Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Dani Gurgel

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro. Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Fôlego de Cachalote

Iuri Nicolsky

A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

Mais vivo a cada segundo

RUMBO TUMBA - PHWEB

A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só. Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música e no YouTube. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

Nas asas de um mistério

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

Em meados da década de 1970, Sidemberg Rodrigues iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), ele contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

Menos é muito mais!

Taubkin & Bahule

Não é preciso grandes formações musicais, orquestras gigantes, para se criar música de qualidade. Dois duos criados em São Paulo no ano passado, Taubkin e Bahule e Lume, estão produzindo uma música de altíssima qualidade sem perder a simplicidade do pop, capaz de se comunicar até mesmo com quem prefere única e exclusivamente música de entretenimento, que é a prioridade número um da grande mídia. O duo Lume é formado pelos multi-instrumentistas Luana Baptista, nascida no Uruguai, e o brasileiro Gui Augusto. Essa dupla lançou nesta semana o primeiro CD que leva o nome do projeto, com nove músicas autorais explorando a confluência da musicalidade do português e do espanhol. A maioria das músicas, com letras profundas vindas direto da alma, é de autoria da dupla. Mas “Sou”, com letra de Flávio Tris, tem um vídeo incrível no Youtube, com 3,6 mil acessos. Já o duo Taubkin e Bahule é formado pelo contrabaixista brasileiro João Taubkin e a multi-instrumentista moçambicana Lenna Bahule.

Sem fronteiras

Mariano Telles Créditos - Patrick Rigon

Mariano Telles tem 29 anos, mora hoje em Porto Alegre e, ano passado, lançou “Ária Metropolitana”. Neste seu primeiro CD autoral, o violonista faz uma viagem musical misturando música erudita, a música popular brasileira e a música regional do Sul, deixando escapar, sem querer, influências de dois Gonzagas: Chiquinha e Luiz. Sobrevivendo hoje como professor de violão, Telles tem a expectativa de realizar ainda mais dois shows do seu trabalho na capital gaúcha até junho. Mas vem batalhando mesmo para conseguir espaço nos Estados de Minas Gerais e São Paulo. Em oito faixas, o violonista prova que tem capacidade para conquistar um público maior, especialmente à medida em que deixa a criatividade voar mais alto que a técnica. Em quatro música, há participações especialíssimas das cantoras líricas Clarisse Diefenthäler (mezzo soprano) e Cynthia Barcelos (soprano). “Tudo que faço está bem na zona de fronteira (entre o erudito e o popular). Eu tenho interesse em estar antenado na música moderna, música erudita e pop, mas tenho lado mais tradicional. Como cresci na zona rural, eu me descobri em Porto Alegre um bicho urbano”, diz ele, que viveu até a adolescência em Taquara, região metropolitana de Porto Alegre.

Renascimento

Ulisses Rocha

A forma como reagimos às barreiras impostas pela vida faz toda a diferença. Há 20 anos, o violonista Ulisses Rocha sofre com o avanço de uma tendinite que, progressivamente, prejudica o seu desempenho técnico no instrumento. Esse foi um dos motivos que o levou a compor as músicas de “Só”, disco de 2011, um trabalho de uma espiritualidade elevada, que prescinde o virtuosismo. Após cinco anos trabalhando como professor convidado da Universidade da Flórida, Rocha está de volta ao Brasil. Deixou o ruído de São Paulo para morar junta às ondas do mar, em Ilha Bela. E acaba de lançar sua mais nova resposta às dificuldades técnicas que o corpo lhe impõe: “o quinteto”, CD no qual Rocha não está mais só (e nunca esteve). Mas, agora, tem ainda os companheiros Ivan Vilela (viola caipira), Raiff Dantas Barreto (cello), Walmir Gil (trompete e flugelhorn) e Vitor Loureiro (baixo).

Universidade da Vida

Ian Nain

O caminho que se trilha é mais importante do que o lugar onde se quer chegar. É esse o espírito primordial da vida. Aos 25 anos, o músico Ian Nain está quase na metade do percurso que escolheu, já colhendo frutos com os mundos que movem seu alaúde e suas flautas orientais. O grande conhecimento da cultura oriental e a habilidade que conquistou com esses instrumentos musicais, no entanto, não são reflexo do estudo formal em uma instituição de ensino ou universidade. A vida, assim como o mundo acadêmico, é cheia de provas. E, no próximo dia 24 de março, Nain se apresentará sozinho com o alaúde, tocando sua mais recente pesquisa musical: os movimentos clássicos dos compositores mais influentes da música otomana.

Jam do Roquenrol Santeiro

Alfredo dias Gomes - creditos Acervo Pessoal do artista

O estilo de vida dos dramaturgos e novelistas Dias Gomes e Janete Clair inspirou profundamente a carreira de seus três filhos. O baiano Dias Gomes é o autor de peças como “Pé de Cabra”, “Eu Acuso o Céu”, “Zeca Diabo”, “Os Cinco Fugitivos do Juízo Final” e “O Berço do Herói”. Este último trabalho foi censurado pela Ditadura em 1965, acabou sendo adaptado para tevê em “Roque Santeiro”, mais foi censurado em 1975. A obra, com personagens fantásticos como Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), só ficou conhecida do público em 1985, quando teve início o processo de redemocratização. A mineira Janete Clair foi autora, por exemplo, de “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”. Ambos criavam seus personagens em casa. Logo após o café da manhã, cada um seguia para o seu escritório. O almoço e o jantar, reunidos na mesa com os filhos, eram os momentos em que os escritores contavam o que haviam criado naquele dia, num ambiente de muita alegria. “Eu acho que peguei a influência de vê-los criando, isso era muito legal”, diz Alfredo Dias Gomes, 58 anos, que não se tornou dramaturgo, mas baterista e compositor. No fim de janeiro, o músico lançou o CD “Jam”, seu 9º álbum em 25 anos de carreira solo.

Universo alimenta samba e choro

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O desfile da escola de samba de Martinho da Vila, a Vila Isabel, levou para a Sapucaí uma perspectiva histórica do impacto das descobertas tecnológicas que revolucionaram a sociedade. O samba, variação do antigo pulsar de tambores africanos, buscou inspiração na técnica. Mas há, igualmente, o caminho inverso: o de um cientista que, apesar de estar na linha de frente dos mais avançados estudos sobre o Universo, emite em direção ao espaço as ondas sonoras do choro, do samba, da música barroca e renascentista. Carlos Alexandre Wuensche tem 55 anos, é astrofísico, e sua principal paixão é escutar o Universo. Ele estuda há anos a chamada “radiação cósmica de fundo”, emissões de rádio que viajam pelo espaço até a Terra, reflexos da grande explosão que gerou o Big Bang, a força descomunal que teria criado planetas, estrelas e os sistemas estelares até hoje conhecidos pelo homem. “A radiação cósmica de fundo é uma coisa muito absorvente, os desafios são muito grandes”, explica o cientista, que estuda o processo de expansão do Universo e a energia escura. “Se não tivesse outra coisa para mudar o foco, eu ia ficar naquilo… não acho saudável. E a música foi sempre um balanço na minha vida.”

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