• Delia Fischer Mercado

    Amor para dar e vender

    A pianista, compositora e cantora Delia Fischer lançou no fim de agosto “Mercado”, videoclipe de música feita em parceria com Thiago Picchi. Com uma produção caseira, mas poderosa, a canção reflete sobre a máxima que dinheiro não compra o amor. E a trama se desenrola na relação da compra do amor de um homem, seja pelo desejo de uma mulher ou de outro homem. A questão é mais antiga que a história da humanidade, mas não deixa de ser contemporânea. Os reacionários ganharam a internet, com a disseminação do ódio e da moral hipócrita. E, como em uma obra de arte, Delia se despe de moralismos, embora transpareça a dor que o poeta sente do mundo: “os corpos se entendem, mas as almas não”, já dizia Manuel Bandeira. “Compre embalado seu namorado / Compras do coração / Bem a seu lado existe um mercado / Sempre à disposição”, diz a cantora.

  • 2Mula Sem Cabeça20150714_Serrinha_ResidenciaMusical_WalterCosta_MG_1378

    Camba(i)lhota

    “Quando eu vou assistir um concerto, um show, eu espero sair melhor do que entrei. Aquilo tem que transformar minha vida de alguma forma.” A frase do baterista e compositor Magno Bissoli, em entrevista a este blog em 2014, revela a transformação que a arte pode operar no público. E, entre os músicos, ocorrem transformações parecidas, ainda mais quando são realizadas as chamadas “residências artísticas”, que reúnem artistas de outras regiões e países. Em 2015, o festival Arte Serrinha, que é realizado em uma antiga fazenda que produzia café em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, promoveu pela primeira vez em sua história um encontro de músicos brasileiros e estrangeiros. Como resultado desse encontro, nasceram muitas músicas inéditas, eternizadas no CD-DVD “Música na Serrinha – 10 dias de criação”, lançado no início de setembro pela gravadora Núcleo Contemporâneo.

  • Maurício Mohamed - Crédito Foto José Cardoso

    Vida áspera, som aveludado

    A música quase perdeu Maurício Mohamed para o futebol. Aos 15 anos, o músico deixou de lado a flauta transversal que começara a estudar aos dez para partidas da principal paixão nacional. Azar da seleção brasileira, sorte da música instrumental. Em 2015, o flautista e saxofonista lançou “Velvet Sounds”, seu primeiro CD. O trabalho apresenta arranjos instrumentais para lados B de compositores como Tom Jobim, Milton Nascimento, Mozar Terra, João Donato. Desde então, Mauricio tem realizado apresentações dessas músicas nos bares de jazz de São Paulo. E, na mente, o gostinho de quero mais: o músico planeja um segundo CD, incluindo agora um dos mais antigos dos instrumentos musicais: a voz.

  • João Taubkin Foto Crédito de Antonio Brasiliano

    Um xamã fusion

    “Olha embaixo da sua cama!” João Taubkin, então com 14 anos, correu para o quarto, esperando encontrar um pedal de guitarra overdrive, que havia pedido de presente para o pai, o pianista Benjamim Taubkin, que viajara para um show nos Estados Unidos. Mas, para sua decepção, o que lá estava era um baixolão, um contrabaixo acústico, parecido com um violão. “Não foi amor à primeira vista”, diz o músico. Presentes inesperados como esse mudaram a vida do garoto para sempre. Hoje, compositor e baixista consagrado, João aprendeu a surpreender seu público, que poderá ver em setembro vídeos inéditos do artista nas redes sociais. O CD, enquanto objetivo máximo de um músico, já é coisa do passado na era digital. A produção de seus próprios projetos e a realização de shows, com muitos parceiros, transformou a vida do baixista em uma aventura frenética, com projetos sobre a confluência entre a música e a dança e a retomada de um som hipnótico que fizera em trio, e que agora terá nova formação em quarteto.

  • Eristhal Luz

    Purgatório aromático

    Era como se do teto descessem estalactites, por onde escorria um ácido, que queimava o corpo dos viventes. Foi essa sensação que tive, em 2010, ao ouvir a música “Purgatório” ao vivo, dentro de uma das salas de ensaio do Estúdio Z7, do guitarrista, humorista e filósofo bissexto Tadeu Martinez. A Boom Project Band, que à época era formada por Chico Leibholz (bateria), Miro Dantas (baixo e sintetizadores) e Eristhal Luz (guitarra), acabara de ser criada. A banda ensaiava com frequência nesse estúdio da Vila Madalena naquela época, fazendo um rock instrumental psicodélico, uma mistura de surf music com funk. Seguiram-se muitos shows, o lançamento do CD da banda em 2011, e também, algumas despedidas, que geraram ainda mais arte. O também artista plástico Miro Dantas resolveu se dedicar exclusivamente à pintura e ao estúdio de tatuagens, realizando um trabalho incrível. É dele, por exemplo, o projeto “Uma tatuagem por uma vida melhor”, no qual ajudou a recuperar a autoestima de mulheres que sofreram com o câncer de mama. Chico Leibholz está prestes a lançar um novo projeto, que se chamará Fluhe. “É instrumental trip noise”, define o baterista. E o guitarrista Eristhal Luz colocará na praça, nos próximos dias, “Aromáticas”, o seu primeiro trabalho autoral, que ficará disponível em plataformas de streaming de música.

  • Navio_negreiro_-_Rugendas_1830

    Nos porões da dor

    Há discos que são eternos, especialmente porque conseguem encontrar poesia onde há uma imensa dor. Letieres Leite, na Bahia, e Jorge Marciano, em São Paulo, são dois artistas mestres nesse campo, com trabalhos que expressam em arte o sofrimento dos negros trazidos da África para o Brasil.

  • Cesar Camargo1

    Canto, logo existo

    Em 2011, aos 21 anos, Cesar Camargo tomou uma dura decisão, que mudaria sua vida por completo. Contrariando a máxima de que não devemos desistir de nossos sonhos, Camargo estava decidido a parar de cantar. Nascido em Americana, no interior de São Paulo, em uma família pobre, Camargo teve contato desde muito cedo com a música, por meio da igreja na qual seus pais frequentavam. Aos seis anos, já puxava cantos do coral da comunidade e se apaixonou por música clássica, tornando-se fã de Tchaikovsky. Estudou teclado e fez aulas de canto na Escola de Música de Piracicaba. Aos 16 anos, já se apresentava em casamentos e integrou o coral Vocalis, do maestro Adilson Gombardi, seu primeiro padrinho no mundo da música. Por insistência do maestro Gombradi, Camargo se inscreveu no programa de talentos de Raul Gil, aos 17 anos. Em março de 2007, Camargo venceu o concurso, o que lhe abriu muitas portas, mas também o fez provar as gigantes barreiras para desenvolver a sua arte no Brasil.

  • Paulio Celé Jazz nos Fundos

    O tempo é agora

    “E se meu tempo não fosse agora” será o nome do primeiro CD do guitarrista, arranjador e compositor Paulio Celé. O trabalho, que deve ficar pronto entre agosto e setembro de 2017, vai enriquecer ainda mais a cena da música instrumental brasileira, mais especificamente, a da chamada Música Universal. A expressão, criada pelo multi-instrumentista Hermeto Pascoal, refere-se a um jeito de tocar que ressoa influências musicais planetárias, sem ser possível a definição de um gênero específico. Em fevereiro do ano passado, o guitarrista Alex Lameira também mergulhou nessa fonte, apresentando o seu primeiro CD, que está pleno desse espírito. O disco era para se chamar “Saudades do Sol”, mas com início das gravações em estúdio novas sensações apontaram para outros caminhos.

Textos

1Salomão Soares por Luan Cardoso

Um São João na Suíça

Aos 27 anos, o pianista, arranjador e compositor Salomão Soares é o único brasileiro e latino-americano entre os dez semifinalistas do Montreux Jazz Piano Solo Competition 2017, disputa que ocorrerá entre os dias 2 e 3 de julho na Suíça, que faz parte do renomado festival Montreux Jazz Festival, o segundo mais importante festival de jazz do mundo. O festival, que é realizado entre os dias 30 de junho a 15 de julho, nasceu em 1967 e se tornou uma das mais importantes vitrines da música popular brasileira, com apresentações histórias de Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Soares nasceu em Guarabira (PB) e foi criado em Cruz do Espírito Santo, também na Paraíba. Desde muito cedo teve a sua musicalidade despertada por influência do pai José – percussionista – e da mãe Maria José – violonista que brindava com música todas as festas da família. O músico cresceu num pedaço de Nordeste musicalmente privilegiado do Nordeste. Ao mesmo tempo em que começou a estudar teclado, entrou para a banda marcial tocando saxofone, batendo triângulo, zabumba e pandeiro, embalado pelas festas de São João. “Com certeza o forró do São João foi o mais importante na minha formação musical.”

Fernando Grecco - Foto de Tarita de Souza

Fernando Grecco se reinventa em “Repente da Palavra”

Fernando Grecco ficou conhecido no meio musical brasileiro por ter criado, em 2009, o selo Borandá. Essa iniciativa deu vida a novas obras de artistas importantes da MPB e da música instrumental brasileira, como Chico Saraiva, Marcelo Pretto, Swami Jr., Ná Ozzeti, Antonio Loureiro, Dani Gurgel, Toninho Ferragutti, Bebê Kramer, entre outros. O que poucos sabiam é que, no fundo do peito de Grecco, sempre bateu uma profunda vontade de tocar e compor. Essa pulsação artística foi materializada no dia 24 de maio de 2017, quando foi lançado, em plataformas digitais, e em versão física, o EP “Repente da Palavra”, com quatro canções autorais. “A partir do EP, meu desejo é trilhar o caminho como cantautor, músico e produtor musical. Até posso fazer produção executiva, mas meu objetivo agora é a música”, afirma o artista, que deixou o dia a dia do selo para se dedicar à arte. O lançamento do EP aconteceu nas plataformas digitais, e também como CD físico, que traz na capa a xilogravura “O Diálogo”, de Gilvan Samico (1928-2013).

Nos-SA-4-Foto-Fábio-Brazil

“Nós S/A” é uma defesa contundente da cultura

Não é fácil representar uma classe social, imagine então, toda uma sociedade. Mas foi bem isso o que conseguiu fazer “Nós S/A”, performance que o grupo de dança contemporânea do Instituto Caleidos, em São Paulo, apresentou entre os dias 10 a 19 de março. Em um momento em que vários grupos artísticos da cidade protestam contra o contingenciamento de 43,5% da verba da Secretaria de Educação de São Paulo, que inviabiliza espetáculos de teatro, dança e música, a diretora Isabel Marques, uma artista-educadora, levou o público a uma reflexão profunda não apenas do absurdo da administração João Dória (PSDB), mas a configuração de toda a sociedade, fundamentada no lucro exacerbado de poucos. “Nós S/A explora, por meio da dança, o universo da apropriação do espaço urbano pela lógica do mundo corporativo”, explica o folheto, entregue logo na entrada do espaço, criado em um antigo galpão na Lapa, zona oeste da capital. “O mundo dos negócios atuando sobre o espaço e sobre os corpos do mundo.”

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