Jam do Roquenrol Santeiro

Alfredo dias Gomes - creditos Acervo Pessoal do artista

O estilo de vida dos dramaturgos e novelistas Dias Gomes e Janete Clair inspirou profundamente a carreira de seus três filhos. O baiano Dias Gomes é o autor de peças como “Pé de Cabra”, “Eu Acuso o Céu”, “Zeca Diabo”, “Os Cinco Fugitivos do Juízo Final” e “O Berço do Herói”. Este último trabalho foi censurado pela Ditadura em 1965, acabou sendo adaptado para tevê em “Roque Santeiro”, mais foi censurado em 1975. A obra, com personagens fantásticos como Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), só ficou conhecida do público em 1985, quando teve início o processo de redemocratização. A mineira Janete Clair foi autora, por exemplo, de “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”. Ambos criavam seus personagens em casa. Logo após o café da manhã, cada um seguia para o seu escritório. O almoço e o jantar, reunidos na mesa com os filhos, eram os momentos em que os escritores contavam o que haviam criado naquele dia, num ambiente de muita alegria. “Eu acho que peguei a influência de vê-los criando, isso era muito legal”, diz Alfredo Dias Gomes, 58 anos, que não se tornou dramaturgo, mas baterista e compositor. No fim de janeiro, o músico lançou o CD “Jam”, seu 9º álbum em 25 anos de carreira solo.

Universo alimenta samba e choro

lua_cheia3

O desfile da escola de samba de Martinho da Vila, a Vila Isabel, levou para a Sapucaí uma perspectiva histórica do impacto das descobertas tecnológicas que revolucionaram a sociedade. O samba, variação do antigo pulsar de tambores africanos, buscou inspiração na técnica. Mas há, igualmente, o caminho inverso: o de um cientista que, apesar de estar na linha de frente dos mais avançados estudos sobre o Universo, emite em direção ao espaço as ondas sonoras do choro, do samba, da música barroca e renascentista. Carlos Alexandre Wuensche tem 55 anos, é astrofísico, e sua principal paixão é escutar o Universo. Ele estuda há anos a chamada “radiação cósmica de fundo”, emissões de rádio que viajam pelo espaço até a Terra, reflexos da grande explosão que gerou o Big Bang, a força descomunal que teria criado planetas, estrelas e os sistemas estelares até hoje conhecidos pelo homem. “A radiação cósmica de fundo é uma coisa muito absorvente, os desafios são muito grandes”, explica o cientista, que estuda o processo de expansão do Universo e a energia escura. “Se não tivesse outra coisa para mudar o foco, eu ia ficar naquilo… não acho saudável. E a música foi sempre um balanço na minha vida.”

A vitória da fusão

Jazz Tango Grammy

Os jazzistas jovens devem experimentar mais dentro do jazz, buscando sua fusão com outros gêneros, para conseguir rejuvenescer a audiência. Essa é a opinião do pianista argentino Pablo Ziegler, que na semana passada conquistou o Grammy 2018 de Melhor Álbum de Jazz Latino com “Jazz Tango”, um trabalho belíssimo que deixa sua marca na história da música ao expandir a tradição da música argentina para as fronteiras elásticas do jazz. “Essa é a única forma de descobrir sua própria voz. Não importa de onde vem a inspiração. Pode ser Jazz Tango, Jazz Folclore, Jazz Malambo, Jazz Candombe, etc. A chave é ser verdadeiro com você mesmo dentro da música”, diz o instrumentista e compositor, em entrevista por e-mail ao entresons.

Irresistivelmente “maluca”

Léa Freire Credito Roger Marzochi1

Uma casa simples, numa rua calma. Uma raridade na cidade de São Paulo. No portão, dois avisos: uma placa com a imagem de um cão feroz, para afastar curiosos; ao lado, o desenho de uma mulher com olhos esbugalhados, riscado em um papel envolto em plástico, no qual se pode ler: “Cuidado, Velha Maluca!” Confirmado o número da casa, não há dúvida que, ao apertar a campainha, finalmente encontraria com a multi-instrumentista Léa Freire, que completa 45 anos de carreira. O surto de febre amarela prejudicou o início da gravação de um novo disco com o pianista Amilton Godoy na semana passada, mas os planos da compositora são firmes em apresentar ao público em 2018 cinco CDs, com trabalhos autorais, novos arranjos para expoentes da música popular brasileira e obras de artistas que sobrevoam nas asas da Maritaca, selo da artista que tem nos olhos o brilho da juventude. E, ainda, arranjos de música própria para orquestra, algo que ousou fazer com sucesso em “Cartas Brasileiras” (2007), trabalho no qual faz homenagem ao seu bairro, “Vila Ipojuca”. Na sexta-feira, 2 de fevereiro, Amilton e Léa lançam “A Mil Tons”, no Sesc Pompeia, em São Paulo, com composições do instrumentista que integrou o Zimbo Trio.

Um brasileiro na banda de Garbarek

Yuri Daniel1

Reconhecido como um dos maiores saxofonistas do mundo, uma verdadeira lenda viva do jazz, o norueguês Jan Garbarek tem em sua banda atual a companhia de um brasileiro. Nascido em Recife e criado em Curitiba, o contrabaixista Yuri Daniel toca há dez anos com Garbarek. “Sou um grande fã dele”, diz Daniel, em entrevista por e-mail ao entresons. Garbarek está presente em mais de 70 discos da cultuada gravadora alemã ECM, que no ano passado abriu o seu catálogo para os aplicativos de streaming de música. O músico, que ganhou fama internacional na década de 1970 ao integrar o quarteto do pianista americano Keith Jarret, gravou discos históricos na companhia do brasileiro Egberto Gismonti e do contrabaixista Charlie Haden, como “Carta de Amor”, “Folk Songs” e “Mágico”.

Uma meditação latino-americana

Luis Leite PB

Por mais revoltante e injusto que o mundo nos pareça, só com amor é possível mudar a nossa perspectiva para uma sociedade mais justa. “Vento Sul”, o terceiro CD autoral do violonista carioca Luis Leite, dá grande colaboração nesse sentido ao fazer um convite a um tipo de introspecção que não tem nada de passivo. Lançado no final de 2017, o trabalho pode ser considerado um mergulho na essência da América Latina, de suas veias até hoje abertas, e um forte estímulo para a meditação sobre quem somos, o que queremos e para onde vamos. O disco físico pode ser adquirido pelo site do artista (R$ 30) ou por download no mesmo endereço eletrônico (R$ 15). O violinista não disponibilizou o CD em plataformas de streaming por questões estéticas e econômicas.

Ventos do Oriente

Tarabando Zikir Trio

O Bando de Seu Pereira divulga o vídeo da música “Tarabando”.

O interior da boa música

JAZZ-roger

2017 termina com dois eventos muito importantes para a cultura brasileira. Começa hoje (4/12), em São Carlos, a 14ª edição do Chorando Sem Parar. Até domingo (10/12), o evento celebra a obra de Aníbal Augusto Sardinha (1915 – 1955), mais conhecido como Garoto, “o gênio das cordas”. E na quarta-feira (6/12) tem início o Festival Serrinha Instrumental, na zona rural de Bragança Paulista, com extraordinários músicos brasileiros que se apresentam, até domingo, em uma antiga fazenda que produzia café e virou um museu à céu aberto. Esses dois festivais comprovam que o interior de São Paulo não tem apenas festa de peão boiadeiro, sertanejo, gospel e brega music. É preciso respeitar o gosto de cada cidadão, respeitar o direito à fé e à catarse. Mas são gêneros já sustentados por uma rica indústria, com domínio de grande parte dos meios de comunicação tanto da antiga quanto da nova era.

O jazz terá a sua vez

Bruno Vieira2 CEO Deezer Brasil Crédito da Foto Roger Marzochi

Apesar de a Deezer Brasil estar apostando todas as suas fichas na música gospel no País, o jazz terá um pouco mais de espaço na plataforma de streaming de música em 2018. Bruno Vieira, CEO da Deezer Brasil, disse na última terça-feira (28/11), em coletiva de imprensa em um dos ícones do gênero no País, o Jazz nos Fundos, que artistas da música instrumental brasileira poderão ser chamados para o estúdio que a companhia inaugurou em sua sede, em Pinheiros, em agosto deste ano. “Claro! Total! 2018 dirá”, disse o executivo, ao ser questionado pelo entresons. A empresa francesa de streaming de música, presente em 180 países, é a terceira maior do mundo e ocupa o segundo lugar no Brasil, atrás do Spotify. “Temos um consumo grande de jazz (na plataforma). Temos rádios especializadas de jazz, temos um editor de jazz e está crescendo conteúdo para cada gênero. Por mais que a gente esteja falando de sertanejo e gospel, sob o ponto de vista de massa, isso não tira o nosso foco e interesse em trabalhar cada nicho.”

Forró Pé de Terra

Bando do Seu Pereira Didier Lavialle

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira já denunciavam em “Asa Branca” o impacto da seca no sertão. Hoje, a sua poesia da tristeza de ver o gado morrendo por falta de água, o chão ardendo qual fogueira de São João, deixa de ser uma constatação do homem frente à força da natureza. Conscientes de que o ser humano tem capacidade de influir no meio ambiente, tanto para o bem quanto para o mal, um grupo de músicos e pesquisadores formou em 2015 o Bando do Seu Pereira, que apresenta nesta segunda-feira (27/11) o seu primeiro single no SoundCloud: “Tarabando”. A partir do poder de comunicação e poesia proporcionados pelo forró, o grupo se inspira em causas ambientais, como crise hídrica, consciência ambiental, imigração e dilemas da especulação imobiliária em suas canções, de tal forma que pode se dizer que foi criado um novo estilo do gênero no País: o Forró pé de Terra, uma homenagem de ativismo ambiental ao querido e tradicional Forró Pé de Serra.

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal