Bruna Moraes despe a humanidade em “Nua”

Bruna Moraes1

É impossível sair ileso após ouvir “Nua”, o segundo CD da violonista, compositora e cantora paulistana Bruna Moraes, lançado em abril de 2019 nas plataformas digitais. A densidade de sua voz, a gravidade de suas palavras, desencobrem a grossa camada de resistência à alteridade, poeira que a contemporaneidade tem depositado nos relacionamentos nas mais diversas camadas. A capa, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva. E Bruna Moraes revela em suas canções o amor que mora na essência do ser humano, num mergulho perpendicular, o mesmo no qual o poeta Manuel Bandeira se jogou em “Nu”: para dentro do olhar líquido da amada, com o seu corpo reluzente como estrela, no qual “baixo até o mais fundo de teu ser, lá onde me sorri tu’alma, nua, nua, nua…” Com 24 anos de idade, Bruna Moraes comprova nesse novo disco que entrou definitivamente para a história da Música Popular Brasileira (MPB). O trabalho conta com a participação dos violonistas Romero Lubambo e André Fernandes. Cinco anos após o seu primeiro disco “Olho de Dentro”, ela retorna ousada, no estilo voz e violão, desafiando a indústria do entretenimento, pois seu show deixa marcas profundas.

Fora da prateleira

Tchella

Há nove anos, uma cantora independente chamada Glaucia Nasser me disse uma coisa muito importante. Ela explicou que, apesar de ser independente de gravadoras, ela era “dependente” de muita gente: todos os ídolos da música e da arte; sua família, amigos e músicos; e, principalmente, seu público. A multi-talentosa e multi-instrumentista Marcela Brito tem essa mesma visão. Apresentando-se como Tchella, nome artístico que ganhou de seu pai quando se formou em artes cênicas, ela gravou em 2018 o disco “Transmutante”. Em julho, o trabalho completa um ano e será comemorado no dia 13, um sábado, com show acústico com o compositor e multi-instrumentista Antonio Dantas. O evento será gravado, eternizado em DVD, que será batizado de “Acústico Transmutante Ao Vivo”. “Eu preciso de vocês nesse DVD, a participação do público é muito importante, preciso muito que vocês estejam aqui”, diz Tchella em vídeo divulgado nas redes sociais, conclamando seu público, que já a apoiara há 12 meses numa campanha de financiamento coletivo que possibilitou o lançamento do trabalho. “Fizemos esse show no Rio, em maio. E gostei tanto do resultado versão voz e violão e vou trazer esse show para comemorar em São Paulo”, explica a artista em entrevista ao entresons.com.br.

Perspectivas da solidão

Rodrigo Bragança Crédito de Tárita de Souza

Você já se deparou com uma obra de arte da qual não gostou? É uma pergunta salutar num momento em que surgem movimentos querendo a censura de exposições de arte no Brasil. Pois eu me vejo em situações parecidas, sem, no entanto, querer calar qualquer expressão artística. No mês passado, recebi pelo Correio “Solo para um homem só”, CD do guitarrista, compositor e poeta Rodrigo Bragança. Senti um grande incômodo, minha primeira reação foi a de não gostar do trabalho, no qual o artista expressa uma das doenças que mais assolam a humanidade: a solidão, que é, muitas vezes, a porta de entrada da depressão. Explorando timbres de sua guitarra e usando sintetizadores, Bragança declama alguns de seus poemas, contidos no livro que leva o mesmo título do CD, e que deu origem ao seu som sombrio. O trabalho também está disponível no Deezer, aplicativo de streaming de música.

De sofás e garrafas jogadas ao mar

Rafael - original

“Por esses dias o grande medo daquele que faz o livro é o de não saber ao certo se está incorrendo de jogar mais um sofá ao rio.” Esse era o receio de Rafael Gombez sobre o destino de seu livro de poesias “Aonde o corpo se põe”, que ele terminara de escrever cerca de um ano antes de sua morte, em 2009, aos 25 anos. Portador de uma doença incurável, a fibrose cística, a metáfora de mais um produto da sociedade industrial boiando como lixo, na ferida líquida da cidade, possa talvez revelar a cegueira coletiva em que vivemos. Há quem, no entanto, veja em seu livro uma mensagem de um tesouro em uma garrafa jogada ao mar. E que hoje, dia 16 de julho de 2016, data em que o poeta completaria 33 anos, chega até a praia. São mais de 10,3 mil palavras, publicadas agora pela editora Patuá, após o empenho de Bia Lopes e Marcia Matos, amigas do poeta.

Escafandrista urbano

Escafandrista flauta

O mar inspirou diversos artistas, de Dorival Caymmi a Arnaldo Antunes, desde os desafios que impõe ao homem, suas culturas e crenças. E, em suas profundezas, o oceano continua alimentando toda uma geração de artistas. Não é à toa que Caio Cesar Mateus Ferreira ganhou o apelido de “Timoneiro” e hoje, aos 19 anos, desenha pelas paredes das ruas de São Paulo figuras de escafandristas que dançam, tocam e amam com a mesma plasticidade fluída da água. E além de artista plástico, Timoneiro também é poeta e compositor. Na noite do dia 22 de abril, o rapaz que nasceu em Limoeiro, Pernambuco, estava andando pela Avenida Paulista com seu ukelele e cantou duas composições suas, em companhia de um amigo que acabara de conhecer. Assim como em seus poemas e grafites, o jeito como canta suas letras e a sua voz, entrecortada pelos sons de carros e buzinas da cidade, é um tibum no oceano urbano.

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