• Douglas Mam - Crédito da Foto de Antônio Borduque

    Na estante dos proibidos

    A minha esperança no “rock and roll raiz” brotou ao ouvir o álbum “Transmutante”, da atriz, compositora e cantora Tchella, lançado no ano passado e revisitado em versão acústica em show no dia 13 de julho. Agora, com “Fahrenheit”, disco de estreia do poeta, compositor e cantor Douglas Mam, definitivamente o poder de transformação do rock retoma à cena com força. Mam é um poeta muito próximo de artistas como Cazuza e Renato Russo. Ele se inspirou no livro “Fahrenheit 451”, do escritor Ray Bradubury, que prevê um futuro distópico no qual um governo autoritário proíbe a existência de qualquer livro. O clipe da música-título do disco, dirigido por Antônio Borduque, já está no ar, assim como as oito composições, que podem ser encontradas em aplicativos de streaming. O trabalho será comemorado, com o CD físico, em show às 21h, no dia 26 de julho, no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

  • João Gilberto (1983_ por Mario Luiz Thompson)

    “Vamos sentir a falta de João”, diz Chick Corea

    Os grandes ícones da música têm histórias inusitadas. O bruxo Hermeto Pascoal, por exemplo, gaba-se de ter nocauteado Miles Davis no ringue que o trompetista americano tinha dentro de sua própria casa. E, quem diria, João Gilberto não era apenas o gênio que inventou a bossa nova, mas também nutria grandes habilidades no pingue-pongue. Quem lembra da história é o pianista americano Chick Corea que, a pedido do entresons.com.br, escreveu uma breve homenagem ao músico brasileiro, que morreu no último sábado, dia 6 de julho. “Eu e todos nós vamos sentir a falta do João. Vamos amar a sua contribuição musical para sempre”, afirmou Corea, que no fim de junho lançou o novo álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, no qual o maestro revisita “Desafinado”, música de Tom Jobim e Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto.

  • Chick Corea2

    Um antídoto contra a violência

    Faça amor, não faça a guerra. E o amor pode se expressar de diversas maneiras. O pianista americano Chick Corea compartilha com o mundo a sua contribuição com essa máxima pacifista por meio de sua música, desde dos anos 1960. E, em 28 de junho, o músico com ascendência italiana, mas de coração latino, lançou o álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, com músicas dos álbuns “My Spanish Heart” (1976) e “Touchstone” (1982). Revisitar grandes clássicos que traduzem o amor de Corea pelo universo latino-americano contou com grandes músicos de diversas partes do mundo, como Cuba, Espanha e Venezuela. E, no jazz, especialmente para artistas que transpiram música como Corea, a música gravada nunca será exatamente a mesma daquela apresentada no palco, tornando uma das expressões musicais mais inovadoras do mundo.

  • Ivo Perelman1

    Mais veloz que a luz

    Os impressionistas buscavam captar a luz no exato momento da pintura. Artistas como Van Gogh, por exemplo, chegaram ao extremo. Em seu quadro “Noite Estrelada”, ele retratou a turbulência em espiral que flui na expansão da luz – fenômeno reconhecido até mesmo pela ciência. O saxofonista brasileiro Ivo Perelman vai além. “Quero não só captar a luz, mas tudo”, diz o músico, radicado nos Estados Unidos desde a década de 1980. “Eu tento captar a totalidade da minha experiência corpórea e espiritual, a fisicalidade que me rodeia. E a minha luta e o meu processo é ser cada vez mais honesto com essa captura. E mais eficiente. Busco tirar pensamentos estranhos e distrações e entrar na vibração simplesmente do ser como tal, como zen. Me mesclar com meu meio ambiente, com meus outros manos, com o planeta, com os planetas da Via Láctea e com o Universo. É uma experiência mística, eu nunca quis ser artista para outra coisa.” Expoente mundial do free-jazz, Perelman e o pianista americano Matthew Shipp se apresentarão em São Paulo, dias 11 e 12 de julho, no Sesc Pompeia, com vários motivos interplanetários para comemorar. Na semana da apresentação no Brasil, o duo lançará uma caixa com quatro CDs batizada de “Efflorescence”. Este será o centésimo trabalho da carreira de Perelman, 58 anos, que também completa 30 anos de estrada desde o seu primeiro trabalho, “Ivo”. Há 20 anos, o instrumentista se enveredou pelas artes plásticas e ainda lançará no próximo mês uma plataforma de exibição e de comércio eletrônico de suas obras.

  • Ebonit

    Ebonit, Ébonita!

    O saxofone paira sobre o inconsciente coletivo como um instrumento do jazz, mas sua amplitude é gigantesca, passando por grandes nomes do choro e do samba como Abel Ferreira, Pixinguinha e Paulo Moura, ao mundo da música erudita. Pelo fato de ter sido criado em 1840 na Bélgica, grandes compositores eruditos não chegaram a conhecer esse instrumento, que teve impulso no início do século 20 por personagens importantes como Claude Debussy. Mas se depender de um quarteto de saxofones formado na Holanda em 2011, a influência desse instrumento na música clássica será cada vez maior. O Ebonit Saxophone Quartet, que lançou no ano passado o CD “Arabesque”, em homenagem a Debussy, acredita que é uma questão de tempo para que o instrumento cresça no mundo da música clássica contemporânea. “Muitos dos grandes compositores eruditos não tiveram a chance de ‘ser apresentado’ a um saxofone. No entanto, os pais do saxofone clássico Marcel Mule e Sigurd Rascher fizeram um grande trabalho aproximando e convencendo muitos compositores de seu tempo a escreverem para esse instrumento”, diz a saxofonista polonesa Paulina Marta Kulesza, integrante do Ebonit, em entrevista por e-mail ao entresons.com.br. “E não podemos nos esquecer que existem muitos compositores hoje que já escreveram e estão dispostos a continuar escrevendo para o nosso instrumento. Deverá ser muito interessante olhar para essa questão daqui a 200 anos para ver o que mudará.”

  • Deep Meditations Memo Akten2

    Criatividade artificial

    A evolução da inteligência artificial chegou ao mundo da arte e da ciência, produzindo músicas, esculturas, pinturas e diagnósticos médicos. Até a capacidade de sonhar do ser humano, que poderia nos diferenciar das máquinas, poderá ser reinterpretada no momento de ascensão da computação quântica, cujo impacto na sociedade é imprevisível. Conheça um pouco da história de artistas e artistas-cientistas que estão preocupados com a mais tênue divisão entre seres biológicos humanos e robôs na busca por sentido estético e impulso criativo.

  • Público de 1975 - foto de arquivo pessoal Leivinha

    Além de documentário, “Woodstock brasileiro” deve ser lançado em CD e vinil

    Nem a direita, nem a esquerda. Foram os hippies que revolucionaram os padrões de comportamento durante a abertura lenta e gradual da Ditadura (1964 – 1985), a partir do governo de Ernesto Geisel, em 1974. É esta a mensagem de “O Barato de Iacanga”, documentário que será exibido em abril em São Paulo e Rio de Janeiro no festival “É Tudo Verdade”. Thiago Mattar, diretor do filme, está negociando com artistas que participaram do Festival de Águas Claras, na cidade paulista de Iacanga, entre 1975 e 1984, para lançar um CD com as gravações originais dos shows, que transitavam entre o rock e baião, com ícones como Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, João Gilberto, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Alceu Valença, Raul Seixas, Walter Franco, Jorge Mautner e Gilberto Gil. “O ideal seria fazer um álbum duplo. E aí entrariam duas músicas de cada artista. Eu acho que a gente precisa tornar esse material público. As pessoas precisam ouvir. Só o show do João daria um disco só dele. Existe uma máster, um original da gravação. E eu escutei e dá para lançar um disco ‘João Gilberto ao vivo em Águas Claras’”, diz Mattar.

  • foto divulgação Alfredo Dias Gomes -creditos Thiago Kropf

    Um som “Solar”

    O multi-instrumentista Alfredo Dias Gomes, filho dos dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes, está lançando “Solar”, seu 11º disco autoral, com a participação do saxofonista e flautista Widor Santiago. Gomes assina as composições, algumas com mais de 30 anos, mas ainda inéditas em CD, além de tocar bateria e teclados. “Viajante”, a música que abre caminhos do trabalho, foi composta em 1980 a pedido de Janete, que à época queria um tema para um personagem interpretado por Tarcísio Meira na novela “Coração Alado”. O jovem baterista, que trabalhava nesse período na banda de Hermeto Pascoal, foi no coração do Brasil para representar esse personagem, que saíra do Nordeste para viver no Rio de Janeiro. O CD está disponível em streaming e meio físico, embora haja um problema ao ouvi-lo no Deezer. Exatamente aos 3 minutos e 36 segundos de “Viajante” nessa plataforma, a música dá um salto abrupto, coisa que não ocorre com o CD físico.

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Textos

Ian Nain

Universidade da Vida

O caminho que se trilha é mais importante do que o lugar onde se quer chegar. É esse o espírito primordial da vida. Aos 25 anos, o músico Ian Nain está quase na metade do percurso que escolheu, já colhendo frutos com os mundos que movem seu alaúde e suas flautas orientais. O grande conhecimento da cultura oriental e a habilidade que conquistou com esses instrumentos musicais, no entanto, não são reflexo do estudo formal em uma instituição de ensino ou universidade. A vida, assim como o mundo acadêmico, é cheia de provas. E, no próximo dia 24 de março, Nain se apresentará sozinho com o alaúde, tocando sua mais recente pesquisa musical: os movimentos clássicos dos compositores mais influentes da música otomana.

Alfredo dias Gomes - creditos Acervo Pessoal do artista

Jam do Roquenrol Santeiro

O estilo de vida dos dramaturgos e novelistas Dias Gomes e Janete Clair inspirou profundamente a carreira de seus três filhos. O baiano Dias Gomes é o autor de peças como “Pé de Cabra”, “Eu Acuso o Céu”, “Zeca Diabo”, “Os Cinco Fugitivos do Juízo Final” e “O Berço do Herói”. Este último trabalho foi censurado pela Ditadura em 1965, acabou sendo adaptado para tevê em “Roque Santeiro”, mais foi censurado em 1975. A obra, com personagens fantásticos como Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), só ficou conhecida do público em 1985, quando teve início o processo de redemocratização. A mineira Janete Clair foi autora, por exemplo, de “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”. Ambos criavam seus personagens em casa. Logo após o café da manhã, cada um seguia para o seu escritório. O almoço e o jantar, reunidos na mesa com os filhos, eram os momentos em que os escritores contavam o que haviam criado naquele dia, num ambiente de muita alegria. “Eu acho que peguei a influência de vê-los criando, isso era muito legal”, diz Alfredo Dias Gomes, 58 anos, que não se tornou dramaturgo, mas baterista e compositor. No fim de janeiro, o músico lançou o CD “Jam”, seu 9º álbum em 25 anos de carreira solo.

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Universo alimenta samba e choro

O desfile da escola de samba de Martinho da Vila, a Vila Isabel, levou para a Sapucaí uma perspectiva histórica do impacto das descobertas tecnológicas que revolucionaram a sociedade. O samba, variação do antigo pulsar de tambores africanos, buscou inspiração na técnica. Mas há, igualmente, o caminho inverso: o de um cientista que, apesar de estar na linha de frente dos mais avançados estudos sobre o Universo, emite em direção ao espaço as ondas sonoras do choro, do samba, da música barroca e renascentista. Carlos Alexandre Wuensche tem 55 anos, é astrofísico, e sua principal paixão é escutar o Universo. Ele estuda há anos a chamada “radiação cósmica de fundo”, emissões de rádio que viajam pelo espaço até a Terra, reflexos da grande explosão que gerou o Big Bang, a força descomunal que teria criado planetas, estrelas e os sistemas estelares até hoje conhecidos pelo homem. “A radiação cósmica de fundo é uma coisa muito absorvente, os desafios são muito grandes”, explica o cientista, que estuda o processo de expansão do Universo e a energia escura. “Se não tivesse outra coisa para mudar o foco, eu ia ficar naquilo… não acho saudável. E a música foi sempre um balanço na minha vida.”

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