Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Dani Gurgel

Multi-instrumentista lança seu segundo disco autoral 11 anos após “Nosso”; mas desde 2012 participou de sete discos como integrante do grupo DDG4

Roger Marzochi, do entresons

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro.

Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Debora Gurgel, mãe e parceira musical de Dani, já teria ouvido coisas parecidas pelos bares da vida. “E a Ingrid defende a posição da mulher, de ser mulher e músico de jazz, que tem que sempre se afirmar o tempo todo. A letra é sobre isso. É uma ave que não precisa de nada disso para sair voando, que é como eu ouço o trompete dela.” Dani avalia que não é o caso de se criar cotas para mulheres em orquestras ou big bands. “É preciso valorizar e colocar os dois como iguais. A música não deve ser selecionada com base em ter sido feita por alguém assim ou assado, mas a música pela música.”

Ao dar uma letra a esse canto de pássaro, Dani também passa essa sensação mágica que esses animais têm em muitas culturas. Os habitantes de Papua Nova Guiné acreditam que os pássaros são espíritos de pessoas desencarnadas, seus cantos as vozes dessas pessoas. Toda cosmologia desse povo se relacionada com os pássaros, incluindo a forma de tocar os tambores usados em rituais, imitando o canto do pássaro tibodai. “Assim nós temos a noção que os sons dos pássaros não são apenas indicadores naturais da fauna de Bosavi; mas são igualmente considerados como comunicação entre os mortos e destes com os vivos. O som dos pássaros e suas categorias são poderosos mediadores; eles ligam padrões sonoros com ethos sociais e emoções”, diz o etnomusicólogo americano Steven Feld, em “Sound as a symbolic system: the Kaluli drum”, de 1986.

TUQTIPerspectivas - Dani sempre compôs pensando sobre a sua realidade. Em “Whispers”, música com letra em inglês em parceria com o baixista e compositor Frederico Heliodoro, Dani reflete sobre as fake news, com a crescente polarização de ideias e a tendência de julgar as pessoas por cima, sem se buscar entender suas razões. E, mais um exemplo do disco, “Cade Rita?”. O título desta música, em homenagem à filha de dois anos, traz a onomatopeia que dá nome ao CD: TUQTI, uma forma de trazer no som de sua voz a representação da uma célula percussiva do samba. A música, feita em parceria com o violonista Gabriel Santiago, tem a participação do vibrafone do americano Joe Locke.

Com essa forma de cantar, Dani encantou a mídia especializada em todo o mundo. “Sílabas fantásticas”, segundo o jornal alemão Badische Zeitung; “aventuras vocais em scat” pela revista especializada alemã Jazzthetik; “fascinante como manipula livremente a precisão da extensão de sua voz”, por Republik (Japão); “Seu scat soa Brasileiro. Seus intervalos, ataques e articulações soam como Jazz”, segundo Mauro Apicella, do jornal argentino La Nación; “Dani Gurgel representa uma nova geração musical, ao mesmo tempo tradicional e inesperada”, Libération (França).

“Cadê Rita?” também representa as novas perspectivas que se abriram na vida da musicista com a maternidade. “É uma coisa que muda nossas perspectivas”, diz ela, sobre ser mãe. “A sua prioridade totalmente muda, para ser prioridade de criar uma pessoa e que o mundo precisa de pessoas melhores. E temos responsabilidade grande para essa geração ser muito melhor que a gente. Quando muda essas prioridades o normal seria pensar que outras coisas ficaram em segundo plano, mas na verdade não. Quando uma coisa faz sentido junto com a outra, elas não vão competir por espaço, mas vão conviver.”

O trabalho reúne um total de 11 músicas, com a participação de novos compositores brasileiros. A produção musical ficou com o baterista Thiago Rabello, com uma banda formada por Gabriel Santiago (violão), Conrado Goys (guitarra) e Frederico Heliodoro (baixo). Daniel Santiago substitui Gabriel nos shows no Brasil. O CD atual é muito mais jazzístico que “Nosso”, de 2007, que foi um trabalho primoroso em letras inspiradas e inesquecíveis. Desde 2012, gravou sete discos com o DDG4, ganhando fãs até no Japão. Dani, que também é fotógrafa, construiu sua carreira no diálogo constante com novos compositores e novos ares, dando amplas asas à onomatopeia, sem deixar de cantar letras de profundidade.

Fôlego de Cachalote

Iuri Nicolsky

Um dos criadores do Nova Lapa Jazz, Iuri Nicolsky integra A Cachalote, banda instrumental do Rio de Janeiro que prepara seu primeiro CD autoral

Roger Marzochi, do entresons

A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

A banda era formada por Eduardo Santana (trompete), Gabriel Balleste (guitarra) e Pablo Arruda (baixo) e Antônio Neves (bateria). Entre as novas perspectivas, surgiram projetos como Eletrotupiniquim e convites para realizar shows em eventos fechados. “O Rio tem essa onda de pessoas que se juntam. Foi um pouco o que aconteceu com o Nova Lapa, foi uma jogada de sorte, coincidência, uma conjuntura que gerou repercussão tão grande que abriu caminho para outras bandas de rua. Há artistas de rua que até hoje me buscam para agradecer, me trouxe frutos financeiros e emocionais. Foi um projeto muito importante e que me orgulho muito, foi um estopim da febre dos músicos de rua.”

A Cachalote é formada pelo baixista Alexandre Seabra, pelo baterista Thiago Dagotta e, até recentemente, era integrada pelo pianista Pedro Cabral, que teve que deixar o trio por motivos pessoais, mas começou as gravações das composições. Em breve, com um novo pianista, a banda deverá seguir para o estúdio. Iuri explica que o trio faz música instrumental com influências da música eletrônica e do hip-hop, a exemplo de bandas como a canadense Bad Bad Not Good (BBNG).

Cinco músicas compostas pelos integrantes, canções já antigas, mas inéditas em discos, foram adaptadas para essa estética, enquanto outras dez foram feitas coletivamente. Em shows recentes, a banda faz novos arranjos para músicas consagradas convidando uma cantora para interpretá-las. Uma das convidadas foi a atriz e cantora Nanda Onanda. Em redes sociais, é possível experimentar um pouco desses doces encantos (@a.cachalote no Instagram). Mas, por enquanto, A Cachalote está em seu fôlego abissal à espera de um novo salto.

Nova Lapa Jazz com Elza Soares Teatro Rival Petrobras Foto Divulgação

Nova Lapa Jazz em apresentação com Elza Soares no Teatro Rival Petrobras ; banda reunia milhares de pessoas na rua da Lapa para ouvir música instrumental.

“Entreter o público é parte importante do trabalho”, afirma Iuri, explicando a ideia de se fazer uma música mais dançante. “Não dá para tocar Miles Davis e John Coltrane para o resto da vida, por melhores que sejam.” As aspas ainda não se fecham, pois essa não é uma crítica feroz do músico a quem decide viver nessa trilha. “Os meus heróis vivem bem disso hoje, é possível agradar ao público também assim. Tem gente com apego a estilos instrumentais. Mas a nossa intenção é atingir pessoas que não têm tanto contato com jazz, que inicialmente não estavam abertas a ouvir um trabalho instrumental, de forma que se possa improvisar e se divertir enquanto toca, mas não ficar encerrado entre os músicos e expectadores da música instrumental tradicional.”

Iuri começou sua vida na música muito cedo. Aos cinco anos, ele iniciou os estudos com o violino, com um professor cuja rigidez o fez parar com a música um ano depois. Mas fazia som em casa com panelas, percutia Beethoven no xilofone de brinquedo, mas estava decidido a não estudar mais violino. Ganhou um violão e estudou o instrumento dos seis anos aos 12. Envolveu-se com música clássica, com aulas com Bartolomeu Wiesse, professor de violão da UFRJ. Na adolescência, com muito rock e reggae nos ouvidos, foi experimentando outros instrumentos, como a sanfona, gaita e guitarra. Aos 17 anos, começou a ouvir jazz e conseguiu emprestado um saxofone rachado. “Tocava dentro do armário, até aprender o básico”, lembra.

Juntou um trocado, comprou um instrumento mediano, e começou a ter aulas com o flautista Eduardo Neves. E chegou a fazer algumas aulas avulsas com os saxofonistas Nivaldo Ornelas e Idriss Boudrioua. Enquanto isso, Iuri trabalhava como técnico de gravação das peças de teatro, conseguindo recursos extras para sobreviver. Entrou para a Uni-Rio e levou música até mesmo para o meio da feira livre na rua, entre tomates e alfaces. Não à toa, foi a rua que lhe deu projeção.

Novelos de história

Ovelhas na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

Tradição oral no campo se mantém para que trabalhadores lidem com suas próprias emoções; nas cidades, Receita Federal tem projeto de preservação da memória

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto de Andrea Madruga

Você já contou carneirinhos para conseguir dormir? Pois saiba que o trato desses animais inspira muito mais que o sono dos noctívagos. Em Piratini, no interior do Rio Grande do Sul, homens que retiram lãs de ovelhas sem o uso de máquinas, da forma mais tradicional possível, contam entre si histórias de assombrações das centenárias fazendas da região. Em Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, coletores de café também trabalham contando causos. É uma demonstração que vive forte a tradição oral apesar dos avanços da tecnologia.

O trabalho é mais que um meio de se obter recursos financeiros para sobreviver. É, também, um ambiente de socialização que reforça vínculos afetivos e sociais. Resistem até hoje histórias que são contadas no ambiente de trabalho que servem tanto para reforçar tradições, cultivar a memória e relatar experiências de vida. Além de histórias da tradição oral, o trabalho também motiva a memória. A Receita Federal possuiu um projeto chamado “Histórias de Trabalho”, que registra em livros a experiência vivida por servidores no dia a dia de seus escritórios.

Primeiro, vamos ao campo. Os causos de assombração rondam a Fazenda Santa Izabel, em Piratini, propriedade de Andrea Madruga, artesã que há dez anos criou o Fio Farroupilha, ateliê de roupas de lã. Suas mantas, ponchos e outras vestimentas, que traduzem a cultura dos pampas e andina, chegaram aos centros de grandes cidades e conquistaram clientes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e a até nove países.

O desejo do consumidor das grandes metrópoles de estar próximo a produtos que refletem as paisagens bucólicas do campo explica parte desse sucesso, mais vai muito além do designer: a preocupação com a sustentabilidade. O ateliê usa forno a lenha, com madeiras caídas naturalmente no chão, e as tinturas são feitas a partir de raízes e ervas da fazenda Santa Isabel.

A busca por sustentabilidade é seguida, também, pela preservação cultural da retirada de lã das ovelhas, conhecida como “esquila”. Apesar do avanço cada vez maior da tecnologia no campo, Andrea defende costumes antigos que contribuem para valorizar o seu produto final. “É quase uma unanimidade entre os técnicos o uso da esquila Tally-Hi (com uso de máquinas)”, explica Andrea. “Nós ainda utilizamos a esquila à martelo (com uso de tesoura). Nós temos alguns objetivos na criação e no ateliê, que é o de manter o mais tradicional possível, com a menor intervenção química no ateliê e de máquinas na fazenda.”

Esquilador na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

Senhor Nair retira lã de ovelha na Fazenda Santa Izabel, em Piratini, no Rio Grande do Sul, um processo que segue até hoje a tradição de contação de histórias durante o trabalho e alimentação com pratos típicos. (Crédito da foto de Andrea Madruga)

Para ela, a mecanização dessa importante parte do processamento da lã prejudicaria a cultura dos esquiladores. “Se nós levarmos o Tally-Hai para lá, vamos eliminar a cultura dos esquiladores. A cultura dos causos no galpão, das conversas e do barulho das tesouras. Isso tudo faz parte de uma cultura de muitos anos, são séculos de cultura. E queremos preservar isso enquanto estivermos por aqui.”

Durante o processo de esquila, além dos causos contados, muitas vezes de assombração envolvendo fazendas centenárias da região, os esquiladores se alimentam de pratos típicos, como o pastel de carne de ovelha e o arroz carreteiro. “Se inserirmos uma máquina no meio desse romantismo todo, dessas risadas todas e dos causos até de assombração que eles contam, nós vamos transformar a esquila extremamente rápida e totalmente sem graça.”

Reagindo à vida – O filólogo Waldemar Ferreira Netto, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP), já teve a oportunidade de acompanhar as histórias contadas por coletores de café, em Águas de Santa Bárbara, no oeste de São Paulo. O especialista em tradição oral e cultura indígena estava na região e ouviu, por acaso, os causos que eram contados por esses trabalhadores. Essa prática não se transformou em uma pesquisa científica, mas pode colaborar com a compreensão de quão importante é a tradição oral.

“Apesar de a oralidade ter ficado marginalizada em tempos de internet, nos textos online, ela permanece viva. Especialmente em alguns ambientes onde a informação só pode ser transmitida oralmente”, diz Ferreira Netto.

O estudioso lembra que a oralidade tem sua grande força vinculada à forma como educamos as crianças. A narrativa é a maneira mais convincente de mostrar como o mundo funciona. “A criança sente e vive as personagens e as relações e, consequentemente, entende como se comportar no mundo, quando ficar triste, ou como sentir o mundo. Todas essas informações são passadas por histórias contadas oralmente.”

No caso dos esquiladores de Piratini ou, mais precisamente, dos coletores de café de Águas de Santa Bárbara, Ferreira Neto acredita que muitas das histórias têm o intuito de preparar as pessoas sobre coisas que podem vir a acontecer na realidade. “É um processo fantástico de manutenção de comportamentos e questões emocionais, voltada mais para a pessoa saber a conviver com as suas próprias emoções do que replicar comportamentos padronizados. Essas histórias não ensinam como se comportar na sociedade, mas como se deve reagir à vida.” Ele cita, por exemplo, histórias que são narradas para preparar o sujeito para receber a notícia da morte de um amigo ou familiar, por exemplo.

Anjo da lápide – Mas não é apenas em ambientes rurais que a memória é cultivada. A Receita Federal do Brasil promove, há oito anos, o concurso “Histórias de Trabalho”, no qual os servidores contam não apenas suas experiências de vida dentro da instituição, mas até mesmo histórias importantes sobre a constituição de alfandegas.

As histórias de atendimento a casos curiosos são saborosas, como a contada pelo servidor Edson Fernandes da Cunha, de Goiânia, no conto “O anjo da lápide“, publicado em 2010. Ele atendeu um pedreiro que queria regularizar as terras que havia adquirido de uma senhora, morta na década de 1970 aos 87 anos, que não deixou para trás nenhum bendito documento. Era preciso, no entanto, a data de nascimento da vendedora e o CPF para emitir uma certidão negativa. Como não foi possível encontrar o documento em cartórios, o pedreiro arrancou a lápide do cemitério como prova.

O senhor simplesmente levou a placa de mármore negro para dentro da unidade da Receita Federal, em Goiânia. Alertado que isso era crime, o pedreiro voltou para devolver a lápide, mas foi preso em flagrante por profanar uma sepultura. Na delegacia, o cidadão explicou do que se tratava e, inclusive, pediu para que o delegado ligasse para o funcionário da Receita para confirmar a narrativa.

Ao confirmar a história do pedreiro, Fernandes da Cunha achou uma forma de resolver o impasse: pediu para que se incluísse no Boletim de Ocorrência a data de nascimento da falecida, para que assim pudesse resolver o problema da falta de documentação de uma vez por todas. E, como o relato do pedreiro foi fiel, o delegado encerrou o caso. Histórias como essas são publicadas em livros há oito anos e podem ser lidas no site da Receita Federal. Neste ano, os servidores podem escrever prosa e poesias no projeto com inscrições até o dia 28 de setembro.

Dissipando dificuldades - Há histórias que são contadas por líderes no ambiente de trabalho que transcendem as obtusas dimensões da economia. Em 1996, eu trabalhava em um jornal de Americana, no interior de São Paulo, liderado pelo jornalista Paulo San Martin. Toda quinta-feira, ele contava a história de Mushkil Gushá, o dissipador de todas as dificuldades. A história, pertencente à tradição oral iraniana, tem relação com o sulfismo, uma corrente mística do Islã.

Sua voz rouca, a eloquência do alto de uma experiência jornalística admirável, ecoava a trajetória do pobre lenhador que foi ajudado por uma divindade de uma maneira que me hipnotizava. Houve um tempo, anos após meu primeiro contato com essa narrativa, em que tive somente essa história para alimentar a fé e buscar sentido. O novelo de histórias, assim, desata-se em forma de tecidos que cobrem a nossa vida. É a história, seja na tradição oral ou na escrita, que torna rica a nossa existência.

 

Gostou dessa narrativa? Eu sei, a crise está feia. Mas, se for possível, contribua com a manutenção da existência do entresons, com cinco anos de histórias sobre artistas e suas culturas. Clique aqui e conheça um pouco da trajetória de seu autor e formas de contribuição. 

Batismo na Folia de Reis

Gabriel Cobaia foto Facebook

Cantor de 21 anos de Vinhedo ganha público na web e sonha em gravar seu primeiro CD com músicas autorais

Roger Marzochi, do entresons; Crédito da Foto/Divulgação

Gabriel Cobaia nasceu em Vinhedo (SP), em 1997. Mas desde pequeno, ele viajava para Cambuquira (MG) para visitar o avô, que tocava violão na Folia de Reis. E, assim, todo início de ano, Gabriel se maravilhava com essa festa cristã, com influências africanas, espanholas e portuguesas, que comemora a peregrinação dos três reis magos ao local de nascimento de Jesus, em Belém. Não do Pará, mas da Judeia! Sem confusão, oh seu Matias Cão! “Eu acompanhava a folia, meu avô tocando. Eles iam passando de casa em casa, tocando nas casas e tinham as pessoas vestidas de palhaços. A população acompanhava até chegar na última casa, até ser servido um almoço para todo mundo que estava alí”, lembra Gabriel.

O violão foi passado para o tio, que o repassou para a irmã de Gabriel. Até que o menino, com 12 anos, resolveu se aventurar. “Peguei para aprender e não parei mais”, diz Cobaia, que cursa o último ano de Relações Públicas na PUC, em Campinas. “Além de eu ter influência do meu avô e do meu tio, eu sempre tive grande necessidade de me expressar, tanto através de pintura, arte urbana, grafitti. A música foi o ápice, na qual eu realmente me encontrei.”

Aos 16 anos criou um canal no YouTube. Aprendeu a editar vídeos e a trabalhar o áudio e, dentro de casa, ele começou a realizar gravações. O primeiro vídeo foi uma grande surpresa. Ele gravou uma versão de “Telegrama”, de Zeca Baleiro. “Teve umas cinco mil visualizações, o que foi uma surpresa, porque foi o primeiro vídeo. Não é tanto comparado aos youtubers, mas para mim foi uma conquista. Foi realmente uma conquista”, lembra Gabriel. À época, sua voz de adolescente já era rouca e mais grave. E hoje essa voz está muito aveludada, muito bonito de se ouvir.

Além de violão, ele toca ukulele, e diz arranhar guitarra, piano e escaleta. A percussão é também por conta dele. Com as músicas que foi postando no canal, começaram a surgir convites de tocar em festas. O primeiro cachê foi para tocar na inauguração de uma loja. “É demais ganhar dinheiro fazendo algo que você gosta”, afirma ele, que trabalha na área de treinamento de uma companhia. O vídeo com maior visualização foi uma música da dupla Maiara e Maraísa. O sertanejo dessa dupla fica na voz de Gabriel mais próximo do pop e MPB, mais o seu estilo. As visualizações desse vídeo chegaram a 21 mil. Hoje, Gabriel soma 4,1 mil inscritos no canal, embora tenha um ritmo mais lento de postagem dos vídeos.

Mas a fama que já obteve chegou até a cantora Ana Gabriela, outro fenômeno dos tempos da web, com 1,3 milhão de inscritos em seu canal. Gravaram um vídeo juntos, viraram amigos. O cover da música “Prá você dar o nome”, do grupo 5 a Seco, com a participação de Ana, foi visto 25,8 mil vezes no canal de Gabriel, superando as sertanejas. Mallu Magalhães, um grande nome que nasceu com sucesso nas redes sociais, inspira muito Gabriel.

Mas ele gosta muito de poesia também. Adora Mário Quintana, Vinicius de Moraes e Vitor Isensee, poeta, compositor e integrante de bandas como Forfun e Braza. Isso talvez o ajude muito em seu projeto de música autoral. Gabriel já tem 15 músicas próprias e sonha em gravar um CD. “Meu sonho seria poder viver da música, que o pessoal pudesse acompanhar meu trabalho e fazer que eu possa viajar pelo Brasil inteiro tocando minha música.”

Mais vivo a cada segundo

RUMBO TUMBA - PHWEB

Rumbo Tumba, grupo argentino de um homem só, lança seu terceiro disco com a fusão instrumental entre as músicas andina e eletrônica

Roger Marzochi, do entresons

A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só.

Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música, no YouTube e neste site. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

Músico intuitivo, Salgado vai além do que já disse Pablo Ziegler, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino de 2018, sobre os músicos jovens em entrevista ao entresons. “Para além do tipo de fusão, eu acredito que os músicos jovens devem se aventurar na investigação, e deixar de seguir professor, livros e, muito menos, o que quer a audiência. O músico jovem deve investigar o seu interior para expressá-lo de uma forma artística pura e sincera”, afirma Salgado. Abaixo, você acompanha a entrevista deste músico inspirador.

 

Em que cidade você nasceu? Como a música fez parte de sua vida?

Nasci na cidade de Campana e a música chegou em minha vida na adolescência com o punk rock. Passei muitos anos tocando punk e hard core e muitos anos mais com o rock experimental.

Qual foi o primeiro instrumento que você aprendeu a tocar? Quantos instrumentos você toca hoje?

Comecei com o baixo, mas logo depois de uma viagem pelo norte da Argentina, Bolívia e Peru eu me apaixonei pela música andina do charango, instrumento que conduz as melodias de Rumbo Tumba. E também toco instrumentos de sopro andinos e um pouco de percussão. Mas sempre sobre a perspectiva da experimentação, pois nunca estudo tocar os instrumentos de modo tradicional. Eu aprendo a tocar passando tempo com os instrumentos, somos grandes amigos.

Como foi a criação de Rumbo Tumba? Parece que seu avô teve uma participação especial na decisão sobre o nome da banda. É verdade?

A ideia do projeto surge depois da viagem que fiz pela região andina, por volta de 2006. Voltei enamorado pela cultura andina, sua música, suas paisagens, sua comida, tudo. Essa experiência realmente me transformou. Mas, ao regressar, todos os meus amigos punks não queriam tocar essa música. Então, eu comecei a gravar coisas sozinho, em casa. Mas, seis anos depois, em 2012, tomei coragem em ser solista e comecei a tocar ao vivo e lancei um disco.

Meu avô sempre me lembra que estamos morrendo a cada dia. E, por isso, precisamos desfrutar a vida 100%. É daí que vem Rumbo Tumba (A caminho da tumba). Isso é para não se esquecer para onde vamos nós todos. E um modo de estar o mais vivo o possível a cada segundo.

Porque continua tocando sozinho. Você também faz parte de outras bandas em Buenos Aires?

Como disse anteriormente, no momento em que comecei a experiência com a música sul-americanca e andina, em particular, o círculo de músicos que eu frequentava era do punk e rock. Então, ninguém quis me seguir. Anos mais tarde me tornei amigo da tecnologia e me dei conta que podia levar adiante um show solo. E aqui estou hoje, tocando com Rumbo Tumba há seis anos. Mas também faço parte de um projeto chamado Ensamble Folclórico Digital, que conjuga os sons de raíz e a nova música eletrônica. Eu me apresento ocasionalmente com o DJ Villa Diamante.

Quais são os benefícios de ser uma banda de um só homem?

Eu te respondo com uma pergunta. Quais são os benefícios de ser uma pessoa só no mundo? Há coisas a favor e contra, mas tudo depende do tipo de pessoa que você é. Eu sempre estou trabalhando com outras pessoas em outros projetos, mas realmente preciso de espaço para desenvolver meu ser individual. E, desse modo, também voltar mais completo para o espaço de criação coletiva. E esse espaço, para mim, é o Rumbo Tumba.

Poderia dar exemplos de canções e artistas do universo da música andina que te inspiram até hoje?

Não sou de escutar muita música. Mas se existe algo que sempre volto a escutar é o folclore andino tradicional. Artistas como Jaime Torres, Illiapu, Ínti Illimani e, principalmente, Los Jaivas, que fizeram minha cabeça com sua mistura de rock progressivo e música andina, dois dos meus estilos preferidos.

Como é o seu processo de compor canções?

Eu me agarro aos meus instrumentos e toco. Assim, simples, improvisando sempre. Logo pego as partes dessas improvisações de que eu gostei e começo a produzir e apurar, até que fiquem de um modo que me agrade. E que seja possível tocá-las ao vivo no formato que utilizo, quer dizer, um homem-orquestra fazendo looping ao vivo.

Como você descobriu os equipamentos eletrônicos de looping e quão importante eles são em suas composições?

Descobri o loop quando me dei conta que deveria fazer esse projeto sozinho. Olhava muitos vídeos sobre isso, até que juntei dinheiro e comprei o primeiro, BOSS RC50. Eu me apaixonei e compus em uma semana meu primeiro EP “Groove Andina”. Um material que levei em um tour pelo Brasil. Nos primeiros anos de Rumbo Tumba eu toquei mais no Brasil que na Argentina. É a minha forma de compor. O looper é muito limitado, mas eu gosto muito de trabalhar com limitações, com poucos elementos e ferramentas para sempre exploradas aos máximo em suas ideias. Essa forma de fazer música me faz sentir muito melhor do que usar um software, no qual você tem infinitas ferramentas.

Na última sexta-feira, dia 29 de junho, você lançou o disco “Madera Sur”. Como foi fazer este trabalho? Quais foram suas principais inspirações?

Como deixa bem claro o nome Madera Sur, a inspiração desse disco é o continente da América do Sul e da madeira que nele todo vive, mesmo que depois de morta. Uma frase de Atahualpa Yupanki é muito clara nesse sentido: “Antes de ser um instrumento, o violão foi uma árvore onde cantavam pássaros. A madeira sabia de música muito antes de ser um instrumento”. Cabe destacar que todos os instrumentos que soam no disco foram construídos especialmente para o projeto por luthies com madeiras nativas do Continente.

Tem planos de tocar no Brasil?

Estamos preparando um tour assim que voltarmos dos nossos na Europa, entre outubro ou dezembro. Estou morrendo de vontade de voltar ao Brasil.

Em recente entrevista ao blog entresons, Pablo Ziegler, argentino que venceu o grammy de Melhor algum de Jazz Latino de 2018 com o CD “Jazz Tango”, afirmou que os instrumentistas jovens de jazz deve se aventurar na fusão com outros gêneros musicais para rejuvenescer a audiência. Você considera que Rumbo Tumba seja uma fusão de música folcólica com jazz ou música eletrônica? Você sonha em conquistar um Grammy?

Rumbo Tumba é uma fusão que utiliza instrumentos de povos andinos com tecnologia, especificamente um Looper e suas ferramentas e limitações para dar forma à música. Para além do tipo de fusão, eu acredito que os músicos jovens deve se aventurar na investigação, e deixar de seguir professor, livros e, muito menos, o que quer a audiência. O músico jovem deve investigar o seu interior para expressá-lo de uma forma artística pura e sincera. Se decidimos antes de criar algo que será jazz ou folclore, por exemplo, já estamos limitando bastante, ainda mais se pensarmos no que quer a audiência, o que reduz muitíssimo o espectro de criação. Mas bom, está bem. Eu também respeito essa forma de criação, mas eu gosto de outra coisa. Eu toquei punk e hard core por dez anos, outros sete anos de música instrumental psicodélica pós rock-progressivo. E, em um momento, eu me agarrei aos instrumentos folclóricos, passei anos investigando e nasceu Rumbo Rumba, que hoje se cataloga dentro da cena que mescla a fusão do folclore com elementos eletrônicos. Mas jamais na hora da concepção pensei em fazer tal ou qual coisa, quando fiz nem sabia que existia. Eu estou em meu sonho, um dia antes saiu meu novo disco “Madera Sur” e no dia seguinte eu o toquei pela primeira vez em um incrível festival em Hungria. Depois de tocar, comprei um vinho e o tomei na companhia de gente querida que conheci aqui, olhando a lua deitados na grama.

Brasil e Argentina são rivais no futebol. Há também estranhamento na área cultural. Em sua avaliação, a língua é uma barreira cultural entre os dois países? Acredita que o futebol, ao invés de unir, separa nossos países?

O futebol separa, e isso está claro. Mas é ao contrário o que ocorre na arte, fiz muitos tours pelo Brasil, em projetos distintos há dez anos. Corri pelo País do Rio Grande do Sul até o mais profundo Nordeste. E tenho recordações maravilhosas e grandes amigos. O idioma é o portunhol, que é perfeitamente possível de se entender em ambos os países.

 

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