• Ovelhas na Fazenda Santa Isabel Foto Divulgação

    Novelos de história

    Você já contou carneirinhos para conseguir dormir? Pois saiba que o trato desses animais inspira muito mais que o sono dos noctívagos. Em Piratini, no interior do Rio Grande do Sul, homens que retiram lãs de ovelhas sem o uso de máquinas, da forma mais tradicional possível, contam entre si histórias de assombrações das centenárias fazendas da região. Em Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, coletores de café também trabalham contando causos. É uma demonstração que vive forte a tradição oral apesar dos avanços da tecnologia. O trabalho é mais que um meio de se obter recursos financeiros para sobreviver. É, também, um ambiente de socialização que reforça vínculos afetivos e sociais. Resistem até hoje histórias que são contadas no ambiente de trabalho que servem tanto para reforçar tradições, cultivar a memória e relatar experiências de vida. Além de histórias da tradição oral, o trabalho também motiva a memória. A Receita Federal possuiu um projeto chamado “Histórias de Trabalho”, que registra em livros a experiência vivida por servidores no dia a dia de seus escritórios.

  • Gabriel Cobaia foto Facebook

    Batismo na Folia de Reis

    Gabriel Cobaia nasceu em Vinhedo, em 1997. Mas desde pequeno, ele viajava para Cambuquira (MG) para visitar o avô, que tocava violão na Folia de Reis. E, assim, todo início de ano, Gabriel se maravilhava com essa festa cristã, com influências africanas, espanholas e portuguesas, que comemora a peregrinação dos três reis magos ao local de nascimento de Jesus, em Belém. Não do Pará, mas da Judeia! Sem confusão, oh seu Matias Cão! “Eu acompanhava a folia, meu avô tocando. Eles iam passando de casa em casa, tocando nas casas e tinham as pessoas vestidas de palhaços. A população acompanhava até chegar na última casa, até ser servido um almoço para todo mundo que estava alí”, lembra Gabriel.

  • RUMBO TUMBA - PHWEB

    Mais vivo a cada segundo

    A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só. Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música e no YouTube. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

  • Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

    Nas asas de um mistério

    Em meados da década de 1970, Sidemberg Rodrigues iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), ele contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

  • Ulisses Rocha

    Renascimento

    A forma como reagimos às barreiras impostas pela vida faz toda a diferença. Há 20 anos, o violonista Ulisses Rocha sofre com o avanço de uma tendinite que, progressivamente, prejudica o seu desempenho técnico no instrumento. Esse foi um dos motivos que o levou a compor as músicas de “Só”, disco de 2011, um trabalho de uma espiritualidade elevada, que prescinde o virtuosismo. Após cinco anos trabalhando como professor convidado da Universidade da Flórida, Rocha está de volta ao Brasil. Deixou o ruído de São Paulo para morar junta às ondas do mar, em Ilha Bela. E acaba de lançar sua mais nova resposta às dificuldades técnicas que o corpo lhe impõe: “o quinteto”, CD no qual Rocha não está mais só (e nunca esteve). Mas, agora, tem ainda os companheiros Ivan Vilela (viola caipira), Raiff Dantas Barreto (cello), Walmir Gil (trompete e flugelhorn) e Vitor Loureiro (baixo).

  • Alfredo dias Gomes - creditos Acervo Pessoal do artista

    Jam do Roquenrol Santeiro

    O estilo de vida dos dramaturgos e novelistas Dias Gomes e Janete Clair inspirou profundamente a carreira de seus três filhos. O baiano Dias Gomes é o autor de peças como “Pé de Cabra”, “Eu Acuso o Céu”, “Zeca Diabo”, “Os Cinco Fugitivos do Juízo Final” e “O Berço do Herói”. Este último trabalho foi censurado pela Ditadura em 1965, acabou sendo adaptado para tevê em “Roque Santeiro”, mais foi censurado em 1975. A obra, com personagens fantásticos como Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), só ficou conhecida do público em 1985, quando teve início o processo de redemocratização. A mineira Janete Clair foi autora, por exemplo, de “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”. Ambos criavam seus personagens em casa. Logo após o café da manhã, cada um seguia para o seu escritório. O almoço e o jantar, reunidos na mesa com os filhos, eram os momentos em que os escritores contavam o que haviam criado naquele dia, num ambiente de muita alegria. “Eu acho que peguei a influência de vê-los criando, isso era muito legal”, diz Alfredo Dias Gomes, 58 anos, que não se tornou dramaturgo, mas baterista e compositor. No fim de janeiro, o músico lançou o CD “Jam”, seu 9º álbum em 25 anos de carreira solo.

  • Jazz Tango Grammy

    A vitória da fusão

    Os jazzistas jovens devem experimentar mais dentro do jazz, buscando sua fusão com outros gêneros, para conseguir rejuvenescer a audiência. Essa é a opinião do pianista argentino Pablo Ziegler, que na semana passada conquistou o Grammy 2018 de Melhor Álbum de Jazz Latino com “Jazz Tango”, um trabalho belíssimo que deixa sua marca na história da música ao expandir a tradição da música argentina para as fronteiras elásticas do jazz. “Essa é a única forma de descobrir sua própria voz. Não importa de onde vem a inspiração. Pode ser Jazz Tango, Jazz Folclore, Jazz Malambo, Jazz Candombe, etc. A chave é ser verdadeiro com você mesmo dentro da música”, diz o instrumentista e compositor, em entrevista por e-mail ao entresons.

  • Léa Freire Credito Roger Marzochi1

    Irresistivelmente “maluca”

    Uma casa simples, numa rua calma. Uma raridade na cidade de São Paulo. No portão, dois avisos: uma placa com a imagem de um cão feroz, para afastar curiosos; ao lado, o desenho de uma mulher com olhos esbugalhados, riscado em um papel envolto em plástico, no qual se pode ler: “Cuidado, Velha Maluca!” Confirmado o número da casa, não há dúvida que, ao apertar a campainha, finalmente encontraria com a multi-instrumentista Léa Freire, que completa 45 anos de carreira. O surto de febre amarela prejudicou o início da gravação de um novo disco com o pianista Amilton Godoy na semana passada, mas os planos da compositora são firmes em apresentar ao público em 2018 cinco CDs, com trabalhos autorais, novos arranjos para expoentes da música popular brasileira e obras de artistas que sobrevoam nas asas da Maritaca, selo da artista que tem nos olhos o brilho da juventude. E, ainda, arranjos de música própria para orquestra, algo que ousou fazer com sucesso em “Cartas Brasileiras” (2007), trabalho no qual faz homenagem ao seu bairro, “Vila Ipojuca”. Na sexta-feira, 2 de fevereiro, Amilton e Léa lançam “A Mil Tons”, no Sesc Pompeia, em São Paulo, com composições do instrumentista que integrou o Zimbo Trio.

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Textos

Calma2

Som, paz e sustentabilidade

Quem já teve a oportunidade de participar de uma meditação do Tambores Flow com a presença de Rico Verenito pôde viajar pelo universo profundo aos sons de sua cítara maravilhosa. Sua simples presença já transborda paz, seus alongamentos antes de começar a tocar lembram que a música é também extensão da memória muscular. Mas sua atuação no projeto que une música e meditação, dirigido pela meditadora Monica Jurado, é uma das pontas do imenso iceberg que esse multi-instrumentista construiu ao longo de seus 43 anos de idade. O músico está promovendo o pré-lançamento do C’Alma, espaço ecocultural localizado no Tatuapé, em São Paulo, com dois workshops sobre o aproveitamento da água da chuva e a construção de telhados verdes. O local, com 800 metros quadrados, receberá ainda cursos que introduzem os conceitos da música clássica indiana, música das esferas e discussões sobre qualidade de vida e alimentação.

Francisco Lobo Pedras 21

Uma pedra no caminho

Desde pequeno, sempre fui interessado pelo formato de pedras e pedregulhos. Com seis anos, guardei por muito tempo como amuleto uma “pedra-infinito”, com formato de número oito, praticamente duas bolinhas grudadas pela natureza. Em 2007, comemorei a decisão pelo nome de meu filho, definido naquele momento em uma praia de Caraguatatuba, mergulhando no mar para coletar uma das várias pedras que haviam no fundo, um macuco que guardo até hoje e que já foi tema de redação na escola do meu filho. As pedras vão muito além de item de colecionadores. Pedras e cristais têm sido usados há milênios pela humanidade em processos de cura. Cada gema tem propriedades específicas, que podem ajudar desde o combate à depressão a melhoraria da memória, como ametista, quartzo-rosa e jade. E até hoje ainda são usadas de várias formas por músicos e especialistas como massoterapeutas, meditadores, terapeutas holísticos e acupunturistas.

Luis Leite PB

Uma meditação latino-americana

Por mais revoltante e injusto que o mundo nos pareça, só com amor é possível mudar a nossa perspectiva para uma sociedade mais justa. “Vento Sul”, o terceiro CD autoral do violonista carioca Luis Leite, dá grande colaboração nesse sentido ao fazer um convite a um tipo de introspecção que não tem nada de passivo. Lançado no final de 2017, o trabalho pode ser considerado um mergulho na essência da América Latina, de suas veias até hoje abertas, e um forte estímulo para a meditação sobre quem somos, o que queremos e para onde vamos. O disco físico pode ser adquirido pelo site do artista (R$ 30) ou por download no mesmo endereço eletrônico (R$ 15). O violinista não disponibilizou o CD em plataformas de streaming por questões estéticas e econômicas.

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