Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

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Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.” Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia.

“A benção, vô!”

Bruno Firmino

“A benção, vô!” Bruno Firmino disse isso apertando firme as mãos do avô, o cantor Natalício Santos, conhecido como Trovador do Norte. Bruno tinha apenas 15 anos e se encontrava com o músico pela primeira vez na vida. Ouvia muito as histórias do velho, que lançou dois discos de forró pé-de-serra. Em sites de venda pela internet, como no Mercado Livre, um dos bolachões chega a valer R$ 1,2 mil. “Peguei na mão dele, isso ficou gravado na minha memória. Ele me olhou e disse: ‘Quem é esse?’ Era tanto filho e neto – só com a minha avó ele teve 20 filhos, fora os que ele tem por aí. Foi uma emoção muito grande”, lembra Bruno, em entrevista no dia 27 de março de 2018, em uma espera de 21 horas para descarregar o caminhão de farelo de soja no terminal rodoferroviário da Rumo Logística, na cidade de Alto Araguaia, no Mato Grosso. A entrevista com Bruno foi possível devido ao Caminhos da Safra, projeto da revista Globo Rural para mostrar o escoamento da produção agrícola do campo até portos, ferrovias, rodovias e hidrovias. No segundo percurso da série, trabalhei como repórter free-lancer para o projeto. Junto com o repórter fotográfico Fernando Martinho e os instrutores de direção da Scania Aylon José dos Santos e Juarez Reis Ferri percorremos 2.030 quilômetros de Cuiabá a Santos, contando com a volta a São Paulo. Com a permissão da publicação, a história de Bruno está sendo contada pelo entresons.

O tempo é agora

Paulio Celé Jazz nos Fundos

“E se meu tempo não fosse agora” será o nome do primeiro CD do guitarrista, arranjador e compositor Paulio Celé. O trabalho, que deve ficar pronto entre agosto e setembro de 2017, vai enriquecer ainda mais a cena da música instrumental brasileira, mais especificamente, a da chamada Música Universal. A expressão, criada pelo multi-instrumentista Hermeto Pascoal, refere-se a um jeito de tocar que ressoa influências musicais planetárias, sem ser possível a definição de um gênero específico. Em fevereiro do ano passado, o guitarrista Alex Lameira também mergulhou nessa fonte, apresentando o seu primeiro CD, que está pleno desse espírito. O disco era para se chamar “Saudades do Sol”, mas com início das gravações em estúdio novas sensações apontaram para outros caminhos.

Hermeto e Heraldo provam sua juventude

Heraldo e Hermeto no Programa Metrópolis da TV Cultura Imagem YouTube

“Querer saber sem sentir é o mesmo que querer ter fé sem ter esperança.” Essa foi uma das diversas frases poéticas ditas por Hermeto Pascoal no sábado (11/03), durante show com o guitarrista Heraldo do Monte, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Esta frase, especialmente, revela importantes características deste show e, também, da essência do que o músico batizou de “Música Universal”. “Música Universal é a música que está mais perto do céu, é a música que vai unir o mundo”, afirmou Hermeto. Os dois companheiros de longa data realizaram um show sem qualquer ensaio e, nem mesmo, repertório, como Heraldo havia explicado, na semana passada, ao entresons. A ideia da apresentação, que foi também celebrada no domingo, foi a de tocar a música que surgisse no palco, no momento. Uma hora, Hermeto desafiava Heraldo, começando no piano uma canção; depois, era a vez de Heraldo apresentar um tema. Em um tom muito bem-humorado e sem qualquer arranjo pré-definido, esses músicos incríveis, que já passaram dos 80 anos, deram uma pequena amostra do fascinante universo da explosão de constelações sonoras.

H2I: a química da improvisação

edHermeto Pascoal Gargolândia foto de Matheus José Maria

Após um ano, os multi-instrumentistas Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte compartilharão o mesmo palco nos shows de sábado e domingo, dias 11 e 12 de março, no Sesc Pinheiros. Os músicos se conheceram na década de 1960 quando integraram o lendário Quarteto Novo. A banda, além de acompanhar o cantor e compositor Geraldo Vandré, também gravou um disco precioso, que agora completa 50 anos. Mas não é de passado que vive essa dupla, que já completaram 80 primaveras. “No show queremos nos surpreender para, assim, surpreender o público”, conta Heraldo, que completa 82 anos no dia 1 de maio. “Hermeto mora no Rio. Eu moro em São Paulo. Não sei o que vai acontecer no palco, porque não vamos ensaiar nada”, explica o músico, que não tem a mínima ideia das músicas que tocará ao lado do parceiro de longa data. “Talvez, a gente combine um tema para improvisar em cima.”

Alex Lameira no oceano da Música Universal

Alex Lameira

Quando você pergunta a alguém se conhece o trabalho de Hermeto Pascoal vai dizer que nunca ouviu falar ou, no máximo, vai lembrar do músico tocando algum instrumento exótico, como uma chaleira cheia de água. Sim, ele toca qualquer instrumento, especialmente aqueles que não são convencionais. Mas, por falta de um sistema justo de difusão de arte, talvez nunca tenha ouvido “Amor, Paz e Esperança”. Sua genialidade em fundir música brasileira com jazz e sua peculiar forma de compor o levaram a criar um sistema de chamado Música Universal. O guitarrista Alex Lameira bebeu nessa fonte e lançou em fevereiro de 2016 o seu primeiro CD com essa pegada, com uma arte de capa que mergulha nesse universo.

Hermeto Pascoal toca com big band em Campinas no domingo

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O “bruxo” Hermeto Pascoal chega a Campinas com suas geniais invencionices para show único com Big Band, no dia 14 de setembro (domingo), às 16h, na Concha Acústica do Taquaral. A entrada é gratuita. A apresentação encerra a temporada do projeto Movimento Grandes Bandas Grandes – promovida pela Prefeitura de Campinas, por meio da Secretaria de Cultura e Almanaque Café, em parceria com o produtor Tiago Gomes – que trouxe, ao longo do ano, alguns dos principais coletivos do gênero em atividade no País.

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