquei em grupos de choro, já toquei muitas de Chiquinha Gonzaga, do Luiz Gonzaga. Mas eu tenho tendência de querer mais de fugir das influências.”

Apesar da necessidade de se afirmar autêntico, essa sua posição só não se torna falta de humildade à medida que agradece seu estágio atual na música a três professores de violão. A arte entrou na vida de Telles por meio da pintura. Ele conseguia não apenas reproduzir seus principais personagens dos quadrinhos e desenhos animados, mas também criava os seus próprios. “Sempre desenhei muito desde criança, ligado a parte criativa de inventar. O processo criativo do compositor é muito parecido com o de desenhista. Processo de analisar, absorver, roubar prá si os elementos e criar.”

Capa Aria Metropolitana externo

Primeiro CD autoral de Mariano Telles, “Ária Metropolitana” conseguiu ser produzido, gravado e distribuído com ajuda de financiamento coletivo

De presente de Natal, ganhou da mãe um violão, que começou a estudar por conta própria. Na adolescência, entrou para bandas de rock da escola. E por indicação do guitarrista, começou a ter aulas de violão clássico com o professor Álvaro Vicente, em Taquara. Aprendeu os fundamentos e ainda muita MPB e jazz. Aos 17 anos, Telles já tocava em bares e sobreviva dando aulas de violão. “Foi o cara que me transformou em músico.” Após três anos com Vicente, Telles começou a estudar com Daniel Sá, músico que toca com Renato Borgetti, a quem o avô de Telles muito admirava. “E foi algo transformador, ele era um ídolo. São poucas as pessoas que podem ter um ídolo como mestre, tendo contato toda semana, te dando o caminho. O Daniel Sá me transformou em violonista. O Álvaro foi quem fez me músico. E o Sá apurou a minha parte técnica. Ele ajudou a lapidar a técnica e tomei gosto muito grande pelo violão solo, comecei escutar muito violão brasileiro.”

Dois anos depois, Telles ingressou no curso de música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde encontrou outro nome importante em sua carreira: Paulo Inda, outro conceituado violonista gaúcho. “Ele me transformou em interprete, de me fazer mais que tocar a música, de buscar interpretá-la.” A imersão na música clássica foi uma experiência maravilhosa para Teles, mas o desafiava. “Eu tinha dificuldade em compor peças para violão, parecia que não estava à altura para isso. Perto de Vila Lobos você se sente pequeno. Demorou para pegar confiança e escrever.”

Em 2014, o jovem violonista começou a se sentir mais confiante e compôs “Ária Metropolitana”, mas com arranjo para o Trio Metropolitan, para violino, violão e sanfona. Com o tempo, conseguiu criar um amálgama de sua experiência na área erudita, mudou o arranjo e incluiu as vozes na canção, que fez dar o impulso para a criação de todo o disco. Com o som atravessando os limites entre os rótulos musicais, Telles afirma sofrer para conseguir apresentar o seu trabalho, já recusado em eventos tanto de música erudita quanto popular. Mas, com calma, todos chegamos lá devagar. Nada é por acaso, dizem os místicos. Enquanto está em Porto Alegre, o músico cumpre uma missão importante: é um dos professores do projeto social Santa Cecília, que atualmente promove o ensino do violão para 60 crianças em Taquara, onde Telles nasceu. Criado em 2010, o projeto está passando por necessidades financeiras, e haverá em breve um lançamento de uma campanha de financiamento coletivo e busca de patrocínios. Tanto no Sul, quanto em outras áreas do Brasil, o músico tem um papel fundamental no tecido social. Sem deixar, a técnica de lado. “Acho que nunca vou parar de evoluir.”

 

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Renascimento

Ulisses Rocha

De volta ao Brasil, violonista Ulisses Rocha lança novo CD, inaugurando uma fase de dar vazão à música por meio de belos arranjos

Roger Marzochi, do entresons

A forma como reagimos às barreiras impostas pela vida faz toda a diferença. Há 20 anos, o violonista Ulisses Rocha sofre com o avanço de uma tendinite que, progressivamente, prejudica o seu desempenho técnico no instrumento. Esse foi um dos motivos que o levou a compor as músicas de “Só”, disco de 2011, um trabalho de uma espiritualidade elevada, que prescinde o virtuosismo. Após cinco anos trabalhando como professor convidado da Universidade da Flórida, Rocha está de volta ao Brasil. Deixou o ruído de São Paulo para morar junta às ondas do mar, em Ilha Bela. E acaba de lançar sua mais nova resposta às dificuldades técnicas que o corpo lhe impõe: “o quinteto”, CD no qual Rocha não está mais só (e nunca esteve). Mas, agora, tem ainda os companheiros Ivan Vilela (viola caipira), Raiff Dantas Barreto (cello), Walmir Gil (trompete e flugelhorn) e Vitor Loureiro (baixo).

“Eu estou amadurecendo. Isso é um pouquinho brando… Eu estou sentindo meu corpo ficar mais cansado, tenho problema de tendinite frequente”, explica o músico de sua casa na praia, em entrevista por telefone. “É uma coisa que me causa limite técnico. E isso estava me angustiando muito. Não consigo tocar algumas coisas com a mesma facilidade que antigamente. E esse processo tende se acentuar.” Refletindo sobre esse desafio, Rocha obteve uma resposta do Universo no ano passado, quando ainda estava nos Estados Unidos: levar a sua musicalidade para a arte do arranjo, tirando a “obrigatoriedade técnica ligada ao virtuosismo” e ligar o seu som em outra dimensão. Em parte, isso já havia acontecido em “Só”, um disco profundamente inspirador de violão solo.

E, nesse processo, Rocha se lembrou de um disco que havia sido gravado como brinde em 2009, distribuído aos participantes de um congresso do Instituto Brasileiro do Direito do Seguro (IBDS). Esse trabalho, como muitos outros de Rocha, tem o apoio do advogado Ernesto Tzirulnik, que também apoia outros músicos. De tal forma, que foi até criado um selo: Projeto Ceará 202, com uns 15 CDs lançados, incluindo o agora “o quinteto”. O nome do projeto tem referência ao endereço do escritório do advogado, situado no Pacaembu. O escritório é abrigado na casa que foi do arquiteto Jayme Campello Fonseca Rodrigues (1905–1946), conhecido como “criador de atmosferas”. É desta forma que se refere ao arquiteto Hugo Segawa, autor do livro “Jayme C. Fonseca Rodrigues – Arquiteto”, de acordo com reportagem do jornal O Estado de S.Paulo. A casa foi recém integrada à Iconic Houses, rede internacional que conecta casas do Século XX significativas para arquitetura abertas ao público como museus. “Ele (Tzirulnik) promove eventos do seguro e gosta de usar arte em geral para oferecer para os clientes dele de brinde. E nesse evento foi onde ele tinha vontade de fazer um trabalho em torno de músicas que tivessem um contexto de letra ligado a ideias bucólicas, ao mato e à natureza”, diz Rocha.

Ulisses Rocha2

Desde “Só”, disco de 2011, Ulisses Rocha tem provado que não é preciso ser um virtuoso para se chegar ao coração dos ouvintes. Agora, o músico investe toda a sua sensibilidade em arranjos inspiradores

Além de resgatar a obra realizando a remasterização do trabalho, outras três músicas foram acrescentadas ao CD, totalizando dez composições aparentemente ecléticas. Há desde “A Lua Girou” e “Morro Velho” (Milton Nascimento) a músicas como “Blackbird” (Lennon e McCartney), “Gracias a la Vida” (Violeta Parra), “Trenzinho Caipira” (Heitor Villa Lobos) e até “Menino da Porteira” (Teddy Vieira e Luizinho) e uma música autoral de Rocha, “Mel”. Apesar de estilos tão diferentes, os arranjos de Rocha apresentam essas obras de uma forma moderna, muito bem temperadas pelas bases, entrelaçadas por viola, vilão e violoncelo, sobrevoando o oceano nos sopros de Walmir Gil.

Voltar para os Estados Unidos, nem pensar. “Eu confesso que tinha gostado de ficar lá, mas estou vivendo outros momentos no Brasil, devo ficar agora aqui. Começaram a surgir novos projetos e ficar aqui vai ser bacana”, diz o músico, que afirma que os borrachudos da ilha atacam apenas os turistas. “A gente aprende a lidar com eles, sabendo que horas eles atacam e o tipo de repelente usar. Eles preferem turistas.”

E, mesmo no Brasil, isso não o impede de viajar o mundo. Há dez anos, Rocha realiza turnês pela Europa. Ele possui um público cativo especialmente na Bélgica, onde realizou shows com o trompetista Sam Vloemans, multi-instrumentista acalmado naquele país. Ambos, aliás, foram entrevistados pela TV estatal belga. E, ao longo deste ano, ainda deverão gravar um CD juntos. Durante a sua última turnê, Rocha ainda tive uma experiência incrível na Alemanha. Ele recebeu o convite de Michael Fetcher,  dono do Flavored Tune, dedico à gravação de composições de forma analógica, para gravar um disco em vinil.

A gravação foi realizada em uma casa projetada especialmente para que todos os cômodos sejam pequenos estúdios de gravação, incluindo o banheiro. O músico conta essa experiência e suas impressões entre o analógico e digital em seu blog. Rocha regravou composições autorais em violão solo. O vinil, que será batizado de “White Woods”, será lançado em três meses em toda a Europa. Desde “Só”, Rocha tem demonstrado que transmitir emoções é muito mais importante que o ego acelerado de notas encadeadas em velocidades incandescentes. O mundo pede calma, reflexão, mais amor e compaixão. E isso a música de Ulisses Rocha, só ou muito mais que acompanhado, tem de sobra.

 

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Universidade da Vida

Ian Nain

Ian Nain encontrou em seu caminho flautas e alaúde que o colocam como um dos principais expoentes da Música Oriental feita no Brasil

Roger Marzochi, do entresons

O caminho que se trilha é mais importante do que o lugar onde se quer chegar. É esse o espírito primordial da vida. Aos 25 anos, o músico Ian Nain está quase na metade do percurso que escolheu, já colhendo frutos com os mundos que movem seu alaúde e suas flautas orientais. O grande conhecimento da cultura oriental e a habilidade que conquistou com esses instrumentos musicais, no entanto, não são reflexo do estudo formal em uma instituição de ensino ou universidade.

Apesar de ser este o caminho de muitos músicos, Nain e seu irmão, o percussionista Francisco Lobo, foram tutelados pelo pai, o maestro Mario Aphonso III, que no dia 28 de fevereiro foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural Maestro Carlos Gomes, comenda concedida pela Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino. “É uma coisa muito intensa na minha vida”, diz Nain. “Nasci em um ambiente com muita música, com meus pais partilhando da música do Oriente Médio.” A mãe de Ian é a dançarina Yasmin Nammu, que hoje vive na Itália, país no qual Nain realizou diversos workshops, apresentações e entrevistas em janeiro deste ano.

A vida, assim como o mundo acadêmico, é cheia de provas. E, no próximo dia 24 de março, Nain se apresentará sozinho com o alaúde, tocando sua mais recente pesquisa musical: os movimentos clássicos dos compositores mais influentes da música otomana. Compositores como Tamburi Cemil Bey, Kemani Tatyos Efendi, Neyzen Aziz Dede, Refik Fersan (Tanburi), Zurnazen Ibrahim Aga, Göksel Baktagirl e Yorgo Bacanos.

“São arranjos que buscam um resgate de sua execução tradicional, trazendo à tona as principais características das formas musicais mais utilizadas no cancioneiro clássico otomano, como O Peşrev, Saz Semaisi, Longa, Sarki, Sirto e formas folclóricas com influências da Península Balcânica como karsilama e oyun havasi”, explica o multi-instrumentista. O evento contará ainda com uma palestra do músico sobre a história do alaúde e da evolução da música oriental. Palestra e apresentação serão realizadas no Estúdio Mawaca (Rua Inácio Borba 483, São Paulo), das 15h30 às 20h, com ingressos de R$ 20 a 40.

Mario Aphonso nunca forçou nada. Deixou a vida correndo, vendo o filho se apaixonar pelo rock ao ponto de querer comprar uma guitarra. “Fui fazendo o caminho… de se interessar pelo rock, depois música brasileira até chegar na música oriental.” Este, um passo sem volta. Conquistou seu primeiro alaúde aos 17 anos, chegando a receber algumas dicas sobre como tocá-lo do músico Jorge Aidamos, que gravou com Mário Aphonso o disco “Arabesque”, que projetou a carreira do multi-instrumentista capixaba no exterior. No entanto, Nain nunca teve aula formal. Aprendeu tocando junto com discos e integrando o Zikir Trio, grupo que reúne a família. O maestro ainda criou o Coletivo Tarab, centro de estudos da música oriental, do qual nasceram oito bandas, como Orkestra Bandida e TarabJazz.

“Se você está tocando e vivenciando isso intensamente, isso é muito importante na formação musical, mais que um estudo formal em uma universidade”, explica Nain. ”Eu tive muita sorte porque sempre convivi com músicos mais velhos que eu. Tive pessoas muito especiais que me ajudaram muito, como meu próprio pai, um grande mestre e farol que me forneceu muito material, livros e partituras. Por ser autodidata e gosto do que eu faço, eu passei quatro anos mergulhado em livros e material de pesquisa.”

Ian Nain na Rádio de Bologna

Ian Nain concedeu entrevista à Radio Città del Capo, de Bologna, em janeiro de 2018

Como já tocava a flauta nay, Nain conhecia os maqans, tipo de escalas melódicas usadas no oriente. Isso facilitou bastante a vida do jovem aprendiz no alaúde. O que sempre impressionou o músico é a relação dos maqans com estados de espírito. “Ele é uma invocação a uma sonoridade e caminho melódico concebido e criado que visava a harmonização do ser humano. Cada um dos maqans carregam não apenas sabores, temperos, mas também funções neurológicas. Instambul (Turquia) é um dos berços da musicoterapia.”

Em janeiro, Nain teve uma grande experiência se apresentando na Itália. Realizou shows e workshops em cidades como Bologna, Roma e Gravedona. O músico foi, inclusive, convidado pelo etnomusicólogo Vladimiro Cantaluppi para participar do programa Etnochic RCdC, da Radio Città del Capo, de Bologna. Na entrevista, Nain pôde tocar nay e alaúde, contando sua história na música e apresentando aos ouvintes a experiência da música oriental que se vivencia no Brasil. “E, fora isso, tive oportunidade de tocar com músicos locais, com Fabio e Diego Resta, que são etnomusicólogos especializados em música otomana.” Nain não despreza a universidade, longe disso. Ele ainda pretende se aprofundar em estudos de musicologia, para conhecer mais sobre cultura e história. Mas o caminho que ele segue na música, desde sempre, é o da Universidade da Vida, em sua mais ampla diversidade e respeito.

 

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Jam do Roquenrol Santeiro

Alfredo dias Gomes - creditos Acervo Pessoal do artista

Alfredo Dias Gomes rejuvenesce o rock com jazz e um groove de funk em “Jam”, 9º álbum de seus 25 anos de carreira solo

Roger Marzochi, do entresons

O estilo de vida dos dramaturgos e novelistas Dias Gomes e Janete Clair inspirou profundamente a carreira de seus três filhos. O baiano Dias Gomes é o autor de peças como “Pé de Cabra”, “Eu Acuso o Céu”, “Zeca Diabo”, “Os Cinco Fugitivos do Juízo Final” e “O Berço do Herói”. Este último trabalho foi censurado pela Ditadura em 1965, acabou sendo adaptado para tevê em “Roque Santeiro”, mais foi censurado em 1975. A obra, com personagens fantásticos como Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), só ficou conhecida do público em 1985, quando teve início o processo de redemocratização. A mineira Janete Clair foi autora, por exemplo, de “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”.

Ambos criavam seus personagens em casa. Logo após o café da manhã, cada um seguia para o seu escritório. O almoço e o jantar, reunidos na mesa com os filhos, eram os momentos em que os escritores contavam o que haviam criado naquele dia, num ambiente de muita alegria. “Eu acho que peguei a influência de vê-los criando, isso era muito legal”, diz Alfredo Dias Gomes, 58 anos, que não se tornou dramaturgo, mas baterista e compositor. No fim de janeiro, o músico lançou o CD “Jam”, seu 9º álbum em 25 anos de carreira solo.

JAM Alfredo Dias Gomes

“O que mais me atrai é a coisa do estúdio. Se pinta o show, tudo bem. Mas eu não sou muito… sou mais de gravar do que fazer show. Mesmo porque o cenário do instrumental existe, tem o Blue Note (Blue Note Rio), mas para esse tipo de música que eu faço eu estou num limbo”

“Eles se juntavam durante a noite e trocavam o que cada um tinha feito. Eu acompanhei isso. Esse estilo de vida me atrai muito. Eu nasci em casa de criação, onde as pessoas criavam. Não só meus pais, como eu e meus irmãos. Meu irmão é músico (Guilherme), toca trompete; minha irmã (Denise) toca violoncelo e escreve poesias. E um mostrava para o outro o que havia criado.” Denise, aliás, compôs músicas na década de 1970 para novelas de sua mãe, como a “Alouette”, para a novela “Pai Herói”. Cantora, pianista, violinista, graduada em física e filosofia, ela lançou em 2015 o livro “Poema Cenário e Outros Silêncios”.

Há quem torça o nariz a certas comparações. Não os culpo, a sensibilidade está à flor da pele. Afinal, não são de flores os perfumes que cruzam os céus do Brasil de hoje. Mas para além de o ambiente criativo na casa dos Dias Gomes, havia ainda o fato de que a criação envolvida o teatro, a mais antiga das artes. “O teatro tem histórico de interprete de cantores que vem desde a Grécia. Tem mais ciência no teatro do que na evolução dos cantores apenas no ensaio simplesmente musical”, disse-me o dramaturgo Chico de Assis, em entrevista inédita, em 2011 antes de uma aula no Teatro de Arena. O autor da inesquecível “Missa Leiga” ajudou muitos músicos e cantores a aprimorarem suas interpretações, como Geraldo Vandré, Elis Regina, MPB4, Toquinho e Quarteto em Cy. “No caso da Elis, eu trabalhei integralmente, do que era interpretar. Fiz isso baseado no que conhecia na parte teatral. Porque a música é uma das convidadas do teatro.”

E sem usar palavras, é possível sentir que Alfredo Dias Gomes expressou na música desde o mais profundo Brasil até a sua conexão com outras culturas. Com 11 anos, era fã de Led Zepplin, Emerson, Lake & Palmer, sons que ele tocava em casa na bateria. Aos 16 anos, foi estudar com Charles “Don” Alias, percussionista que gravou com o trompetista americano Miles Davis o álbum “Bitches Brew“, de 1969. Alias estava no Brasil gravando com o trompetista brasileiro Marcio Montarroyos, que o apresentou a Alfredo. Em uma das aulas, o filho de Dias Gomes estava tocando no estúdio e ninguém menos que Hermeto Pascoal estava na porta: “você ainda vai tocar comigo”, previra o bruxo. Dois anos após esse encontro, Alfredo participou de um teste, com vários outros instrumentistas, para integrar o grupo de Hermeto. E, apesar de ter furado o bumbo da bateria, foi vencedor da disputa. Com Hermeto, Alfredo gravou nada menos que “Cérebro Magnético”, der 1980, um verdadeiro testamento contemporâneo do Brasil. “Ele (Hermeto) me ensinou a pegar esse ritmo (ritmo brasileiro) e ficar livre com ele, que é justamente a concepção do jazz. Você não repete, você cria o tempo todo. E o prato conduz, mas a caixa acentua em lugares diferentes, não repete compasso. E ele me ensinou a fazer isso com ritmos brasileiros, foi uma experiência única.”

Alfredo acompanhou muita gente, desde Montarroyos ao grande contrabaixista Nico Assumpção, Torcuato Mariano, Arthur Maia, participou do grupo Heróis da Resistência, Lulu Santos, Sérgio Dias e Kid Abelha. Foi quando tocava com Ivan Lins que Alfredo começou a pensar seriamente em se concentrar em sua carreia solo, aliás o grande compositor e pianista participou do seu primeiro disco que apontava para essa nova estrada: “Alfredo Dias Gomes”, de 1991, no qual o músico fez uma homenagem a sua filha em “Tatiana”, uma música com ecos da floresta. Com músicas mais jazzísticas, funkeadas ou baladas, Alfredo chega agora a “Jam” numa experiência que oxigenou o rock.

Alfredo Dias Gomes2

“Nesse disco eu toco bem livre, é rock! Mas eu não me contento em ficar fazendo só base. Se o guitarrista dobra, eu dobro junto, isso é a coisa do jazz. É dialogar.”

A guitarra, que esteve presente na maioria de seus trabalhos, ganha no novo álbum a distorção bem próxima do gosto dos chamados “head bangers” nas mãos de Julio Maya, instrumentista que Alfredo já havia tocado no início de sua carreira. “Nesse disco eu toco bem livre, é rock! Mas eu não me contento em ficar fazendo só base. Se o guitarrista dobra, eu dobro junto, isso é a coisa do jazz. É dialogar. O baterista não está só fazendo base para as pessoas solarem. Ele está ouvindo e interfere no solo também. E o baterista faz acontecer, ele ouve aquilo alí e manda uma energia para o solista para o solo esquentar. É tudo um diálogo, a coisa do jazz. Eu acabei tendo essa mistura”, diz o baterista.

E, ao mesmo tempo em que há espaço para chacoalhar a cabeça, há um jogo de cintura incrível no contrabaixo de Marco Bombom, que fez parte da lendária Conexão Japeri, de Ed Mota. Por isso, apesar de o disco refletir muito do que Alfredo escuta, como Jeff Beck (The Yardbirds), Stanley Clarke, Frank Gambale (que aliás, tocou no CD de Alfredo “Atmosfera”, de 1996), há um swing que, em alguns momentos, chega bem perto do groove de bandas de funk como The Meters. “A coisa funkeada vem do Bombom. É o swingue dele”, diz o compositor, que no disco também toca teclados.

Essa volta do compositor ao rock, gênero que o levou à bateria, mas pulsando nas veias do jazz coloca-o numa posição parecida com a do pai, no início de sua carreira. Na década de 1940, após ter sido contratado por Procópio Ferreira para escrever peças, Dias Gomes se deparou com diversas barreias culturais que impediam a apresentação de sua dramaturgia. Na peça “Doutor Ninguém”, por exemplo, o herói era um médico negro. O trabalho, que discutia a discriminação racial, foi modificada para debater diferenças de classes, colocando-se no lugar do protagonista um homem branco, filho de uma lavadeira. O público, explicara Procópio Ferreira, não aceitaria um herói negro.

“Em 1944, como eu não queria conceder e não queria fazer teatro como me impunham, comédia de boulevard essencialmente, preferi sair do teatro e ganhar a vida trabalhando no rádio. Vivi no rádio mais de 10 anos, quase 15 anos, até 1959, quando escrevi ‘O pagador de promessas’ e iniciei uma segunda fase, na qual pude escrever as peças que desejava escrever”, diz Dias Gomes, em entrevista contida no livro “Dias Gomes – Peças da Juventude – Volume 5”, editora Bertrand Brasil, 1994. “Na década de 40, o povo brasileiro era um povo derrotista, que não dava valor ao que era do país e achava que só era bom o que era estrangeiro. Com o nacionalismo, principalmente com Juscelino em 55, com aquela euforia, com Brasília, a capital feita na raça, aquela ideia de que ‘nós podemos’, ‘nós fazemos’, deve ter surgido também em um impulso da dramaturgia nacional, no sentido de que ela se preocupasse com a realidade brasileira, com o homem brasileiro e até mesmo com uma forma de espetáculo brasileira.”

Guardada as devidas proporções, Alfredo também sofre o embate com o gosto do público brasileiro, especialmente na música instrumental. E, ainda, “Jam” não se enquadra em casas de jazz, e talvez não chegue a contentar os fãs de rock ou heavy metal ávidos pela voz metálica e rouca de seus vocalistas. Ele se contenta em ser um homem de estúdio, que é apaixonado pelos aparelhos de gravação, por compor e gravar seus próprios discos em sua própria casa, da mesma forma que seus pais criavam suas histórias. “O que mais me atrai é a coisa do estúdio. Se pinta o show, tudo bem. Mas eu não sou muito… sou mais de gravar do que fazer show. Mesmo porque o cenário do instrumental existe, tem o Blue Note (Blue Note Rio), mas para esse tipo de música que eu faço eu estou num limbo.” O tempo dirá, quem sabe o Rock in Rio? É fato que “Jam” rejuvenesce o rock e sempre haverá muita gente que prefere o “limbo” ao mainstream. “Cambia, todo cambia”, já cantava Mercedes Sosa. E, quem sabe, com todos os percalços estético-político-econômicos, Jam não transmute em um tipo de “Roquenrol Santeiro”.

 

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Universo alimenta samba e choro

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Bem antes da Vila Isabel, astrofísico brasileiro que estuda os ecos do Big Bang emite ondas de samba, choro e toda uma radiação que a ciência desconhece

Roger Marzochi, do entresons

O desfile da escola de samba de Martinho da Vila, a Vila Isabel, levou para a Sapucaí uma perspectiva histórica do impacto das descobertas tecnológicas que revolucionaram a sociedade. O samba, variação do antigo pulsar de tambores africanos, buscou inspiração na técnica. Mas há, igualmente, o caminho inverso: o de um cientista que, apesar de estar na linha de frente dos mais avançados estudos sobre o Universo, emite em direção ao espaço as ondas sonoras do choro, do samba, da música barroca e renascentista.

Carlos Alexandre Wuensche tem 55 anos, é astrofísico, e sua principal paixão é escutar o Universo. Ele estuda há anos a chamada “radiação cósmica de fundo”, emissões de rádio que viajam pelo espaço até a Terra, reflexos da grande explosão que gerou o Big Bang, a força descomunal que teria criado planetas, estrelas e os sistemas estelares até hoje conhecidos pelo homem. “A radiação cósmica de fundo é uma coisa muito absorvente, os desafios são muito grandes”, explica o cientista, que estuda o processo de expansão do Universo e a energia escura. “Se não tivesse outra coisa para mudar o foco, eu ia ficar naquilo… não acho saudável. E a música foi sempre um balanço na minha vida.”

Pesquisador titular da Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e também coordenador do projeto Bingo, um dos mais inovadores radiotelescópios em construção no mundo, que está sendo construído no sertão da Paraíba, Wuensche desde pequeno se alimenta de música, muita música. “A música nunca me deu ‘insights’ (para a sua pesquisa). Mas ajuda a limpar a cabeça de outras coisas. A música deixa a minha mente livre para me debruçar sobre a física”, explica o cientista, que toca violão, viola e bandolim.

Com a esposa Tô Mendes, Wuensche criou o duo Conversa de Cordas, que se apresenta no encerramento de congressos científicos e algumas casas de cultura e livrarias em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, um dos principais centros nervosos do Inpe. No repertório, arranjos para músicas de Dilermano Reis, Garoto, Heitor Villa-Lobos, Luis Melodia, Canhoto da Paraíba, Francisco Mignone, Waldir Azevedo, Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Paulinho da Viola. E, ainda, música renascentista, com Francesco da Milano e John Dowland, e música impressionista, com Claude Debussy e Erik Satie.

To Mendes e Carlos Alexandre no Teatro Municipal de São João da Boa Vista

Wuensche e Tô Mendes no teatro de São João da Boa Vista. “A música deixa a minha mente livre para me debruçar sobre a física”

Maria Antonieta Sachs Mendes, a Tô Mendes, tem formação em educação artística e toca instrumentos como violões de nylon e aço, cavaquinho e banjo. “Ela é aposentada e a vida dela está mais tranquila do que a minha”, brinca o cientista, pai de duas filhas, uma economista e, a outra, jornalista. “A gente ensaia todo dia. Lemos bem música, fazemos ensaio de voz também, não só de instrumento. Conseguimos tocar uma hora e meia todo dia.” No primeiro semestre do ano passado, o duo fez uma apresentação por mês e, ainda, foi curador da Roda de Choro de São José dos Campos.

Wuensche nasceu no Rio de Janeiro. Aos oito anos, começou a estudar violão. “A música entrou na minha vida antes da astrofísica.” Os estudos começaram com um professor, mas Wuensche seguiu estudando sozinho, aprendendo de ouvido e com os amigos. Morou em Brasília na década de 1970 e viu nascer o embrião do famoso Clube do Choro. Na universidade, o estudo da física sempre era dosado ao estudo do violão. “Tem períodos que deixei de tocar, mas a maior parte do tempo estive envolvido com música.”

Quando entrou para o doutorado, na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (EUA), o violão viajou junto com o cientista, no início da década de 1990. Enquanto se aprofundava na radiação cósmica de fundo, conseguiu cursar violão no Departamento de Música como aluno ouvinte na mesma universidade, participando de aulas sobre história da música e se apresentando em recitais em duos, quartetos e solo. “Aproveitei para estudar violão também para manter a sanidade mental. E foi legal. Eu tinha estudado com gente boa, deu para acompanhar o nível dos alunos.”

Enquanto estima a energia escura e o ritmo de expansão do Universo nas ondas de rádio vindas do espaço, Wuensche faz da cultura na Terra uma das principais formas de expandir amor, paz e compreensão. A arte talvez complete o sentido daquilo que a ciência não consegue explicar. E, em ondas de rádio, também há radiação da Unidos de Vila Isabel: “Quem quer tocar o horizonte. E conhecer o que virá. Mergulhe fundo, o passado é a fonte. Quem nunca foi, jamais será. O fogo que arde na alma da gente. Aquece quem sente e faz proteger. Forja o sonho, ilumina a mente. Brilha no meu ser.”

 

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