• Angela_Conner_'Renaissance'_water_sculpture,_Hatfield_House,_Hertfordshire,_England_1

    Escultor das águas

    Pode ser uma fina garoa, as ondas do mar ou um tufão junto com rodamoinho no oceano ao mesmo tempo. Assim como o meio ambiente dá forma à água, Ivo Perelman molda o som de seu saxofone da mesma forma impressionante. Em seus últimos dois discos é possível perceber, de formas muito bem distintas, essa sua capacidade. Em “Efflorescence”, caixa com quatro CDs lançada em outubro, o músico brasileiro, em parceria com o pianista americano Matthew Shipp, expressa uma suavidade inventiva e inspiradora, até mesmo romântica; enquanto que em “Ineffable Joy”, lançado em novembro, afoga o ouvinte nas piores tormentas inimagináveis. “As notas (musicais) são como a água – elas tomam a forma de quem as está usando. O seu Dó pode fazer alguém chorar, mas o Dó de outra pessoa pode fazer alguém rir. Essa é a beleza da criação: não temos que seguir a mesma linha para conseguir os mesmos resultados”, disse Ornette Coleman, saxofonista americano, um dos principais criadores do free-jazz, em entrevista à revista Down Beat, em 1986, segundo citação da Coleção Folha Clássicos do Jazz.

  • BAIXA de San-São Trio

    Velha Maluca embarca em grupo bíblico: San-São Trio

    Em janeiro de 2018, eu visitei a casa da multi-instrumentista Lea Freire, em São Paulo. Deixei o local extremamente inspirado. Ela é uma artista maravilhosa, com uma história de vida muito bonita, capaz de produzir um som incrível e em dar dicas valiosas: é preciso errar. “Minha teoria é que quando você acerta, você está fazendo o que já sabe. Você só faz o novo quando erra”, disse-me, na matéria “Irresistivelmente Maluca”. E eis que mais uma novidade de Lea Freire vem ao mundo: “Novos Caminhos”, CD no qual Lea se uniu ao parceiro de longa data, o pianista Amilton Godoy, e ao saxofonista e clarinetista americano Harvey Wainapel.

  • Heitor_tres_escada

    A primavera de Heitor Branquinho

    Músicas de amor geralmente são endereçadas a companheiras, companheiros e companheirxs. Gente de carne e osso. O mineiro Heitor Branquinho, nascido em Três Pontas, mesma cidade na qual viveu Milton Nascimento e com quem o jovem compositor e cantor teve o privilégio de se somar ao palco em diversos momentos, direciona a sua paixão ao seu retorno à música em “Três”, seu terceiro disco após 11 anos de “um Branquinho e um violão”, no qual apresentava suas composições acompanhado apenas de seu violão com cordas de nylon. Gravado no segundo semestre de 2018, o álbum vinha sendo construído sem pressa desde 2015, com a parceria do saxofonista Décio “Buga” Jr. E, agora, Heitor toca violão com cordas de aço e, em alguns momentos, contrabaixo elétrico, sendo acompanhado de bateria, saxofone, flauta. Em alguns momentos, entram em cena também piano, violoncelos e até guitarras em uma canção. Com inspiração profunda em Milton Nascimento, especialmente no período do eterno Clube da Esquina, e pitadas de rock e pop de Nando Reis, o álbum ainda tem a participação do maestro e também conterrâneo Wagner Tiso em arranjos para cordas e piano.

  • Caboclo Pena Verde

    No tom da fé

    A música é ciência e, paradoxalmente, religião. Aceitando a acepção dessa palavra do grego “religare”, de atar novamente, de reconexão com as origens, o uso da música para ascender ao sagrado é tão antigo quanto a humanidade. E vem do eco ancestral dos primeiros tambores a soarem na África o primeiro disco digital do Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, localizado na zona oeste de São Paulo. Lançado em agosto de 2019 nas plataformas digitais, o CD tem 18 canções próprias, compostas por membros da congregação e pela dirigente espiritual da casa, Rosângela Bologna. Nem sempre as canções são exatamente as mesmas utilizadas no ritual religioso, mas são expressões artísticas fundamentadas na fé. “A Umbanda tem toda essa relação da musicalidade, que ajudar na estrutura de energia da casa, ao trazer a história de seu guia e o orixá trazem. Quando tem oportunidade, a gente canta. A ideia era fazer um álbum de pontos, de guias de orixá. Mas reestruturando acabaram entrando outros instrumentos e ficou mais uma música de Umbanda para a gente ouvir ao invés do ponto tradicional”, explica Rosângela, que sonhava com o projeto há seis anos.

  • Bruna Moraes1

    Bruna Moraes despe a humanidade em “Nua”

    É impossível sair ileso após ouvir “Nua”, o segundo CD da violonista, compositora e cantora paulistana Bruna Moraes, lançado em abril de 2019 nas plataformas digitais. A densidade de sua voz, a gravidade de suas palavras, desencobrem a grossa camada de resistência à alteridade, poeira que a contemporaneidade tem depositado nos relacionamentos nas mais diversas camadas. A capa, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva. E Bruna Moraes revela em suas canções o amor que mora na essência do ser humano, num mergulho perpendicular, o mesmo no qual o poeta Manuel Bandeira se jogou em “Nu”: para dentro do olhar líquido da amada, com o seu corpo reluzente como estrela, no qual “baixo até o mais fundo de teu ser, lá onde me sorri tu’alma, nua, nua, nua…” Com 24 anos de idade, Bruna Moraes comprova nesse novo disco que entrou definitivamente para a história da Música Popular Brasileira (MPB). O trabalho conta com a participação dos violonistas Romero Lubambo e André Fernandes. Cinco anos após o seu primeiro disco “Olho de Dentro”, ela retorna ousada, no estilo voz e violão, desafiando a indústria do entretenimento, pois seu show deixa marcas profundas.

  • Duo Quantum 2019-08-08 at 11.11.08

    Ciência e meio ambiente inspiram o CD “Quantum”

    Cientistas têm criado arte no Brasil, em um movimento que vem crescendo desde a década de 1960, refletindo um processo que ocorre em todo o mundo. Eles usam modelos matemáticos, microscópios, sensores, biossensores e algoritmos para fazer da técnica uma expressão lúdica e abstrata. A arte em si, no entanto, também é uma ciência, cujos métodos são muito diversos daqueles empregados pelo modelo cartesiano, que ainda exige prova em laboratório. A ciência da música é a capacidade de sentir e fazer sentir por meio de sons. A música não é matemática, não é física, apesar de as notas musicais e os instrumentos, na maioria das vezes, respeitarem leis dessas áreas do saber. “Em um primeiro momento, você conta o compasso. E, então, para de contar, pois você o internalizou. Você para de contar porque sente o número”, explica o pianista paulistano Daniel Grajew, que buscou inspiração na física quântica e no meio ambiente em “Quantum”, seu novo CD em parceria com o percussionista Túlio Araújo. Há participações especiais em várias composições, como Carlos Malta, Dani Gurgel, Jorge Continentino e Lea Freire. O disco foi feito sob encomenda do Savassi Festival, de Belo Horizonte, evento no qual os músicos realizaram o primeiro show do trabalho, em agosto deste ano.

  • Victoria Crédito Joana Peressinotto

    “Operação Riga” é um canto místico de liberdade

    Música é uma questão de gosto? A repórter e musicista Victória, protagonista do romance ficcional “Operação Riga – Sons entre a guerra e a sublimação”, de Roger Marzochi, sentirá na pele que o som pode destruir, construir e transcender. Enfrentando barreiras para publicar reportagens sobre música no Diário Brasileiro, recebendo muito pouco com as apresentações de sua banda de jazz, Victoria ainda descobrirá segredos sobre sua família que estão intrinsecamente ligados ao mistério dos sons, usados tanto para a guerra quanto para a cura. O ebook chegou na loja da Amazon no domingo, dia 18 de agosto.

  • Anais Karenin Exposição no Japão 1 Crédito Divulgação

    A estética da cura

    O artista plástico Roberto Burle Marx, reconhecido como um dos maiores paisagistas do mundo, usava plantas para fazer arte em seus jardins. Mas a busca pela natureza no fazer artístico extrapola o paisagismo. Jovens cientistas-artistas, empoderados com novas técnicas laboratoriais possibilitadas pelo avanço da tecnologia, vêm usando de plantas medicinais a bactérias para ressignificar conceitos como cura, memória e metodologia científica. Este é um ramo da bioarte, que lança um olhar lúdico para o mundo da biologia. A “aura” de uma obra de arte, expressão definida pelo filósofo alemão Walter Benjamin para identificar sua autenticidade, cuja emanação é possível na relação direta entre a obra e o observador no exato momento da fruição estética, é capaz de se transformar num verdadeiro “remédio social” ao se embrenhar nas intersecções da vida pessoal do expectador aos símbolos de sua cultura. Benjamin argumentava que, no momento que uma expressão artística é reproduzida pela técnica, como a fotografia, a sua aura desaparece. O tema, debatido avidamente na academia, especialmente num momento no qual a reprodutibilidade técnica alcançou seu ápice com a internet, chega à tona na bioarte.

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Textos

foto divulgação Alfredo Dias Gomes -creditos Thiago Kropf

Um som “Solar”

O multi-instrumentista Alfredo Dias Gomes, filho dos dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes, está lançando “Solar”, seu 11º disco autoral, com a participação do saxofonista e flautista Widor Santiago. Gomes assina as composições, algumas com mais de 30 anos, mas ainda inéditas em CD, além de tocar bateria e teclados. “Viajante”, a música que abre caminhos do trabalho, foi composta em 1980 a pedido de Janete, que à época queria um tema para um personagem interpretado por Tarcísio Meira na novela “Coração Alado”. O jovem baterista, que trabalhava nesse período na banda de Hermeto Pascoal, foi no coração do Brasil para representar esse personagem, que saíra do Nordeste para viver no Rio de Janeiro. O CD está disponível em streaming e meio físico, embora haja um problema ao ouvi-lo no Deezer. Exatamente aos 3 minutos e 36 segundos de “Viajante” nessa plataforma, a música dá um salto abrupto, coisa que não ocorre com o CD físico.

Vinicius Chagas Warzone

Jazz na zona de guerra

O jovem saxofonista Vinícius Chagas lança “Warzone”, seu seguindo trabalho autoral, com um som carregado em velocidade de execução e gritos muito próximos do completo desespero, desalento e desamor. Sua fascinação pelo jazz de Miles Davis e Charlie Parker estão nítidos em seu swing e na fotografia que escolheu para ilustrar o seu WhatsApp, embora suas dissonâncias o deixem mais próximo de Ornette Coleman e do free-jazz. Mas, afinal, por que você toca assim? Por que você grita? “Eu cresci em igreja evangélica, ouvindo muita música gospel. E música raiz, samba, por influência do meu pai. Isso está dentro da minha musicalidade. Tem uma coisa melódica, mas tem uma tristeza. Todos esses fragmentos são coisas da minha vida pessoal que se refletem na música”, explica o saxofonista. “A maneira de tocar vem da influência da minha vivência, minha personalidade. Reflete o jeito que eu toco, reflete mais a minha personalidade que o momento. As composições podem ter minha maneira de tocar, que desenvolvi há anos.”

Giba Estebez

Um todo mais que completo

O pianista paulistano Giba Estebez resgatou o conceito do “todo” como inspiração para o seu primeiro trabalho autoral, lançado em meados de 2018 nas plataformas de streaming. “Omni”, que vem do latim todo, inteiro, reúne dez composições autorais do músico, que além de acompanhar cantoras como Alaíde Costa, Claudette Soares e Patricia Marx, é um dos instrumentistas mais ativos da cena do jazz brasileiro. O CD físico deverá ser lançado em 2019, com realização de shows em São Paulo. As composições são inspiradíssimas, resultado de grande dedicação ao estudo musical, que deslanchou nos anos 1980, apresentando ao público diversos estilos entre jazz, samba-jazz, bossa nova e uma incrível fusão das tradições ocidental e oriental na peça que batiza o trabalho.

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