• eraumaveznooeste_ creditos versos polaris

    20 minutos e muita história

    “Meu amigo, meu compadre, meu irmão. Escreva sua história pelas suas próprias mãos.” Ao ouvir esse refrão, da música “Como Diria Dylan”, de Zé Geraldo, Douglas Man encontrou o seu caminho. Nascido no Jardim Imperador, em São Paulo, Douglas cresceu ouvindo modas de viola de duplas como Tonico e Tinoco. À época, algumas ruas do bairro da periferia da capital ainda eram de terra, o que deixavam mais naturais essas notas soltas no ar, criando um clima ainda maior de interior. “Eu comecei a ser tocado pela música de viola, a música sertaneja de raiz”, lembra. Ganhou um violão, aprendendo a tocar sozinho nos livrinhos que se vendiam em bancas de jornal. E foi com Zé Geraldo que, da década de 1990, ele teve a consciência que também poderia compor suas próprias músicas. Ainda neste ano, Douglas lançará seu primeiro trabalho autoral. Mas sua atuação se estende em diversas frentes, mas todas elas amarradas a um mesmo nó: cantar histórias. A música sertaneja de raiz lhe apresentou as primeiras histórias, que foram depois sendo ditadas por Bob Dylan, Zé Geraldo, Zé Ramalho, Renato Russo, Led Zepplin, Raul Seixas. De tal forma que Douglas considera “folk music” toda aquela canção que contar uma história.

  • Público de 1975 - foto de arquivo pessoal Leivinha

    Além de documentário, “Woodstock brasileiro” deve ser lançado em CD e vinil

    Nem a direita, nem a esquerda. Foram os hippies que revolucionaram os padrões de comportamento durante a abertura lenta e gradual da Ditadura (1964 – 1985), a partir do governo de Ernesto Geisel, em 1974. É esta a mensagem de “O Barato de Iacanga”, documentário que será exibido em abril em São Paulo e Rio de Janeiro no festival “É Tudo Verdade”. Thiago Mattar, diretor do filme, está negociando com artistas que participaram do Festival de Águas Claras, na cidade paulista de Iacanga, entre 1975 e 1984, para lançar um CD com as gravações originais dos shows, que transitavam entre o rock e baião, com ícones como Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, João Gilberto, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Alceu Valença, Raul Seixas, Walter Franco, Jorge Mautner e Gilberto Gil. “O ideal seria fazer um álbum duplo. E aí entrariam duas músicas de cada artista. Eu acho que a gente precisa tornar esse material público. As pessoas precisam ouvir. Só o show do João daria um disco só dele. Existe uma máster, um original da gravação. E eu escutei e dá para lançar um disco ‘João Gilberto ao vivo em Águas Claras’”, diz Mattar.

  • foto divulgação Alfredo Dias Gomes -creditos Thiago Kropf

    Um som “Solar”

    O multi-instrumentista Alfredo Dias Gomes, filho dos dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes, está lançando “Solar”, seu 11º disco autoral, com a participação do saxofonista e flautista Widor Santiago. Gomes assina as composições, algumas com mais de 30 anos, mas ainda inéditas em CD, além de tocar bateria e teclados. “Viajante”, a música que abre caminhos do trabalho, foi composta em 1980 a pedido de Janete, que à época queria um tema para um personagem interpretado por Tarcísio Meira na novela “Coração Alado”. O jovem baterista, que trabalhava nesse período na banda de Hermeto Pascoal, foi no coração do Brasil para representar esse personagem, que saíra do Nordeste para viver no Rio de Janeiro. O CD está disponível em streaming e meio físico, embora haja um problema ao ouvi-lo no Deezer. Exatamente aos 3 minutos e 36 segundos de “Viajante” nessa plataforma, a música dá um salto abrupto, coisa que não ocorre com o CD físico.

  • Vinicius Chagas Warzone

    Jazz na zona de guerra

    O jovem saxofonista Vinícius Chagas lança “Warzone”, seu seguindo trabalho autoral, com um som carregado em velocidade de execução e gritos muito próximos do completo desespero, desalento e desamor. Sua fascinação pelo jazz de Miles Davis e Charlie Parker estão nítidos em seu swing e na fotografia que escolheu para ilustrar o seu WhatsApp, embora suas dissonâncias o deixem mais próximo de Ornette Coleman e do free-jazz. Mas, afinal, por que você toca assim? Por que você grita? “Eu cresci em igreja evangélica, ouvindo muita música gospel. E música raiz, samba, por influência do meu pai. Isso está dentro da minha musicalidade. Tem uma coisa melódica, mas tem uma tristeza. Todos esses fragmentos são coisas da minha vida pessoal que se refletem na música”, explica o saxofonista. “A maneira de tocar vem da influência da minha vivência, minha personalidade. Reflete o jeito que eu toco, reflete mais a minha personalidade que o momento. As composições podem ter minha maneira de tocar, que desenvolvi há anos.”

  • Giba Estebez

    Um todo mais que completo

    O pianista paulistano Giba Estebez resgatou o conceito do “todo” como inspiração para o seu primeiro trabalho autoral, lançado em meados de 2018 nas plataformas de streaming. “Omni”, que vem do latim todo, inteiro, reúne dez composições autorais do músico, que além de acompanhar cantoras como Alaíde Costa, Claudette Soares e Patricia Marx, é um dos instrumentistas mais ativos da cena do jazz brasileiro. O CD físico deverá ser lançado em 2019, com realização de shows em São Paulo. As composições são inspiradíssimas, resultado de grande dedicação ao estudo musical, que deslanchou nos anos 1980, apresentando ao público diversos estilos entre jazz, samba-jazz, bossa nova e uma incrível fusão das tradições ocidental e oriental na peça que batiza o trabalho.

  • pixinguinha_e_jacob_do_bandolim-IMS

    Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

    Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.” Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia.

  • Dani Gurgel

    Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

    Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro. Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

  • Iuri Nicolsky

    Fôlego de Cachalote

    A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

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Textos

RUMBO TUMBA - PHWEB

Mais vivo a cada segundo

A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só. Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música e no YouTube. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

SOM D'LUNA - NESSE TREM 3

“Nesse Trem” a vida é boa

Os trens desenhados na capa do CD “Nesse Trem”, trabalho de estreia do grupo paraibano Som D’Luna, desafiam a gravidade. Eles rodam deitados em paredes de cubos, sobem morros em 90 graus, atravessam casas, divisando em seu horizonte o sol e a lua. A ideia foi fazer desse modo de transporte, tão maltratado no Brasil, uma metáfora da vida. “O trem passeia pelos cubos sem direção certa, sem gravidade. Isso é para simbolizar a vida da gente, que não tem uma direção certa. O que podemos fazer são escolhas”, explica Vitor Luna. Ele e o irmão gêmeo Diogo, acompanhados de uma excelente banda e produtor, conseguiram criar um CD com 11 músicas que irradiam poesia e otimismo, numa visão pró-ativa desse nosso trilho de cada dia. “A gente sempre diz que o intuito é ser um disco otimista, de levar boas energias para quem o escuta. ‘Que o som te leve a bons lugares’, essa é a dedicatória que faço em todos os discos que autografo. E isso é muito sincero.” Os cubos da capa também representam o ofício daquele que constrói a sua realidade, que transforma o seu mundo. Mas, para chegar a esse resultado, os irmãos Luna viram o “trem” quase virar de cabeça prá baixo. Não é coisa de mineiro! Calma lá! E se você chegou a ler até esse ponto, prepare-se porque o trem está partindo!

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

Nas asas de um mistério

Em meados da década de 1970, Sidemberg Rodrigues iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), ele contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

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