Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

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Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.” Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia.

“Ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação”

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Pode parecer contraditório se pensar em esperança em tempos como agora, com a ascensão da extrema direita, que nas pesquisas eleitorais tem vantagem na disputa pela Presidência da República. E, mesmo se Fernando Haddad ganhar, terá pela frente um País fraturado, tendo que negociar com extremistas e as fake news que os alimentam. Mas o percussionista e produtor musical Kastrup mantém viva essa capacidade de sonhar, desejo esse que se transformou em som. O músico, com a participação de vários artistas, está lançando neste mês “Ponto de Mutação”, um álbum-conceito que desenha no ar uma trilha sonora da transição de uma sociedade capitalista, ancorada numa visão cartesiana de mundo, para um sistema mais igualitário, no qual atributos considerados como arquétipos femininos como intuição, solidariedade e afeto serão “mola propulsora dessa virada de era”. Para o músico, as sementes dessa nova era já estão germinando, mas não será agora que darão frutos. “… ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar”, afirma Kastrup.

Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Dani Gurgel

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro. Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Fôlego de Cachalote

Iuri Nicolsky

A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

Mais vivo a cada segundo

RUMBO TUMBA - PHWEB

A única certeza que temos na vida é a morte. Já que todos nós teremos o mesmo fim, por que não estar desperto para a vida, sentindo-se cada vez mais vivo a cada segundo? Esse sábio conselho o argentino Facundo Salgado ouvia do avô. Após muitos anos tocando punk rock e rock progressivo, Salgado conheceu a cultura andina profundamente e fez da sabedoria do avô o seu mais importante projeto musical: criou a banda Rumbo Tumba. Com ajuda de aparelhos de loop, Facundo grava camadas sobre camadas de som, tocando instrumentos de sopro andino, contrabaixo, charango e percussão, uma verdadeira orquestra de um homem só. Na sexta-feira, dia 29 de junho, lançou “Madera Sur”, seu terceiro disco autoral, um tratado poético sobre as madeiras da América Latina. O trabalho está disponível em plataformas de streaming de música e no YouTube. E mal lançou o disco, Salgado já estava na Hungria, iniciando uma série de 20 shows na Europa. Com grande carinho pelo Brasil, o músico espera fazer show por estas bandas entre outubro ou dezembro.

Nas asas de um mistério

Sidemberg Rodrigues e o Beija Flor1

Em meados da década de 1970, Sidemberg Rodrigues iniciava uma nova e fantástica relação com os pássaros. Em Muqui, a 172 quilômetros de Vitória (ES), ele contraiu uma forte alergia nos olhos, que só na década de 1980 se descobriu que era uma reação ao pólen durante a primavera. Os olhos ardiam e as pálpebras se fechavam. Com a visão debilitada, ele começou a sentir pássaros pousando em seu ombro, em suas costas e até em sua mão. O que poderia ser o desejo de muita criança, era visto como desgraça para o garoto. “Eu odiava os pássaros pousando em mim”, diz Rodrigues, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos e ex-gerente de comunicação e sustentabilidade da ArcelorMittal Tubarão.

Menos é muito mais!

Taubkin & Bahule

Não é preciso grandes formações musicais, orquestras gigantes, para se criar música de qualidade. Dois duos criados em São Paulo no ano passado, Taubkin e Bahule e Lume, estão produzindo uma música de altíssima qualidade sem perder a simplicidade do pop, capaz de se comunicar até mesmo com quem prefere única e exclusivamente música de entretenimento, que é a prioridade número um da grande mídia. O duo Lume é formado pelos multi-instrumentistas Luana Baptista, nascida no Uruguai, e o brasileiro Gui Augusto. Essa dupla lançou nesta semana o primeiro CD que leva o nome do projeto, com nove músicas autorais explorando a confluência da musicalidade do português e do espanhol. A maioria das músicas, com letras profundas vindas direto da alma, é de autoria da dupla. Mas “Sou”, com letra de Flávio Tris, tem um vídeo incrível no Youtube, com 3,6 mil acessos. Já o duo Taubkin e Bahule é formado pelo contrabaixista brasileiro João Taubkin e a multi-instrumentista moçambicana Lenna Bahule.

Sem fronteiras

Mariano Telles Créditos - Patrick Rigon

Mariano Telles tem 29 anos, mora hoje em Porto Alegre e, ano passado, lançou “Ária Metropolitana”. Neste seu primeiro CD autoral, o violonista faz uma viagem musical misturando música erudita, a música popular brasileira e a música regional do Sul, deixando escapar, sem querer, influências de dois Gonzagas: Chiquinha e Luiz. Sobrevivendo hoje como professor de violão, Telles tem a expectativa de realizar ainda mais dois shows do seu trabalho na capital gaúcha até junho. Mas vem batalhando mesmo para conseguir espaço nos Estados de Minas Gerais e São Paulo. Em oito faixas, o violonista prova que tem capacidade para conquistar um público maior, especialmente à medida em que deixa a criatividade voar mais alto que a técnica. Em quatro música, há participações especialíssimas das cantoras líricas Clarisse Diefenthäler (mezzo soprano) e Cynthia Barcelos (soprano). “Tudo que faço está bem na zona de fronteira (entre o erudito e o popular). Eu tenho interesse em estar antenado na música moderna, música erudita e pop, mas tenho lado mais tradicional. Como cresci na zona rural, eu me descobri em Porto Alegre um bicho urbano”, diz ele, que viveu até a adolescência em Taquara, região metropolitana de Porto Alegre.

Renascimento

Ulisses Rocha

A forma como reagimos às barreiras impostas pela vida faz toda a diferença. Há 20 anos, o violonista Ulisses Rocha sofre com o avanço de uma tendinite que, progressivamente, prejudica o seu desempenho técnico no instrumento. Esse foi um dos motivos que o levou a compor as músicas de “Só”, disco de 2011, um trabalho de uma espiritualidade elevada, que prescinde o virtuosismo. Após cinco anos trabalhando como professor convidado da Universidade da Flórida, Rocha está de volta ao Brasil. Deixou o ruído de São Paulo para morar junta às ondas do mar, em Ilha Bela. E acaba de lançar sua mais nova resposta às dificuldades técnicas que o corpo lhe impõe: “o quinteto”, CD no qual Rocha não está mais só (e nunca esteve). Mas, agora, tem ainda os companheiros Ivan Vilela (viola caipira), Raiff Dantas Barreto (cello), Walmir Gil (trompete e flugelhorn) e Vitor Loureiro (baixo).

Universidade da Vida

Ian Nain

O caminho que se trilha é mais importante do que o lugar onde se quer chegar. É esse o espírito primordial da vida. Aos 25 anos, o músico Ian Nain está quase na metade do percurso que escolheu, já colhendo frutos com os mundos que movem seu alaúde e suas flautas orientais. O grande conhecimento da cultura oriental e a habilidade que conquistou com esses instrumentos musicais, no entanto, não são reflexo do estudo formal em uma instituição de ensino ou universidade. A vida, assim como o mundo acadêmico, é cheia de provas. E, no próximo dia 24 de março, Nain se apresentará sozinho com o alaúde, tocando sua mais recente pesquisa musical: os movimentos clássicos dos compositores mais influentes da música otomana.

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